Em 27/05/2026 o Poderoso Irmão Flávio Augusto
Batistela, Loja Solidariedade e Firmeza, 3052, REAA, Secretário Geral Ajunto de
Comunicação, GOB-SP, Oriente de Dracena, Estado de São Paulo, faz a seguinte
solicitação:
QUESTIONÁRIO/TELHAMENTO
Estou montando um instrucional para meus Aprendizes
e gostaria de mais detalhes sobre as frases do diálogo no telhamento. De onde
vem ou por quais motivos temos esse diálogo (De onde vindes meu irmão...). Isso
faz parte de algum diálogo da época operativa da maçonaria?
CONSIDERAÇÕES
Esse é um tema de abordagem ampla na
história da Maçonaria, não sendo tão simples assim a ele se reportar.
De modo abrangente, para definir
origens de frases utilizadas nos exames (catecismos) feitos aos Maçons
desconhecidos é necessária uma busca minuciosa pelas regiões setentrionais da
Europa, onde floresceu a Franco-maçonaria. Observar seus costumes, religião,
cultura, etc., é algo imperioso.
Muitos manuscritos primitivos, a exemplo do Ms. Dumfries,
nº 4, datado de aproximadamente 1710, do Ms. Trinity College de Dublin,
datado de 1711, já traziam indagações sobre de “onde vinha” o maçom
visitante. Vale
ressaltar que no período operativo da Maçonaria, os maçons
construtores viajavam, a serviço do clero, de uma para outra guilda enquanto edificavam
catedrais, igrejas e abadias, principalmente.
Em
linhas gerais, a busca para se reconhecer um verdadeiro maçom sempre esteve
ligada ao segredo do ofício, Nesse período, os artífices da pedra calcárea,
protegidos pela Igreja/Estado, eram livres para se locomover e podiam viajar
pelos rincões da Europa medieval em busca de trabalho, ou mesmo de aprimoramento
profissional para conseguir a “carta de ofício”.
O
contrato de trabalho e a carta ofício eram enormemente protegidos e tratados
como segredo profissional. Essa é a razão pela qual ainda hoje se diz que na
Maçonaria os verdadeiros segredos estão nos ss∴, ttoq∴ e ppal∴.
Nessa
condição, os pedreiros, para serem reconhecidos como profissionais autênticos, se
utilizavam de ssin∴,
ttoq∴, ppal∴ e se sujeitavam às
sabatinas hauridas dos catecismos.
Na realidade,
esse era um método mais prático de se reconhecer um Irmão verdadeiro, ao invés
de se exigir dele horas de trabalho burilando um bloco de pedra para comprovar
a sua habilidade.
Naturalmente,
essa é uma abordagem superficial sobre esse tema, sobretudo se levando em conta
que pelo Norte da Europa medieval muitas das Guildas de pedreiros também enriqueciam o processo de verificação criando, às vezes, mais elementos de
reconhecimento para aumentar segurança.
Este
é um detalhe muito importante para o estudo, mormente porque na conjuntura da
história da Moderna Maçonaria nem todos os elementos litúrgicos e ritualísticos
são universalmente iguais.
Dito
isto, o “Questionário de Reconhecimento” que conhecemos, mencionado na sua
pergunta, por exemplo, não é um procedimento universal, ou seja, igual em todos
os países, lojas e ritos. Isso torna o assunto bem mais complexo.
Primeiro,
porque essa é uma das formas especulativas da Maçonaria francesa (latina) de
examinar a regularidade de um maçom. Esse tipo francês de telhamento, que se
refere às Lojas de São João, surgiu graças à reforma proferida pelo Grande
Oriente da França para combater a verdadeira balbúrdia em que a Ordem maçônica
havia se metido na França, nos idos séculos XVIII e parte do XIX. O
desentendimento foi tão grande ao ponto de a Maçonaria ter ficado fechada pela
polícia por cinco anos (vide a história da Maçonaria Francesa).
Essa
grave situação se dava no momento em que na França, desmedidamente, eram criadas
Lojas e Graus com paramentos vistosos comercializados por um alto preço. Essa
foi a época em que a Maçonaria era dirigida por “prepostos” do Grão-Mestre, fazendo
com que cada qual fizesse a sua Maçonaria. Eram desmedidamente criados altos
graus e muitos Veneráveis criavam suas Lojas que eram por eles dirigidas ad
aeternum – “Veneráveis vitalícios”.
Para
pôr fim a essas irregularidades, o Grande Oriente da França estabeleceu uma
enérgica reforma, separando o que era regular do que era irregular. À vista
disso é que em 1777, em Paris, era criada a Palavra Semestral como penhor de
regularidade. Provavelmente é dessa época que também se estabeleceu um telhamento
caracterizado por perguntas e respostas objetivando reforçar a segurança contra
o ingresso nas Lojas de maçons irregulares.
Não
resta dúvida que essa foi uma fase tempestuosa da Maçonaria na França no período
pós Revolução Francesa. Pelos ânimos exaltados, inerentes da situação política
e social, não raras vezes ocorriam escaramuças entre os maçons franceses. Tudo
isso veio reforçar a grande depuração feita no seio das Lojas francesas pelo
Grande Oriente da França.
Sob
essa óptica, em uma análise mais crítica, o questionário das “Lojas de São João”,
mais comuns à Maçonaria Francesa, não tem uma relação direta com atividades do
período operativo da Ordem, senão às necessidades hauridas de uma época em que
existiram graves conflitos dentro da Maçonaria na França.
A
título de ilustração, o termo “Lojas de São João” era no nome dado às Lojas
simbólicas na França até o século XVIII. A expressão “simbolismo” somente apareceria
em 1804, oportunidade em que era preparado em Paris, dentro do Grande Oriente
da França, o 1º Ritual para o Franco-maçônico básico do REAA.
Ao finalizar, vale a pena ressaltar que antes de tudo, na França, as
Lojas de Aprendiz, Companheiro e Mestre eram conhecidas apenas como “Lojas de
São João”. Nos Estados Unidos eram, como ainda é hoje, as “Blue Lodges” e na Inglaterra,
o CRAFT. Pós 1804 a palavra “simbolismo” se consagra na Maçonaria de vertente
latina.
T.F.A.
PEDRO JUK - SGOR/GOB
jukirm@hotmail.com
http://pedro-juk.blogspot.com.br
AGO/2026