domingo, 11 de outubro de 2020

VISITANTE DE OUTRO RITO

 

Em 22/05/2020 o Respeitável Irmão José Antônio Wengerkiewicz, Loja União 3ª Luz e Trabalho, 664, REAA, GOB-SC, Oriente de União da Vitória, Estado de Santa Catarina, solicita esclarecimentos para o que segue:

 

VISITANTE – SINAL DE OUTRO RITO.

 

Solicito que me auxilie na seguinte questão/dúvida. Ao visitarmos Loja de outro Rito, devemos fazer os sinais da Loja visitada ou do nosso Rito, mormente quando se é Aprendiz


. Nesses 31 anos de iniciação, talvez por ignorância de minha parte, não achei norma sobre tal procedimento.

Agradeço a atenção.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

Conforme nomeia o Art. 217 do Regulamento Geral da Federação, o maçom regular tem o direito de ser admitido nas sessões que permitem visitantes até o grau simbólico que ele possuir.

Destaca ainda esse mesmo Art. no seu parágrafo único: “O visitante está sujeito à disciplina interna da Loja que o admite em seus trabalhos e é recebido no momento determinado pelo Ritual respectivo.

Desse modo, sob o ponto de vista do Diploma Legal mencionado, o visitante deve se sujeitar às normas da Loja visitada, pois é o que exprime a expressão: “estar sujeito à disciplina...”.

A bem da verdade, a palavra “disciplina” faz referência nesse contexto à resolução que convém ao funcionamento regular da Loja, sempre observados seus preceitos e normas, isto é, o de se submeter ao regulamento.

Em se tratando de Irmãos visitantes, há que antes se lançar mão do bom senso, ou seja, estar informado do Rito que a Loja a ser visitada pratica. Assim, se o visitante não conhecer o Rito praticado, pelo menos procurar antes informações a respeito e até mesmo aprender.

Desse modo, recomenda-se que o visitante evite situações de última hora, chegando com antecedência, de tal maneira a antes aprender as regras ritualísticas da Loja visitada. Esses detalhes são importantes e previnem futuras situações embaraçosas.

Existe um aspecto importante na ritualística, a qual é seguir a proposta doutrinária dos trabalhos (forma de se trabalhar do Rito). Com isso, uma sessão aberta em um determinado Rito deve produzir uma liturgia conforme o seu ritual.

Partindo dessa premissa é que todos os presentes na sessão de uma Loja aberta, inclusive visitantes, devem trabalhar conforme a liturgia do Rito praticado pela Loja anfitriã.

Por óbvio que isso não poderia ser o contrário e é por isso que o visitante se sujeita às regras da Loja que o admite – entre essas regras está o de seguir o Rito que ela adota.

Assim, em tudo deve imperar o bom senso, tanto por conta do visitante como por conta do visitado. O visitante se sujeitando às regras do anfitrião, e o visitado se dispondo, com afinco e gentileza, explicar os procedimentos conformes e necessários.

Encerrando esses comentos, nunca é demais lembrar que “bom senso” é uma qualidade que reúne noções de razão e sabedoria, pautando as ações conforme as regras e costumes apropriados para um determinado contexto.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

http://pedro-juk.blogspot.com.br

jukirm@hotmail.com

 

 

OUT/2020

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

ZODÍACO NO REAA - ENTENDA A RAZÃO DAS COLUNAS ZODIACAIS NO TEMPLO

 

Em 19/05/2020 o Respeitável Irmão Fernando Alves Queiroz, Loja Cláudio das Neves, REAA, GOB/MG, Oriente de Uberlândia, Estado de Minas Gerais, apresenta a seguinte pergunta:

 

ZODÍACO NO REAA

 

Gostaria de receber material sobre Colunas Zodiacais, assim como comentários sobre o tema, tenho o propósito de fazer um trabalho para apresentação em Loja e gostaria de agregar mais conhecimentos.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

O Zodíaco apareceu nos rituais do REAA como herança da Lojas Mães Escocesas. Dentre outros, essas Lojas organizavam na França os trabalhos concernentes ao simbolismo do Rito. Destaque-se que é dessa época, mais precisamente no ano de 1804 na França, o aparecimento do primeiro ritual do REAA e que seria publicado oficialmente
em 1821 (estima-se) no “Guide des Maçons Écossais”. É bom que se diga que nesta época o simbolismo do REAA enfrentava nos seus primórdios de existência a sua consolidação e aperfeiçoamento.

Até 1815 existiu dentro do Grande Oriente da França, junto com o Segundo Supre Conselho, uma Loja Geral Escocesa com o fito de organizar o simbolismo. Essa Loja Geral viria se extinguir por volta de 1815.

Muitos símbolos e costumes pertinentes às primeiras lojas simbólicas do REAA são frutos hauridos das Lojas Mães Escocesas (Marselha, Paris e Avinhão, por exemplo).

Em linhas gerais, as quatro principais contribuições das Lojas Mães para com o aprimoramento do ritual simbólico do escocesismo nos seus primeiros anos de existência foram: primeiro, a disposição das Colunas Vestibulares B e J tal como a usada pela Maçonaria anglo-saxônica (B à esquerda e J à direita de quem entra); segundo, a aclamação Huzzé; terceiro as constelações do zodíaco[1] fixadas na base da abóbada; quarto, a consolidação da cor vermelha para o Rito.

Outras fontes principais que influenciaram esse primeiro ritual, além daqueles hauridos das Lojas Mães, foram o “Régulateur du Maçom” e os rituais ingleses da Grande Loja dos Antigos (divulgados pela exposição “The Three Distinct Knocks”, de 1760).

Em relação às colunas zodiacais e as constelações do zodíaco dispostas tais como se apresentam hoje, o que se pode dizer é que as doze colunas primitivamente não eram utilizadas, aparecendo nos primeiros tempos apenas as constelações zodiacais, ou os símbolos correspondentes ao zodíaco, cujos quais iam fixados ao alto na base da abóbada - seis no setentrião e seis no meridião. Destaque-se que essa decoração, apenas com constelações (ou os símbolos do zodíaco) ainda é empregada no lugar das colunas zodiacais em muitos templos do REAA atualmente.

Assim, as colunas zodiacais foram utilizadas para marcar a posição das constelações zodiacais, já que muitas abóbadas não seguiam essa decoração, isto é, omitiam nela o zodíaco. Provavelmente foi dado a isso que se passou a utilizar meias-colunas verticais - como que encravadas nas paredes - para projetar as constelações ausentes na base da abóbada (marcavam essa existência)

Deste modo, as colunas zodiacais, então colocadas para suprir a falta das constelações, acabariam se tornando elementos obrigatórios segundo muitos rituais do simbolismo do REAA.

Com as suas presenças como símbolos do zodíaco, as colunas então trazem nos seus capiteis, ao invés da constelação fixada na abóbada, pantáculos (símbolos que possuem significado de natureza esotérica) relativos à cada um dos signos do zodíaco

Atinente ao porquê do simbolismo iniciático dessas colunas no REAA, elas correspondem a faixa no mapa celeste que as doze constelações ocupam. Desta forma, o zodíaco, em Maçonaria, nada tem a ver com prognósticos acerca de uma pessoa em relação aos astros no dia do seu nascimento.

No REAA o zodíaco é utilizado apenas como alegoria iniciática. Nesse sentido, os alinhamentos correspondentes à Terra, o Sol e as respectivas constelações zodiacais,

agrupados sequencialmente de três em três, representam a primavera, o verão, o outono e o inverno – nascimento, vida e morte na Natureza adequada ao hemisfério Norte do nosso Planeta.

Sob a óptica iniciática maçônica, esses ciclos são representados no templo pelas colunas zodiacais a partir de 21 de março (constelação de Áries) que é o início da primavera no Norte. Dessa forma, a vida simbólica do Iniciado acompanha a sequência desses ciclos naturais (primavera, verão, outono e inverno).

Emblematicamente se relacionando às etapas da existência humana - a infância, a adolescência, a juventude e a maturidade - essas fases se comparam à primavera, ao verão, ao outono e ao inverno, respectivamente.

Com isso, a jornada iniciática dos três graus universais da Maçonaria seguem as estações representadas pelas colunas zodiacais a partir de Áries (primavera no Norte). É sob esse formato que as colunas vão dispostas, seis ao Norte e seis ao Sul. Divididas em quatro grupos de três, elas marcam os ciclos naturais e indicam o caminho que o Iniciado deve seguir, rompendo o seu percurso ao nascer na primavera para simbolicamente fenecer no inverno e, em seguida, tal como a Natureza revivida, reviver na Luz.

O Iniciado, ao percorrer a senda demarcada pelas colunas zodiacais simula seu aprimoramento como Aprendiz (infância-adolescência) nas seis primeiras colunas, de Áries até Virgem (Norte); o Companheiro (juventude) em Libra ao Sul e o Mestre prossegue nas colunas restantes em direção ao solstício de inverno quando a Natureza se prepara para ficar viúva do Sol (vide cultos solares da Antiguidade).

Assim, esse foi um breve relato sobre o significado da presença das colunas zodiacais nos templos do REAA. Evidentemente que esse é um percurso simbólico, contudo de conteúdo altamente significativo no que concerne à transformação e o aprimoramento – uma das doutrinas do Rito.

Por fim, toda essa proposição simbólica demonstrada busca explicar a importância emblemática dos solstícios e equinócios na liturgia maçônica. Não à toa que Câncer aparece no templo sempre ao Norte e Capricórnio ao Sul. Não menos importante ainda é lembrar que os solstícios de verão e de inverno ao Norte (onde nasceu a Maçonaria), correspondem respectivamente às datas comemorativas de João, o Batista e João, o Evangelista (as Lojas de São João). Ainda nesse contexto é bom lembrar que as Colunas B e J, também conhecidas como “pilares solsticiais”, marcam a passagem dos trópicos de Câncer e Capricórnio no templo – o Sol não ultrapassa os Trópicos e o Iniciado percorre os “ciclos”. O resto é estudar e compreender, destacando que o conhecimento esotérico é reservado apenas aos Iniciados. Eis aí os subsídios.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogspot.com,br

 

 

OUT/2020



[1] Zodíaco (astronomia) zona circular na esfera celeste, que se estende a cerca de 8° em cada lado da eclíptica e forma a faixa sobre a qual se movem o Sol, a Lua e os planetas em órbita.

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

INEXISTÊNCIA DE DEGRAUS NA LOJA DO RITO SCHRÖDER

 

Em 27/04/2020 o Respeitável Irmão David Lorenzo Sotolepe, Loja Unidade, Justiça e Trabalho, 274, GLMRGS, Rito Schröder, sem mencionar o Oriente, Estado do Rio Grande do Sul, solicita esclarecimentos para o que segue:

 

DEGRAUS NA LOJA

 

Lendo seu blog, referente aos degraus, pergunto: Por que o Rito Schröder não tem degraus no Templo?



 

CONSIDERAÇÕES.

 

Não há degraus porque essa é uma característica desse Rito.

Amparado pela simplicidade, não por isso, o Rito Schröder traz profundas lições de humanismo na sua estrutura doutrinária.

Numa síntese da sua história, os seus rituais são oriundos de uma Assembleia que se deu no ano de 1801, constituída por Lojas que compunham a Grande Loja Provincial de Hamburgo. Não obstante a sua ligação com a Primeira Grande Loja de Londres (Modernos de 1717), seus rituais ganharam espaço na Europa, principalmente nas Lojas de língua germânica.

Assim, esses rituais, dos três graus básicos universais (Aprendiz, Companheiro e Mestre), incluindo também a Loja de Mesa e a de Funeral, foram organizados por uma Comissão, cuja direção coube ao Irmão Friedrich Ludwig Schröder, ex-Venerável Mestre da Loja Emanuel Zur Maienblume (Emanuel à Flor de Maio) e Ex-Grão-Mestre Adjunto da Grande Loja de Hamburgo.

Sendo um maçom de grande prestígio e reconhecidamente um grande conhecedor da história que envolvia antigos rituais da Maçonaria, Schröder estudou a exposure relativa aos autodenominados Antigos de Lawrence Dermott, editada em 1760 com

o título de “As Três Pancadas Distintas”. Do mesmo modo assim o fez com A Maçonaria Dissecada, exposure publicada em 1730 escrita por Samuel Prichard. Também perscrutou um Ritual de autoria do maçom Von Grafe. Essas duas últimas referências eram relativas aos costumes do Modernos de 1717 que pertenciam à Primeira Grande Loja em Londres. É provável também que Schröder tenha investigado a revelação (exposure) concernente aos Modernos da Primeira Grande Loja denominada Jakin & Boaz.

Nos seus estudos ele examinou também os graus conhecidos como “graus superiores” que se proliferaram pela Europa, esses provenientes dos Altos Graus do escocesismo instalados na França, principalmente.

Ainda, como nos ensina o saudoso Irmão Rui Jung Neto, Schröder, que emprestaria seu nome ao Rito, por conta das suas pesquisas, concluiu por abolir dos seus rituais todos os “altos graus”.

Do mesmo modo, erradicou as práticas que se relacionavam com ocultismo e também aquelas revestidas de acentuado misticismo, aspectos que infelizmente povoavam a Maçonaria alemã da época – vide, como exemplos, o Rito da Estrita Observância e a história de Cagliostro (cognome de José Bálsamo), famoso ocultista, charlatão e romântico agitador que deslumbrava a Europa na segunda metade do século XVIII (citação de José Castellani in Liturgia e Ritualística de Aprendiz – em todos os Ritos, página 20)

Com isso, Schröder fez uso - em grande parte - do ritual pertinente à Primeira Grande Loja em Londres (Modernos Ingleses de 1717), fazendo nele adaptações para o idioma germânico, incluindo também aspectos da alta cultura, particularidade bastante acentuada na sua época.

Com isso Friedrich Ludwig Schröder apresentou uma Maçonaria imbuída de união de virtudes e não propriamente uma ordem de aparência esotérica. Destacou o espírito


humanista e preservou, sobretudo, os símbolos dentro de uma razão e lógica de que a verdadeira Maçonaria é aquela pertinente aos três primeiros graus simbólicos e praticados nas Lojas de São João. Há que se destacar também que o Rito Schröder é fruto do Século das Luzes, o que lhe dá sobremaneira uma visão humanística e um viés de racionalidade.

Como dito, sua estrutura simbólica fora montada apenas sobre os elementos primordiais para o alcance do objetivo almejado. É especialmente por isso que o Rito Schröder condensa todos os seus elementos simbólicos num tapete que traz sua estrutura iniciática completa. Esse tapete é estendido ao centro do espaço quando a Loja estiver aberta.

Assim, com sua base ritualística estruturada no ritual dos Modernos londrinos de 1717, o Ritual Schröder traz aspectos reformistas sem perder, contudo, as tradições, usos e costumes pertinentes à Sublime Ordem.

Em linhas gerais, atualmente no Brasil as Lojas do Rito Schröder se baseiam nos rituais que foram traduzidos dos originais e revisados pela Loja Absalom Das Três Urtigas, nº 01, em 1960. Essa Loja, Absalom das Três Urtigas, segundo historiadores, teve a sua certidão de nascimento no ano de 1737, portanto, sob essa óptica, é uma das mais antigas em atividade, estando jurisdicionada à Grande Loja dos Maçons Antigos, Livre e Aceitos da Alemanha.

No tocante a sua questão propriamente dita, a inexistência de degraus na topografia da Loja se dá exatamente em cumprimento a uma das características dos trabalhos da Maçonaria anglo-saxônica, cujos quais não adotam separação do Oriente (por degraus e balaustrada) e nem elevam os espaços destinados às Luzes da Loja (Venerável e Vigilantes). Há que se compreender que os Rituais Schröder foram estruturados, como já aqui mencionado, em grande parte nos trabalhos dos Modernos de 1717 que é de vertente anglo-saxônica.

Comentários à parte, vale a pena mencionar também que primitivamente o próprio REAA (rito de origem francesa), no seu primeiro ritual, datado de 1804 e publicado em 1821 no Guia dos Maçons Escoceses na França, também não adotava nenhum degrau no seu espaço de trabalho. Destaque-se que isso só veio acontecer no REAA pelo advento das hoje já extintas Lojas Capitulares (vide essa história – França século XIX). Abolidas essas Lojas, inexplicavelmente o oriente elevado e a balaustrada acabaram permanecendo no simbolismo do Rito. Outros conceitos doutrinários a partir de então passariam a compor a sua liturgia, fazendo com que o escocesismo adotasse o número de sete degraus nos seus templos como segue: um degrau para o Oriente, três para o sólio, dois para o lugar do 1º Vigilante e um para o 2º Vigilante, totalizando assim sete degraus. O número 7 no escocesismo assumiu alto significado se reportando à Criação e o seu dia, o “shabat” (influência hebraica). Além desse significado, o nº 7 tem relação com a idade simbólica de um grau e com as Sete Ciências e Artes Liberais da Antiguidade.

Entenda-se, contudo, que essas aplicações não se coadunam com o arcabouço doutrinário do Rito Schröder, portanto, nele os degraus não fazem nenhum sentido e é por isso que eles não existem.

Nunca é demais lembrar que o objetivo da Moderna Maçonaria é um só, o do aprimoramento humano, transformando bons homens em homens melhores ainda, entretanto, os ritos que a compõem trazem particularidades culturais, filosóficas e doutrinárias, daí existir entre eles, às vezes, sensíveis diferenças.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

http://pedro-juk.blogspot.com.br

jukirm@hotmail.com

 

 

SET/2020

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

PRÁTICAS INEXISTENTES NO REAA - BATERIA DE ALEGRIA, SALVA DO GALO, ETC.


Em 11/04/2020 o Respeitável Irmão Walmor Bindi Júnior, Loja Fraternidade Mourãoense, 4.313, REAA, GOB-PR, Oriente de Campo Mourão, Estado do Paraná, apresenta a questão seguinte:

 

BATERIA DA ALEGRIA

 

Estava a fazer uma pesquisa sobre a "bateria da alegria", usada, em sessão, para expres


sar felicidade por algum acontecimento, ou homenagear visitantes ou uma Loja, dentre outras situações de "honrada alegria". Ocorre que não encontrei muito material. E, certa vez, em uma visita, presenciei um Venerável Mestre invocar tal bateria com o título de "salva do galo". Este termo está correto? Pode me dar um norte para esta pesquisa?

 

CONSIDERAÇÕES.

 

É mesmo impressionante até aonde chega à imaginação de alguns Irmãos, sobretudo a desse Venerável Mestre que invocou a “salva do galo”!!!

Meu Irmão, nada disso existe, principalmente em se tratando do REAA. Nele não existe bateria de alegria, do galo, situações de honrada alegria, etc.

De fato, se o Irmão fizer consulta em autores sérios e comprometidos com a verdade, certamente não serão encontradas referências relacionadas a essas invenções, simplesmente porque elas não existem, não passando de fértil imaginação.

Como se pode notar, essas práticas nem sequer são mencionadas no ritual em vigência, portanto são inexistentes na liturgia do Rito.

É preciso compreender que as Loja Maçônicas não servem para palco para proselitismos, experiências e aplicações de condutas que não condizem com a sua doutrina, prática e liturgia.

Esqueça por favor essas aberrações, ao tempo em que afirmo não existir nenhum Norte verdadeiro para pesquisas do tipo das que se sustentam em aleivosias ritualísticas. Siga o Ritual e o Sistema de Orientação Ritualística que se encontra a disposição na plataforma do GOB RITUALÍSTICA em http://ritualistica.gob.org.br

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogspot.com.br

 

 

SET/2020

terça-feira, 22 de setembro de 2020

CADEIA DE UNIÃO E A PALAVRA SEMESTRAL

 

Em 08.04.2020 o Respeitável Irmão Daniel Carlos Ferreira, Loja Portal da Mantiqueira, sem mencionar o nome do Rito, GLMMG (CMSB), Oriente de Barbacena, Estado de Minas Gerais, através do Respeitável Irmão Cláudio Rodrigues, pede esclarecimentos para o que segue:

 

CADEIA DE UNIÃO

 

Quem me passou seu e-mail foi um irmão, integrante do MMAALLAA por conta de


um questionamento que fiz no grupo e ele disse que o Irmão, por ser professor da Escola Maçônica, poderia me ajudar na questão.

Estou fazendo um estudo sobre a Cadeia de União e quando participei da Escola Maçônica em Barbacena o posicionamento claro da Escola é que ela só é usada para a transmissão da palavra semestral.

Durante as discussões sobre as condutas e liturgias dos rituais muito tem-se discutido sobre isso e alguns irmãos se mostram não concordantes com essa postura, dizendo que outra era feita e, principalmente onde está previsto que é só para a transmissão da palavra semestral.

Um irmão que é estudioso constante me apontou que o fundamento é o previsto na página 47 do Manual de Etiqueta & Protocolo Maçônico, porém entendo que não é taxativo, pois aponta que é PARA A TRANSMISSÃO DA PALAVRA, mas não fala que é só para ela.

Em sentido contrário, o autor Rizzardo da Camino, na edição do Rito Escocês Antigo e Aceito 1º ao 33º, aponta a Cadeia de União como sendo ainda o local para tais condutas para meditação, oblações, súplicas e agradecimentos e descreve uma linda liturgia para a formação, condução e término, além de apontar uma coerente e profunda finalidade dessas condutas.

Sou novo na Ordem, agora MM, tenho realizados estudos e atualmente estou na Cadeia de União. Já entrei em contato com a Loja Maçônica, alguns irmãos componentes dela e queria, agora, a opinião, ajuda, ensinamento de todos aqueles que puderem fazê-lo para desenvolver uma real dimensão sobre o assunto e, principalmente, saber da origem e implicações das atuações modificações.

Dessa forma, gostaria de contar com tua ajuda, se puderes, é claro.

 

CONSIDERAÇÕES:

 

Antes um breve resumo histórico sobre a origem da Palavra Semestral.

De pronto é preciso compreender que a utilização dessa prática não é universal em se tratando de Ritos e Obediências, pois esse costume é aplicado principalmente na vertente oriunda da Maçonaria Francesa (latina).

Segue então o resumo que envolve a Maçonaria Francesa.

Em face aos desacertos causados pela morte do Duque D’Antain em 1743, primeiro Grão-Mestre da Maçonaria francesa, e a ascensão do Conde de Clermont ao Grão-Mestrado da Ordem na França - esse pouco interessado com as práticas maçônicas – o que fez com que ele colocasse prepostos no seu lugar e cujos quais acabaram exercendo ilimitadamente o seu poder, causando, com isso, uma desastrosa fragmentação da Obediência que resultou em graves consequências.

Esses choques de comandos internos trouxeram muitos tumultos que tiveram como consequência a expulsão de vários membros da Sublime Ordem. Um exemplo dessa situação pode ser constatado no ocorrido em 27 de dezembro do ano de 1766, ocasião em que se realizavam as comemorações pertinentes a João, o Evangelista. Naquela oportunidade, membros excluídos devido às intrigas internas, invadiram o local onde se celebravam os trabalhos comemorativos, havendo, inclusive, necessidade de intervenção policial para o restabelecimento da ordem. Graças a isso é que as atividades maçônicas na França acabaram suspensas por tempo indeterminado, durando essa interrupção até o ano de 1771.

Nesse contexto, os acontecimentos que se seguem à morte do Conde de Clermont levam o Duque de Chartres, que era primo do rei, a ser efetivado Grão-Mestre, contudo esse deixa a parte administrativa da Ordem por conta do Duque de Luxemburgo (na verdade essa foi uma situação arquitetada para readmissão de alguns membros expulsos pelas escaramuças internas). Assim, muitos maçons excluídos acabaram por ser reintegrados aos quadros da Maçonaria.

Esses maçons reintegrados, juntamente com o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, Conselho esse que fora criado por Pirlet em 1758, formam uma comissão para estudar uma ampla e profunda reforma administrativa na Maçonaria francesa. Disso resultou que em 24 de dezembro de 1771 a Grande Loja da França é declarad



a extinta. Destaque-se que essa Grande Loja francesa ainda mantinha estreitas relações com a Primeira Grande Loja da Inglaterra, o que consignava uma forte influência dos Modernos ingleses de 1717.

Em 09 de março de 1772, essa mesma assembleia, pensando em se afastar das influências da Grande Loja londrina, declarava então a criação de uma nova Obediência que atendia pelo nome de Grande Loja Nacional da França. Em 22 de outubro desse mesmo ano, a Obediência francesa reúne-se novamente em assembleia e declara que seu título distintivo passaria doravante a ser denominado por Grande Oriente da França, sendo assim criado o primeiro Grande Oriente do mundo. Nessa ocasião fora então empossado como Sereníssimo Grão-Mestre do Grande Oriente da França, Felipe de Orleans, o Duque de Chartres.

É então dentro desse quadro de acontecimentos que surge a Palavra Semestral. Sua história remonta à instalação de Felipe de Orleans como Grão-Mestre do Grande Oriente da França. O motivo da sua criação se deu pela necessidade de impedir a presença de maçons ainda remanescentes das contendas e não filiados ao Grande Oriente. Assim, essa criação da Palavra Semestral passava a limitar o livre direito de trânsito entre as Lojas até então adotado.

Desse modo, em 03 julho de 1777, por Decreto do Grão-Mestre era então criada pelo Grande Oriente da França a Palavra Semestral que seria então utilizada na corrente latina da Maçonaria.

Ainda sobre a criação da Palavra Semestral, é oportuno mencionar a súplica do Conselho da Ordem feita ao Grão-Mestre, o qual se deu, em tradução livre, nos seguintes termos:

“Convencidos por uma longa experiência que os meios empregados são insuficientes até hoje para afastar falsos maçons, acreditamos não haver melhor forma do que pedir ao Grão-Mestre, que dê, de seis em seis meses, uma palavra que não será comunicada, senão aos maçons regulares e mediante na qual eles se farão reconhecer nas Lojas que visitarem”.

É essa a certidão de nascimento da Palavra Semestral.

Sob esse feitio é que até hoje a “palavra” tem sido renovada nas datas solsticiais pelo Grão-Mestre e serve para comprovar a regularidade do maçom quando em visita a outras Lojas. De modo prático, com a sua aplicação, o maçom que desconhecer a palavra em vigência, ou pelo menos a vigorante no período imediatamente anterior, revela a sua não frequência em Loja há pelo menos seis meses, o que faz dele um membro irregular.

Sobre a Cadeia de União e a Palavra Semestral, conforme revela Jules Boucher in A Simbólica Maçônica - Dervy-Livres, Paris, 1948, 1979 - primitivamente a Palavra Semestral era composta por duas palavras. Para a sua transmissão formava-se uma Cadeia de União, de modo que ambas as palavras, que começavam com a mesma letra e eram sussurradas nos ouvidos, circulasse, uma pela esquerda e outra pela direita até que elas voltassem àquele que as comunicou (o Venerável Mestre) de modo justo e perfeito. Caso fosse constatado algum erro na sua volta, o Venerável a fazia circular novamente.

É bastante provável que as “duas” palavras eram utilizadas como senha e contrassenha respectivamente, ou seja, o visitante transmitia uma palavra ao Cobridor e dele recebia a outra palavra, ficando evidenciada a regularidade de ambos – tanto do visitante quanto da Loja visitada.

Com o passar dos anos, o costume de se utilizar duas palavras acabaria por se transformar na utilização de apenas uma palavra, cuja qual percorre, na forma de costume, respectivamente, pela direita e pela esquerda da Cadeia.

Assim, por esse formato de comunicação entre o Venerável e os membros regulares da sua Loja é que a Cadeia de União se faz presente nesse ato, não devendo, portanto, sob o ponto de vista da originalidade, ser utilizada para nenhum outro fim.

Nesse sentido, o verdadeiro REAA, rito de origem francesa, segue rigorosamente essa tradição, formando a Cadeia de União somente após o encerramento dos trabalhos e apenas para a transmissão da Palavra Semestral.

Se faz oportuno explicar que a Cadeia é constituída após o encerramento dos trabalhos para que eventuais visitantes não mais estejam presentes (evitando constrangimentos), destacando que a Palavra Semestral somente é transmitida pelo Venerável aos obreiros da sua Loja (obviamente que cada Venerável assim procede).

A despeito de que a Cadeia de União é artifício litúrgico utilizado apenas para a transmissão da Palavra Semestral, vale a pena mencionar que existem ritos que a ocupam para outras finalidades, contudo, reitero, esse não é o caso do REAA.

A despeito do que menciona o seu Manual de Etiqueta & Protocolo Maçônico mencionado na questão, me parece que ele é laudatório, pois enfatiza que “é para a transmissão da Palavra Sagrada”. Ora, se para ele houvesse outra finalidade, certamente que o texto seria assim direcionado, contudo isso não acontece, pois ele simplesmente menciona que a Cadeia é para a transmissão da Palavra Semestral. Creio que não precisa ser mais taxativo do que isso. Me perdoe, mas buscar outro sentido nesse contexto é o mesmo que procurar pelo em casca de ovo.

No tocante a “certos” autores e as suas “lindas liturgias” (sic), apenas entendo que esses enveredaram para o caminho da imaginação, portanto, sem base histórica. Nesse caso eu prefiro não comentar, até porque tenho aversão a invencionices que surgiram, sobretudo, nas épocas em que aqui no Brasil a cultura maçônica, ainda capenga e debilitada, habitava uma terra de ninguém. Valendo-se disso alguns autores escreviam aquilo que lhes vinha à imaginação (em terra de cego quem tem um olho é rei) . Atualmente os tempos são outros. Certas ideias mirabolantes não cabem mais no contexto cultural e acadêmico da Maçonaria autêntica.

Por fim, observo que eu quis lhe dar alguns subsídios inerentes à questão, lembrando que ritual em vigência não deve ser desrespeitado, mas, na presença de elementos contraditórios, ele é também merecedor de uma ampla discussão, no sentido de que possam os canais competentes da sua Obediência corrigir as eventuais distorções e imperfeições.

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogsot.com.br

 

 

SET/2020