segunda-feira, 12 de junho de 2017

USO DO BALANDRAU

Em 27/04/2017 o Respeitável Irmão Hercule Spoladore, Loja de Pesquisas Maçônicas Brasil, COMAB, Oriente de Londrina, Estado do Paraná pede considerações a respeito do uso do balandrau pela Maçonaria devido aos comentários abaixo:


 

USO DO BALANDRAU


COMENTÁRIOS.

Do Irmão Hercule Spoladore para o Irmão Rui Jung Neto:
Jung,
Balandrau segundo o Castellani, não é usado na Europa. Ele, trata-se de imitação dos balandraus usados pelas Irmandades Católicas no Brasil no fim do século XIX. Na Maçonaria foi invenção de brasileiro.
Mas também ele cita em outro local que os Collegia Construtorum que acompanhavam as legiões romanas, reconstituindo tudo o que elas destruíam, usavam uma túnica preta mais curta que o balandrau atual.
“Grande quebra galho”, muito usado atualmente no REAA. De fato, ele não é próprio da Maçonaria, mas fica fácil para um Irmão, especialmente quando chega atrasado em casa e tem que sair correndo para a Loja.
Nos Ritos de Schroeder e Trabalho de Emulação, não é permitido. Mas por uma questão de boa vizinhança as Lojas do Emulação e do Schroeder recebem Irmãos do REAA como visitantes tolerando o tal de balandrau. Mas não toleram que seus seguidores usem o balandrau. Pelo menos a indumentária destes Ritos assim exigem os rituais que sejam a caráter, própria de cada rito. Salvo melhor juízo, é o que eu tinha a dizer.

Do Irmão Francisco a respeito da menção do Irmão Hercule:
Já visitei uma Loja Maçônica em Berlin (Rito Escocês) maioria dos Irmãos presentes estavam usando balandrau igual ao que usamos nas nossas lojas básicas (inclusive na sala de passos perdidos havia um local com vários balandraus a disposição dos interessados). Para entrar na loja não pediram nada, apenas fui apresentado pelo guia turístico que era nosso irmão, depois da reunião nos deram a maior atenção, oferecem um jantar em uma taberna (inclusive para esposas).

O Irmão Hercule então faz o seguinte comentário a respeito do pronunciamento do Irmão Francisco:
É agora não sei mais nada. Fiquei perdido. Castellani dizia que Balandrau é invenção de brasileiro (teria exportado o produto para a conservadora Alemanha?). Mas sei que o traje no Emulação e no Schröder é à caráter, de acordo com o Rito não admitem balandrau. Quanto a essa Loja que você visitou. Tem o nome dela? A Potência? Ela pode não ser do Rito Schröder e nem do Emulação, evidentemente. Vai ver que a praga do REAA espalhou para todo o mundo. Mas se você viu Balandrau na Alemanha, então ele não existe só no Brasil como sempre pensei.
Talvez merecesse um estudo mais acurado. Para mim é total surpresa saber que na Alemanha tem balandrau. Na Convenção de Lausanne não se tratou disso.
Estou enviando copia desta conversa para o Jung e para o Juk. Quem sabe eles esclarecem alguma coisa.

COMENTOS ELABORADOS POR PEDRO JUK

A questão do uso do balandrau na Maçonaria tem causado, em não raras vezes, muitas discussões, sobretudo no que diz respeito à regularidade do seu uso.
O balandrau menciona, dentre outros, ser uma antiga vestimenta de capuz e mangas largas, abotoado na frente às vezes usados por membros de confrarias e geralmente por comunidades religiosas. Na Moderna Maçonaria, provavelmente por influência das antigas Associações Monásticas medievais (uma das ancestrais da Ordem), ele tem tido o seu uso permitido em alguns ritos maçônicos, geralmente nas sessões econômicas (ordinárias), porém como veste talar (até os tornozelos) e de cor negra.
Segundo Steinbrenner in História da Maçonaria, amplamente mencionado por José Castellani em algumas de suas obras, o balandrau tem origem entre construtores à época do Imperador romano Numa Pompílio (século VI a. C.) [1] e os Collegia Fabrorum, cujos componentes eram os Collegiati e formavam a primeira associação de ofício organizada que se tem notícia e que acompanhavam as legiões de soldados romanos pela Europa com a finalidade de reconstruir o que fosse destruído nos conflitos deflagrados pelas conquistas de novas regiões.
No intuito de diferenciar os construtores dos legionários, os Collegiati usavam uma túnica escura, o que seria também adotado mais tarde pelas Associações Monásticas, Confrarias Leigas e por fim pelas associações de ofício operativas dos francos-maçons medievais, as quais tinham como característica particular a liberdade concebida pela Igreja para viajar de um lugar para o outro. Durante esses deslocamentos, os construtores tinham o hábito de vestir um balandrau negro, geralmente com capuz.
Como a Moderna Maçonaria é herdeira dessas confrarias medievais, o costume do uso do balandrau é nela perfeitamente justificado, a despeito de que ele não seja permitido em determinadas ocasiões da atualidade, a exemplo das sessões denominadas “magnas” onde nelas se exige geralmente o uso do terno preto ou escuro.
De fato, alguns ritos maçônicos a exemplo do York e do Schröder têm o hábito conservacionista de não permitir o uso do balandrau, salvo em casos excepcionais e relativos a visitantes que não pertençam a esses ritos.
Comentários à parte é discutível a obrigatoriedade do uso de trajes como o terno preto (paletó, calça e colete), ou a parelha preta (paletó e calça) acompanhados de camisa branca e gravata preta na Maçonaria, até porque isso mais tem uma forte dose de influência clerical – o traje como sinal de respeito - do que um pretenso simbolismo que possa envolver uma vestimenta.
Há que se levar em conta também, que o traje masculino vem sofrendo variações através dos tempos e de acordo com os costumes dos povos, assim é temerário se querer estereotipar um traje único para a Maçonaria.
As roupas do século XVIII, época em que floresceu a Moderna Maçonaria, eram bem diferentes das atuais, além do que muitos povos usam ainda suas roupas típicas; os militares maçons, não raras vezes nas sessões das Lojas, usam os seus uniformes. Então nos parece um pouco contraditório se que se estabeleça um traje padrão universal para a Maçonaria com base apenas na cultura ocidental contemporânea como é o caso do terno preto.
No que diz respeito ao verdadeiro traje maçônico e sua universalidade, indiscutivelmente ele é o avental, já que é regra indispensável seu uso pelos maçons nas sessões maçônicas, a despeito, obviamente, de que por baixo do avental o maçom esteja trajando roupa decente e apropriada para a sessão, coisa que, sem qualquer dúvida, o balandrau supre perfeitamente esse objetivo. Nesse sentido, afirmar que o balandrau não é trate maçônico parece ser irrelevante já que o verdadeiro traje maçônico é o avental e que, por debaixo dele, o balandrau, desde que preto e talar, poderia perfeitamente ser vestido.
Destaque-se que a adoção do uso do balandrau nas sessões maçônicas, em muitos países, é até mesmo desconhecida, ou raramente é mencionado, já que cada país geralmente adota o traje que lhe é tradicional por uso e costume ou mesmo que se adeque ao conforto relativo às condições de temperatura. Em muitos países que costumeiramente a temperatura é elevada os maçons se reúnem trajando camisas de mangas curtas. Os árabes, por exemplo, usam albornozes e na Escócia é comum o uso do kilt (saia escocesa). Já os ingleses costumeiramente usam ternos pretos, etc. Obviamente que sobre a vestidura, em Loja o maçom estará sempre vestindo o seu avental.
Apenas a título de ilustração, me recordo que quando das minhas andanças maçônicas pelo Brasil, me deparei com inúmeras fotografias antigas relativas aos obreiros e suas respectivas Lojas. Eu sempre chamei atenção nessas oportunidades para uma particularidade que envolvia o traje usado pelos Irmãos do passado, além do avental. A grande quantidade dessas fotos trazia irmãos trajados para as sessões sem estarem necessariamente usando terno preto e nem balandrau, mais sim paletós, pulôveres, calças e camisas de diversos matizes, o que mostra que um traje específico não era regra na Maçonaria brasileira, salvo o uso do avental.
Retomando o raciocínio em relação ao uso do balandrau, eu não teria como afirmar que o seu uso seja uma invenção brasileira, até porque sua origem advém nos nossos ancestrais construtores na distante Europa antiga e medieval.
Entendo que, além da tradição que envolve o balandrau nos meios maçônicos, existe ainda o aspecto da sua praticidade e conforto como vestimenta, portanto é possível que ele não seja um traje restrito ao Brasil, salvo a proibição do seu uso se o rito não o permitir.
No Brasil, o terno preto é oriundo de costume clerical e muito conhecido como o traje de missa. Essa tendência inclusive viria influenciar muitos dos costumes maçônicos brasileiros ao ponto de atualmente nalgumas Obediências o adotarem como uso obrigatório para as suas sessões maçônicas.
Quanto ao balandrau e a origem do seu uso especificamente no Brasil eu não saberia de momento informar, senão que talvez pela sua origem europeia, tenha ele tenha chegado também por aqui junto com os próprios costumes maçônicos.
No que diz respeito ao seu uso na Alemanha, eu penso que seja possível, mesmo que contrário ao que determina o Rito Schröder, já que pode ser plausível o seu uso por outro rito praticado em solo germânico, ou ainda, seguindo a tendência progressista que acompanha a Maçonaria.

T.F.A.

PEDRO JUK

JUNHO/2017





[1] Data referencial aos Collegiati. Entretanto não se afirma a existência de Maçonaria naqueles tempos. Entenda-se que a arte de construir é ofício milenar, porém nunca a instituição Maçonaria.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

APRENDIZ PODE ASSUMIR CARGO?

Em 27/04/2017 o Respeitável Irmão Paulo Roberto Ulema Ribeiro, Loja Discípulos de São João, REAA, Grande Oriente do Rio Grande do Sul, Oriente de Cachoeirinha. Estado do Rio Grande do Sul formula a seguinte pergunta:

APRENDIZ ASSUMINDO CARGO.


Na necessidade em determinada sessão, poderá o Aprendiz exercer o cargo de Chanceler ou de Mestre de Harmonia?

CONSIDERAÇÕES.

Sob o ponto de vista tradicional, na Moderna Maçonaria, desde a criação do terceiro grau especulativo[1], somente assumem cargos em Loja os Mestres Maçons. Isso se dá de modo figurado levando em conta que simbolicamente os Aprendizes e Companheiros ainda não chegaram à plenitude maçônica, o que não lhes daria ainda sob nenhuma hipótese qualificação para exercer um ofício na Loja.
Essa regra se aplica de modo geral e não só àqueles que ocupam cargo no Oriente. Aprendizes e Companheiros têm o seu lugar específico na Loja de acordo com os ritos.
Algumas Obediências, a exemplo do Grande Oriente do Brasil, atentando para essa tradição inserem nos seus próprios Regulamentos essa proibição. Inclusive ela determina que legalmente uma Loja só seja aberta com a presença mínima de sete Mestres – três a governam, cinco a compõe e sete a completam.
No caso de estarem presentes apenas sete Mestres e com eles também Aprendizes e Companheiros, mesmo assim só ocupam cargos os Mestres. Em número menor do que sete deles, não se abre a Loja. Entenda-se: essa é uma regra especulativa.
Ocorre, entretanto, que na contramão da história, algumas Obediências equivocadamente permitem através dos seus regulamentos que integrantes dos dois primeiros graus possam exercer cargos na Loja, desde que em caráter precário. Na verdade isso nada mais é do que uma justificativa capenga para arrumar o péssimo e comprometedor “jeitinho”.
Concluindo, no caso da sua questão, sugiro que antes verifique o que preconiza o Regulamento Geral do vosso Grande Oriente.


T.F.A.

PEDRO JUK


JUNHO/2017





[1] Criado em 1725 na Inglaterra e promulgado na Segunda Constituição de Anderson em 1738.

SINAL DO COMPANHEIRO

Em 23/04/2016 o Respeitável Irmão Fausto Belem, Loja Flórido Abrão, 3.246, REAA, GOB-PR, Oriente de Contenda, Estado do Paraná, solicita o seguinte esclarecimento.


SINAL DO COMPANHEIRO


No Sinal do Companheiro do REAA a mão esquerda tem todos os dedos unidos ou apenas o polegar resta separado? Existe realmente a analogia ao prumo desta mão?

CONSIDERAÇÕES.

Conforme o que prevê o ritual em vigência no GOB, a mão esquerda terá todos os dedos unidos. Isso implica que inclusive o dedo polegar obedece a essa postura.
Quanto a sua relação com o prumo, não é propriamente só a mão (que fica na altura do ombro), mas figuradamente a postura do respectivo braço e antebraço que ficam na vertical já que o cotovelo relativo permanece junto ao corpo. Esse é um detalhe que deve ser atentado – cotovelo esquerdo unido ao lado esquerdo do corpo (o braço não é levantado).
À bem da verdade, no puro escocesismo não se faz, ou pelo menos não se deveria fazer, uso do membro superior esquerdo para complementar o Sinal de Companheiro, pois ele, no Rito Escocês, é cordial e é feito apenas com a mão direita. Em síntese, segue a regra universal do simbolismo onde Sinais Penais são executados sempre pela a mão direita.
Na realidade, o também uso da mão esquerda na execução do sinal do Segundo Grau no REAA (que é rito de origem francesa) é um enxerto deturpado, pois ele foi copiado, em partes, da prática inglesa de Maçonaria onde lá, genuinamente, o Segundo Grau faz uso das duas mãos, mas com postura diferente, para compor esse Sinal, até porque no Craft inglês o gesto faz sentido como preparação para outro Sinal que virá no Terceiro Grau. Só que isso não acontece no escocesismo.
Desafortunadamente, não é de hoje que esse elemento impróprio se faz presente no Rito Escocês Antigo e Aceito aqui no Brasil, ao ponto de ser hoje componente consuetudinário desse Sinal, e até mesmo exportado para outros países latinos. Como a boca se entorta conforme o uso do cachimbo, nossos rituais ao apregoarem esse costume ficam, pois a procurar justificativas por tê-lo adotado. Dentre elas, a de compará-lo com um prumo.
É justo mencionar, entretanto, que mesmo aqui no Brasil, existe Obediência que já aboliu o uso do membro superior esquerdo no Sinal do Companheiro do REAA. É o caso do Grande Oriente Independente de Pernambuco (COMAB).
De qualquer forma, embora discutível, primeiro segue-se o que está legalmente previsto nos rituais. Justificativa para extinção desse costume impróprio existe, a questão é como atravessar a blindagem da teimosia.

T.F.A.

PEDRO JUK

JUNHO/2017



terça-feira, 6 de junho de 2017

SAUDAÇÃO AO DELTA OU AO VENERÁVEL?

Em 23/04/2017 através do Consultório Maçônico José Castellani, Editora A Trolha, o Respeitável Irmão Francisco Chagas Silva, Loja Lauro Sodré, 03, REAA, GLEMA (CMSB), Oriente de São Luiz, Estado do Maranhão, solicita esclarecimento para a seguinte dúvida:

SAUDAÇÃO AO DELTA OU AO VENERÁVEL?


Existe diferença na saudação entre GOB e Grande Loja? Na edição de abril um Irmão pergunta qual o lugar no Oriente se saúda o Venerável Mestre. Em nossos rituais ensina que saudamos o Delta Sagrado e não o Venerável. O Rito não é o mesmo (REAA)?

CONSIDERAÇÕES.

Realmente, aqui no Brasil, como se isso fosse o correto, depende do ritual e da Obediência.
O atual ritual do REAA do GOB, por exemplo, determina que ao se entrar e sair do Oriente, essa saudação seja feita exclusivamente ao Venerável Mestre. Já outras Obediências, como é o caso da vossa Grande Loja, me parece determinar que ela seja feita ao Delta.
Sob o ponto de vista tradicional do escocesismo simbólico, sobre esse fato, cabem alguns esclarecimentos para melhor entendimento.
Na realidade, o costume de se saudar ao Delta é oriundo da época dos primeiros rituais escoceses do simbolismo (a partir de 1804) na França. Nessa época, o piso da Loja era todo no mesmo nível (elevado era só o Altar ocupado pelo Venerável), não havendo, portanto, nenhum desnível entre os pisos e nem balaústra dividindo o Oriente do Ocidente (costume seguido pelos “antigos”). Devido a isso, durante a circulação horária, quando alguém cruzasse o eixo do Templo, no mesmo nível e mais próximo do Altar ocupado pelo Venerável, esse deveria saudar o Delta, ou a letra G que o substituía em alguns casos.
No que diz respeito à saudação ao Venerável Mestre, ainda naqueles tempos, geralmente ela só acontecia se alguém ingressasse ou se retirasse formalmente da Loja, oportunidade em que eram saudados inclusive os Vigilantes, tal como costumeiramente ainda se faz.
Entretanto, essa regra acabaria sendo mais tarde alterada pelo aparecimento das Lojas Capitulares a partir do primeiro quartel do século XIX (vide a sua história na França). Essa alteração se daria porque, dentre outros costumes admitidos de então, o principal seria o de se alterar a topografia do espaço reservado à sala da Loja elevando e demarcando o Oriente, tudo para se adaptar à novidade capitular que, a partir dai, teria incorporado para si também os três graus simbólicos. Assim, com o espaço oriental demarcado e elevado, é que surgiria o termo usual de se “entrar e sair do Oriente”, por conseguinte, também o de se saudar o Venerável quando do ingresso e saída do lugar.
A título de esclarecimento, para os ritos que não adotam o espaço oriental elevado e demarcado, como é o caso do Craft inglês e americano, Rito de York, por exemplo, o Oriente da Loja é simplesmente a parede oriental e aqueles que ocupam lugar imediatamente à sua frente, ou os que ficam mais próximos a ela (como era também o REAA nos seus primórdios).
Retomando o raciocínio, mais tarde, ainda no século XIX, as mencionadas Lojas Capitulares, por razões administrativas ocorridas entre o Grande Oriente da França e o Segundo Supremo Conselho do REAA, seriam extintas, mas não sem antes ter deixado a sua marca no simbolismo do Rito – o espaço oriental elevado e demarcado pela balaustrada permaneceria consuetudinariamente até o presente.
A despeito de tudo isso é que passou a existir a prática de se saudar o Venerável quando se entra e sai do Oriente, e ao Delta quando em deslocamento (circulação no Ocidente) ao se passar da Coluna do Norte para a do Sul próximo do limite com o Oriente.
Não existe saudação nem ao Delta e nem ao Venerável ao se transitar de um lado para outro no Oriente, pois nele não há circulação porque simbolicamente ali é o lugar da Luz, tanto daquela relativa à “Criação” (o Delta), quanto daquela concernente à Sabedoria e Esclarecimento (o Venerável).
Assim, muitos rituais corretamente ainda hoje mantêm o costume de saudar o Delta e o Venerável conforme a ocasião. Outros, entretanto, sem nenhuma explicação, equivocadamente restringem essa saudação apenas ao Venerável quando se entra e sai do Oriente, extirpando qualquer saudação ao Delta.
É oportuno ainda mencionar que a saudação maçônica é sempre feita pelo Sinal, portanto são dispensáveis as inventivas inclinações com o corpo e/ou os maneios com a cabeça em qualquer situação. Se na oportunidade as mãos estiverem ocupadas, far-se-á apenas uma parada rápida e formal com os pés e esquadria, corpo a prumo e sem incliná-lo – o Oriente não é tatame de judô.
Concluindo, devo respondê-lo que sem dúvida alguma praticamos o mesmo Rito, portanto todos os procedimentos ritualísticos “deveriam” ser equivalentes, entretanto, como bons latinos que somos, aqui no Brasil, cada Obediência construiu seus próprios costumes, o que tem feito com que na maçonaria tupiniquim, sem nenhum juízo de valor, possam literalmente existir entre os rituais de um mesmo rito, diferenças elementares adquiridas principalmente pelo desenfreado apetite de se editarem rituais (talvez para alguém nele colocar o seu nome). Sem nenhum embargo, todas as nossas Obediências, em maior ou menor escala, acabaram fazendo do REAA uma verdadeira “colcha de retalhos”, construída principalmente a partir de enxertos e invenções. Obviamente que cada um “puxa a sardinha para a sua brasa”.


T.F.A.


PEDRO JUK


JUNHO/2017

sábado, 3 de junho de 2017

QUEM INSTRUI, PRIMEIRO OU SEGUNDO VIGILANTE?

Em 20/04/2017 o Respeitável Irmão Jaime Ribeiro da Silva, sem mencionar o nome da Loja, Rito e Obediência, Oriente de Cruzeiro, Estado de São Paulo, através de correspondência via Trolha, formula a seguinte questão:

QUEM INSTRUI - PRIMEIRO OU SEGUNDO VIGILANTE?


Cabe ao Primeiro Vigilante instruir os Companheiros e ao Segundo Vigilante os Aprendizes?
Não é o que ensina a primeira instrução dos Aprendizes.

CONSIDERAÇÕES.

De modo autêntico quem instrui os Aprendizes é o Segundo Vigilante, enquanto que os Companheiros é o Primeiro Vigilante.
Essa prática na Moderna Maçonaria é devida à hierarquia na Loja e não pelo fato de que se deva coincidir com o Vigilante da respectiva Coluna.
Nos ritos maçônicos que nasceram no hemisfério setentrional, sempre os Aprendizes ocuparão o Norte e os Companheiros o Sul. Isso se dá inclusive para aqueles ritos que por razões históricas tradicionalmente invertem os seus Vigilantes (o Primeiro no Sul e o Segundo no Norte). Mesmo nesses, os Aprendizes permanecem no Norte e os Companheiros no Sul, excetuando-se algum rito que porventura tenha nascido no hemisfério meridional, como é o caso do Rito Brasileiro – nesse os Aprendizes ficam no Sul e os Companheiros no Norte.
Para que se possa entender isso é preciso antes se despir da fantasia de que o Templo Maçônico seja um modelo copiado do Templo de Jerusalém, pois na realidade a sala da Loja é simbolicamente um canteiro especulativo de obras composto simbolicamente por um segmento da superfície do Planeta e situado sobre o equador terrestre, cujos limites são relativos aos pontos cardeais. Seu piso é o solo terrestre e a sua cobertura é o céu.
Dados esses comentários indispensáveis, segue então a razão histórica do ministério de instrutor dado a cada Vigilante da Loja maçônica.
Na Maçonaria de Ofício (antecessora da Maçonaria dos Aceitos), na época dos canteiros medievais quando não existiam ainda nem ritos e nem templos maçônicos, os maçons se reuniam literalmente nos canteiros de obras, nos adros das igrejas e nas tabernas. Naqueles tempos, quando da admissão de um novo membro na guilda de construtores – isso ocorria geralmente no solstício de verão europeu, dia de São João, o Batista – costumeiramente era o Segundo Vigilante que recebia o candidato à admissão e lhe ministrava as primeiras instruções e informações. Instruído e informado, o candidato era então conduzido até o Primeiro Vigilante que fazia uma prece em seu favor. Em seguida o candidato era recebido na forma de costume pelo Mestre da Obra (na época um Companheiro experiente) que lhe tomava a “obrigação” diante do Evangelho de São João entregando-lhe em seguida as luvas e o avental operativo. O candidato então era constituído Aprendiz Admitido no Ofício e o Segundo Vigilante o conduzia até os instrumentos de trabalho para lhe ensinar os segredos da profissão.
Para receber aumento de salário, o que viria ocorrer somente após ter sido cumprido o seu tempo de aprendizado (geralmente de três ou cinco anos), o Aprendiz era então proposto e instruído como Companheiro de Ofício. Nessa oportunidade, quem o recebia era o Primeiro Vigilante, ocasião em que verificava e comprovava a sua habilidade no exercício da profissão. Certificando-se, o Primeiro Vigilante lhe ministrava as instruções finais e o recomendava ao Mestre da Obra para que ele fosse constituído Companheiro de Ofício (Fellow Craft).
Essa é uma síntese de como era o processo ancestral da Iniciação e do aumento de salário de um maçom operativo, bem como o de quem o instruía no trabalho. É oportuno lembrar, entretanto, que naquela época a Maçonaria de Ofício era constituída apenas por duas classes de trabalhadores - a dos Aprendizes e a dos Companheiros. Elas eram classes profissionais e não graus especulativos como hoje os conhecemos, a despeito ainda de que o Mestre da Obra era um Companheiro escolhido entre os mais experientes da Guilda.
Dado a esse roteiro ancestral é que genuinamente o Segundo Vigilante era quem recebia e instruía os Aprendizes e o Primeiro Vigilante, os Companheiros, destacando que na época o processo iniciático não era como o que hoje conhecemos e nem mesmo se dava em recintos decorados por liturgias específicas. A Loja era literalmente uma oficina (canteiro de obras) onde trabalhavam os artífices da pedra de cantaria.
Assim, no intuito de se preservarem os costumes do passado, é que alguns ritos da Moderna Maçonaria procuraram preservar a tradição (a exemplo do REAA) atribuindo emblematicamente ao Segundo Vigilante a missão de instruir os Aprendizes e ao Primeiro os Companheiros, destacando-se que os Aprendizes ocupam o Norte do recinto e o Segundo Vigilante o Sul, enquanto que os Companheiros ocupam o Sul e o Primeiro Vigilante o Norte.
Nesse caso a questão não é a de que os Vigilantes necessariamente precisem ser os instrutores nas suas respectivas Colunas, mas a de tradição e hierarquia, até porque esse tem sido apenas um elemento figurado de interpretação, pois a qualquer Mestre do Quadro é dado o ofício de instruir.
É verdade, porém, que existem ainda muitos rituais escoceses em vigência adotados pelas Obediências que às vezes não seguem essa regra autêntica, contradizendo equivocadamente as verdadeiras origens e costumes da Ordem. Infelizmente eles existem e muitos deles são legalmente adotados.
Outro aspecto relevante para ser observado é que na Moderna Maçonaria a regra que envolve os Vigilantes, e deles qual instrui, não é universal quando se tratar de Ritos e Rituais, pois nem todos eles seguem essa particularidade, já que originariamente muitos ritos nasceram cada qual com a sua própria liturgia. Em síntese, não se deve generalizar procedimentos na Maçonaria achando que nela tudo é igual.
Mesmo nos rituais escoceses brasileiros encontramos inúmeras contradições nesse sentido que geralmente foram adquiridas através de cópias (tesoura e cola) de rituais anacrônicos do passado, mas que continuam se espalhando como ervas daninha no solo da cultura maçônica.
Não me canso de mencionar que infelizmente muitos Irmãos, sem qualquer critério, ficam por aí defendendo teses ritualísticas, principalmente em grupos na Internet e fazendo comparações como: “era assim no passado”, “eu tenho muitos rituais antigos”, etc. Infelizmente, esses se esquecem de que antes de se proferir considerações laudatórias, primeiro é prudente se certificar da veracidade dos fatos escritos. Afinal, nem tudo que reluz é ouro.
Outro enorme problema relacionado aos que apenas se prendem nos escritos de rituais anacrônicos é o de que muitos deles não compreendem a razão existencial de cada prática ritualística e a sua simbologia. Sintetizando, a questão não é apenas a de estar escrito, mas sim a razão dela existir na liturgia do rito – isso é básico para a compreensão de um arcabouço doutrinário.
Concluindo, são esses os apontamentos relativos às instruções e quem é o responsável por ministra-las aos Aprendizes e Companheiros, particularmente no Rito Escocês Antigo e Aceito.

E.T. 1 – A questão de quem deve instruir e de quem deve receber a instrução é somente de caráter figurado para preservar tradições, mas não de obrigatoriedade, já que é dever de todo o Mestre Maçom ministrar preleções instrutivas em Loja, daí nem sempre a incumbência de prover instruções inseridas nos rituais estarem direcionadas exclusivamente para esse ou aquele Vigilante. Conforme os rituais, delas geralmente participam, além dos Vigilantes, o próprio Venerável, o Mestre de Cerimônias, os Diáconos, etc. - tudo conforme o Rito adotado. O mais tradicional no que diz respeito à incumbência dos Vigilantes para esse mister é mesmo o das instruções que visam promover aumento de salário.

E.T. 2 – Como prática dos “antigos”, vide o Craft inglês que aqui no Brasil é conhecido como Rito de York. Nele a Pedra Bruta fica junto ao Segundo Vigilante no Sul e os Aprendizes no lado oposto no nordeste da sala da Loja, enquanto que a Pedra Cúbica fica junto ao Primeiro Vigilante no extremo do Ocidente e os Companheiros no lado Sul da Loja. Esse é um fato que demonstra perfeitamente não haver necessidade de coincidência de lado (coluna) entre o que instruí e o que é instruído.

T.F.A.

PEDRO JUK

JUNHO/2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

REAA E SUA RELAÇÃO COM A ASTRONOMIA

Em 16/04/2017 o Respeitável Irmão Warley Pompeu Marques, Loja Major Adolfo Dourado, 2.196, REAA, GOEPA – GOB, Oriente de Belém, Estado do Pará, solicita esclarecimentos para o que segue:

O REAA E SUA RELAÇÃO COM A ASTRONOMIA


Como a Astronomia Influenciou de forma determinante no R.E.A.A.?
Já que é um Rito que abarca o Estudo da Natureza e Deísta (Filosófico)?
Grato pelos seus esclarecimentos.

CONSIDERAÇÕES.

Resumidamente na Moderna Maçonaria a Astronomia como ciência só seria mencionada a partir do século XVIII quando do envolvimento das Sete Artes e Ciências Liberais da Antiguidade nas lições especulativas e dos catecismos dá época. Como ciência, a Astronomia aparece na ordem dada por Boécio (trivium e quadrivium) como a sétima ciência e, em linhas gerais, tem sido abordada na Maçonaria como exemplo de harmonia e equilíbrio existente no Universo.
No que diz respeito a esse tema e o Rito Escocês Antigo e Aceito em particular, objetivamente a Astronomia se apresenta relacionada ao estudo que compara a evolução humana à Natureza. Em tese, na ciência maçônica a Astronomia é mais um elemento comparativo do que um estudo de mecânica do Universo.
Em alguns ritos maçônicos a relação Astronomia - Maçonaria pode ser observada nas abóbadas (firmamento) e seus astros, constelações e estrelas que decoram o teto da Loja; na alegoria relativa à movimentação anual e diária do Sol (solstícios e equinócios; meio-dia, meia-noite), nos destaques dados ao Sol e a Lua como elementos referenciais e ainda nos ciclos naturais se relacionados aos alinhamentos que envolvem o Sol e as Constelações do Zodíaco (não confundir com astrologia).
De fato, a Moderna Maçonaria, eclética por natureza, montou a sua estrutura doutrinária visando aprimorar o homem comparando-o a um elemento suscetível às Leis da Natureza, seja ela tomada do ponto de vista deísta ou teísta.
Nesse particular, o Templo Maçônico esotericamente representa o palco desse teatro de transformação, estando ele intimamente ligado ao código natural das Leis do Universo. Nele o Homem, independente da sua óptica religiosa, é a matéria prima empregada na realização da Grande Obra, ou da Obra do Sol.
É nesse sentido que a ciência da Astronomia, em maior ou menor escala, é aplicada na Maçonaria.
Seja ela de modo figurado ou filosófico, ela é uma ciência importante que compõe o mecanismo simbólico destinado a alcançar o objetivo proposto.
Obviamente que na Maçonaria o estudo da Astronomia não é aprofundado tal como se faz parte na agrade curricular de uma universidade, entretanto, também ela não é levada como uma questão empírica, já que indubitavelmente, mesmo de modo superficial, essa ciência tem sido um dos esteios das práticas especulativas maçônicas.
Concluindo, vale a pena antes mencionar que teísmo e deísmo são concepções filosóficas. A primeira admite a existência de um deus pessoal, causa do mundo, enquanto que a segunda se relaciona a um sistema ou atitude dos que, rejeitando toda espécie de revelação divina e, portanto, a autoridade de qualquer Igreja, aceitam, todavia, a existência de um Deus, destituído de atributos morais e intelectuais, e que poderá ou não haver influído na criação do Universo – in Dicionário Eletrônico Aurélio. O REAA, como filho espiritual da França, é um rito deísta, todavia não há como negar que ele, nos seus graus simbólicos, também recebeu historicamente influências teístas adquiridas por influências anglo-saxônicas (dos “antigos”).


T.F.A.

PEDRO JUK

 JUNHO/2017