segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

RITUAIS DO REAA DE 1972 E 1988 NO GOB

Em 06.10.2022 o Respeitável Irmão Reynaldo Calaza, Loja Comércio, 0058, REAA, GOB-RJ, Oriente do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, faz a seguinte pergunta:

 

REAA, RITUAIS DE 1972 E 1988

 

Recentemente ganhei alguns Rituais antigos do REAA 

Comecei a ler os Rituais que ganhei e vi que no Ritual de 1972 não havia as colunas Zodiacais, os Aprendizes se sentavam na Coluna do Sul, a Pedra Bruta também na Coluna do Sul, a Coluna Sul como "B" e claro que na Coluna do Norte o oposto, Companheiros, "J" e a Pedra Cúbica.

No Ritual de 1988 8º edição, já tem a atual formatação, por ter passado pela função de 2º
Vigilante e atualmente como 1º Vigilante me perguntam (Aprendizes e Companheiros) o porquê desta diferença/mudança para os outros Ritos.

O Irmão poderia explicar o porquê desta mudança do REAA ou indicar uma literatura?

 

CONSIDERAÇÕES.

 

Lamentavelmente esse ritual de 1972 do GOB é um verdadeiro atentado contra a liturgia e a ritualística original do REAA. O de 1988 melhorou um pouco, mas deixou muito a desejar.

Para que se possa compreender essa indevida inversão de colunas vestibulares no escocesismo, é preciso antes entender que nos ritos Moderno e Adonhiramita essas colunas de fato são invertidas em relação ao que é usado no escocesismo.

Originalmente no REAA a Coluna B∴ fica à esquerda de quem entra e a Coluna J∴ à direita (como descrito em Reis). Já nos Ritos Moderno e Adonhiramita, J∴ fica à esquerda e B∴ à direita.

A explicação para essa inversão é porque na França esses dois ritos, através do Grande Oriente da França seguiam a forma com que os Modernos ingleses da Premier Grand Lodge (1717) de Londres dispunham as colunas vestibulares (J e B). É notório que os Modernos da Primeira Grande Loja londrina fizeram alterações drásticas na forma antiga de trabalho para fugir das exposures (revelações) que apareciam cada vez dos jornais londrinos da época e revelavam como os maçons trabalhavam em suas lojas.

Essa forma alterada de trabalho fez com que surgisse mais tarde na Inglaterra uma Grande Loja rival que combateria essas alterações e assim se autodenominaria como “Antiga” por preservar, segundo eles, os costumes originais, enquanto que pejorativamente, chamava a primeira Grande Loja de “Moderna” por ter alterado a antiga forma de trabalho.

Isso é um detalhe importante na história, até porque na época existiam na França duas vertentes de Maçonaria, a do Grande Oriente da França que era ligado aos “Modernos” da Inglaterra (daí o nome de rito Moderno) e a outra, que era livre e não se submetia às influências da Primeira Grande Loja inglesa. Essa vertente livre nascera no Norte da França no século XVII e esteve ligada ao séquito dos Stuarts (Reis Católicos da Inglaterra), cuja viúva de Carlos I, Henriqueta de France, recebera do rei Luís XIV exílio em Saint-Germain-en-Laye. Vertente maçônica ligada aos Antigos que faziam oposição aos Modernos, ela acabaria dando origem ao escocesismo, sistema de altos graus que mais tarde culminaria no Rito de Perfeição (Heredon) e por fim no rito Antigo e Aceito que ficaria universalmente conhecido como Rito Escocês Antigo e Aceito.

O adjetivo “escocês” ocorreu porque a família dos Stuarts, era natural da Escócia. Essa família, conhecida no contexto como Reis Católicos, esteve no trono da Inglaterra por diversas vezes. A rainha Henriqueta era a esposa de Carlos I, então decapitado em 1649 durante a revolução puritana de Cromwell. Foi por esse motivo que a rainha acabou se exilando na França - esses são conhecimentos básicos para se entender o que é o escocesismo na Maçonaria.

No que diz respeito às Lojas rivais, Antigos e Modernos, para melhor entendimento sobre o assunto, sugiro perscrutar a história da Maçonaria Inglesa e a sua influência na França. Esses pormenores são importantes porque eles ajudam, no final e em muitos casos, explicar a liturgia e a ritualística particular de cada rito dessas vertentes, aqui em especial a do REAA.

É bom que se diga que os ritos maçônicos trazem muitas diferenças entre eles quando se trata de liturgia e ritualística. É o caso, por exemplo, das Colunas B∴ e J∴ que aparecem dispostas de uma maneira em alguns ritos e de outra em outros ritos. Do mesmo modo, invertem-se também a posição dos Vigilantes conforme o rito, e por aí vai.

No que diz respeito à disposição das Colunas Vestibulares, tomando-se por base três ritos de origem francesa, como o REAA, o Moderno e o Adonhiramita, logo percebe-se que em relação a posição esquerda e direita de quem ingressa no templo, no REAA a Coluna B∴ fica à esquerda e a J∴ à direita, enquanto que nos outros dois ritos as colunas se encontram dispostas de modo invertido, ou seja, J∴ à esquerda e B∴ à direita.

Observe-se também que a disposição J∴ (esquerda) e B∴ (direita) ocorre na vertente francesa dos chamados “Modernos”, enquanto que B∴ (esquerda) e J∴ (direita) ocorre na vertente francesa, mas do escocesismo, onde muitos costumes se relacionam com os “antigos”, livres e aceitos.

Comentados esses aspectos relacionados à inversão das duas Colunas Vestibulares, outro detalhe importante a ser ressaltado é que o REAA, o Moderno e o Adonhiramita são todos ritos nascidos no hemisfério Norte. Esse é um importante detalhe que serve para explicar que independentemente de como estejam dispostas as Colunas Vestibulares e os Vigilantes no templo, os Aprendizes sempre ocuparão a Coluna do Norte e os Companheiros a do Sul. Nesse caso, a observação do Sol na sua eclíptica é necessariamente feita do hemisfério Norte da Terra e é ela que define e explica muitas das disposições de elementos na Loja.

O que de fato regula a posição dos Aprendizes e Companheiros na Loja não são as Colunas B∴ e J∴, mas o hemisfério em que o rito correspondente nasceu. As colunas podem até se inverter conforme a vertente maçônica, mas os Aprendizes e Companheiros nunca quando se tratar de rito originário do Hemisfério Norte.

O porquê dos Aprendizes no Norte e Companheiros no Sul – Do ponto de vista do hemisfério Norte, quanto mais ao Norte alguém estiver, mais afastado ele estará do Equador, isso quer dizer que devido a esse afastamento o topo do Norte acaba recebendo menos luz do Sol.

Assim, os ritos maçônicos nascidos no Norte se valem dessa alegoria solar - haurida dos cultos solares da Antiguidade - para iniciáticamente definir o lugar dos Aprendizes e dos Companheiros no templo. Desse modo, os Aprendizes, representando a infância e por estarem no início da jornada, portanto com menos conhecimento, ocupam o Norte do templo onde simbolicamente há menos luz. Já os Companheiros, representando a juventude, portanto mais instruídos, ocupam o Sul do templo onde simbolicamente há mais luz. Nesse contexto, a luz simboliza conhecimento, esclarecimento, aperfeiçoamento, etc.

Vale mencionar que a banda Sul é aparentemente mais iluminada devido ao movimento aparente do Sol na sua eclíptica. Isso pode ser facilmente constatado nos Painéis do 1º e 2º do Grau quando observamos que nele há três janelas que indicam a passagem da luz, uma situada no Oriente, outra ao Sul e ainda outra no Ocidente. O detalhe é o de que no Norte não há janela porque no seu movimento aparente, quem estiver no Norte vê o Sol passra pelo Sul. Graças a essa distribuição solar, do ponto de vista do setentrião, é que o Sul, desde os tempos bíblicos ficou também conhecido como Meio-Dia (hora mais iluminada).

Desse modo é possível explicar do porquê que em qualquer circunstância, em se tratando dos Ritos Moderno, Adonhiramita e Escocês Antigo e Aceito, os Aprendizes sempre ocuparão o Norte e os Companheiros o Sul, mesmo que haja inversão de Colunas Vestibulares e de Vigilantes nos dois primeiros mencionados.

Nesse contexto cabe mencionar que a Maçonaria Brasileira é filha espiritual da França. Isso porque os dois primeiros ritos regulares por aqui praticados foram o Rito Francês (Moderno), e o Rito Adonhiramita, em 1801. O REAA, que também é de origem francesa, somente chegaria oficialmente ao Brasil no ano de 1832.

Em relação à ritualística primitiva do REAA, cabe registrar que ele somente teve o seu primeiro ritual para o simbolismo em 1804 na França. Esse ritual, embora ainda de construção rudimentar, já em 1816 teria que se adaptar ao sistema capitular de Lojas, formato então criado pelo Grande Oriente da França onde o Athersata, dirigente do Capítulo Rosa Cruz (Grau 18 do REAA) era também o Venerável Mestre do simbolismo. Na realidade, tudo ocorria em Loja Capitular, razão pela qual criou-se o Oriente elevado e dividido no REAA para acomodar o santuário Rosa Cruz. Nessa época só ingressavam no Oriente os portadores do 18º Grau. Quando tudo isso acabou, o Oriente permaneceu elevado e separando, ficando reservado apenas aos Mestres Maçons e aos ex-Veneráveis.

Esses acontecimentos - que merecem ser estudados amiúde - colaboraram para o aparecimento logo em 1820/21 de um guia denominado Guia dos Maçons Escoceses, cujo qual já alterava em muitos pontos a estrutura do primeiro ritual nascido em 1804.

Na verdade, esse guia romperia com a originalidade, ainda que incipiente, do primeiro ritual, principalmente para se adaptar à liturgia capitular, pelo menos enquanto ela durasse.

Mais tarde, após a definitiva extinção das Lojas Capitulares, desafortunadamente muitos costumes do Capítulo acabariam ficando enraizados nos rituais do simbolismo do REAA. Assim, iniciava-se a sofrida trajetória de enxertos e acomodações nos rituais do simbolismo do REAA.

Alerto que para se entender o trajeto da paulatina construção dos rituais do simbolismo do REAA é necessário antes estudar (em fonte de água limpa) a história do primeiro ritual e os elementos que influenciaram a sua construção na França. Fica aqui a dica (muito a respeito pode ser encontrado no Blog do Pedro Juk em http://pedro-juk.blogspot.com.br).

Não obstante as alterações que ocorreriam por conta do que foi comentado, também no Brasil, por ocorrências históricas, os rituais simbólicos do escocesismo acabariam sofrendo ao longo dos séculos XIX e parte do XX toda a sorte de enxertos oriundos de outros ritos, principalmente dos ritos Moderno e Adonhiramita que por aqui já vinham sido praticados desde 1801 sob os auspícios do Grande Oriente da Ilhe de France, e do Grande Oriente Lusitano – o GOB somente apareceria em 1822.

Esses registros ritualísticos desencontrados podem até parecer compreensíveis em se levando em conta as dificuldades naturais advindas dos primórdios da Maçonaria brasileira, sobretudo pela falta de comunicação em uma época ainda distante das evoluções tecnológicas da comunicação. Nessa época os rituais eram compilados em simples folhas avulsas de papel e traziam um conteúdo bastante reprovável em termos de originalidade. Fazer o quê? Era o que tinha.

Além disso, ainda outros fatores no decorrer dos tempos iriam colaborar para a proliferação de muitos textos ritualísticos anacrônicos e suspeitos na sua originalidade.

Além do sistema capitular que também ingressaria no Brasil, a partir de 1854 a Maçonaria Brasileira passaria a ser comandada por um Soberano Grande Comentador do Grau 33 do REAA. Isto é, o Soberano Grande Comentador era também o Grão-Mestre Geral da Maçonaria Brasileira. Isso duraria aproximadamente até 1954 quando o GOB voltaria a essencialmente uma obediência simbólica.

Essa ingerência do Supremo Conselho do REAA no simbolismo não agradou os demais ritos aqui praticados, sobretudo pelo trato desprezível que era dado à liturgia e a ritualística dos três primeiros graus.

Em resumo, mais rituais contraditórios à originalidade de cada rito apareceriam. Entenda-se que o Rito Moderno possuía 7 graus e tinha sua Oficina Chefe, assim como o Adonhiramita com seus 13 graus. Todos comandados por um Soberano do REAA com 33 graus. Por certo que isso nunca daria certo. Por oportuno, é bom lembrar que também já transitava por aqui o Rito de York.

Assim, sem nenhum critério a maioria dos rituais eram elaborados misturando práticas e costumes que se somavam ainda às invencionices e aos achismos.

No início do segundo quartel do século XX viria, em 1927, a primeira grande cisão da Maçonaria no Brasil. Diante desses fatos, mais rituais seriam então elaborados e cada um deles geralmente construídos com práticas estranhas a originalidade do rito.

Agora com duas Obediências constituídas, o REAA no Brasil teria rituais para as Grandes Lojas e outros para o GOB. Infelizmente, entre eles persistiam diferenças, muitas delas hauridas por conta de reconhecimento. Por exemplo, muitas práticas das Blue Lodges norte-americanas acabariam indevidamente enxertadas nos rituais do REAA.

Muitas dessas indevidas inserções perduram até hoje e são visíveis pelas diferenças encontradas entre alguns rituais de um mesmo rito, mas de Obediências distintas.

Em 1972/73 aparece então a segunda grande cisão na Maçonaria brasileira, oportunidade em que vem a luz uma nova obediência maçônica, esta então composta por Orientes Independentes. Com isso, a obediência que acabara de florescer passava a elaborar os seus próprios rituais.

A Maçonaria Brasileira, agora com três Obediências regulares, o GOB, a CMSB, e a COMAB, passava a se servir de mais rituais editados para um mesmo rito, mas ainda com muitos procedimentos ritualísticos diferenciados.

Há que se destacar que essa profusão de rituais de um mesmo rito, mas com visíveis diferenças de procedimentos conforme a Obediência, acabaria produzindo mais elementos contraditórios nos trabalhos das Lojas, sobretudo quando Irmãos mudam de Obediência e levam consigo costumes muitas vezes contraditórios ao ritual da Obediência que os recebeu e insistem indevidamente a alterar o previsto no ritual. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, muitas dessas inserções acabam sendo adaptadas quando da impressão de novos rituais.

Assim, a Maçonaria regular brasileira acabou produzindo uma enorme quantidade de rituais, contudo na sua grande maioria de originalidade suspeita. Um exemplo disso são esses dois rituais citados na questão. Sem medo de errar, eles são produtos dessa situação criada principalmente no modo latino de fazer Maçonaria, onde graças aos carimbos e convenções, para muitos somente vale o que está escrito, não importando se o que está escrito esteja certo ou errado.

Enfim, cada rito foi construído sobre uma base doutrinária, portanto, muitos elementos simbólicos e alegóricos têm nele finalidade única. É preciso perscrutar a chave dessa construção para compreender seus propósitos doutrinários. Boa parte dos ritos maçônicos são solares. Alguns possuem caráter ou deísta, ou teísta ou ainda agnósticos. Desse modo os elementos simbólicos e topográficos se distribuem na decoração do Templo de tal modo que eles façam sentido na mensagem proposta.

O Rito de York, rito de origem anglo-saxônica, por exemplo, é teísta por excelência. Nele a Pedra Bruta fica junto ao 2º Vigilante no Sul, no entanto, os seus Aprendizes ocupam o lado nordeste da Loja. Já nos ritos Moderno, Adonhiramita e REAA, a Pedra Bruta fica do mesmo lado em que os Aprendizes sentam, ou seja, no Norte. As Colunas Zodiacais, marcam as constelações do Zodíaco na base da abóbada do REAA. Elas marcam a senda do iniciado em busca de aperfeiçoamento. No princípio, o Zodíaco era representado apenas na base da abóbada. Não haviam Colunas Zodiacais. Elas só apareceriam mais tarde como opção de representar os ciclos iniciáticos comparados aos ciclos da Natureza. A propósito no Blog do Pedro Juk poderão ser encontradas muitas referências sobre as Colunas Zodiacais e os topos das Colunas do Norte e do Sul.

Então, antes de tentar identificar o que é certo ou errado nesse oceano de rituais brasileiros, recomento antes compreender a proposta do Rito, sua história, sua cultura, sua formatação iniciática, etc. Compreendido esse particular o caminho certamente se tornará mais claro para que se possa separar o joio do trigo.

Ao concluir posso lhe assegurar que o GOB em 1996 deu um grande passo na purificação dos seus rituais do REAA, conseguindo extirpar grande parte dos enxertos e invenções que os descaracterizavam. Assim, o ritual de 2009 em vigência, orientado pelo SOR, Sistema de Orientação Ritualística criado pelo Decreto 1784/2019 do Grão-Mestre Geral é o que se tem de melhor no momento para o escocesismo no GOB. Ao contrário do que muitos pensam, não houve mudanças, porém, correções e volta à originalidade. É verdade que muito ainda precisa ser feito. Foi com esse propósito que o SOR foi elaborado, ou seja, para ser aplicado sobre os atuais rituais em vigência.

T.F.A.

 

PEDRO JUK

jukirm@hotail.com

http://pedro-juk.blogspot.com.br

 

 

FEV/2023

 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

REAA - POSTURA NA CONDUÇÃO DA BOLSA PELO MESTRE DE CERIMÔNIAS E HOSPITALEIRO

Em 06.10.2022 o Respeitável Irmão Francisco Kennedy C. de Souza, Loja Estrela da Fronteira, 2024, REAA, GOB-MS, Oriente de Mundo Novo, Estado do Mato Grosso do Sul, apresenta a dúvida seguinte:

 

CONDUÇÃO DA BOLSA DE PROPOSTAS E INFORMAÇÕES.

 

Novamente me dirijo aos teus conhecimentos para sanar uma dúvida. Estou ocupando o cargo de Mestre de Cerimônias e minha postura ao conduzir o Saco de PProp∴ e IInf∴, desde o momento em que me levanto até retornar a meu assento, faço a condução do mesmo portando com as duas mãos no lado esquerdo.

Entretanto, me informaram que quando me dirijo ao Altar do Venerável Mestre para ser conferido o seu conteúdo e que também após esse momento onde me dirijo a minha cadeira eu deveria portá-lo com apenas uma das mãos a minha frente ou a minha esquerda.


CONSIDERAÇÕES.

A condução das bolsas, tanto a de PProp∴ e IInf∴, assim como a do Tr∴ de Benef∴, é feita por cada titular com as duas mãos, trazendo-a aberta e colada junto ao quadril esquerdo. No momento da coleta o titular, com discrição, oferece a bolsa na forma de costume.

            Portando a bolsa, andando ou parado, a atitude corporal do titular é sempre a mesma. Dispensa-se essa postura apenas quando os titulares, após terem cumprido cada qual a sua missão, estiverem retornando aos seus lugares. Nessa ocasião permite-se a condução normal do recipiente, podendo ser apenas com a mão direita.

A maneira de conduzir a bolsa junto ao quadril esquerdo vem das igrejas cristãs francesas do século XVII e XVIII, principalmente. Nelas havia um personagem denominado “esmoler ou hospitalário” que trazia consigo uma grande bolsa (saco) presa à tiracolo da direita para a esquerda. Ele se apresentava ao final das missas oferecendo a bolsa aos fiéis no intuito de colher donativos em dinheiro para serem destinados aos necessitados.

Logo, a Maçonaria Francesa, cumprindo a virtude teologal da caridade, instituiu em alguns dos seus ritos uma pequena bolsa para arrecadação de óbolos entre os seus membros. Assim, o Hospitaleiro, nome dado ao oficial coletor de óbolos, ao oferecer com discrição o recipiente seguro pelas duas mãos pelo seu lado esquerdo, de certa forma copiava o gestual do antigo esmoler que atuava nas portas das igrejas.

Na intenção de uniformizar os procedimentos, a mesma postura corporal utilizada pelo Hospitaleiro na coleta do óbolo, também seria adotada para o Mestre de Cerimônias quando no exercício de coletar propostas e informações dos obreiros.

É graças a isso que no REAA, rito de origem francesa, o Mestre de Cerimônias e o Hospitaleiro no exercício dos seus ofícios se portam dessa forma, parados ou andando, durante as respectivas coletas (imitam a velha bolsa à tiracolo).

Outras orientações a respeito podem ser encontradas no SOR - Sistema de Orientação Ritualística que é o mecanismo de orientação oficial do GOB implantado em 2019 pelo Decreto 1784/2019 do Grão-Mestre Geral.

 

 

T.F.A.

 

 

PEDRO JUK – SGOR/GOB

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogspot.com.br

 

 

FEV/2023

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

MARCHA DO APRENDIZ NO REAA E A POSIÇÃO DOS PÉS

Em 01.10.2022 o Respeitável Irmão Arimar Marçal, Loja Santo Graal, 4690, REAA, GOB -RS, Oriente de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, apresenta a seguinte questão:

 

MARCHA DO APRENDIZ

 

Para onde aponta (Oriente ou mais ou menos para o Tesoureiro) o pé esquerdo na Marcha de Aprendiz no REAA.

Mais uma vez venho pedir socorro numa questão ritualística que gerou um debate (salutar) em nossa Oficina.

No Tempo de Estudos (previamente agendado) um Irmão levantou a questão da Marcha do Aprendiz e que esta tinha sofrido “uma alteração” no SOR inclusive citando um artigo seu onde confirmava esta “mudança”.

A mudança consistiria no ângulo dos pés que em vez do pé esquerdo apontar para a luz
(Oriente) deveria apontar para a Coluna do Norte e o pé direito para a Coluna do Sul, formando um estranho ângulo (parecido com os pés do Charles Chaplin) e que assim o Aprendiz deveria marchar, seguindo a linha do rejunte do piso e não a interseção do mosaico como aprendi.

Entendo que o piso mosaico da Loja é disposto na forma diagonal e que a marcha segue a linha da Luz (Oriente) justamente na Linha imaginaria do Equador que seria a interseção da cerâmica mosaica, mas, sempre seguindo em Linha Reta.

Argumentei que enquanto não viesse uma Determinação Oficial do SOR, continuaríamos seguindo o que consta no Ritual de Grau 1 (2009), até por uma questão de prudência da Oficina.

Conforme determina o próprio Ritual em sua página 12 que proíbe atos, procedimentos ou permissões que ali não constem e também como A QUARTA INSTRUÇÃO DO GRAU 1 (pág. 164) que expressa:

“Deveis estar perfeitamente ereto, formando com os pés uma esquadria, pé esquerdo voltado para a frente. Avançai agora com o pé esquerdo juntando em seguida ao seu calcanhar o calcanhar do pé direito.

Este é o primeiro Passo Real da Maçonaria e é nesta posição que se comunicam os segredos do grau

Como nossa intenção é sempre aprender e ensinar de forma correta os que estão chegando, valho-me de seu conhecimento para dirimir mais esta dúvida.

 

CONSIDERAÇÕES

 

Inicialmente eu gostaria de alertar que o SOR – Sistema de Orientação Ritualística é um mecanismo oficial do GOB e está à disposição dos Irmãos gobianos na página do GOB.

                   O SOR foi instituído pelo Decreto 1784/2019 do Grão-Mestre Geral e publicado no Boletim sob o nº 31 em outubro de 2019. Seu conteúdo é para ser aplicado sobre os rituais do GOB.

Não obstante essas iniciais colocações, vale ainda mencionar que o guardião dos rituais do GOB é apenas e tão somente o Grão-Mestre Geral, cabendo exclusivamente a ele expedir Atos e Decretos pertinentes a alterações, correções e orientações nos rituais. Isso é ponto pacífico.

Feitos esses comentos iniciais, é preciso que olhemos para questões ritualísticas de maneira ampla, sobretudo naquilo que envolve originalidade e principalmente o seu significado.

É notório que nem tudo o que consta nos rituais oficiais está de acordo com a aplicação doutrinária correta do Rito. Aqui no Brasil, por conta de circunstâncias históricas, particularmente o REAA sofreu muitas intervenções indevidas, ao ponto de ser comparado a uma colcha de retalhos, tal a quantidade de enxertos de práticas oriundas de outros ritos – sem falar das invencionices.

Graças a isso é que o ideário iniciático do REAA foi assaltado por práticas deturpadas e sem sentido para a sua liturgia iniciática. Somado a isso ainda há a turma do “acha bonito”, comumente conhecida como “os achistas”. O resultado disso muitas vezes tem sido um amontoado de práticas que não fazem sentido para o arcabouço doutrinário do rito. No final as ervas daninhas nascidas do enxerto e do achismo se tornaram verdadeiras carcaças de dinossauro – são difíceis de consumir.

Nessa conjuntura, no que diz respeito à Marcha do Grau, o equívoco está principalmente na posição dos pés e na forma de se deslocar (andar). Nesse caso, a posição dos pés, um apontado para frente e outro para o lado (parece caminhando de lado) foi indevidamente copiada de outros ritos.

No REAA essa posição equivocada do pé apontado para frente se firmaria ainda mais porque por muitos anos determinados rituais traziam o Pavimento Mosaico construído na forma de um tabuleiro de xadrez (juntas do piso a Norte-Sul e Leste-Oeste), o que não é próprio do escocesismo. Nesse contexto, salvo alguns abnegados, desafortunadamente ninguém sequer reparava nesse importante detalhe, ignorando assim por completo que o pavimento serve também para regular os passos.

Outro detalhe no REAA que passava completamente despercebido era o do Pavimento Mosaico, então construído na forma de um tabuleiro de xadrez. Em muitas Lojas, para piorar, ele ocupava apenas um reduzido espaço ao centro do Ocidente, conquanto o correto seria cobrir todo o piso ocidental da Loja.

Tudo isso, mais as práticas enxertadas de outros ritos, faria com que paulatinamente se consolidasse no REAA essa posição indevida dos pés, onde um deles fica apontado para frente (Leste) e outro literalmente para o lado esquerdo (Sul). Não há dúvidas que há ritos que adotam essa disposição, porém nunca no REAA.

                 Como em 2009 a disposição correta (oblíqua) do Pavimento Mosaico apareceu na Planta do Templo do Ritual de Aprendiz do REAA do GOB, felizmente boa parte desse equívoco começava a ser solucionado, no entanto faltava ainda ajustar a disposição dos pés na formação da esq∴, bem como a forma de se caminhar nas Marchas de Aprendiz e de Companheiro.

Felizmente, com a criação do SOR por Decreto do Soberano Grão-Mestre Geral em 2019, foi então dada a possibilidade de se corrigir a anomalia ritualística de apontar o p∴ esq∴ para a frente durante os pp∴ do grau no REAA.

Acredito que por desconhecimento do Sistema de Orientação Ritualística oficial do GOB, muitos Irmãos entenderam que isso foi uma alteração inaceitável, pois confrontava o previsto no ritual. Na verdade, não houve desrespeito ao ritual, mas amparado pelo SOR, o que houve foi um retorno à forma original, ou seja, dar os passos na forma de costume com o protagonista posicionado de frente para o Oriente, não de lado.

 

Nesse sentido, a disposição dos pés durante a execução da Marcha tem como referência (nada meticulosamente medido) o piso disposto de modo oblíquo, diferente, por exemplo, do Rito Moderno e do Adonhiramita que adotam o Pavimento organizado na
forma de um tabuleiro de xadrez.

                     Conforme mencionam autores autênticos como Theobaldo Varolli Filho, Jules Boucher, José Castellani, René J. Chalier, dentre outros, cada quadrado que compõe o Pavimento Mosaico serve também para regular cada um dos passos dados normalmente, ou seja, anda-se de maneira natural, sem arrastar os pés. Nessa conjuntura a intersecção das juntas oblíquas do piso correspondem a junção dos pp∴ pelos ccalc∴ em esq∴.

Nessa condição e sem o exagero de comparação com a forma de andar de Charlie Chaplin interpretando Carlitos no cinema, figuradamente n Marcha o pé esquerdo fica apontado para a banda nordeste do templo e o direito para sudeste. O protagonista, sobre o equador do templo anda de forma mais natural possível, apenas ajusta os seus pés em esq∴ de acordo com as juntas do Pavimento quando unir os pés a cada passo. Anda de frente para o Oriente.

No REAA o Pavimento Mosaico representa o solo terrestre. Historicamente o Rito teve o seu primeiro ritual para o simbolismo em 1804 na França, ritual esse que não tardou a sofrer modificações em 1820/1821 por conta do Guia dos Maçons Escoceses e as Lojas Capitulares.

Nos tempos primitivos dos rituais do REAA, não existia Pavimento Mosaico e nem existia marcha por grau da forma como conhecemos e praticamos nos dias de hoje. Os passos não eram divididos por grau. Exigia-se do iniciado simplesmente que ele desse em direção ao Mestre oito passos “normais”.

Posteriormente, após a extinção das Lojas Capitulares e a renovação e aperfeiçoamento dos rituais, os oito passos normais foram divididos e distribuídos pelos três graus, de tal modo que nos dois primeiros graus os passos tem relação direta com o Pavimento Mosaico, enquanto que no terceiro os passos simulam o movimento aparente do Sol com seus solstícios e equinócios.

Espero que essas colocações tenham sido suficientes para explicar algumas das condutas ritualísticas corretas para a execução da Marcha do Aprendiz no REAA.

 

 

T.F.A.

 

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogspot.com.br

 

 

FEV/2023

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

REAA - DÚVIDAS SOBRE O INGRESSO NO TEMPLO DO COBRIDOR INTERNO E O MESTRE DE HARMONIA

Em 01.10.2021 o Respeitável Irmão Roberto Aparecido dos Santos, Loja Consciência, Justiça e Perfeição, 2731, REAA, GOB-SP, Oriente de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, pede esclarecimentos para o que segue:

 

INGRESSO NO TEMPLO – DÚVIDAS.

 

Peço ao irmão esclarecimentos sobre dúvidas que surgiram em nossa sessão.

Estamos organizando a entrada do templo da seguinte forma:

Todos os irmãos ficam na sala dos passos perdidos onde, pedimos silêncio e nos organizemos para a entrada ao Átrio (sempre enfatizando o silêncio) e posteriormente ao Templo.

Neste momento o Cobridor Interno e o Mestre de Harmonia também estão na sala dos passos perdidos.

Ao convidar os Irmãos a adentrarem ao Átrio o Cobridor Interno e o Mestre de Harmonia adentram ao Templo diretamente (Preparando o início da música e abertura da porta) e os demais aguardam no Átrio sempre em silêncio a entrada do cortejo.

O costume antes era o Cobridor Interno e o Mestre de Harmonia já aguardar dentro do templo, sem esperar na Sala dos Passos Perdidos a entrada ao Átrio.

Pergunto:

Qual dos dois procedimentos está correto?

No aguardo, antecipadamente agradeço.

Muito obrigado

 

CONSIDERAÇÕES.

 

Qualquer uma das duas situações relatadas na questão acima é aceitável.

Assim, o Cobridor Interno e o Mestre de Harmonia podem ingressar antes mesmo da formação do préstito no átrio, isto é, indo direto da sala dos passos perdidos para dentro do templo, ou podem ingressar quando o préstito estiver sendo organizado no átrio pelo Mestre de Cerimônias.

De tudo, o importante é que antes do ingresso do préstito conforme previsto no SOR, os dois oficiais mencionados já estejam no interior do templo para cumprir cada qual o seu dever de ofício - abrir a porta e fazer soar música apropriada.

Vale comentar que na sala dos passos perdidos não há formalidades ritualísticas. Não se exige silêncio absoluto, pois dentre outros, como sala de espera, é o lugar onde os Irmãos aguardam informalmente o momento de se dirigirem ao átrio para formar o préstito de entrada.

                 Obviamente que as conversas, cumprimentos, paramentação, avisos, etc., naturais na chegada dos Irmãos da rua para os trabalhos maçônicos devem ser recatados e sem piadas e algazarras, evitando enquanto esperam, discussões de assuntos profanos assim como exageros na intensidade das falas.

A prática mais comum nessa ocasião é a de que no momento apropriado o Mestre de Cerimônias convoque todos, já paramentados e vestidos conforme a legislação para que indistintamente se dirijam da sala de espera até o átrio, lembrando que a composição da Loja (distribuição das joias) e a formação do préstito conforme o ritual ocorrem no átrio e não na sala dos passos perdidos. Da sala dos passos perdidos para o átrio não existe nenhum cortejo ordenado ou uma regra ritualística.

Exigir condutas ritualísticas, tais como em silêncio formar dispositivos sequenciais para deslocamentos da sala de espera até o átrio é algo desnecessário e carregado de preciosismo. Não vamos confundir disciplina e educação com liturgia e ritualística.

Nesse contexto, cabe relatar que a denominação “passos perdidos” dados à sala de espera do templo, não possui nenhum caráter iniciático, misterioso ou esotérico. Essa denominação é originária do parlamento britânico, onde nele existe uma sala de espera para audiências com o primeiro ministro. As pessoas que ali aguardam pela dita audiência, geralmente, para passar o tempo ficam a caminhar de um lado para o outro. Figuradamente, esses passos dados a esmo (ao acaso; sem rumo) acabariam conhecidos como “passos perdidos”. Nada a estranhar essa relação com a Moderna Maçonaria, já que esta nascera com a fundação da Primeira Grande Loja em Londres no ano de 1717, e logo acabaria recebendo no seu seio vários elementos ligados à realeza e ao parlamento britânico.

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

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FEV/2023