Em 05/04/2026 o Respeitável Irmão Francisco Phelipe Gomes Pontes, Loja Jesus Sales de Andrade, 4863, REAA, GOB-CE, Oriente de Varjota, Estado do Ceará, apresenta as seguintes questões:
DIFERENÇAS RITUALÍSTICAS
Grande Irm∴ Pedro Juk, venho desta vez indagar:
1° Qual a origem do primeiro rastro da Maçonaria no mundo?
2° Qual o primeiro Rito que se tem ideia no mundo?
3° Qual o motivo da diferença de ritualísticas existentes entre o REAA praticado pelo GOB e COMAB e o Rito REAA praticado pelas Grandes Lojas?
4° No mundo o REAA caminha do mesmo jeito que praticamos no GOB ou nas Grandes Lojas?
5° O primeiro ritual dos graus simbólicos REAA
surgido no Brasil é oriundo de qual potência ou
influência?
6° O Ritual dos graus simbólicos elaborado pelo Conde Grasse Tilly foi baseado em três no livro três batidas distintas?
7° Todos os ritos existentes hoje se dividem entre a Maçonaria Dissecada ou as três batidas distintas, ou seja, na briga entre os antigos e os modernos?
CONSIDERAÇÕES
1 – Como corporação de ofício organizada, a “arte de construir” somente apareceu no século VI a.C. com os Collegiati (Collegia Fabrorum). Essas corporações de ofício foram instituídas pelo imperador romano Numa Pompílio.
Formada por construtores, ela acompanhava as legiões romanas durante as conquistas territoriais. A sua função era reconstruir o que eventualmente fosse danificado, ou destruído, pelas atividades belicosas.
Mais tarde, por volta do século X, iriam aparecer as Associações Monásticas, organizações formadas exclusivamente por clérigos que edificavam para a Igreja Católica. Esses monges construtores eram detentores do conhecimento da arte da construção, em pedra calcária.
No século XI, com a expansão dos domínios da Igreja, notadamente depois do ano 1000, já que o mundo, como preconizado não havia acabado, eram criadas as Confrarias Leigas, cujo desiderato era de suprir o déficit de mão de obra pela alta demanda de trabalho - como o mundo não havia passado pelo juízo final no ano 1000, os homens correram para louvar e agradecer a Deus construindo cada vez mais imensas catedrais.
Em resumo, os clérigos construtores das Associações Monásticas passaram a ensinar leigos na “arte de construir”, no caso, para construir igrejas, mosteiros, abadias e catedrais.
É por volta do final do século XI que aparecem as Guildas de Artesãos, dentre elas a dos construtores medievais. Historicamente, deve-se às Guildas o uso da palavra Loja. Elas foram elementos fundamentais na construção da história da Maçonaria.
É aproximadamente no século XIII que aparece a associação de pedreiros mais importante daquela época, a Franco-maçonaria. Como corporação de ofício, ela era formada por profissionais da cantaria que usavam a pedra calcária como matéria prima. Seus membros, os franco-maçons, eram profissionais privilegiados e tinham proteção direta da Igreja Católica. Esses profissionais gabaritados eram contratados pelo clero para construir Igrejas e Catedrais. Nessa conjuntura, a palavra franco, que se opunha ao que era servil, também designava liberdade de locomoção e isenção dos impostos feudais e eclesiásticos. Assim, essa organização privilegiada de profissionais floresceu e alcançou grande prestígio. Uma marca especial dos franco-maçons era a aplicação do “estilo gótico” nas suas edificações.
Mais tarde, por questões de mudanças sociais, políticas e religiosas, a Franco-maçonaria passa a sofrer perseguições, inclusive do próprio clero, seu antigo protetor. Com o advento do Renascimento, o estilo gótico é relevado a segundo plano. Assim, tudo isso fez com que a Maçonaria de ofício fosse paulatinamente caindo em declínio, ao ponto de que no século XVII, em outubro de 1600, na Chapell Mary’s Lodge, em Edimburgo na Escócia, fosse admitido, com o fito de proteção financeira à Loja em decadência, o primeiro maçom aceito que se tem registro na história. Trata-se de Ir∴ John Boswell, um nobre latifundiário na região, que de fato não era um “pedreiro”.
Graças a isso, em 1600 é inaugurada a Maçonaria dos Aceitos, ou Especulativa. Esse novo formato iria se desenvolver paulatinamente até o desaparecimento total da Maçonaria Operativa, ou de Ofício.
É a partir desse período que os maçons especulativos, ou aceitos começam a se reunir em Lojas organizadas nas tabernas e cervejarias, notadamente na Inglaterra.
Desse modo, a 24 de junho de 1717, em Londres, por influência de Jean Théophile Désaguliers, quatro Lojas das cervejarias o Ganso e a Grelha, a Macieira, o Copázio e as Uvas e a Coroa, se reúnem para fundar a Primeira Grande Loja de Londres e Westminster, sendo esse o registro de nascimento da Moderna Maçonaria, formada somente por maçons aceitos.
Inaugurava-se assim o primeiro sistema obediencial do mundo, onde aparecia a figura de um Grão-Mestre.
Esta é uma síntese da história da Maçonaria até a fundação da Premier Grand Lodge, no dia de São João, o Batista.
2 – Ritos maçônicos fazem parte da Maçonaria Especulativa e, por extensão, da Moderna Maçonaria. Não se fala em ritos maçônicos nos períodos primitivos da Maçonaria Operativa.
Entende-se que o principal desenvolvimento ritualístico na Maçonaria ocorreu paulatinamente na Inglaterra, Escócia e Irlanda, seguido da França e norte da Alemanha. Não como um rito propriamente dito, mas como uma forma especulativa de trabalho (liturgia e ritualística) construída para os maçons aceitos, dentro das Lojas. É bom que se diga que o primeiro templo maçônico do mundo foi o do Freemason’s Hall, em Londres na Inglaterra, o qual teve a sua pedra angular cravada em maio de 1775, e a sua inauguração e consagração a 23 de maio de 1776.
Se nos tempos operativos o artífice era feito maçom em um canteiro de obras, no período Especulativo os maçons passavam a ser iniciados através de uma liturgia sigilosa que ocorria coberta, dentro de uma Loja oficialmente consagrada para os trabalhos maçônicos.
É depois do Ato de União, em novembro de 1813, que se encerram definitivamente as escaramuças entre os Antigos e os Modernos pertencentes às duas Grandes Lojas rivais (vide essa história na Inglaterra).
Dessa união, construída passo a passo por quase cem anos, é que surge, no ano de 1813, a Grande Loja Unida da Inglaterra. Concomitante aos trabalhos para a sua fundação, também é apresentado por uma Loja Especial de Promulgação (1809-1811), o restabelecimento dos Landmarks e a nova forma de trabalho (working). Essa demonstração ficou inicialmente a cargo dos Stwards e depois, a partir de 1823, pela Emulation Lodge of Improvement.
Assim, o working, ou o Craft (a Arte), se desenvolveria conforme o trabalho ritualístico inglês, sendo a vertente anglo-saxônica de Maçonaria.
No que diz respeito à Maçonaria francesa (vertente latina de Maçonaria), sabe-se que inicialmente ela foi instituída pela Maçonaria Inglesa, ligados à Primeira Grande Loja em Londres, não obstante mais tarde ela tenha desenvolvido características próprias, hauridas principalmente do caráter deísta e mesmo agnóstico, em oposição ao teísmo inglês. Os primeiros Grão-Mestres da Grande Loja da França tinham sido Grão-Mestres da Grande Loja dos Modernos de 1717.
Na sequência, a reforma pela qual passaria a Maçonaria francesa, com a extinção da sua Grande Loja e a criação do Grande Oriente da França, são capítulos importantes sobre o desenvolvimento da Maçonaria em solo francês a partir do século XVIII.
Ainda, no que diz respeito à Maçonaria na França, não menos importante é lembrar da vertente Stuartista de Maçonaria, a qual iniciou suas atividades em solo francês a partir do ano de 1649 devido a revolução puritana de Cromwell e a deposição e decapitação do rei católico Carlos I da Inglaterra.
É logo após a chegada em Saint Germain-en-Laye da rainha viúva Henriqueta Maria de France e seu séquito em exílio, que se inicia a trama para retomada do trono inglês pelos reis católicos (escoceses, stuartistas). Segundo alguns autores, essa operação contou com a criação dos Guardas Irlandeses - Regimento Walch – cujos planos sigilosos eram mantidos sob sigilo por debaixo da capa de lojas maçônicas.
De certa forma, esse acontecimento é um dos registros de nascimento do REAA na França, um importante ramo de Maçonaria que cresceu em solo francês. Diferente do Grande Oriente da França (inicialmente se chamava Grande Loja da França), a Maçonaria escocesista (stuartista, jacobita) francesa manteve-se no início independente de qualquer obediência à Primeira Grande Loja inglesa, a dos Modernos de Londres e Westminster.
Diante de tudo disso, citar propriamente um rito ou ritual inicial seria algo temerário. Na verdade, os ritos maçônicos passaram a existir a partir do século XVIII e XIX sob circunstâncias históricas e culturais. Muitos dos elementos ritualísticos até já faziam parte dos costumes e tradições regionais das Lojas, principalmente na Inglaterra, Irlanda e Escócia.
3 – Isso não é tão simples de se explicar. Nesse sentido, é preciso conhecer como foi desenvolvido o primeiro ritual para o simbolismo do REAA na França, em 1804. Nesse cenário se faz cogente compreender a história das Lojas Capitulares do REAA, então criadas pelo Grande Oriente da França. Seguindo essa mesma linha, também é preciso compreender a influência das Lojas capitulares na estrutura dos rituais escocesistas da Maçonaria Brasileira a partir do século XIX.
Obviamente que não é possível se resumir toda essa história em um pequeno arrazoado como este.
Dito isso, há outro aspecto a ser considerado. No caso, perscrutar a história da primeira grande cisão no GOB, a de 1927, que deu origem às Grandes Lojas Estaduais Brasileiras (CMSB), e mais tarde a cisão de 1973, a qual proporcionou a criação dos Grandes Orientes Independentes (COMAB).
Após a cisão de 1927, Mário Marinho Béhring criava para a sua Obediência recém fundada um Ritual para o REAA (1928). Obviamente que esse ritual se diferenciava do então praticado pelo GOB, sobretudo pelas influências capitulares herdadas da França.
Não obstante ao afastamento de Béhring das influências capitulares, mesmo assim apareceram muitos elementos estranhos à conjuntura ritualística original do REAA. Provavelmente isso se deu por conta da busca de reconhecimento para as Grandes Lojas estaduais brasileiras na Maçonaria Norte-americana.
É por conta disso que substanciais diferenças na ritualística do REAA viriam aparecer por aqui. Por exemplo, formação de pálio, Diáconos portando bastão, Altar dos Juramentos no centro do Ocidente, aventais azulados, etc. Nada disso é original no REAA, onde primitivamente não existe formação de pálio, Diáconos não usam bastão, Altar dos Juramentos fica no Oriente, a cor predominante do rito é encarnada, etc.
Dessa forma, a partir de 1928 passava existir oficialmente na Maçonaria brasileira dois rituais diferenciados para o REAA. O ritual de 1928, criado para as Grandes Lojas estaduais, ficaria também conhecido como o REAA de Mário Béhring.
Mais tarde, em 1973, com o advento da segunda grande cisão no GOB, nasciam os Grandes Orientes Estaduais independentes. À vista disso, outros rituais para o REAA foram sendo criados, desta vez construídos sob influências dos rituais do GOB e das Grandes Lojas Estaduais.
Esse é o motivo pelo qual são encontrados no Brasil, em um mesmo rito, substanciais diferenças na sua liturgia e ritualística, com cada Obediência defendendo o seu ritual.
4 – Pelo mundo existem muitas diferenças e isso pode ser constatado em se verificando rituais do REAA existentes na França, em Portugal, Espanha, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, dentre outros.
Por várias questões, principalmente pela característica latina de ser, lamentavelmente o REAA sofreu ao longo da sua existência muitos enxertos e tenebrosas adaptações, ao ponto de ser classificado por muitos autores como uma verdadeira colcha de retalhos. No entanto, nem tudo está perdido, pois em muitos casos, pelo menos, o rito vem mantendo a sua estrutura litúrgica e ritualística primitiva. Na Maçonaria latina, se imaginar um único ritual universal por rito é algo sustentado pela utopia.
5 – O REAA chegou oficialmente no Brasil em 1832, embora ele já estivesse sendo praticado em maio de 1822, pela Loja Buclie D’Honneur. Essa Loja teve vida efêmera.
A segunda Loja foi a Educação e Moral (1829 até 1833). Fundada por Joaquim Gonçalves Ledo, ela foi instalada por João Paulo Barreto que tinha uma carta patente do Grande Oriente da França o autorizando a fundar Capítulos Rosa-Cruz, razão pela qual a Educação e Moral trabalhava com 18 graus – características de uma Loja Capitular (é preciso conhecer essa história).
Como a primeira grande cisão somente viria ocorrer em 1927, notadamente antes de 1928 o REAA era praticado seguindo rituais do GOB, caracterizados pelas Lojas Capitulares. Como a Maçonaria brasileira é filha espiritual da França, os rituais primitivos para os ritos de origem francesa no Brasil eram oriundos da França e também de Portugal. Da França para os ritos Moderno (Grande Oriente de Ilhe de France) e REAA (Grande Oriente da França); do Grande Oriente Lusitano, para o Rito Adonhiramita, que é também um rito com registro de nascimento francês.
6 – O Ritual de 1804, o primeiro para o simbolismo na França, foi estruturado em três elementos fundamentais: o Regulateur du Maçon de 1801 (Grande Oriente da França); as Três Pancadas Distintas (exposure relacionada à Grande Loja dos Antigos de 1751); a Loja Geral Escocesa (criada em outubro de 1804 na França para gerenciar a elaboração desse primeiro ritual).
7 – Em alguns casos sim, em outros não. The Masonry Dissected de Samuel Pritchard foi uma revelação bombástica publicada em 1730 na Inglaterra e muito do seu conteúdo serviu como elemento básico para a construção de vários rituais, notadamente o working inglês.
Na verdade, em relação aos Antigos e os Modernos, as suas exposures (revelações) muito serviriam como referência para rituais. Ressalte-se as revelações Jachim and Boaz, direcionada à Grande Loja dos Modernos e as Três Pancadas Distintas, relaciona à Grande Loja dos Antigos.
Nesse contexto, também vale a pena mencionar que muitos rituais latinos foram construídos sob a égide do deísmo francês, no entanto, o REAA, rito nascido na França, além de possuir raízes deístas, também possui forte influência do teísmo anglo-saxônico herdado das Três Pancadas distintas, um dos elementos fundamentais construtivos do seu primeiro ritual.
T.F.A.
PEDRO JUK
http://pedro-juk.blogspot.com.br
ABR/2026






