terça-feira, 4 de maio de 2021

SER REPRESENTADO NO TRONCO POR OUTRO IRMÃO

 

Em 17/09/2020 o Respeitável Irmão Carlos Fernandes dos Santos, Loja Acácia, 0177, REAA, GOB-RJ, Oriente de Niterói, Estado do Rio de Janeiro, formula a seguinte questão:

 

COLOCAR O TRONCO POR OUTRO.

 

Em época não tão distante, tínhamos um costume de pedir a outro Irmão que nos representasse no Tronco de Beneficência quando não podíamos, por algum motivo de força


maior estar de corpo presente em uma dada sessão. Entendíamos que essa prática era benéfica para Loja e para o propósito do Tronco. Essa prática com o tempo caiu em desuso, alguns irmãos dizem que fora proibida pelo GOB, mas o documento com essa publicação até hoje não encontrei. Qual o mal que isso traria para a Instituição, já que as Lojas possuem autonomia própria para dar o destino ao Tronco da melhor forma em benefício dos irmãos e/ou seus dependentes? Gostaria de um parecer do irmão.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

Não se trata de proibição, mas sim de um retorno ao verdadeiro significado desse ato ritualístico. A bem da verdade, ser representado na coleta do Tronco sem estar presente na sessão é atitude incorreta.

Para os ritos que possuem a coleta pelo giro em Loja, o resultado da coleta deve ser apurado e anunciado na mesma sessão em que houve o giro, isto é, na presença dos Irmãos presentes nos trabalhos. Essa atitude tem o fito de reforçar a lisura que sempre deve acompanhar as práticas maçônicas.

A caridade em Maçonaria é sigilosa e para tal aprendemos que em Maçonaria o Tronco da Solidariedade, ou de Beneficência, simboliza a expressão lata de como se praticar a caridade com sigilo e sem ostentação. Assim, o giro não permite que se saiba quem deu mais ou menos, ou quem nada pode dar naquela oportunidade.

Atendendo a esse ensinamento é que o coletor e o contribuinte se colocam de forma peculiar quando do ato da coleta.

“Tu, porém, ao dares a esmola, ignora a tua mão direita o que faz a tua esquerda”.

Quanto aos recursos que cada um pôde dispor para a caridade, o ensinamento praticado desde a Iniciação inspira-se na oferta da “pobre viúva”, cuja contribuição, oferecida da sua própria indulgência, o Divino Mestre considerou mais importante do que todas aquelas advindas dos que ofereceram da sua própria riqueza.

Desse modo, o costume é de que apenas os presentes na sessão devem participar da coleta, não sendo apropriado alguém fazer e anunciar a doação por outrem que não esteja presente no ato.

De modo prático, se alguém quiser reforçar o Tronco doando por um Irmão ausente, que então o faça sigilosamente, porém sem fazer comunicação à assembleia. Ora, o importante não é saber quem deu, quanto deu ou se nada naquele momento poder dar. O importante é o ato de solidariedade que está ali sendo representado – a doação não precisa de vir acompanha de “toques de trombeta”.

Cabe mencionar que certos fatos merecem ser vistos sob a óptica da ética e da moral e não pela autonomia da Loja, por exemplo. Obviamente que o produto do tronco é para os necessitados e as doações arrecadadas no giro ficarão à disposição do Irmão Hospitaleiro, que é o oficial que simboliza a virtude da caridade.

Atente-se que por trás da liturgia da coleta há uma belíssima mensagem que é a de se fazer caridade com justiça e sem ostentação.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

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MAIO/2021

domingo, 2 de maio de 2021

LIVRO DE PRESENÇAS - QUANDO O VENERÁVEL MESTRE ASSINA?


Em 03/09/2020 um Respeitável Irmão de uma Loja do GOB-RJ, REAA, Oriente de Nova Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, formula a seguinte questão: (questão já respondida diretamente ao consulente pelo New GOB Net.)

QUANDO O VENERÁVEL ASSINA O LIVRO DE PRESENÇAS?

É atribuição do Venerável Mestre encerrar o Livro de Presenças conforme consta no RGF. Desse modo pergunto: qual o momento correto para que o Venerável o faça?

CONSIDERAÇÕES

De tudo, o mais importante é que o Venerável Mestre seja o último a assinar o livro


de presenças das sessões da sua Loja.

Por uma questão de praticidade é recomendável que ele assine o livro no mesmo instante em que vai assinar a Ata.

Dado a isso é sempre recomendável que a Loja possua para os visitantes um livro próprio, isto é, separado do livro de presença dos Irmãos do Quadro, sobretudo em se considerando que os visitantes podem ingressar nos trabalhos após a Ordem do Dia.

No caso de o Venerável assinar junto com a Ata, o Mestre de Cerimônias, ao conduzir esse livro para as assinaturas, apanha também o livro de presenças com o Chanceler para que o Venerável Mestre nele aponha o seu ne varietur.

Algumas Lojas, por opção, deixam para colher a assinatura do Venerável assim que os trabalhos estejam encerrados. Desse modo, imediatamente após a saída dos Irmãos do Templo, o Chanceler procura o Venerável para dele colher a sua assinatura.

Na hipótese de não existir livro próprio para a assinatura de visitantes, então é preferível que se colha a assinatura do Venerável somente após o encerramento dos trabalhos. Esse procedimento evita que um visitante que tenha ingressado após a Ordem do Dia venha a assinar o livro depois do Venerável.

Por não ser este um ato ritualístico iniciático, porém administrativo, a Loja deve fazer a opção pelo que melhor lhe convir. Destaque-se que qualquer uma das opções aqui descritas não altera a liturgia dos trabalhos. De tudo, o principal é que seja sempre o Venerável Mestre quem encerra o livro de presenças da sua Loja, atendendo assim ao que prescreve o RGF, Artigo 116 Compete ao Venerável Mestre, XVI – encerrar o livro de presença da loja.

 

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK - SGOR/GOB

jukirm@hotmail.com

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MAIO/2020

sexta-feira, 30 de abril de 2021

NÚMERO, IDADE E MARCHA DO GRAU

 

Em 02/09/2020 o Respeitável Irmão Hamilton Santos, Loja Pedro Marques, 201, Rito Brasileiro, GLMERJ, Oriente de Niterói, Estado do Rio de Janeiro, solicita esclarecimentos para o que segue:

hsantos938@gmail.com

NÚMERO, IDADE E MARCHA

Prezado Irmão Pedro Juk, fraternais saudações. Antes de tudo, parabenizá-lo pelo excelente trabalho que vem executando desde que assumiu essa nobre tarefa de espalhar a luz sobre nossos caminhos, através do "consultório" criado, e agora nomeado em honra do Irmão Castellani. Feito esse registro, preciso de sua ajuda e eu explico: Outro dia numa das nossas reuniões virtuais, surgiu uma questão, no mínimo interessante, qual seja, o fato de nos Grau


s 1 e 2 existirem um número associado, a marcha tem esse número de passos, assim como a idade esse número de anos. Até aí tudo bem. Entretanto no grau 3 essas coincidências desaparecem, ou seja, um número associado (?), o número de passos da marcha é outro e a idade é indefinida. Nessa reunião (de mestres), gastamos mais de hora e meia com inúmeras teorias a respeito de cada um dos itens (idade, marcha, número) e não chegamos a lugar algum. Ficamos, cada um, tentar achar o "fio de Ariadne" e encontrar a saída. De minha parte, tomei a liberdade de procurar alguém que possa, pelo menos, mostrar o caminho. E desde já agradecemos a ajuda é pedimos ao GADU que lhe proteja e guarde.

CONSIDERAÇÕES.

Antes é bom que se diga que o nosso Rito Brasileiro foi em grande parte decalcado no Rito Escocês Antigo e Aceito por aqui praticado, portando é bastante natural que algumas explicações tenham relação com a liturgia e ritualística do escocesismo.

Quando surgiu o primeiro ritual para o simbolismo do REAA na França em 1804 através da Grande Loja Geral Escocesa criada em 22 de outubro pelo II Supremo Conselho (o primeiro foi nos EE. UU.) para organizar um ritual para os três primeiros graus já que quando o REAA retornou à França oriundo dos Estados Unidos da América, este, para ser praticado na Europa, ainda não possuía ritual para o franco-básico universal, isto é, para os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre. Na América do Norte o REAA de então se servia para tal dos rituais das Lojas Azuis norte-americanas, destacando que o Supremo Conselho Mãe do Mundo, fundado em Charleston, na Carolina do Sul em maio de 1801 trazia apenas os ditos Altos Graus, isto é, do 4º ao 33º, ficando a prática do simbolismo legada ao empréstimo de outro rito como comentado.

Pois bem, esse primeiro ritual, criado em 1804, no tocante à prática da marcha, ou os passos do grau, trazia ritualisticamente oito passos normais, sem que houvesse ainda a divisão dos três graus. Assim, os passos eram executados tão somente numa série única, ou seja, davam-se os oito passos na forma de costume. É daí então que se originou o ato litúrgico de se andar em linha reta e para a frente em trajeto compreendido por oito passos em se junt a cada p pelos cc os pp em esq. Mais tarde com o aperfeiçoamento dos rituais escoceses, a marcha seria dividida por graus iniciáticos conforme conhecemos atualmente. Os oito passos significavam algo mais além de sete.

Aspectos históricos da Marcha do Grau – como na Maçonaria primitiva (operativa dos séculos XII ao XVI principalmente) não existiam graus, mas apenas duas classes de operários, a do Aprendiz Admitido e a do Companheiro do Ofício, alguns ritos especulativos que iriam florescer a partir do século XVIII, adotariam na sua liturgia uma idade simbólica para o iniciado (tempo de aperfeiçoamento) em número correspondente à quantidade de passos dados ritualisticamente nas marchas do 1º e do 2º Grau. Vale mencionar que na Maçonaria de Ofício (primitiva) não existia ainda o grau especulativo de Mestre, já que na época do ofício o canteiro de obras era dirigido por um Companheiro do Ofício experimentado, cujo cargo era conhecido por Mestre da Obra. Geralmente ele era o dono da corporação de canteiros que construía principalmente para o clero daquele período.

É no século XVIII, com o advento da Moderna Maçonaria que o grau de Mestre Maçom especulativo (de viés iniciático) viria aparecer em 1725 na Inglaterra, porém só se consolidando oficialmente em 1738 por ocasião da segunda constituição inglesa. Desse modo, no escocesismo, seguindo o aperfeiçoamento e a evolução dos seus rituais, paulatinamente houve a divisão dos oito pp iniciais da macha, de tal modo à servir aos três graus iniciáticos, sendo, um grupo de pp para os Aprendizes outro para os Companheiros, ambos correspondentes à idade simbólica e, por fim, os três últimos pp destinados ao 3º Grau, contudo esse último grupo de pp não fazendo alusão à idade do Mestre, mas representando a cada um deles à revolução anual do Sol. Na realidade, os pp do Mestre no escocesismo marcam alegoricamente, sobre o pavimento, os ciclos da Natureza. Essa alegoria se faz presente para determinar esotericamente a relação entre os ciclos da Natureza e as etapas da vida do iniciado (concepção deísta presente no rito).

No que diz respeito a idade simbólica do Mestre Maçom, ela relembra, além do shabat, ou o Dia da Criação, também uma reminiscência dos tempos primitivos quando um Aprendiz Admitido era basicamente servo do Mestre da Obra, oportunidade em que ele tinha uma carta de trabalho que durava sete anos. Vencido o prazo, geralmente ele então poderia requerer ao seu senhor, ou o proprietário do canteiro, a sua liberdade para que ele pudesse, alçado ao cargo de Companheiro do Ofício, trabalhar por conta própria. O final desse processo de aprendizado que durava geralmente sete anos era ainda acrescido por “mais” dois anos para que o operário pagasse com trabalho ao seu amo e senhor toda a acomodação, vestimenta e alimentação que lhe fora fornecida no tempo do seu aprendizado. Essa é a origem do o significado da I do M M do REAA.

Por extensão, esses comentários históricos se aplicam também ao Rito Brasileiro que teve boa parte da sua ritualística e liturgia decalcada no REAA.

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogspot.com.br

 

 

ABR/2021

segunda-feira, 26 de abril de 2021

SAGRAÇÃO OU CONSAGRAÇÃO DE TEMPLO?

 

Em 01/09/2020 o Respeitável Irmão Leandro Ely, Loja União e Sabedoria, REAA, GORGS, Oriente de Farroupilha, Estado do Rio Grande do Sul, apresenta a questão seguinte:

 

SAGRAÇÃO DE TEMPLO

 

Desculpe importuna-lo novamente, surgiu uma dúvida. Baseado em que o Templo Maçônico deve ser SAGRADO OU CONSAGRADO para fazer cerimonias de Iniciação, Elevação, Exaltação, isso é uma tradição ou está determinado de que forma?

 

CONSIDERAÇÕES.

 

A bem da verdade, em se tratando de Maçonaria – que se diga de passagem não é uma religião - o termo que melhor se adequa é “consagração” do espaço que irá receber os trabalhos maçônicos.

Em tempos passados, aqui pelo Brasil, era comum o uso do termo “inauguração” para essa finalidade, ou seja, ficava estabelecido que o espaço inaugurado estava apropriado para receber os trabalhos maçônicos em Loja aberta.

O uso do termo “inauguração do templo” pode ser constatado em se perquirindo a
história de Lojas brasileiras que possuam aproximados 100 anos de idade.

Provavelmente, porque alguns acreditavam que o ambiente de trabalho maçônico era algo santificado, num flagrante equívoco de se misturar Maçonaria com religião, é que o termo “sagração” acabou aparecendo e dando, inclusive, nome para rituais como os de “Sagração de Templo”.

Como não bastasse todo esse contra-senso, ainda o paradoxo se acentua quando é usada, à moda latina, a palavra “templo” para denominar o que é de fato a sala da Loja, ou a oficina de trabalho.

Assim, entre a palavra “sagração” ou “consagração”, o termo que melhor se aplica na inauguração do espaço dedicado aos trabalhos maçônicos deveria ser “consagração”, isto é, com dignidade conferida.

O termo “sagração” é também erroneamente aplicado na Iniciação, Elevação e Exaltação. Desse modo, o Venerável ao conferir um grau estará “consagrando” e não “sagrando” o candidato, isto é, estará lhe conferindo dignidade, ou seja, o constituindo no grau e não o tornando santo. Obviamente que nesse caso não cabe o vocábulo “inauguração”.

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

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ABRIL/2021

quinta-feira, 22 de abril de 2021

ESCLARECIMENTOS SOBRE O REAA

 

Em 24/08/2020 o Respeitável Irmão João Estevam, Loja União e Trabalho IV, REAA, GOB-RN, Oriente de Santa Cruz, Estado do Rio Grande do Norte, apresenta as questões seguintes que foram formuladas por um Irmão Aprendiz Maçom da sua Loja

 

QUESTÕES RELATIVAS AO REAA APRESENTADAS POR OCASIÃO DA PALESTRA ONLINE REALIZADA EM 21/08/2020

 

1. O Regimento irlandês Walsh, jacobita, de acordo com bibliografia utilizada por José Castellani, foi a primeira Loja escocesista fundada em território francês em 1689 sob a égide de Jaime II em Saint Germain de Laye. O escocesismo não seria um exercício maçônico relacionado a dinastia Stuart desde os tempos de trono em território anglo-saxônico? Ou seria uma inovação apenas durante o período do exílio?

2. Qual recorte histórico podemos fazer para delimitar um marco natalício para o Rito Escocês antes da adoção do Rito de Heredom ou de se tornar Rito Escocês Antigo e Aceito?

3. Qual a influência de Albert Pike na formatação ritualística e doutrina do Rito Escocês antigo e Aceito e em que ele contribuiu para os usos e costumes do Rito?

4. O Irmão Francisco Carvalho, de alcunha Xico Trolha, utiliza o termo Maçonaria Primitiva para assinalar o período pré-Maçonaria especulativa e obediencial. O uso e costume da Maçonaria Primitiva foi de arcabouço doutrinário cristão. Com a Maçonaria Especulativa e Obediencial, o cristianismo foi substituído em boa medida pelo hermetismo e pelo judaísmo, inclusive com o ressignificado de símbolos tal qual a Estrela Flamígera, antes sinal para os


Reis Magos e agora símbolo pitagórico. A transformação da Maçonaria a partir de uma estrutura Deísta com novos símbolos ou ressignificação de antigos símbolos é considerado uma evolução ou um enxerto na estrutura ritualística maçônica?

5. O Irmão Pedro Juk em sua Exegese Simbólica para o Aprendiz Maçom utiliza os termos “aperfeiçoamento do espírito” e “imortalidade da alma e no aprimoramento do espírito” no contexto da Iniciação em Maçonaria. Gostaríamos de saber se o irmão faz distinção entre alma e espírito e se esta distinção é decorrente do racional teórico e ou da doutrina em simbologia maçônica?

 

CONSIDERAÇÕES.

 

  1. Penso que não, em se tratando da questão política inglesa o termo se aplica aos “stuartistas”, terminação esse derivado dos Stuarts, família católica da Escócia que várias vezes teve um seu representante no trono da Inglaterra. Com o exílio, após a decapitação do rei Carlos I durante a revolução puritana de Cromwell em 1649 e o consequente exílio de sua esposa, Henriqueta de França, essa relação stuartista e escocesismo ficou bastante natural. No que diz respeito ao embrião do REAA, sua relação territorial com a Escócia nada tem a ver. Como rito maçônico o escocesismo é puramente francês e, em termos de nomenclatura (escocês) existe uma provável relação com um grau diferenciado que pretendia ser o abrigo da cúpula da Maçonaria na França. Esse pretencioso grau era denominado Mestre Escocês.
  2. Não com o nome de Rito Escocês, mas é bastante viável se admitir que esse movimento começou a partir do momento em que Henriqueta de França, viúva de Carlos I chegou em exílio no castelo de Saint Germain. Segundo José Castellani, com ela vieram muitos membros da nobreza inglesa e escocesa com o fito de preparar uma reação contra Cromwell e a retomada do trono. De acordo com o autêntico Paul Naudon, em 1661, pouco antes de alçar ao trono inglês, Carlos II criou em Saint Germain um regimento que ficaria conhecido como Guardas Irlandeses. Historiadores como Alec Mellor e Gustav Bord defendem que esse regimento possuía uma Loja Maçônica formada por imigrantes escoceses e irlandeses. Assim, é muito provável que esteja nesse contexto a pedra angular desse sistema denominado escocesismo que nasceu na França sob a marca de “stuartista” e caracterizado por “altos graus”.
  3. Eu diria que em se tratando de simbolismo, numa pequena parte apenas, até porque o simbolismo do REAA se firmaria realmente na França e não nos EE. UU. da América do Norte. Isso se justifica porque o primeiro ritual para o simbolismo do Rito em questão somente apareceria em 1804 em solo francês quando então fora criada a Loja Geral Escocesa para tratar desse ritual e se resguardar da influência do Rito Frances. Esse primeiro ritual teve por base a exposure relacionada à Grande Loja inglesa de 1751 constituída por irlandeses que se autodenominavam por “Antigos”. Posteriormente com o advento das Lojas Capitulares instituídas pelo Grande Oriente da França esse primeiro ritual sofre o seu primeiro golpe para se adequar à tutela dos costumes franceses de Maçonaria. Essa e uma história complexa que se passa na França e é base para o desenvolvimento do simbolismo do REAA. Com base nisso, eu particularmente não vejo, em termos de originalidade, que influência profunda teria Albert Pike nesses acontecimentos.
  4. Em se tratando de períodos pertinentes aos aproximados oitocentos anos de história da Ordem, a Maçonaria primitiva (a partir do século XII), é sinônimo da operativa, ou de ofício. O período operativo, ou primitivo, trata de uma época ancestral em que os maçons eram literalmente pedreiros, portanto homens que exerciam o ofício da cantaria e da elevação de edificações tais como igrejas, catedrais, abadias, obras públicas, etc. A história autêntica menciona essas corporações operativas medievais que serviam à Igreja Estado daquela época. Sob esse viés os pedreiros-livres eram então protegidos pelo clero. Não há dúvida que essa relação atingia o ofício e os pedreiros, pois estes se baseavam nas Old Charges, ou Antigas Obrigações, cujas quais eram manuscritos elaborados por clérigos e, por conseguinte, davam um forte cunho religioso cristão ao trabalho. Com o declínio dessas corporações, sobretudo pela perda de prestígio do estilo gótico causado pelo advento do Renascimento, as Lojas, num instinto de sobrevivência, começaram a admitir elementos não profissionais, isto é, estranhos à arte profissional de construir. O marco da aceitação se dá no ano de 1600 quando em outubro desse ano fora aceito na Loja Capela de Maria, em Edimburgo na Escócia, como maçom especulativo, o latifundiário de nome John Boswell, o Lorde de Auschinleck. Geralmente esses maçons admitidos eram homens abastados e influentes e assim poderiam proteger e garantir a sobrevivência das Lojas (corporações). Esse acontecimento acabou marcando uma transição no Ofício, já que maçons não operativos, porém especulativos, ou aceitos, iam aos poucos ocupando o lugar dos profissionais da arte do pedreiro nas Lojas de então. Com os Aceitos ingressando na Sublime Instituição, nada mais natural que formas especulativas de trabalho viessem também aparecer, dando assim suporte ao nascimento do que hoje conhecemos por ritos maçônicos. Com isso ingressavam nas Lojas concepções e características próprias trazidas pelos “aceitos”. Desse modo, as corporações de ofício primitivas passavam a ter outra característica, a de uma construtora social. Na verdade a Maçonaria Especulativa, ou dos Aceitos, acabaria com isso ganhando um rico cabedal de cultura devido aos diferentes costumes que se miscigenavam no seio das Lojas. É bom que se diga que apesar dessa transição, a Maçonaria Especulativa não esqueceu os seus tempos operativos. A prova disso é o seu arcabouço doutrinário que fora montado sobre muitos costumes antigos e também sobre o instrumental operativo das ferramentas que passaram a possuir elevado significado de moral e ética. A Maçonaria Especulativa ainda obteria um sentido organizacional mais aprimorado desde a fundação da Premier Grand Lodge em Londres no ano de 1717 o que inauguraria o sistema obediencial e o aparecimento da figura do Grão-Mestre. Esse marco é conhecido como o início da Moderna Maçonaria. No que diz respeito ao Deísmo e o Teísmo, a partir do século XVIII duas vertentes principais da Moderna Maçonaria se colocariam em evidência como deístas e teístas, o que na verdade incidiria sobre os seus formatos doutrinários, embora baseados quase sembre sobre os mesmos símbolos e emblemas. Destaca-se como teísta a Maçonaria anglo-saxônica (inglesa) e, deísta, a Maçonaria latina (francesa). Ainda dentro dessa concepção existem ritos maçônicos que, independente da sua vertente, podem ser ao mesmo tempo deístas e teístas, como é o caso do REAA e agnósticos, como é o caso do Rito Francês ou Moderno. Desse modo, os símbolos que acabariam por constituir a Maçonaria Simbólica, se comparados com os tempos primitivos, sob nenhuma hipótese podem ser considerados como “enxertos”, mas sim como um relicário cultural que deu suporte aos ritos e trabalhos maçônicos (cada qual com a sua conjuntura doutrinária). Enxertos até acontecem, mas geralmente quando inadvertidamente alguns pseudos ritualistas deturpam os ritos incluindo neles símbolos e alegorias que não pertencem à sua natureza cultural. Isso quer dizer, os que misturam símbolos e alegorias, naturais de um sistema (ritual), em outro alterando o seu ideário iniciático.
  5. Conceitos de alma e espírito trazem, não raras vezes, percepções filosófico religiosas, mas não num sentido amplo de uma doutrina religiosa. O conceito de alma do autor, que por acaso sou eu, é o de início ou o princípio da vida e o do espírito é o desenvolvimento dessa parte imaterial, cujo corpo é o seu habitat. Como essas são as minhas convicções pressuponho que ambos convivam com a matéria corpórea enquanto ela viver. Na transição, ou na “grande viagem”, que então o pó volte a terra era e o espírito retorne Àquele que o deu. Evidentemente que nesse particular cada maçom é livre para ter as suas convicções. Eu pelo menos, não de modo laudatório, tentei colocar meus sentimentos no livro mencionado. Sob hipótese alguma quis eu impor qualquer doutrina religiosa, contudo, me é de direito alertar para as possibilidades relacionadas aos símbolos. Assim, de modo superficial é esse o meu pensamento entre alma e espírito, não decorrente de nenhum racional teórico e muito menos de uma doutrina específica, mas eu diria, da minha vivência com as coisas da nossa veneranda Instituição.

 

T.F.A.

 

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

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ABRIL/2021

segunda-feira, 19 de abril de 2021

QUESTIONAMENTOS SOBRE O REAA

 

Em 24/08/2020 o Respeitável Irmão Felipe Junior Costa Simões, Loja Alípio Soares, 4.576, REAA, GOB-MG, Oriente de Conceição do Mato Dentro, Estado de Minas Gerais, apresenta as questões seguintes:

 

QUESTIONAMENTOS SOBRE O REAA

 

Sou um apaixonado pela Maçonaria e suas histórias, na medida do possível tento ler muito sobre a ordem e seus ritos, especialmente o REAA ao qual faço parte desde minha iniciação. Minha cidade é do interior e fica a 160 km da capital Belo Horizonte, cerca de três horas de viagem, mesmo assim, para os graus superiores me desloco a fim de buscar mais conhecimento.

Acompanho vosso trabalho há algum tempo, devido às peças de arquitetura e respostas ao


s irmãos pelo seu blog, inúmeras dúvidas surgiram. Como o irmão é o atual Secretário Geral de Orientação Ritualística, além de ser também uma referência e uma sumidade no REAA no Brasil. Venho humildemente expor minhas dúvidas, questionamentos e intenções de melhoria de nossa Ordem, especialmente no REAA.

As principais são referentes ao REAA, pois se entende que foi criado na França derivado ou batizado de Rito de Heredom possuindo apenas 25º, mas repensado e reformulado no EUA e criado o primeiro Supremo Conselho do Mundo do REAA em 1801 em Charleston, Carolina do Sul, acrescendo mais oito graus e tomando o formato de 33º como temos atualmente. Em 1855 Albert Pike iniciou uma reformulação do rito, organizando os graus e suas instruções, finalizando em 1877 dois anos após, mudando conforme sua principal obra Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry Moral e Dogma, publicado em 1871. Dando instruções aos maçons deste Rito dos graus 1º ao 32º.

Tendo em vista que nos EUA o REAA tem poucas lojas dos graus simbólicos e maior parte da adesão neste rito, vai do 4º ao 32º, pois o grau 33º é concedido por investidura como no Brasil, mas o processo é muito diferente.

Derivando desta pequena introdução, minhas dúvidas são:

Por que no Brasil usamos o avental errado e não o correto, pois sabemos que não devemos nos guiar pelo que achamos bonito ou feio e sim pelo que é certo, uma vez que somos buscadores da verdade?

Por que houve tantas mudanças no ritual do GOB, pois estou com uma relíquia Guia dos Maçons Escocezes, ou reguladores dos Trez Gráos Symbolicos do REAA de 1834.

Onde podemos usar de exemplo a pergunta de aprendiz, Sois Maçom? Obtendo respostas diferentes das de hoje. Com textos interessantes e completamente importantes para a formação de um maçom.

Não entendo também o motivo da proibição do uso das medalhas dos Graus Superiores em lojas Simbólicas, pois tudo faz parte de um rito apenas, por que não incentivar aos iniciados a seguir no caminho do conhecimento?

Pensando que as lojas espalhadas pelo interior, não tem uma porta de entrada que são as lojas de perfeição e muitos, muito mais do que temos conhecimento, param apenas no grau de Mestre e creem que isso é a plenitude.

Porque as instruções dos graus simbólicos no ritual do GOB são tão poucas? Falando com respeito a Potência, porque é tão pobre em informações? Talvez não existisse outra forma de melhorarmos isso?

Hoje fazendo os graus superiores, vejo a falta de instrução na base maçônica, pois se não fosse pelo meu interesse e curiosidade, teria muitas dificuldades para responder coisas simples e também, vejo essa dificuldade nos irmãos dos interiores.

Porque os graus superiores ou filosóficos do REAA são tão diferentes de potência para potência? Sendo o mesmo no mundo, seus ensinamentos derivam de dois tipos de filosofia, mas no REAA tem apenas um objetivo, quando tive acesso a rituais do outro supremo conselho vi que muitas coisas como PALAVRAS, toques e sinais variam, confundindo completamente os irmãos do rito, pois com a intervisitação sendo algo normal hoje, ficamos perdidos quando chegamos a uma loja, até mesmo no simbolismo.

Porque usamos a palavra de aprendiz errada, uma vez que comprovadamente a palavra correta é a usada pelas GL?

Com todas essas dúvidas corriqueiras, imagino, seria utopia termos um Rito, unido pela verdade, com todos os rituais iguais e seus ensinamentos? Imagine como seria importante termos uma base educadora como nos EUA, onde as Blue Lodge são os mesmos rituais praticados em todos os estados, ou como o Rito de York, que no mundo todo tem o mesmo ritual, mudando apenas expressões e palavras conforme as tradições locais, mas sem alterar a essência ou sentido do rito?

Claro que sei que toda mudança gera problemas ou controvérsias, pois cada um absorve a maçonaria de forma gradual, conforme for passado ao iniciado que por si, busca sempre a verdade. Sendo um eterno aprendiz, alimento a esperança de termos um ritual apenas, com todas as coisas de direito do rito que foram retiradas ou acrescentadas erroneamente, fruto de brigas por vaidade de vaidades, pois percebemos que muitas vezes tudo é vaidade, mesmo que não queiramos admitir, nossa lapidação depende mais do que meia dúzia de instruções em loja e mais de instruções sobre a ordem, sobre o rito, sobre nossa história e principalmente, como os ensinamentos maçônicos podem ser ministrados no mundo profano, para sermos homens livres de preconceito, de termos os bons costumes da tolerância e por fim, termos o amor incondicional, tanto por nossos irmãos quanto por nosso próximo.

Por fim, despeço, esperando um retorno para preencher um vazio que paira sobre minha mente, uma forma mais assertiva que podemos mudar o que está errado e buscar firmemente a VERDADE absoluta. Eu acredito que sejamos capazes de mudar o presente e criar um futuro melhor, mas para isso devemos entender o passado, com ele nos fortalecer e amadurecer para que sejamos dignos do legado que temos.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

Li atentamente a sua súplica e de início me cabe salientar que no trato com as coisas dos ritos e rituais maçônicos a empreitada não é fácil, sendo que muitas vezes podem existir muitas opiniões divergentes, das quais a grande maioria advém de paixões e julgamentos próprios que não tenham sequer passado por uma análise mais crítica e racional.

Quando se trata do REAA as coisas se complicam ainda mais, principalmente pelo desconhecimento que acompanha boa parte dos pretensos estudiosos da história e da liturgia desse rito. Aqui no Brasil, sobretudo pela presença de três Obediências, ainda há uma infinidade de rituais que foram um dia construídos para servirem os ritos por aqui praticados.

Nesse sentido, infelizmente, a grande maioria deles, para não dizer a sua quase totalidade, ainda traz elementos conflitantes hauridos de enxertos, invenções e outros procedimentos contraditórios. Mesmo assim, pseudos ritualistas se abraçam a esses rituais anacrônicos tendo-os como elementos verdadeiros, o que tem causado ainda mais estragos na cultura ritualística.

Assim, dentro do que é mencionado na sua questão, deixo esse pequeno texto no qual procuro abordar de modo superficial as suas colocações. Segue o texto.

No que diz respeito a cor do REAA, infelizmente algumas Obediências no Brasil equivocadamente de há muito adotaram a cor azul para o avental do Mestre Maçom do REAA. Eu, assim como uma gama de outros tantos autores, já escrevi bastante sobre isso. Não depende só da minha vontade como Secretário Geral de Orientação Ritualística do GOB fazer essa correção, pois esse processo muitas vezes se torna demasiadamente desgastante, sobretudo porque nem sempre são os conhecedores autênticos do assunto que se posicionam.

É comum nessas oportunidades fluírem paixões e opiniões particulares. No que diz respeito ao assunto no GOB, podemos afirmar que já tivemos a cor encarnada corretamente implantada no REAA, contudo paulatinamente, influenciado por Irmãos egressos de outra Obediência que por aqui aportaram, o GOB acabou alterando para azul a cor de aventais que são reconhecidamente vermelhos.

É bem verdade que houve também influência de outros Ritos que reconhecidamente adotam a cor azul. Por tudo isso somado é que os aventais vermelhos do escocesismo acabaram equivocadamente azulados no GOB.

Sobre o retorno às origens, eu ainda pretendo propor essa correção, embora saiba que haverá resistência ferrenha em prol dos “azuis”, principalmente por aqueles que, não se importando com o que correto, “acham” o azul mais bonito que o vermelho.

A propósito, não é só o avental do Mestre Maçom do REAA que deve ser orlado em vermelho, mas também a cor encarnada para os elementos decorativos do Templo (dossel, toalhas e estofos), além das paredes do interior da sala da Loja.

Sobre os rituais brasileiros, em que pese as diferenças entre os ritos conhecidos por azuis e vermelhos, os do REAA (vermelho) indubitavelmente são os que possuem o maior número de equívocos. Isso é até compreensível se levarmos em conta a história da Maçonaria Brasileira que teve seu início ainda em um Brasil Colônia.

Adotar simplesmente um ritual antigo não significa retorno às origens. Um bom exemplo disso pode ser constatado na posição das Colunas B e J que não raramente encontram-se invertidas, isto é, contrárias ao que verdadeiramente expressa o REAA (B a esquerda de quem entra e J à direita). Muitos desses rituais escoceses brasileiros antigos trazem a posição das colunas invertidas, isto é, posicionadas de modo análogo ao do Rito Moderno, ou Francês, e do Rito Adonhiramita (J e B).

A bem da verdade, falar em ritual do REAA original é algo muito complexo e carece de uma investigação minuciosa, isto é, desde 1804 na França, época em que apareceu de fato o primeiro ritual para o simbolismo do REAA. Compreenda-se que nos EE. UU. da América do Norte, onde o rito ganhou o título de Escocês em 1801 quando foi então alçado de 25 para 33 graus (por uma constituição forjada), na verdade não eram 33 graus, mas 30 graus, já não havia simbolismo para o Rito em questão naquela ocasião. Esse problema era solucionado em solo norte-americano se fazendo uso dos rituais do Craft da Maçonaria norte-americana conhecido com as Blue Lodges (o termo simbolismo ainda era desconhecido na época). Assim ficavam 30 Altos Graus mais outros três primários emprestados das Blue Lodges.

A história da sedimentação dos rituais simbólicos do REAA é longa, exaustiva e muitas vezes complicada, sobretudo pelas adequações já iniciais oriundas das Lojas Capitulares (hoje extintas) criadas pelo Grande Oriente da França no século XIX para acomodar sua ingerência sobre os graus da Perfeição e do Capítulo do Segundo Supremo Conselho do REAA em França.

Desse modo, reitera-se que em termos de Brasil não é tão simples se pensar na adoção de um ritual só porque foi ele por aqui praticado em tempos passados. Repito que a imensa maioria desses rituais traz consigo uma constelação de enxertos e achismos que às vezes tem feito alguns ritos se tornarem verdadeiras colchas de retalho.

No que diz respeito às insígnias de graus superiores não serem usadas no simbolismo eu penso que é atitude correta, pois as Obediências não são Altos Corpos, portanto a elas destina-se apenas o simbolismo que atende à Maçonaria Universal, que é composta única e exclusivamente por três graus – Aprendiz, Companheiro e Mestre. Graus superiores, laterais, ou de aperfeiçoamento, são peculiaridades dos ritos e não devem interceder no simbolismo, sobretudo para não ferir a unidade simbólica.

É certo que cada qual atue na sua competência. Simbolismo não se mistura com graus superiores porque existem ritos que não possuem sequer um grau além do de Mestre e nem por isso eles se caracterizam como inferiores aos que possuem mais ou menos Altos Graus.

Desse modo, é correto que nos trabalhos do simbolismo utilizem-se apenas insígnias e paramentos do simbolismo, não importando o rito. É oportuno lembrar que os Altos Corpos não se envolvem no simbolismo dos Ritos, e vice-versa. Pensar ao contrário é atitude equivocada.

Desde os meados do século passado o GOB deixou de ser uma Obediência mista, isto é, desvinculada dos Supremos Conselhos. Assim, uma Potência Simbólica atua apenas e tão somente no simbolismo que é composto universalmente por três graus, enquanto que compete aos Altos Corpos, Supremos Conselhos, etc., gerenciar os demais graus, não havendo, sob qualquer hipótese, interferência de uma sobre a outra.

Oitocentos anos de história autêntica da Maçonaria podem comprovar que na Maçonaria Primitiva só existiam duas classes de trabalhadores (não eram graus). O grau especulativo de Mestre Maçom somente viria aparecer já na Moderna Maçonaria no ano de 1725. A partir da adoção do 3º Grau, com ele se estabeleceu a plenitude maçônica. Graus acima do terceiro, como dito, é particularidade de rito. Nenhum rito para ser reconhecido carece de algum grau além do de Mestre Maçom, portanto a plenitude é atingida quando o maçom alcança o 3º Grau. Não existe nenhuma regra que obrigue o Maçom seguir jornada além do Mestrado. Essa é uma opção dele, o que não o faz inferior, sob nenhuma hipótese, diante de um maçom que esteja colado em um ou mais graus superiores – plenitude é o Grau de Mestre Maçom.

Em relação às instruções e o ritual, devo mencionar que originalmente, não é apropriado o ritual trazer instruções. Ritual expressa e orienta a execução da cerimônia de um rito. A liturgia ordena a cerimônia.

Na verdade, as instruções só ingressaram nos rituais em tempos mais recentes, principalmente como uma maneira de obrigar as Lojas a ministrarem instruções aos seus operários, já que havia muita carência desse procedimento. Foi assim que os rituais acabaram ganhando um período específico para o estudo.

Sob a óptica da razão, as Lojas é que deveriam promover instruções em sessões apropriadas para isso. Para tal seria de boa geometria que as Lojas possuíssem instrutores de habilidade comprovada e trazida de conhecimento haurido de fontes de água limpa (bibliografia autêntica).

De fato, é de competência das Obediências Maçônicas fornecer através das suas Secretarias de Cultura, material e informações que orientem o aprimoramento do quadro da Loja. É bom que se diga que em se tratando de roteiros bibliográficos, é de bom alvitre que antes seja separado o joio do trigo

Em que pese as instruções dos rituais até parecerem pobres, afirmo que que elas não são, mesmo que reduzidas. O que é preciso é desenvolver um método e sobre elas traçar instruções organizadas. Assim, vários tópicos mencionados naquela dialética podem ser perscrutados com profundidade e busca de bibliografia auxiliar. As instruções não se resumem numa simples repetição de perguntas e respostas. Cada uma delas inspira outras mais. As Lojas, além das instruções contidas no ritual, precisam também preparar material para instruir os seus Aprendizes, Companheiros e Mestres. Material para pesquisa é o que não falta, desde que se saiba separar o real do aparente. Um belíssimo elemento para instrução e que pode ocupar muitos períodos de instrução é o Painel do Grau. Simplesmente todo o caminho iniciático do Grau ali está contido. Vide, por exemplo, as preleções das Tábuas de Delinear do Craft. São procedimentos que se equivalem, mesmo em ritos diferentes. Cada qual diligenciando os seus símbolos.

No que diz respeito às diferenças existentes entre os graus superiores de um mesmo Rito em Altos Corpos distintos, entendo que isso deveria ser respondido pelos canais competentes das respectivas delegacias litúrgicas. É bom que se diga que no Brasil, vivemos uma Maçonaria de raiz latina e que tudo precisa estar escrito senão o maçom não acredita.

Veja, em se tratando de Brasil só para o REAA possuímos Supremos Conselhos relacionados às Grandes Lojas, ao GOB, e ainda aqueles relativos à COMAB. Desse modo, não é de se estranhar que num mesmo rito existam práticas diferenciadas, sobretudo por se tratar de uma Maçonaria que é filha espiritual da França, portanto, latina. Reitero essas diferenças e contra-sensos devem ser encaminhadas aos Corpos Litúrgicos de cada um dos Altos Corpos ou Supremos Conselhos que atuam por aqui.

Cabe destacar ainda, que nos EE. UU. cada uma das suas Grandes Lojas possui o seu ritual. É bem verdade que todos estruturados sobre uma mesma espinha dorsal, contudo, nem tanto como aqui no Brasil, mas há diferenças entre alguns dos rituais das Lojas Azuis dependendo à qual Grande Loja que eles venham a pertencer.

Por fim, pensar em unificação de ritos e rituais aqui no Brasil eu diria que é coisa humanamente impossível pois cada Obediência, no melhor dos costumes latinos, entende que o seu ritual é que é o certo. Só isso basta para que não haja consenso. Quem sabe um dia isso até seja possível, mas até lá devemos procurar a Verdade para que possamos compreender aquilo que é certo e aquilo que é errado. Enquanto isso eu tenho feito tudo o que me é possível para transmitir o que apurei nos meus mais de trinta anos de estudos sobre a nossa Sublime Instituição. Por certo que os meus apontamentos não são laudatórios, contudo, continuo com as minhas convicções. Tenho procurado sustenta-las com estudo acadêmico e bom senso, até que algo comprovadamente novo e verdadeiro me faça, quem sabe, mudar de opinião.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

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ABR/2021