domingo, 20 de agosto de 2017

20 DE AGOSTO - DIA DO MAÇOM BRASILEIRO

Em 23/02/2016 um Respeitável Irmão do GOB-PR ao Oriente de São Mateus do Sul, Estado do Paraná, me formulou a seguinte questão a qual respondi e fiz uma revisão para publicação no Dia do Maçom no Blog do Pedro Juk em 20/08/2017.

DIA DO MAÇOM


Meu Irmão gostaria de informações sobre 22 de fevereiro como Dia Internacional do Maçom e 20 de agosto como o Dia do Maçom brasileiro.
O que comemoramos?

CONSIDERAÇÕES.

1 – Dia Internacional do Maçom, instituído em data de 22 de fevereiro por ocasião da Reunião Anual dos Grãos-Mestres das Grandes Lojas da América do Norte (Canadá, México e Estados Unidos) realizada nos dias 20, 21 e 22 de fevereiro do ano de 1994, quando o Grão-Mestre da Grande Loja Regular de Portugal, Irmão Fernando Paes Coelho Teixeira, sugeriu que no dia 22 de fevereiro fosse comemorado o Dia Internacional do Maçom em homenagem à data de nascimento de George Washington.
Por ocasião dessa reunião, que teve a presença, dentre outros, da Grande Loja Unida da Inglaterra, da Grande Loja Nacional Francesa, do Grande Oriente da Itália, da Grande Loja das Filipinas, Grande Loja Regular da Grécia, de Portugal, inclusive do Grande Oriente do Brasil pelo seu Grão-Mestre Geral, saudoso Irmão Francisco Murilo Pinto, ao encerramento da assembleia, houve a concordância de que ficasse estabelecido, a partir daí, o Dia Internacional do Maçom a 22 de fevereiro homenageando assim o Irmão George Washington, fato que seria então comemorado por todas as Obediências Regulares.
Resumo histórico do homenageado – nascido em 1732, em Bridges, na Virginia, Estados Unidos da América do Norte, foi iniciado na Maçonaria no dia 04 de novembro de 1752 na Loja Fredericksburg, nº 04, estado da Virginia. No ano de 1753 foi elevado ao Grau de Companheiro e em 04 de agosto de 1754 ao Grau de Mestre.
Em abril de 1789, tornou-se o primeiro presidente norte-americano, quando na oportunidade, na intenção de prestar homenagem à Maçonaria, prestou seu juramento constitucional sobre a Bíblia da Loja Alexandria, na qual era à época Venerável Mestre. Lutou pela Independência dos Estados Unidos sustentando principalmente os ideais de liberdade para o povo. Foi ferrenho defensor da democracia e dos interesses da população. Veio a falecer na sua casa em 14 de dezembro de 1.799 e teve o seu sepultamento realizado no dia 18, cuja celebração fúnebre Maçônica foi realizada pelo Reverendo James Muir e pelo Venerável Mestre Elisha C. Dick, ambos, Irmãos do quadro da Loja Alexandria.
2 – Dia do Maçom no Brasil. Comemorado pela Maçonaria brasileira em 20 de agosto, infelizmente não se pode dizer a mesma coisa com relação a essa data, pois ao contrário do Dia Internacional do Maçom que tem uma data justificável, a brasileira foi construída sobre uma mentira histórica por uma falsa interpretação de calendário, o que aos olhos da razão, pode-se dizer com certeza que no dia 20 de agosto de 1822 não aconteceu absolutamente nada no Grande Oriente Brasílico (nome dado à época para o GOB).
O produto desse erro histórico que, dentre outros, originou a comemoração do Dia do Maçom está no ano de 1956 quando o Irmão Osvaldo Teixeira da Loja Acácia Itajaiense propôs à sua Loja comemorar no dia 20 de agosto o Dia do Maçom, pois, segundo ele, havia na época a convicção de que no Rio de Janeiro, naquele dia no ano de 1822, os maçons haviam proclamado a Independência do Brasil em uma reunião das três Lojas Metropolitanas.
É falsa essa presunção, já que nesse dia nunca houve qualquer reunião no Grande Oriente do Brasil e muito menos que tenha sido proclamada a Independência antes do dia 7 de setembro.
Na sequência dos fatos, a Loja de Itajaí acabou aceitando a proposta do Irmão Osvaldo Teixeira e levou a dita para apreciação na Grande Loja de Santa Catarina, onde também teve o seu conteúdo aprovado. Assim, a Grande Loja catarinense levou adiante endossando o embuste, inclusive se dizendo dela a autora, até V Mesa Redonda realizada em Belém do Pará de 17 a 22 de junho de 1.957.
Em assembleia, a proposição seria então aprovada o que a tornou a data obrigatória para que todas as Grandes Lojas brasileiras comemorassem o Dia do Maçom, justificando enganosamente a efeméride como que a 14ª Sessão teria sido realizada em 20 de agosto de 1822 quando, sob a presidência do Irmão Joaquim Gonçalves Ledo, fora proclamada a Independência do nosso País – tudo isso pode ser constatado nas súmulas das Mesas Redondas, Assembleias e Conferências da CMSB de 1987, dela à página 23, item 3, das Conclusões.
Desse modo, e com essa falsa justificativa, o Dia do Maçom paulatinamente acabaria por se tornar numa efeméride unânime alcançando toda a Maçonaria brasileira, além das Grandes Lojas Estaduais – é a boca que se entorta conforme o hábito do cachimbo.
Assim a balela da ocorrência da Independência do Brasil no dia 20 de Agosto dentro de uma Loja Maçônica e, por conseguinte a comemoração do Dia do Maçom brasileiro se consolidou, mesmo que tenha sido construída sobre uma mentira histórica, cuja qual suporta uma análise mais crítica, desde que embasada na autenticidade documental.
Na verdade a origem do erro de interpretação sobre o calendário usado pelo GOB na época e que seria divulgado posteriormente por outros compiladores, se deve ao Irmão José Maria Paranhos, o Visconde do Rio Branco, em notas sobre a “História da Independência do Brasil” ao se basear nos escritos do historiador e também maçom Manoel Joaquim de Menezes. Infelizmente Rio Branco, apesar de ser um bom historiador, na oportunidade cometeu o erro crasso de não se certificar se as afirmativas de Menezes eram de fato corretas.
Para se entender como ocorreu esse erro histórico, tome-se por base o que menciona a ata de fundação do Grande Oriente do Brasil ao consignar, segundo o calendário usado na época, que o fato se deu no 28º dia do 3º mês do ano maçônico de 5822 da V\L\, o que significa ser no dia 17 de junho de 1822 da E\V\.
Essa data, a do 28º dia do terceiro mês, sob a óptica do Irmão Rio Branco, e também dos desatentos que o copiaram, seria pura e simplesmente o dia 28 de maio destacando-se que 3º mês se iniciava (segundo Rio Branco) no dia 1º de maio.
Contudo, essa não era a correta interpretação, pois na realidade o calendário usado naquela época pelo GOB era o mesmo utilizado pelo Rito Adonhiramita, e nele o ano se iniciava no dia 21 de março; nunca no dia 1º.
À bem da verdade, esse calendário é muito próximo ao do calendário religioso hebraico que se inicia no equinócio de primavera no hemisfério norte.
Assim o calendário maçônico da época era um calendário equinocial, a despeito de que as datas equinociais e solsticiais sempre foram caras aos cortadores de pedra, os nossos ancestrais.
Diferente do calendário gregoriano que se inicia no dia 1° de janeiro da E.V., bem como do utilizado pelo Rito Moderno que inicia o ano maçônico no dia 1º de março da V\L\ (o que confundiu Rio Branco), o equinocial se inicia no dia 21 de março por coincidir com a primavera no setentrião (hemisfério onde nasceu a Maçonaria).
Tanto no calendário equinocial, bem como no utilizado pelo Rito Moderno, os meses não possuem nome, mas eles se identificam simplesmente pelo numeral ordinal correspondente a cada mês, como por exemplo: primeiro mês, segundo mês, terceiro mês, até o décimo segundo (último mês). A mesma regra é seguida para se identificar os dias correspondentes a cada mês. Por exemplo: primeiro dia, segundo dia, terceiro dia, até o trigésimo dia, ou trigésimo primeiro, dependendo do mês.
Foi essa substancial diferença, entre o primeiro e o vigésimo primeiro dia que ocorre entre os dois calendários utilizados pela Maçonaria (o do dia 1º e o do dia 21) que acabou se tornando a “pedra de tropeço” e causadora de todo esse embrolho histórico que culminou com a equivocada data relacionada a uma sessão que teria supostamente acontecido no dia 20 de agosto (sexto mês) do ano de 1822 da E\V\.
Na realidade ela não aconteceu no dia 20 de agosto do calendário gregoriano, mas sim no 20º dia do 6º mês do calendário equinocial maçônico. Há então que se notar que o 6º mês do calendário equinocial inicia no dia 21 de agosto e termina no dia 20 de setembro. Por essa razão é que o 20º dia do 6º mês do ano equinocial maçônico corresponde, não ao dia 20, mas ao dia 09 de setembro do calendário gregoriano (E\V\), quando verdadeiramente aconteceu à famosa 14ª Sessão.
Para melhor entendimento sobre o tema recomenda-se o estudo sobre as práticas e características do calendário religioso hebraico, ao qual o calendário equinocial maçônico bastante se aproxima. Sugere-se também consultar publicação datada de 18/08/2017 no Blog do Pedro Juk sobre a Era Vulgar e Era da Verdadeira Luz em http://pedro-juk.blogspot.com.br
Ainda no tocante aos calendários utilizados pela Maçonaria, especialmente os que dizem respeito a esse tema, recomenda-se atenção especial na observação de que o Rito Francês, ou Moderno adota um calendário maçônico que tem início no dia 1º de março do calendário gregoriano, enquanto que o calendário equinocial utilizado pelo Rito Adonhiramita na época e, por conseguinte, também usado pelo GOB, inicia o ano no dia 21 de março do calendário gregoriano. Ambos da V\L\, possuem o ano com 12 meses, cujos quais se identificam como primeiro mês, segundo mês, terceiro mês e assim por diante. Os dois também têm a característica de iniciar num ano do calendário gregoriano (E\V\) e se encerrar no ano seguinte do mesmo calendário da E\V\).
Seguem alguns exemplos de aplicação do calendário equinocial (início no dia 21) sobre o gregoriano utilizando-se de algumas datas importantes para a história da Maçonaria brasileira e publicadas por Ato do Grão-Mestre Geral no ano de 1.822 da E\V\ por ocasião do centenário do GOB. Essas publicações demonstram a aplicação do calendário maçônico que iniciava o ano a partir do dia 21 de março.
a)    Fundação do GOB em 17 de junho de 1822 da E\V\ ou no 28º dia do 3ª mês do ano maçônico de 5822 da V\L\.
b)    A Iniciação do Príncipe D. Pedro I na Loja Comércio e Artes da Idade do Ouro em 02 de agosto de 1822 da E\V\ ou no 13º dia do 5º mês do ano de 5822 da V\L\.
c)     Dia do Fico em 09 de janeiro de1822 da E\V\ ou no 20º dia do 11º mês do ano de 5.821 da V\L\.
d)    Aceitação do Título de Defensor Perpétuo Constitucional, pelo Príncipe Regente em 13 de maio de 1822 da E\V\ ou ao 22º dia do 2º mês do ano de 5822 da V\L.\.
e)    Convocação da Constituinte Brasileira pelo Príncipe Regente em 02 de junho de 1822 da E\V\ ou ao 13º dia do 3º mês do ano de 5822 da V\L\.
f)      Grito de Independência ou Morte dado pelo Príncipe Regente às margens do Riacho Ypiranga em 07 de setembro de 1822 da V\ L\ ou ao 18º dia do 6º mês do ano de 5822 da V\ L\
g)    Proclamação da Independência proposta por Joaquim Gonçalves Ledo votada nas sessões do Grande Oriente do Brasil a 09 e 12 de setembro do ano de 1822 da E\V\, delas a 14ª Sessão ao 20º dia do 6º mês do ano de 5822 da V\L\.
h)    Posse do Príncipe Regente como Grão-Mestre da Maçonaria do Brasil, a Proclamação do Império e a Aclamação do Príncipe a Imperador Constitucional do Brasil e seu Defensor Perpétuo em 04 de outubro de 1822 da E\V\ ou no 14º dia do 7º mês do ano de 5822 da V\L\.
Como já comentado, o equívoco dessa má interpretação de se originou das notas de Rio Branco a Varnhagen sobre a História da Independência quando, em outubro de 1874, apenas 43 anos após a reinstalação do GOB[1], era publicado no Boletim nº 10 as Atas das primeiras sessões realizadas pelo Grande Oriente Brasílico (título do GOB em 1.822) e, dentre elas, a famosa 14ª sessão que fora concretizada pelo calendário equinocial no vigésimo dia do sexto mês e equivocadamente anotada como tivesse ela acontecido no dia 20 de agosto (sexto mês do calendário do Rito Moderno).
O 20º dia do 6º mês pelo calendário equinocial corresponde ao dia 09 de setembro, ou seja, dois dias após a proclamação da Independência dada pelo Irmão Guatimozim às margens do Riacho Ypiranga. Provavelmente Rio Branco considerou o 6º mês iniciando no dia 1º de agosto tal qual o Rito Moderno, ao invés de considerá-lo iniciando no dia 21 de agosto.
Foi devido a essa diferença que mais tarde autores como o ufano Arcy Tenório de Albuquerque se prestaria a transferir a falsa informação de que a Independência do Brasil havia ocorrido por primeiro no Rio de Janeiro dentro de uma Loja Maçônica no dia 20 de agosto de 1.822, relegando o absurdo de que à verdadeira data de 07 de setembro teria sido apenas um mero ato teatral para divulgar a efeméride – vide in “O que é Maçonaria”, Editora Aurora, Rio de Janeiro, páginas 246 e 247, citado no Livro Manias e Crendices de José Castellani.
A despeito dessas ilações que o Irmão Osvaldo Teixeira, nelas acreditando, em 1956 propôs a comemoração do Dia do Maçom no dia 20 de agosto por “acreditar” que nesse dia no ano de 1822 o Brasil havia sido declarado independente dentro de uma Loja Maçônica.
Vale a pena também comentar que de fato a Proclamação da Independência existiu durante a reunião das quatro Lojas Metropolitanas quando o Irmão Joaquim Gonçalves Ledo, Primeiro Grande Vigilante, dirigindo a 14ª Sessão, da cátedra da Loja em enérgico discurso exigiu a libertação da Pátria brasileira do jugo português, entretanto isso não aconteceu no dia 20 de agosto da E\V\, porém no dia 9 de setembro de 1.822 da E\V\ de acordo com o calendário utilizado na época.
Evidentemente que D. Pedro I já havia proclamado em São Paulo a Independência do Brasil no dia 7 de setembro de 1.822, dois dias antes da Proclamação exigida por Ledo no dia 9.
Na verdade para se entender a razão do pronunciamento extemporâneo feito por Ledo, o mesmo ocorreu por óbvia falta de comunicação, a despeito de que num Brasil colonial, a notícia da Independência proclamada por D. Pedro I no dia 7 de setembro, até o dia 9 do mesmo mês ainda não havia chegado ao Rio de Janeiro. Não havia outro meio de comunicação senão o correio a cavalo que levava, segundo Bregaro, em média um mínimo de três dias para cobrir a distância entre São Paulo e o Rio de Janeiro.
Por assim ser e pelo aqui comentado, pode se perceber que não houve sessão no Grande Oriente do Brasil no dia 20 de agosto de 1822 da E\V\, senão houve uma falsa interpretação criada inadvertidamente por José Maria Paranhos (Visconde do Rio Branco) e que muitos escritores e compiladores, tendenciosos ou não, acabariam espalhando essa mentira histórica que chegou a gerar ainda no Século XX uma comemoração paro Dia do Maçom, apesar de que aos olhos da verdade, nesse particular, nada existiu nesse dia.
Comprovadamente a 14ª Sessão existiu, porém no dia 9 de setembro, e não no dia 20 de agosto.
Mas mesmo assim, infelizmente e apesar de todas as provas angariadas por autênticos escritores, pesquisadores e historiadores, nossas autoridades ainda as não se preocuparam em consertar esse erro que atenta contra a disposição da Verdade.
Obviamente que sabemos ser o Maçom brasileiro merecedor de possuir o seu próprio dia comemorativo, todavia o que não se pode admitir é querer justificar isso com um acontecimento alicerçado em um equívoco, equívoco esse que de há muito tem sido exaustivamente combatido e demonstrado por farta e autêntica documentação.
Nesse sentido, sugere-se pesquisa e comprovação em inúmeros arrazoados da lauda de Francisco de Assis Carvalho, Hercule Spoladore, Kurt Prober, Raimundo Francisco Xavier, José Castellani, João Alves da Silva, dentre outros. Existe um condensado em forma de um caderno de bolso datado de junho de 1.994 denominado “20 de Agosto – Dia do Maçom” - Editora Maçônica A Trolha, Londrina, que traz em seu conteúdo um trato confiável sobre o assunto e creditado a esses escritores mencionados. Veja também as “Atas de Ouro do Grande Oriente do Brasil”, todas contemporâneas à fundação do Grande Oriente Brasílico, mais tarde se denominaria Grande Oriente do Brasil.



T.F.A.

PEDRO JUK


MAIO/2016
REVISADO EM AGO/2017



[1] - O Grande Oriente Brasílico, fundado a 17 de junho de 1822 da E\V\ (28º dia do terceiro mês do ano de 5822 da V\L.\) foi fechado em 25 de outubro do mesmo ano pelo seu Grão-Mestre D. Pedro I e somente reinstalado nove anos mais tarde, em 1831, como Grande Oriente do Brasil.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

ERA VULGAR E ERA DA VERDADEIRA LUZ

ERA VULGAR E ERA DA VERDADEIRA LUZ.


Era – do latim aera, substantivo feminino, designa, dentre outros, o ponto determinado no tempo, que se toma por base ou referência para a contagem dos anos. Exemplo: a Era Cristã.
Sob esse aspecto o termo também representa o número de anos provindos a partir de algum acontecimento notável, cuja expressão época sugere o momento primordial desse episódio. É o caso bastante apropriado, por exemplo, no que se refere ao próprio começo dos tempos, ou o princípio do mundo.
Embora essa concepção seja ainda hoje especulativa, é graças a ela que muitas civilizações e religiões adotaram a sua própria “Era” relacionada à criação do mundo. Dentre outros, os Judeus, por exemplo, concebem-na a partir do Pentateuco no primeiro livro de Gênesis, enquanto que os Cristãos idealizam-na a partir do nascimento de “Jesus Cristo”.
Vulgar – do adjetivo latino vulgare, menciona dente outros o que é relativo ou pertencente ao vulgo; comum, trivial, usual.
O termo “vulgar” relacionado à “era” (tempo) está presente, segundo alguns autores, embora ainda discutível, desde que os judeus estabeleceram o título “Era Vulgar” em substituição ao “antes e depois de Cristo”, fato que viria servir de parâmetro para designar o mundialmente conhecido Calendário Gregoriano[1], já que a Era Cristã e a Era Vulgar por força das circunstâncias se tornariam análogas.
Em se tratando de Maçonaria e o seu particular calendário, neste, o primeiro ano rotulado que aparece em antigos documentos do século XVIII é o Ano da Verdadeira Luz, em latim Anno Lucis, tido como a “idade dos cortadores de pedra” (Age of Stonecutters).
Buscando dar uma classificação independente de religião, bem como também dar um caráter de universalidade à Ordem, James Anderson, autor da Constituição de 1.723, baseado nos cálculos do bispo irlandês anglicano James Usher que houvera desenvolvido um estudo relativo à criação do mundo conforme o Livro de Gênesis e nos comentários críticos da massorat[2], segundo os quais a criação do mundo teria ocorrido em 4.004 antes de Cristo, Anderson então cogitou no texto constitucional que o início da Era Maçônica havia se dado 4.000 anos antes da Era Vulgar ou Era Comum (antes de Cristo).
Embora se perceba um pequeno arredondamento de quatro anos entre o resultado proposto por Usher e o adotado por Anderson prevaleceria maçônicamente o acréscimo da constante de 4.000 anos somada à Era Vulgar[3], cujo ano teria a mesma duração do Gregoriano, com a diferença de que o ano maçônico começaria no dia 1º de março, tendo os títulos dos meses designados conforme o seu número ordinal correspondente. Exemplos: segundo Anderson, o dia 1.º de março de 2.014 da Era Vulgar (E\V\) corresponde ao dia 01 do mês 01 do ano de 6.014 da V\L\; dia 10 de junho de 2.014 da E\V\ corresponde ao dia 10 do mês 04 do ano de 6.014 da V\L\.
À bem da verdade essa inserção de Anderson não pode ser considerada como uma regra geral e única adotada pela Moderna Maçonaria (a partir de 1.717), até porque com a evolução e a proliferação de ritos e sistemas maçônicos, particularidades nesse sentido devem ser criteriosamente observadas, sobretudo sobre o ponto de vista cultural e até mesmo religioso que possa envolver o costume.
Assim é o caso, por exemplo, de uma grande parcela dos trabalhos inerentes ao franco-maçônico básico da Maçonaria anglo-saxônica, bem como o Rito Moderno, ou Francês que adotam o calendário da Verdadeira Luz conforme o anteriormente mencionado, enquanto que o Rito Adonhiramita (origem francesa) adota um calendário equinocial que, embora também mantenha a mesma constante de 4.000 acrescida à Era Vulgar, tem o ano maçônico iniciado - ao invés do dia 1º - em 21 (vinte e um) de março que corresponde ao primeiro dia do primeiro mês.
Já no caso do simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito (também filho espiritual da França), provavelmente pela forte influência hebraica exercida sobre ele, adota para a Verdadeira Luz a constante de 3.760[4] somada à Era Vulgar (gregoriana) entre os dias 1º de janeiro até 20 de setembro e 3.761 entre 21 de setembro e 31 de dezembro. Nesse caso o ano maçônico tem início em 21 de março no equinócio de primavera no hemisfério Norte o que por certo aspecto até se confunde com o calendário religioso hebraico (judaico) que é lunar e geralmente começa também no ponto vernal que ocorre na meia-esfera boreal do Planeta, cujo primeiro mês tem o nome de Nissan. Assim no simbolismo do Rito Escocês o dia 21 de março de 2.014, por exemplo, corresponde ao 1º dia do 1º mês Nissan do ano de 5.774 da Verdadeira Luz (2.014 + 3.760 = 5.774), enquanto que o dia 21 de setembro de 2.014 corresponde ao 1º dia do 7º mês Tishrei ou Tishri do ano de 5.775 da V\L\ (2.014 + 3.761 = 5.775).
A explicação para a diferença de constantes (3.760 ou 3.761) é porque o ano civil hebraico (judaico) geralmente quase coincide no seu princípio com o início da estação do outono no hemisfério Norte (21 de setembro). Assim o calendário hebraico (judaico) se constitui pelo ano religioso e pelo ano civil, cujos respectivos inícios se dão muito próximos aos equinócios de primavera e outono no Norte. O religioso no mês Nissan próximo a 21 de março e o civil no mês Tishrei ou Tishri conexo a 21 de setembro.
Vale a pena mencionar que é no sétimo mês (Tishrei) que ocorre o Rosh Hashaná[5], o Yon Kippur[6] e o Sucot[7].
A título de ilustração, em se tratando de Rito Escocês Antigo e Aceito e citando como exemplo os seus Supremos Conselhos norte-americanos, em linhas gerais eles adotam o termo Ano do Mundo (Anno Mundi) em lugar do título Verdadeira Luz e usam também a constante de 3.760 somada à Era Vulgar, porém a partir de 1º de janeiro até 31 de agosto e 3.761 a partir de 1º de setembro até 31 de dezembro. Nesse particular o ano se inicia em primeiro de setembro do ano em curso e se encerra em trinta e um de agosto do ano seguinte. Os meses são designados por numeração ordinal, assim setembro é o primeiro mês, enquanto que agosto, por exemplo, é o décimo segundo e último mês.
Também na Maçonaria e conforme os costumes e práticas ainda pede-se encontrar outros cálculos inerentes ao calendário, todavia os até aqui mencionados são os principais e os que mais aparecem dentro do franco-maçônico básico.
Em resumo a Era da Verdadeira Luz pode ser encontrada nos conceitos maçônicos adicionando-se as constantes de 4.000, 3.760 ou 3.761, conforme o caso, ao ano da Era Vulgar (calendário Gregoriano).
Antes de dar por concluídas as considerações, vale a pena aqui mencionar que o ideário relacionado aos calendários maçônicos e a sua afinidade com fatos históricos e lendas religiosas do passado é apenas e tão somente simbólica, não incentivando ninguém a imaginar a existência da Maçonaria junto ao princípio do mundo. O conceito provavelmente foi idealizado no intuito de simbolizar uma antiguidade para pragmática maçônica, e não a idade da Sublime Instituição que verdadeiramente possui aproximados oitocentos anos de história.
Graças ao ufanismo de alguns somados às falsas interpretações do calendário por outros é que no Brasil arrumaram uma data equivocada para a independência do Brasil dentro da Loja Comércio e Artes como sendo no dia 20 de agosto e ainda por cima sacramentaram mais tarde o erro histórico constituindo para falsa data o Dia do Maçom. Pelo calendário equinocial usado pela Maçonaria na época da Independência, 20º dia do 6º mês (início do sexto mês em 21 de agosto) correspondia no calendário gregoriano dia 09 de setembro da E\V\ (Boletim do GOB datado no ano 1.874 da E\V\). No dia 20 de agosto da E\V\ nem mesmo houve sessão no GOB, fato que pode ser verificado nas suas próprias atas de ouro concernentes à época.
Alguns elementos auxiliares para pesquisa e consulta bibliográfica:
Calendários Maçônicos e Suas Corretas Aplicações – Kennyo Ismail - www.noesquadro.com.br
Do Pó dos Arquivos – José Castellani – www.atrolha.com.br
Peça de Arquitetura Antonio C. Rios – Academia Maçônica de Letras do MS – COMAB.
História do Grande Oriente do Brasil – José Castellani – GOB.
Wikipédia – calendários judaicos.



PEDRO JUK

OUT/2014.




[1] O Calendário Gregoriano é um calendário de origem europeia, utilizado oficialmente pela maioria dos países. Foi promulgado pelo Papa Gregório XIII (1.502–1.585) em 24 de fevereiro do ano 1.582 pela bula Inter gravissimas em substituição do calendário Juliano implantado pelo líder romano Júlio César (100 – 44 a.C.) em 46 a.C.
Como convenção e por praticidade o Calendário Gregoriano é adotado para demarcar o ano civil no mundo inteiro, facilitando o relacionamento entre as nações. Essa unificação decorre do fato de a Europa ter, historicamente, exportado seus padrões para o resto do globo.
[2] Massorat - conjunto dos comentários críticos e gramaticais acerca da Bíblia - sobretudo o Velho Testamento - feitos por doutores judeus – os massoretas.
[3] Era Vulgar, Era Comum ou Era Cristã correspondem ao ano pertinente no calendário gregoriano.
[4] 3.760 - De acordo com a tradição judaica, a contagem é feita a partir da criação de Adão o primeiro homem (a Torá hebraica – primeiro livro de Gênesis). Para o cálculo do ano judaico, basta acrescentar 3760 ao ano do calendário gregoriano (levando em consideração que nos meses de setembro/outubro, começo do ano civil judaico, se acrescenta um a mais ao ano corrente).
[5] Rosh Hashaná - é o nome dado ao ano-novo judaico e significa literalmente “cabeça do ano”. Rosh Hashaná ocorre no primeiro dia do mês de Tishrei, primeiro mês do ano no calendário judaico rabínico, sétimo mês no calendário religioso e nono mês no calendário gregoriano.
[6] Yon Kippur ou Ioum Quipúr é o Dia do Perdão, uma das datas mais importantes do Judaísmo. No calendário judaico começa no crepúsculo que inicia o décimo dia do mês hebreu de Tishrei (que geralmente coincide com setembro/outubro), continuando até ao seguinte pôr do sol. Os judeus tradicionalmente observam esse feriado com um período de jejum de 25 horas e oração intensa.
[7] Sucot (do hebraico sukkot, cabanas) é um festival judaico que se inicia no dia 15 de Tishrei de acordo com o calendário judaico. Também conhecida como Festa dos Tabernáculos ou Festa das Cabanas ou, ainda, festa das colheitas visto que coincide com a estação das colheitas em Israel, no começo do outono. É uma das três maiores festas, conhecidas como Shalosh Regalim, onde o povo de Israel peregrinava para o Templo de Jerusalém. Nos dias de hoje multidões se reúnem na oportunidade aos pés do Muro das Lamentações.