terça-feira, 5 de setembro de 2017

RITUALÍSTICA - COLUNETAS NO REAA?

Em 23/06/2017 o Irmão Carlos Alberto Azevedo, Loja Estrela do Mar, REAA, GOB-PR, Oriente de Matinhos, Estado do Paraná, pede esclarecimentos.

COLUNETAS NO REAA

Por gentileza me tire uma duvida. Em visita minha a várias Lojas percebo que nas mesas dos Vigilantes e na do Venerável tem as colunetas e em minha Loja não se usa, mas lendo sobre elas entendi o seu significado por isso quero saber se há problema em usá-las em nossa Loja já que temo-las?

CONSIDERAÇÕES

Já escrevi bastante sobre isso. Tudo não passa de “achismo” e “enxerto” em se tratando do Rito Escocês Antigo e Aceito original.
Antes, porém de se tratar especificamente do assunto “colunetas”, se faz cogente observar primeiro alguns tópicos sobre a simbologia que envolve as Colunas simbólicas relativas às Luzes que dirigem a Loja.
As virtudes da Sabedoria, Força e Beleza se referem às Colunas abstratas da Sabedoria, o Venerável Mestre; da Força, o Primeiro Vigilante e da Beleza, o Segundo Vigilante. Em resumo elas são uma espécie de sustentáculo da moral maçônica – as Luzes da Loja.
A origem desse simbolismo está na Tábua de Delinear (Tracing Board) do Primeiro Grau do Craft Inglês – no Trabalho, ou Ritual de Emulação.
Nele, durante as preleções do Primeiro Grau, as quais explicam o conteúdo da Tábua, essas virtudes são especificamente comentadas. Elas aparecem no pedestal de três Colunas das Ordens de Arquitetura Grega, a Jônica, a Dórica e a Coríntia que arranjam, dentre outros, parte do conteúdo do quadro delineado.
Ao pé de cada uma dessas Colunas aparecem as iniciais W (wisdom – sabedoria), S (strenght – força) e B (beauty – beleza).
Ocorre, entretanto, que essa é uma alegoria da vertente inglesa de Maçonaria e não da vertente francesa de onde o REAA\ é oriundo.
Observo ser primordial que todo estudante de Maçonaria conheça pelo menos o mínimo da origem das duas vertentes principais – a inglesa (teísta) e a francesa (deísta).
Na simbologia do escocesismo as três Ordens de Arquitetura não são visíveis nem palpáveis, pelo menos de modo explícito, já que o conteúdo do Painel do Primeiro Grau originário da Maçonaria francesa é diferente do da Tábua de Delinear da Maçonaria inglesa.
Entretanto, por questões históricas o REAA\ acabou também sendo influenciado pela Maçonaria anglo-saxônica, o que aconteceu desde a criação dos seus primeiros rituais simbólicos que se deram na França em 1804 por maçons franceses de retorno da América do Norte onde participavam das Lojas Azuis norte-americanas, conhecidas como Rito de York Americano que, por conseguinte é originário do sistema “antigo inglês” (Antigos da Grande Loja de 1751) e foi organizado em solo norte-americano por Thomas Smith Webb.
Foram os maçons franceses oriundos da América do Norte que deram uma roupagem anglo-saxônica ao REAA\ numa época em que a Maçonaria francesa apenas conhecia a vertente dos Modernos ingleses (os da Primeira Grande Loja de 1717) – daí o título Rito Moderno ou Francês dado na França.
O termo “Antigo” (dos maçons antigos) que faz parte do título distintivo do Rito Escocês é oriundo dessa época e deu-se porque muitos costumes da liturgia inglesa passariam, a partir daí, a fazer parte do escocesismo simbólico que acabara de nascer na França em 1804 pelo seu primeiro ritual. O título Rito Escocês Antigo e Aceito, muito conhecido na Europa com Rito Antigo e Aceito alude ser um rito dos maçons antigos e dos maçons aceitos.
PAINEL DA LOJA
Assim é que as três Ordens de Arquitetura e às virtudes da Sabedoria, Força e Beleza acabariam, como um dos costumes antigos, por fazer parte também  das instruções do escocesismo, mesmo que não aparentes no Painel da Loja como aparecem na Tábua de Delinear inglesa do Ritual de Emulação, mas de modo abstrato[1] e comentado pela dialética das instruções. Isso pode ser conferido nas instruções do Primeiro Grau do Ritual do REAA\ em vigência no GOB onde a Sabedoria a Força e a Beleza são mencionadas, assim como pode também ser observado que no Painel da Loja do Rito Escocês não aparecem às mencionadas Colunas com as três Ordens de Arquitetura – no Painel do escocesismo aparecem apenas as Colunas Solsticiais B\ e J\ que nada tem a ver com aquelas relativas às Ordens de Arquitetura.
Cabe aqui uma observação: Na vertente inglesa o Painel é tratado como Tábua de Delinear (Tracing Board), enquanto que na vertente francesa ele é simplesmente o Painel da Loja, ou do Grau. O que se diferencia entre ambos são os seus conteúdos, como se pode ver nas figuras ao lado.
Retomando o raciocínio, explico que esse comentário foi necessário para mostrar que verdadeiramente existem inúmeros enxertos e acréscimos de práticas alienígenas nos Ritos e Trabalhos maçônicos, lembrando que se o objetivo da Maçonaria é um só - o de aprimorar o Homem - os métodos e as doutrinas, ao contrário, se diferenciam em muitas oportunidades. Assim não há como se generalizar a ritualística e a liturgia maçônica como fosse ela sempre a mesma coisa. Tudo depende de cada esboço doutrinário.
TÁBUA DE DELINEAR
Dados esses superficiais comentários e conhecida a origem da tríade imaginária e o seu símbolo representado pelas três Ordens de Arquitetura, é possível então dissertar alguma coisa sobre as “colunetas” que foram o objeto da sua questão.
Nos Trabalhos de Emulação (inglês), na sua ritualística original existem três colunetas que representam miniaturas das Ordens de Arquitetura grega, existindo inclusive para duas delas práticas litúrgicas particulares. Saliente-se que colunetas não fazem parte da decoração e nem da ritualística de uma Loja do REAA\, embora, como já mencionado, o Rito Escocês também possua influência anglo-saxônica.
No Ritual de Emulação, às vezes aparece sobre o pedestal[2] do Venerável Mestre uma pequena coluna que imita a Ordem Jônica a qual permanece sempre estática. Ela simboliza a Sabedoria (essa coluneta nem sempre é adotada pelas Lojas). Sobre o pedestal do Primeiro Vigilante vai outra pequena coluna relativa à Ordem Dórica e é o símbolo da Força. Sobre o pedestal do Segundo Vigilante, uma relacionada à Ordem Coríntia que representa a Beleza.
Já para as duas colunetas que ficam junto aos Vigilantes (obrigatórias), existem movimentos ritualísticos, o que se dá conforme o desenvolvimento dos trabalhos da Loja. A coluneta Dórica é colocada em pé pelo Primeiro Vigilante assim que os trabalhos são declarados abertos, enquanto que a Coríntia simultaneamente é colocada deitada pelo Segundo Vigilante. Se a Loja entrar em recreação, for suspensa ou encerrada, procede-se de modo inverso – o Primeiro Vigilante deita a sua coluneta e Segundo levanta a sua. Essa ritualística é própria dos Trabalhos de Emulação, também conhecido por aqui como Rito de York (inglês).
Quanto à existência dessas colunetas na decoração e ritualística do REAA\, tal como acontece no Ritual de Emulação, simplesmente elas não existem, pois não fazem parte da liturgia do escocesismo.
- Então por que delas aparecerem em algumas Lojas e Rituais do escocesismo simbólico?
Explica-se: é puro produto de enxertia copiada de elementos litúrgicos de outra vertente maçônica; no caso, do Ritual de Emulação.
Aliás, diga-se de passagem, isso tem sido prática muito comum na Maçonaria Tupiniquim, sobretudo pela desenfreada profusão de rituais editados ao longo dos tempos no Brasil e seguida por muitos “pseudos-ritualistas” que cometem toda a sorte de absurdos ao inserir bisonhamente praticas de uns em outros ritos transformando-os em verdadeiras colchas de retalho.
Ainda no Brasil, existem aqueles que no afã de buscar reconhecimento internacional para a sua Obediência, como o que aconteceu na primeira metade do século XX, acabaram por trazer muitas práticas ritualísticas do Craft norte-americano e, por conseguinte, da vertente inglesa, inserindo-as desafortunadamente no REAA\ que é um rito originário da França[3].
Foi assim que, dentre outros enxertos, as “colunetas” acabaram equivocadamente aportando em um rito que nunca as deteve na sua liturgia – é o caso do REAA\.
Em se tratando de mistura de procedimentos estranhos que ocorre com alguns rituais brasileiros do REAA\, além das colunetas, também as acompanhou a Tábua de Delinear inglesa que foi inescrupulosamente colocada na Loja escocesa junto com o Painel do Grau, fazendo com que o REAA\ passasse, de uma hora para outra, a ter no seu mobiliário não um; mais dois Painéis! Um, o seu original (o francês) e o outro, o enxertado (o inglês).
Como a boca se entorta conforme o hábito do cachimbo e buscando a lei do menor esforço, simplesmente inventou-se no REAA\ um nome para a Tábua de Delinear enxertada dando-lhe o título de Painel Alegórico, cujo qual foi parar no Oriente da Loja e acabou misturando símbolos do Ritual de Emulação com os símbolos do escocesismo. Para conferir essa miscelânea basta comparar o conteúdo do Painel Loja e da Tábua, chamada de Painel Alegórico, cuja qual pode ser encontrada em alguns rituais escoceses enxertados existentes na nossa Maçonaria.
É por isso que muitas explicações litúrgicas inseridas em alguns rituais acabam encontrando contradições que recebem justificativas nada convincentes, como são os casos das intrusas “colunetas” - objetos inexistentes no REAA\.
Dados esses comentários e respondendo por fim a sua questão, as “colunetas”, em que pese existir vertente anglo-saxônica no Rito Escocês, elas não podem ser usadas, isso porque simplesmente elas não são elementos da liturgia do escocesismo. Reforça ainda essa afirmativa o próprio diploma legal a despeito de que essa alegoria não é nem mesmo mencionada no Ritual do Aprendiz – REAA, em vigência do GOB, edição 2009.
Para cada símbolo e para cada elemento decorativo que compõe a liturgia de um rito, existe uma explicação. O conjunto dessa alegoria é disposto para formatar o arcabouço doutrinário de um Rito. Enxertá-lo com elementos estranhos à sua cultura e tradição, altera o seu conjunto de princípios que servem de base para a essência do seu sistema de ensino e de filosofia.
Dando por concluído, ao escrever essa resposta procurei cercar o assunto com justificativas, o que pode ter dado aparência de desvio de finalidade, todavia isso foi proposital para que o consulente possa perceber o quanto a ritualística maçônica é suscetível às sutilezas que podem lhe dar sentido.



T.F.A.

PEDRO JUK


SET/2017







[1] Sabedoria, Força e Beleza aparecem mencionadas na instrução do REAA, mas não se vê nenhuma gravura relacionada às Ordens Jônica, Dórica e Coríntia e nem aparecem como símbolos visíveis palpáveis no mobiliário da Loja.
[2] Pedestal – não existe mesa, ou altar. Apena um pequeno móvel que serve de apoio para o ofício do Venerável e dos Vigilantes.
[3] Busca de reconhecimento nas Grandes Lojas norte-americanas para as recém fundadas Grandes Lojas brasileiras – Mário Marinho Béhring em 1927; cisão no Grande Oriente do Brasil.

domingo, 3 de setembro de 2017

RITUALÍSTICA - TRANSFORMAÇÃO DA LOJA E A MUDANÇA DO SINAL

Em 20/06/2017 o Respeitável Irmão João Batista de Jesus Goes Pires Castanho. Loja Fraternidade São Roquense, 3.931, GOSP-GOB, Oriente de São Roque, Estado de São Paulo, solicita as informações seguintes:

TRANSFORMAÇAO DA LOJA E MUDANÇA DE SINAL


Caro Irmão Pedro, em primeiro lugar gostaria de lhe agradecer por tantas explicações sobre a ritualística, venho aprendendo muito com o Irmão, e na medida do possível tentando colocar seus ensinamentos em prática na nossa Loja, tenho uma dúvida, que se possível, gostaria muito que esclarecesse. Quando se esta trabalhando no Grau de Aprendiz e a Loja irá se transforma para o Grau de Companheiro, em que momento mudamos o sinal para o Grau de Companheiro, assim que se altera o Compasso, ou depois de toda a Loja transformada, ou seja, depois das velas acesas, do acendimento da Estrela Flamejante e a troca do Painel?

 
CONSIDERAÇÕES.

Embora existam muitos aspectos que envolvem a transformação de Loja, como Painel, Luzes, etc., a principal é sempre aquela que determina a abertura ou a transformação da Loja, ou seja, a disposição das Três Grandes Luzes Emblemáticas, ou Luzes Maiores no lugar de costume.
Delas o fundamental ainda é a disposição (modo de colocação), conforme o Grau, do Esquadro e do Compasso sobre o Livro da Lei.
Assim, mudando-se a disposição dos objetos emblemáticos mencionados, imediatamente o Venerável Mestre ordena a alteração do Sinal em Loja.
As outras providências da praxe se dão após todos estarem à Ordem no Grau correspondente ao trabalho da Loja que acaba de ser transformada.


T.F.A.

PEDRO JUK



SET/2017

OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS E A PRETENDIDA ORIGEM DA MAÇONARIA.

Em 19/06/2017 o Respeitável Irmão Demétrius Galego Davis, Loja José Caraver, 101, REAA, Grande Loja do Estado do Rio Grande do Sul, Oriente de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, apresenta o seguinte:

CAVALEIROS TEMPLÁRIOS E AS ORIGENS DA MAÇONARIA.


Há alguns dias recebi de um irmão do quadro da Loja que pertenço, a indicação para acessar seu Blog e, de imediato, já me pus a ler algumas Peças muito bem elaboradas e de riqueza significativa de temas maçônicos.
Na atualidade, estou fazendo pesquisas para elaborar uma Peça sobre o tema "Cavaleiros Templários e as Origens da Maçonaria". Confesso ter recebido algumas dicas de pesquisa (Jacques De Molay, A Lenda do Santo Graal e a Arca da Aliança, etc.)... Mas, confesso que estou um pouco "perdido" para elaborar esse trabalho.
Pelo exposto, gostaria de saber se o estimado Irmão teria alguma pesquisa já feita sobre esses temas, que poderiam ser úteis na elaboração da Peça de Arquitetura que ainda irei elaborar. Se o irmão tiver disponibilidade e aceitar compartilhar conhecimento comigo, serei muito grato.

CONSIDERAÇÕES.

De início devo mencionar que essa é daquelas bobagens que persistem em existir, devido à insistência de alguns autores que teimam em inescrupulosamente associar os Templários às origens da Maçonaria.
Afirmativa temerária, querer associar a Ordem Templária com o florescimento da Maçonaria, pura e simplesmente, é mero elemento contraditório.
É certo, porém que existem alguns graus dos chamados “Altos Graus e Graus Laterais” de alguns Ritos e Trabalhos maçônicos que mencionam práticas litúrgicas relacionadas aos costumes da Ordem da Milícia do Templo, todavia isso nunca teve nenhuma ligação com a autenticidade histórica, senão como um espécime estrutural e lendário para atender metodologicamente o aprimoramento dos iniciados.
Ratifico: a Ordem da Milícia do Templo (Templários) não deve sob qualquer justificativa ser considerada como um elemento ancestral da Ordem Maçônica, salvo como um artifício alegórico de estudo para aplicação de uma doutrina. É o caso, por exemplo, do que acontece com o Templo de Jerusalém na Maçonaria que, mesmo sendo um dos principais ícones das suas alegorias doutrinárias, sob nenhuma hipótese se concebe, aos olhos da história autêntica, imaginar a existência de maçons construtores naquele período da História.
O ideário do Templo surgiu não como um elemento histórico, mas sim como um método de estrutura doutrinária que se ocupou de construir a Lenda do Terceiro Grau. A fantástica Lenda é - como diz o sentido - apenas uma lenda.
Dados esses comentários seguem alguns apontamentos inerente à história dos Templários de Jacques De Molay.
A Ordem da Milícia do Templo, também conhecida entre os estudiosos como “Templários”, teve a sua fundação no ano de 1118 por Hughes de Payns e por um grupo de oito cavaleiros que tinham participado da cruzada de Godefroi de Bovilon.
De início, denominavam-se Os Pobres Cavaleiros de Cristo, protegidos por São Bernardo adotaram o nome de Templários na ocasião em que Balduíno II, rei de Jerusalém, instalou-os em um palácio contíguo ao antigo e lendário Templo de Jerusalém, também conhecido como o Templo de Salomão (sic).
Confirmada como instituição em um concílio que estivera reunido em Troyes em 1128, foi dotada por regra monástica e militar, cujo regulamento severo e judicioso foi ditado pelo próprio São Bernardo.
Com o objetivo principal de proteger e escoltar os peregrinos que iam à Terra Santa, os Templários formavam a estrutura principal dos exércitos dos cruzados na Palestina. Adquiriram vultosas receitas advindas de grande número de doações e donativos, embora também contraíssem austeras despesas devido às costumeiras guerras que se envolviam (Cruzadas), bem como idealizadores da construção e manutenção de muitas fortalezas na Terra Santa.
Excelentes administradores, fiéis e organizados depositários de bens de natureza financeira, acabariam também, sob esse perfil, por se tornar banqueiros de papas, reis, príncipes e outros de situação abastada. Entretanto, devido ao acúmulo de riqueza, a Ordem Templária não demoraria a suscitar sobre si imensa cobiça por parte de muitos príncipes e governantes, os quais para justificar a cupidez, lhes atribuíam lendas malévolas e hediondas.
Organização dependente diretamente do Papa, os Templários logo excitariam também a malevolência dos bispos e demais autoridades que, no afã da cobiça, apelavam queixosamente com constância a Roma. Contudo, a Ordem era levada em alta conta pelo Papa e com isso o pontífice desviava-lhe os olhos dos seus defeitos naturais oriundos do perfil da dupla finalidade assumida pela Ordem, já que os seus integrantes eram ao mesmo tempo, monges e soberbos soldados.
Sob o perfil de valentia e temeridade, os Templários se tornariam homens orgulhosos e briguentos, embora também suscetíveis aos reveses sofridos pelos cristãos no Oriente o que acabaria por lhes proporcionar a diminuição de boa parte do seu prestígio.
Sob o estigma da cobiça muitas lendas caluniosas insidiam sobre os Templários a tal ponto de lhes comprometer a moralidade. Com isso era comum se ouvir, mesmo que velados, comentários embusteiros de que nos seus capítulos existia idolatria e devassidão.
Foi assim que, sob a égide da cobiça e amargurado pela constante derrocada da economia do seu reino devido as incessantes guerras que movia contra os seus vizinhos e, temeroso pelo poderio circunstancial adquirido pelos Cavaleiros Templários; aconselhado pelos inescrupulosos que o rodeavam; o Rei Felipe, o Belo, conspirou para se apoderar dos bens da Ordem Templária.
Em 14 de setembro de 1307, Filipe lançou ordem de captura de todos os Templários que se encontrassem em seu reino. Presos em 13 de outubro daquele ano por acusação de heresia e sodomia, perante a Inquisição, além de crimes de toda sorte, eles foram caluniados, espoliados, martirizados e condenados. Sob tortura, acabariam confessando tudo àquilo que era conveniente ao Rei, das quais, inclusive a renegação de Jesus Cristo e adoração a Baphomet, pretenso ídolo que chegou a ser relacionado com Maomé.
Assim, em 1308 os Estados Gerais de Tours declaravam a condenação à morte dos integrantes da Ordem, enquanto o Concílio de Viena em 13 de abril de 1312, na França e com a conivência do Papa Clemente V, submisso ao Rei Felipe IV (o Belo), pronunciava a sua completa supressão.
Com toda a sorte de multiplicação de torturas os inquisidores conseguiram confissões de culpabilidade de alguns dos altos dignitários da Ordem, dentre os quais do seu último Grão-Mestre, Jacques De Molay. Não querendo, entretanto, confirmar as confissões que lhes foram arrancadas, sob tortura, miséria e falsas promessas, esses dignitários retrataram-se (desmentiram as confissões) perante o público o que deixou irado o rei devasso, condenando-os à morte como relapsos, os quais foram queimados vivos em 13 de março de 1314.
De qualquer maneira, pela organização, prestígio e riqueza da Ordem ela não seria completamente exterminada e muitos dos seus adeptos conseguiriam burlar os destinos condenatórios se refugiando no norte da Inglaterra até o fim dos seus dias, principalmente na Escócia.
Conhecedores de muitos segredos relativos à arte e as ciências aprendidas com os árabes durante as suas perambulações pelo Oriente Médio, seria mais do que normal para os Templários, pelas suas habilidades e conhecimento, se integrarem às Guildas de Construtores Medievais que haviam florescido no norte da Inglaterra e distante do poderio eclesiástico de Roma.
Assim, sobre esses acontecimentos é que desafortunadamente muitos autores, uns por desatenção e outros por puro ufanismo, inverteram os acontecimentos sem observar as narrativas originais e notáveis dos fatos. Muitos pesquisadores desatentos acabariam por montar uma falácia na histórica “achando” que os maçons construtores da Idade Média teriam se originado na Ordem da Milícia do Templo.
Outro importante pormenor dessa história e que também merece muita atenção por parte do pesquisador é que antes da dispersão dos Templários para o norte da Europa, ainda nos tempos áureos da Ordem, muitos maçons operativos foram atraídos e contratados para construir e reparar, junto com as Compagnonnages, cidadelas e fortalezas idealizadas pela Milícia do Templo no caminho para a Palestina (vide a história das Cruzadas e das Compagnonnages francesas).
Sem dúvida é inegável que a relação entre a Maçonaria Operativa e os Templários existiu, mas ela foi puramente profissional, estando, porém muito longe de se admitir que entre essas instituições houvesse uma afinidade de ancestralidade.
Do mesmo modo também nunca existiu nenhum vínculo de ascendência entre as Instituições quando as Guildas de Construtores Operativos da Idade Média na Escócia, precursores da Francomaçonaria, acolheram mais tarde, numa relação meramente econômica-profissional, os remanescentes dispersos da Ordem da Milícia do Templo.
A despeito desses comentários, ainda existem os tendenciosos e inescrupulosos “autores inventores” que procuraram associar intimamente a Ordem Templária com a Francomaçonaria. É o que se verá a seguir.
Quatro séculos mais tarde, em pleno século XVIII, já na Moderna Maçonaria, especulativa por excelência, nasceu uma incrível fábula criada por fabricantes sem escrúpulos dos “Altos Graus” fantasiosos, a chamada “origem templária”, segundo a qual a Ordem do Templo, da qual alguns sobreviventes haviam se refugiado na Escócia, teria dado origem à Maçonaria!
Fantasia histórica, embora refutada várias vezes e até condenada na convenção de Wilhelmsbad[1] no ano de 1782 e desmontada pelo autêntico Albert Lantoine em La Franc-Maçonnerie chez elle (Francomaçonaria em casa), infelizmente essa falácia renasce periodicamente, apesar de contestada e contra atacada por inúmeros historiadores comprometidos com a verdade.
Allec Mellor in Dictionnaire des Franc-Maçons et de La Franc-Maçonnerie, 1979, Belfond, Paris, 1971-1979, citando o que escreveu Albert Lantoine em 1925, nos traz uma preciosa manifestação com autenticidade: “Essa reputação revolucionária adquirida pela Ordem – que lhe fez tanto mal e da qual a Franco-Maçonaria francesa se orgulhava – aconteceu simplesmente porque, em sua loucura de grandeza, um devoto dos Altos Graus quis assinar o avental maçônico com a cruz vermelha dos Templários”.
À bem da verdade a criação dessa fábula se deve ao Barão de Hundt, o criador do Rito da Estrita Observância que, no século XVIII inventou sem fundamento histórico algum, ter Jacques de Molay nomeado um sucessor para substituí-lo como dirigente da Ordem do Templo e que o mesmo teria se retirado para a Escócia onde “havia fundado a Maçonaria!”. Irresponsavelmente o Rito Estrita Observância então se propunha a reivindicar os bens deixados pelos Templários daqueles que dele tinham se apossado e que posteriormente seriam distribuídos aos membros do Rito e dos quais seriam cobradas elevadas quantias em bens e riquezas para servirem de sustento aos seus dirigentes. Pura cafajestada que simplesmente intencionava apropriação indébita - coisas que certos copistas e espalhadores de inverdades teimam ainda em não reconhecer.
Vale a pena também mencionar um dos documentos básicos do escocesismo; o Discurso de André Miguel de Ramsay que, mesmo proibido na França pelo cardeal Fleury, acabou sendo pronunciado em 1737 na Inglaterra. Ramsay querendo dar um significado aristocrata para a Maçonaria, falava sobre os “cruzados”, embora não sobre os Templários em particular. Assim havia lançado uma fábula segundo a qual os “cruzados” teriam dado origem à Maçonaria.
Na verdade esse engodo era para satisfazer o orgulho aristocrático dos maçons franceses da época que não se satisfaziam apenas com o prestígio obscuro dos construtores medievais. Assim, ligar à Maçonaria aos Templários era a “varinha de condão” para satisfazer o pavonismo latino, embora ainda ficasse um hiato de quatro séculos que separava os “Cruzados” da Maçonaria Especulativa, essa como Instituição ainda recente.
Para os instituidores de fantasia foi fácil suprir esse hiato, bastando para tal apenas inventar que os Templários haviam sobrevivido secretamente por todo esse tempo, o que imediatamente satisfez os espíritos crédulos que raramente possuíam uma formação crítica (como acontece ainda hoje).
É fato também que em pleno século XXI ainda existem adeptos que excessivamente imaginam essa pretensa vida secreta e até mesmo muitas vezes se fantasiam a moda medieval.
Em 1806 surgia em Paris uma nova Ordem do Templo baseada num documento falsificado chamado de a Carta de Transmissão de Larmenius. Era mais um de outros embustes que vinha acompanhado de uma suposta lista de Grãos-Mestres Templários estabelecendo a sucessão de Jacques De Molay até Fabré-Palaprat no ano de 1804.
Na realidade essas Ordens neotemplárias acabariam todas ligadas deixando seus traços na Moderna Maçonaria francesa e nos Ritos compostos por Altos Graus, principalmente no REAA com seus graus de Kadosh e outros baseados nessas lendas, bem como em alguns side degrees (graus laterais) da Maçonaria inglesa.
Embora inúmeros pesquisadores e escritores maçônicos do século XVIII e XIX tenham se esforçado para encontrar palpáveis relações não fantasiosas entre os Templários e a Maçonaria Operativa, desde o discurso de André Miguel de Ramsay e posteriormente adornada como lenda pelo Barão de Hundt, em cuja qual ele substituiu o termo “cruzados” por “templários” afirmando que “todo o verdadeiro maçom é um cavaleiro templário” (sic), nenhum deles conseguiu encontrar elemento plausível de crédito para essas e tantas outras afirmativas temerárias.
Embora a existência das Compagnonnages (braço construtor templário), também era natural que grandes empreendedores como foram os Templários tenham tido nos seus tempos áureos a necessidade de contratar mais mão de obra especializada para as suas edificações, tanto sacras como as militares.
As regalias que desfrutavam em seus domínios francos serviam perfeitamente para atrair com certa facilidade os operários das guildas construtoras garantindo-lhes subsistência em tempos difíceis de conseguir trabalho contínuo. Essa relação puramente profissional é o único elo existente na época das Cruzadas entre os Templários e a Francomaçonaria operativa, mas não ao ponto de se achar que uma pudesse ter dado origem a outra.
Já bem mais tarde, como já comentado, a outra relação que aparece entre ambas, reporta-se ao tempo do exílio dos Templários em fuga das perseguições na decadência da sua Ordem. Nessa oportunidade, ao contrário, foram as Guildas Operativas da Francomaçonaria que os acolheram dispersamente, inclusive valendo-se do seu prestígio e conhecimento. Mais uma vez o fato não nos dá o direito de afirmar “origens” entre uma e outra Instituição.
É desse período que podem ser encontradas inúmeras evidências de símbolos templários (espada) unidos a símbolos maçônicos operativos (letra G), todavia isso nunca autorizou afirmativas de origem ou influência, senão um momento da história em que muitos Templários se tornaram maçons na Escócia, ainda medieval, pelas próprias circunstâncias.
Dizer que a Maçonaria é filha dos Templários é proferir uma afirmativa temerária, já que isso nunca existiu. Ambas as Ordens, uma sacra e militar e a outra composta por canteiros medievais que trabalhavam na pedra calcária, podem ter caminhado juntas por conjunturas de momento, porém nunca existindo entre elas quaisquer ligações que possam sugerir “origens”.
Por fim, é certo que a Moderna Maçonaria, especulativa por excelência, pelo seu ecletismo e na profusão dos seus ritos e rituais a partir do século XVIII, sobretudo no que concernem as doutrinas dos seus Altos Graus, possui na sua liturgia inúmeras passagens ritualísticas e lendárias que mencionam concepções hauridas de costumes templários, todavia esse não é um fato que possa leva a especulações temerárias como a de que a Maçonaria tenha se originado dos rudes monges militares da Ordem Templária.
Embora muitos autores ainda queiram encontrar na Ordem dos Templários os primórdios da Maçonaria, a realidade histórica tem mostrado que isso é mera fantasia, pois no seu auge, a Ordem dos Templários era muito mais dedicada ao belicismo religioso e às operações financeiras, embora nela até existisse um braço construtor, ou pelas Campagnonnage, ou circunstancialmente pela contratação de Francomaçons medievais. Já na sua decadência muitos Templários encontraram abrigo nas Guildas de Construtores, principalmente na Escócia.


T.F.A.

PEDRO JUK

SET/2017





[1] Convenção de Wilhelmsbad – Em 1782 debateu a doutrina mentirosa que fazia da Maçonaria a sucessora dos Templários. Repudiada definitivamente, foi extinto o Rito Estrita Observância que tomaria deste então o nome de Rito Escocês Retificado (Nicola Aslan in Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia e fontes citadas).