quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

DEPUTADO PODE ASSUMIR UM CARGO NA LOJA?

Em 02/11/2017 o Respeitável Irmão Marcos Almeida, Loja Guardiões do Roncador, 3.719, GOEMT - GOB, REAA, Oriente de Barra do Garças, Estado do Mato Grosso, faz a seguinte pergunta:

DEPUTADO ASSUMINDO CARGO NA LOJA


Tenho uma duvida em relação ao uso dos deputados no exercer qualquer cargo em Loja, vira e mexe o Venerável utiliza o(s) deputados presentes para exercer cargo mesmo sabendo que tem irmão Mestre que podem ser utilizados em diferentes cargos. Sendo eles em exercício nas SALM, potência diferente os Deputados sem constrangimentos, tiram seus colares ou não tiram os colares e executam a tarefa, mesmo sendo Irmãos da Loja pode ele exercer cargo como Orador, Vigilante ou é de bom senso usar para o exercício na sessão de qualquer cargo.
Obrigado! Espero resposta, pode ou não pode exercer cargos em Loja durante o seu mandato legislativo, como representante da Loja.

CONSIDERAÇÕES.

Na ausência extrema de Irmãos, não havendo outros Mestres que possam preencher cargos de modo precário, nada impede que um Irmão Deputado preencha de modo “ad hoc” um cargo.
Eu não entendi bem o que o Irmão quis dizer com “SALM, potência diferente”, já que uma Soberana Assembleia Legislativa Maçônica não é uma Potência, mas uma Assembleia da Potência. Obviamente que está fora questão aqui qualquer referência a um Deputado de outra Obediência (Potência) fazer substituição, pois cargos na Loja são preenchidos precariamente por Irmãos do seu Quadro e no máximo por Irmãos visitantes, mas que sejam da mesma Obediência, se for ocaso.
O que também deve ser considerado é que num caso de falta de Irmãos que compõem a diretoria da Loja, ela, mesmo com seus substitutos, deve evitar colocar matérias relevantes em votação.
De tudo essa não deve ser uma situação corriqueira na Loja, mas provisória e em situações que não ocorrem com frequência.
Um deputado assumindo um cargo para auxiliar a sua Loja por motivo de falta de um titular nada tem a ver com o seu mandato legislativo e nada fere o seu ofício de representar a Loja nas Assembleias Estadual ou Federal Maçônica.
Só lembrando, tradicionalmente no REAA\ o substituto precário do Primeiro Vigilante é o Segundo Vigilante e deste o Segundo Experto.
Volto apelar para o bom-senso. A missão de compor a Loja não é ofício do Venerável Mestre, mas do Mestre de Cerimônias. Este, ao se deparar com situação de vacância de cargos, ao revestir as joias deve avaliar primeiro a situação e, nesse caso, só lançar mão de um Deputado, que é uma autoridade maçônica, se não estiver presente outro Mestre que possa antes suprir à premente necessidade.


T.F.A.

PEDRO JUK



FEV/2017

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

BALANDRAU x SESSÃO MAGNA

Em 01/11/2017 o Respeitável Irmão Alexissandro Marques Moreira, Loja Caratinga Livre, REAA, GOB-MG, Oriente de Caratinga, Estado de Minas Gerais, formula a seguinte questão:

USO DO BALANDRAU



Queria saber se posso usar o balandrau em uma sessão magna. Porque na minha loja não é permitido. E se não posso, por quê? Onde isso esta escrito?

CONSIDERAÇÕES.

Meu prezado Irmão, essas orientações estão à disposição de todos os maçons da Obediência e fazem parte do Regulamento Geral da Federação, bem como do respectivo ritual.
Veja então o que menciona o Capítulo X do RGF em seu artigo 110 e § 1º que transcrevo a seguir:
“Art. 110. Os Maçons presentes às sessões magnas estarão trajados de acordo com o seu Rito, com gravata na cor por ele estabelecida, terno preto ou azul marinho, camisa branca, sapatos e meias pretos, podendo portar somente suas insígnias e condecorações relativas aos graus simbólicos”.
“§ 1º. Nas demais sessões, se o rito permitir, admite-se o uso do balandrau preto, com gola fechada, comprimento até o tornozelo e mangas compridas, sem qualquer símbolo ou insígnia estampados”.
Assim, no Ritual do REAA\ de Aprendiz Maçom do GOB, Decreto 1102/2009 em vigência, na sua página 33 está escrito o seguinte:
“Os Maçons presentes às Sessões Ordinárias e obrigatoriamente (o grifo é meu) nas Sessões Magnas (o grifo é meu) estarão trajados de acordo com o Rito, terno, sapatos, cinto e meias na cor preta, camisa branca, gravata (preta, lisa, sem ornamentos, modelo tradicional ou borboleta), podendo portar somente suas insígnias e condecorações relativas aos graus simbólicos”.
Nas demais sessões (o grifo é meu) admite-se o uso do balandrau preto, com gola fechada, comprimento até o tornozelo, sem qualquer estampa ou insígnias estampados...”.
A expressão “nas demais sessões” grafadas acima implica em se admitir também o uso do balandrau nas demais sessões que não sejam Sessões Magnas, portanto, respondendo sua questão, fica óbvio que não pode porque o RGF e o Ritual do Rito assim orientam.
Esse não é o caso apenas “da sua Loja”, mas de todas as Lojas da Federação do GOB que praticam o REAA\, ou seja, nas Sessões Magnas não é admitido o uso do balandrau.
Concluindo, aceite a minha recomendação de conhecer as leis e regulamentos da Obediência, cujas quais estão à disposição de todos e em particular do Orador que é o Guarda da Lei da Loja.


T.F.A.

PEDRO JUK


FEV/2017

sábado, 10 de fevereiro de 2018

RITUAL DE EMULAÇÃO (RITO DE YORK) - SINAIS

Em 08/10/2017 o Respeitável Irmão Henri Marques, Loja de Pesquisas e Estudos Maçônicos de Ribeirão Preto, 3150, Ritual de Emulação, GOSP-GOB, Oriente de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, solicita as seguintes informações:

RITUAL DE EMULAÇÃO


Mais uma vez recorro à ajuda do irmão para sanar algumas dúvidas referentes ao ritual de Emulação.
Recentemente me filiei em uma Loja que funciona segundo o ritual de Emulação e gostaria que o Irmão me auxiliasse em algumas dúvidas referentes a esse belo ritual, mas só que no próprio ritual elaborado pelo GOB não há esclarecimentos detalhados quanto às posturas de certos sinais nos três graus. Vamos lá:
1. É verdade que há duas palavras do Mestre Maçom, uma derivada dos Antigos e outra dos Modernos, quando da União das duas potências, resolveram adotar as duas palavras? Quais são elas?
2. O que é esse "Sn de R" feita no grau de Ap.? O que significa? Como ele é feito?
3. No grau de MM há 5 sinais: o Sn P, o Sn de H, o Sn de Ang ou S, o Sn de Compx. e o Sn de Jub. ou Aleg. Como são feitos esses sinais? O ritual não deixa muito claro e as cifras são um pouco confusas para mim.
P.S.: por discrição e já que o Ir. costuma publicar as perguntas dos demais IIr., se puder manter as palavras cifradas nas respostas e responder sem abreviações no privado em nome da promessa do sigilo, eu agradeço; ou se o Ir preferir responder a mim de maneira cifrada e abreviada, e caso eu não compreenda algumas abreviações, eu posso ir perguntando ao Ir ao longo das dúvidas e esclarecimentos.

CONSIDERAÇÕES.

Para os comentários a seguir obtive o competente auxílio do Respeitável Irmão Joselito Hencotte, um dos conhecedores e estudioso da Maçonaria Inglesa.
Conforme o Irmão Joselito comenta, geralmente a explicação que envolve a composição dos Sinais tem sido detalhada nos rituais brasileiros, entretanto as dúvidas se apresentam mais pelo desconhecimento das palavras, o que às vezes influencia conclusões levando a fazer com que Irmãos pratiquem modos diferenciados nessa liturgia.
Parece-nos que o ideal seria que um instrutor (preceptor) sempre pudesse demonstrar os Sinais para que eles fossem executados corretamente. Um sinal deve ser executado com rigor ritualístico, mas sempre com naturalidade, não existindo para ele gestos marciais estereotipados e nem movimentos providos de desmedido exagero.
Em não existindo a possibilidade da presença de um instrutor, sugere-se que se preste bastante atenção nos sinais e como vão colocados conforme a ordem descrita no Ritual, cuja mesma tem o desiderato de dar sentindo a prática que segue sempre o drama descrito pela lenda hirâmica.
Nesse entendimento, enfatiza-se que os Sinais estão ligados diretamente aos C. PP. do Companheirismo e figuradamente resumem a dramatização da lenda.
Outro aspecto a se considerar é o de que alguns termos utilizados nos Rituais do GOB foram traduzidos e muitas vezes adaptados àquilo que o tradutor, ou editor pensou ser o mais adequado à cultura e à prática da liturgia maçônica brasileira.
Nesse contexto aparecem discussões de tradução a exemplo do substantivo “sympathy”, cuja tradução que mais se coaduna com a realidade ritualística do caso é “compaixão”, ou “condolência”, embora ela signifique também no idioma bretão “simpatia e benevolência”. Ainda sob essa mesma conjuntura aparece os “Five Points of Fellowship”, onde o substantivo fellowship, que significa “companheirismo” no idioma bretão, às vezes é entendido como “confraternização”???
Eu acrescentaria ainda que no Brasil, inadvertidamente, muitos dos compiladores da ritualística maçônica misturam práticas litúrgicas de vertentes maçônicas distintas – no caso entre a francesa (REAA\) e a inglesa (Craft).
Dados esses comentários, seguem as respostas, mas de modo resumidas devido ao sigilo que o assunto merece. Por esse particular segue um anexo com explicações mais detalhadas, já que a sua divulgação aqui poderia afrontar o sigilo maçônico.
1.     É verdade que há duas palavras do Mestre Maçom, uma derivada dos Antigos e outra dos Modernos, quando da União das duas potências, resolveram adotar as duas palavras? Quais são elas?
De fato existiram duas palavras que provavelmente pertenceram cada qual a uma das Grandes Lojas Rivais e eram usadas pelas Lojas na época (antes da união de 1813). Devido a não existência de rituais impressos como é comum no costume inglês, seria temerário fazer afirmativa sobre qual era a palavra exclusiva nessa ou naquela Grande Loja. O que se sabe é que as palavras são M.B. e M.
Por exclusão há possibilidade de que M. B. seja a palavra relativa aos Modernos, já que essa palavra também é comum no Rito Moderno ou Francês. Sabendo-se que a França do Século XVIII desconhecia completamente as práticas dos Antigos, é bastante possível que os franceses adotassem práticas dos Modernos ingleses de 1717, adoção essa que deu, inclusive, o título de “ou Moderno” para o Rito Francês.
2.     O que é esse "Sn. de R." feita no grau de Ap.? O que significa? Como ele é feito?
Sinal de Reverência. Na verdade ele não é utilizado só Grau de Aprendiz. Ele é também utilizado, além da cerimônia de Iniciação, na cerimônia de Passagem, de Exaltação e de Instalação.
Pelo forte cunho teísta da Maçonaria Inglesa, ela adota esse sinal como atitude de respeito, acatamento e veneração durante as preces e orações. Há que se perceber que esse sinal somente se aplica nessas circunstâncias.
Obs. – a descrição do sinal fica velada sendo só remetida pessoalmente ao consulente.
3.     No grau de MM há cinco sinais: o Sn P, o Sn de H, o Sn de Ang ou S, o Sn de Compx e o Sn de Jub ou Aleg. Como são feitos esses sinais? O ritual não deixa muito claro e as cifras são um pouco confusas para mim.
Esses cinco sinais aludem aos C. PP. do Companheirismo e estão diretamente ligados à dramatização da Lenda de Hiran.
Na ordem ritualística, eles são: o Sinal de Horror, o Sinal de Simpatia, o Sinal Penal, o Sinal de Aflição e Agonia e o Sinal de Exaltação e Júbilo, esse também chamado de Grande ou Real Sinal.
A descrição e explicações relativas a esses sinais podem ser consultados no anexo relativo a essa resposta.

Fraternalmente em fevereiro de 2018

PEDRO JUK




sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ABORDAGEM NA COLETA

O Respeitável Irmão Nilson Alves Garcia, Loja Estrela da Serrinha, REAA, GOB-GO, Oriente de Goiânia, Estado de Goiás, solicita a seguinte informação:

ABORDAGEM NA COLETA


Após a coleta dos seis primeiros cargos obrigatórios, a
o se dirigir novamente ao Oriente o Oficial aborda os demais Irmãos do Oriente. Pergunta: Começa pelo Irmão Porta-Bandeira, ou primeiro aborda os ocupantes das cadeiras de honra no sólio se elas estiverem ocupadas?

CONSIDERAÇÕES.

Já escrevi bastante a respeito, sobretudo no que expõem os rituais do REAA\ do GOB.
Para que possamos dar uma resposta laudatória, independente do que eu já tenha escrito até então, menciono que após a coleta dos seis primeiros cargos obrigatórios, dos quais o último é o Cobridor Interno, o Oficial respectivo dando continuidade à coleta, se dirige ao Oriente para a coleta dos demais. Nessa oportunidade não existe ordem para a abordagem, senão aquela que determina que todos sejam abordados.
Nesse sentido, “recomenda-se” que se as duas cadeiras de honra (ambos os lados do Venerável) estiverem ocupadas, que o Oficial circulante dê continuidade à coleta a partir delas e posteriormente dos demais ao seu critério. Devo salientar que essa é uma recomendação e não uma regra, pois o ritual nada menciona a respeito.
Volto a ratificar: o que não deve ser executada é a coleta dos ocupantes das cadeiras de honra junto com a do Venerável.
Eu particularmente como maçom gosto da objetividade e da praticidade e esse deve ser o desiderato na execução da ritualística.
Por fim, caso eu tenha dado alguma resposta contraditória ao que vai aqui hoje escrito, recomendo que se desconsiderem as anteriores.


T.F.A.

PEDRO JUK



FEV/2017

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

COBERTURA DO TEMPLO NO ESCRUTÍNIO

O Respeitável Irmão Daniel Leonel Alves, Loja Filhos da Viúva, REAA, GOSP-GOB, Oriente de Barretos, Estado de São Paulo, solicita a seguinte informação:

COBERTURA DO TEMPLO NO ESCRUTÍNIO


Devemos ou não pedir para o Irmão visitante cobrir o Templo temporariamente, uma vez que não faz parte do Quadro da Loja para a realização do Escrutínio Secreto?
No último Escrutínio, solicitamos que o visitante cobrisse o Templo temporariamente.
Achamos sem propósito a presença de Irmão visitante, inclusive para não influenciar a votação. Gostaria de saber se o que aconteceu está errado ou certo?

CONSIDERAÇÕES.

Entendo e sou simpático à justificativa e preocupação da Loja no caso de se cobrir o Templo a um ou mais visitantes que tenham relações próximas com o candidato que será escrutinado, a despeito de que pelas suas presenças possa existir, mesmo que remotamente, alguma influência sobre o resultado.
Por outro lado, lembra-se que o voto no Escrutínio é secreto, portanto longe das vistas alheias e sem que o nome do votante seja revelado nesse caso.
Eu particularmente não vejo nenhum problema se o escrutínio fosse realizado sem a presença de visitantes, entretanto, o Art. 17 do RGF em seu parágrafo único menciona claramente que da votação (escrutínio) somente participam membros do Quadro, inclusive Aprendizes e Companheiros, mas não condiciona a Loja a não permitir a assistência de visitantes (vedando ou retirando-os). O que é vedado aos visitantes é o ato de votar no Escrutínio, não a sua presença na Loja.
Isso também pode ser constatado no Ritual de Aprendiz do REAA\ do GOB\ em vigência, onde na sua página 56, título 2.5 Escrutínio Secreto para Admissão de Novos Membros, no primeiro explicativo impresso em azul está mencionado o seguinte: “Dá-se entrada a Irmãos Visitantes (o grifo é meu) do GOB, ou de Potências por ele reconhecida, que estejam na Sala dos PP\ PP\, sendo que do Escrutínio Secreto somente participam os membros efetivos da Loja”. Obviamente que essa orientação é dada em se levando em conta que outros Irmãos visitantes possam já ter entrado em família.
Com base no que foi mencionado, tanto no RGF e no Ritual, legalmente não está prevista a cobertura do Templo aos visitantes na oportunidade em que é realizado o Escrutínio Secreto. Ratifico, o que lhes é vedado é o exercício do voto no Escrutínio e não as suas presenças na Sessão Ordinária da Loja no momento da realização do Escrutínio.
Pelo exposto, sob o ponto de vista legal, mesmo que simpático à iniciativa, eu devo salientar que não é prevista a cobertura do Templo aos Irmãos visitantes nessa oportunidade. Assim, o que não está previsto, não deve existir.

E.T. – Quem cobre o Templo é o Cobridor. Os que eventualmente se retiram temporariamente não “cobrem o Templo”, mas têm a eles o Templo coberto pelo Cobridor.

T.F.A.

PEDRO JUK


FEV/2018

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A RÉGUA DE 24 POLEGADAS OU A RÉGUA GRADUADA E A RÉGUA LISA

SÍMBOLOS MAÇÔNICOS

A RÉGUA DE 24 POLEGADAS OU RÉGUA GRADUADA
E A RÉGUA LISA

I.                 INTRODUÇÃO

Tenho recebido muitas questões relativas à Régua como instrumento de trabalho simbólico na Maçonaria. Para alguns ela se apresenta já no grau de Aprendiz, para outros no de Companheiro.
A questão é de rito ou ritual e a sua grade de instrução, portanto não há como confundir a sua aplicação pura e simplesmente.
Particularmente no Brasil existe uma miscelânea de procedimentos ritualísticos, cujos quais são inseridos às vezes aleatoriamente na liturgia sem uma análise mais acurada, sobretudo em se observando se a história doutrinária de um costume se adequa à mensagem propiciada pelo objeto simbólico.
Como no Brasil o rito majoritário adotado pelas nossas três Obediências regulares é o Rito Escocês Antigo e Aceito, criou-se a falsa cultura de que as suas práticas são universais na Maçonaria, independentes dos ritos praticados - o que não é verdade. É ilusória a ideia de se imaginar que a liturgia maçônica seja exatamente igual por toda a parte do nosso Planeta. Embora de objetivo único, entre os ritos maçônicos existem diferenças.
Nesse contexto, as questões que envolvem práticas litúrgicas distintas são inúmeras, como é o caso, por exemplo, da aplicação da Régua na ritualística maçônica.
Ainda nesse interim, lembra-se que no Brasil, particularmente, os nossos rituais estão repletos de enxertos e invencionices, sobretudo com a inserção de práticas ritualísticas de um em outro rito, o que tem gerado contradições e explicações desprovidas de nenhum fundamento.
Na intenção de trazer um pouco de esclarecimento para o caso, segue texto abaixo, cujo qual foi adaptado de uma resposta minha dada há tempos atrás abordando a utilização da Régua no simbolismo dos dois primeiros graus do REAA\ assim como a sua aplicação em outros ritos.

II.               A RÉGUA – DO APRENDIZ OU DO COMPANHEIRO?
No Rito Escocês Antigo e Aceito, rito de origem francesa, a Régua de 24 Polegadas é um dos instrumentos de trabalho inerente ao Grau de Companheiro. Já no Craft (Ofício) inglês, no Brasil comumente conhecido como Rito de York da Inglaterra, a régua é um dos objetos pertences ao Grau de Aprendiz. Do mesmo modo no Rito Schröder, rito de origem alemã, mais depurado da Maçonaria inglesa, a Régua Graduada também é um dos instrumentos de trabalho do Primeiro Grau, o que pode ser comprovado no catecismo de Aprendiz do rito.
No Brasil, devida à equivocada mistura de procedimentos de uns em outros ritos, a régua aparece em alguns rituais do REAA\ também no Grau de Aprendiz, o que é um erro crasso, tanto pelo aspecto doutrinário como pelo histórico.
Aqui no Brasil o pormenor que envolve a régua se dá porque alguns rituais do escocesismo estão enxertados com práticas do Craft. Essa indevida inserção se deu quando as Grandes Lojas Estaduais brasileiras fundadas em 1927 pelo Irmão Mário Marinho Béhring buscaram o reconhecimento das Grandes Lojas Norte-americanas. Para o caso, é sabido que as Lojas Azuis (simbolismo) das Grandes Lojas dos Estados Unidos da América do Norte tiveram a sua ritualística fundamentada no Craft inglês que é oriundo da Grande Loja dos Antigos de 1751. Assim, em se tratando do Craft e da Régua como instrumento de trabalho, a mesma nele pertence ao grau de Aprendiz.
Com o reconhecimento adquirido, as Grandes Lojas brasileiras, provavelmente para angariar simpatia dos seus reconhecedores, acabaram enxertando nos rituais escoceses no Brasil inúmeras práticas oriundas das Lojas Azuis do Craft norte-americano, dentre as quais a régua para o Grau de Aprendiz no REAA\ quando nele, genuinamente a régua pertence ao Grau de Companheiro.
Até certo ponto poder-se-ia dizer que isso não faz diferença nenhuma, mas em se tratando da doutrina e das instruções do verdadeiro escocesismo simbólico que é natural da França, não existe nele nenhuma menção da régua no Primeiro Grau. Isso pode ser comprovado nas respectivas e clássicas alegorias do Aprendiz onde ele aparece ajoelhado tendo às mãos apenas o Maço e o Cinzel, enquanto na do Companheiro ele aparece trazendo apoiada no seu ombro esquerdo uma Régua graduada – em síntese, no REAA\ a régua só aparece no Segundo Grau.
É bom que se diga que toda a liturgia e a distribuição simbólica de um rito compõem a sua grade doutrinária. As instruções de cada rito devem estar respectivamente de acordo com os símbolos que se apresentam nos Painéis para o REAA\, nas Tábuas de Delinear para o Craft, ou ainda no Tapete para o Rito Schröder.
Aliás, a não observação desse conceito elementar tem sido a razão pelas quais muitas instruções inseridas nos rituais, às vezes acabem por não fazer nenhum sentido se comparadas com a verdadeira liturgia e ritualística do próprio rito. No simbolismo maçônico de um rito, nada existe por acaso. Sem nenhuma licenciosidade, na Maçonaria os símbolos embasam a doutrina especulativa de aperfeiçoamento humano.

III.             A RÉGUA LISA E GRADUADA – ORIGENS E APLICAÇÃO SIMBÓLICA
No que diz respeito ao REAA\, o Aprendiz durante o tempo de aprendizado ainda não usa simbolicamente a Régua graduada.
Como exposto, se faz cogente compreender que as cerimônias especulativas devem estar impreterivelmente de acordo com a respectiva concepção doutrinária. No caso do escocesismo, nesse contexto, é o que acontece no final da jornada do Aprendiz às portas do seu aumento de salário – a Elevação.
Nessa cerimônia (vide ritual do REAA\) é costume o aspirante ao Segundo Grau ao ingressar no recinto, ainda como Aprendiz e conduzido pelo Experto, trazer apoiada no seu ombro esquerdo, primeiro uma régua sem graduação (lisa).
Explica-se assim esse procedimento:
Originários das antigas práticas operativas, naqueles tempos só existiam classes de trabalhadores, não graus maçônicos especulativos tal como acontece hoje na Moderna Maçonaria.
À época existiam propriamente duas classes operárias, a do Aprendiz Admitido e a do Companheiro do Ofício. Da classe dos Companheiros era escolhido um artífice experiente para dirigir o canteiro de obras – era então conhecido como o Mestre da Obra (não era grau de Mestre).
Na classe dos Aprendizes, aquele que estava ainda na fase primária de aprendizado, ou o mais recente, era o Aprendiz Junior ou o Rough[1] Mason, enquanto que o aspirante à classe dos Companheiros, isto é, um Aprendiz instruído e próximo a concluir os três anos de aprendizado era o Aprendiz Sênior, ou o Stone Mason.
Em linhas gerais era comum que no canteiro de ofício o Aprendiz Júnior (Rough Mason) utilizasse uma régua lisa e não graduada que servia para que o Aprendiz de ofício com ela conferisse em primeira instância o preparo das pedras que futuramente serviriam para a elevação das paredes da obra.
Nesse sentido, a Régua lisa não era graduada por não servir como instrumento de medição, mas sim como um objeto para verificar a superfície da pedra após o primeiro desbaste das suas asperezas.
Já a Régua graduada era um dos objetos de trabalho do Aprendiz Sênior (Stone Mason) sendo admitido como Companheiro do Ofício, a despeito de que ele, como detentor de mais conhecimento, poderia agora manusear a Régua com graduação na intenção de conferir e fazer os ajustes necessários para a elevação dos cantos da obra.
Era com a um instrumento graduado que o Companheiro do Ofício (Fellow Craft) marcava de modo equidistante os nós do cordel na razão aritmética de três, quatro e cinco para a obtenção dos cantos esquadrejados a partir da pedra angular. Era na realidade a medida para a aplicação da 47ª Proposição de Euclides (Teorema de Pitágoras) na a obtenção do triângulo retângulo que servia para dar o perfeito esquadrejamento do canto.
Assim, em linhas gerais a Régua graduada, já em mãos mais experientes dos Companheiros, servia para auxiliar na aferição de medidas durante a elevação das construções.
É essa a razão de existir nos canteiros do passado duas réguas, a lisa e graduada, cujo costume é revivido na liturgia das cerimônias da Moderna Maçonaria, especialmente no REAA\.

IV.            OUTROS APONTAMENTOS NECESSÁRIOS.
Em se tratando da Maçonaria Especulativa, esses costumes acabaram se constituindo em alegorias maçônicas que são divulgadas conforme os rituais da Moderna Maçonaria. Obviamente que cada rito possui a sua particularidade litúrgica e ritualística, o que faz com que, embora o objetivo da Maçonaria seja um só, muito das suas práticas se diferenciam entre eles. É o caso da régua que no arcabouço doutrinário do Craft inglês aparece no Primeiro Grau, enquanto que no do REAA\ (filho espiritual da França) ela aparece apenas no Segundo Grau e ainda traz consigo a reminiscência da régua lisa antes da graduada.
No que diz respeito à graduação da Régua, lembra-se que ela obedecia aos padrões de medidas inerentes às regiões onde se concretizavam as construções, em resumo, onde a Francomaçonaria se fazia presente, podendo ser medidas em polegadas, pés, sistema métrico decimal e ainda outros.
O que verdadeiramente não existia na Maçonaria Operativa era o número exato da medida com “24 polegadas”, pois a dimensão da Régua se dava pela medida regional e conforme o tamanho do objeto manuseado. O número “24” ingressou somente na Moderna Maçonaria como símbolo especulativo e relacionado aos catecismos e as instruções morais e filosóficas pertencentes aos diversos ritos e rituais maçônicos já no século XVIII.
Não obstante já ter sido mencionado, é primordial o entendimento de que existia na Maçonaria Operativa, ou de Ofício, somente duas classes profissionais - a primeira era a dos Aprendizes, subdivididos em Rough Mason e Stone Mason e a segunda a dos Fellows Craft (Companheiros do Ofício). Lembra-se que não existiam graus especulativos nessa época e que cada guilda de construtores era dirigida por um Companheiro experimentado e auxiliado por dois Wardens (zeladores). Esses três membros diretores são os ancestrais do atual Venerável Mestre, Primeiro e Segundo Vigilantes, cujos quais seriam adequados paulatinamente à Maçonaria Especulativa quando em 1813 com a união das duas Grandes Lojas esses cargos seriam definitivamente fixados em lugar próprio na Sala da Loja e sacramentados nos Templos Maçônicos.
Dada essa conjuntura é que o Rito Escocês Antigo e Aceito, rito de origem francesa, mas com influência anglo-saxônica, revive na sua liturgia a utilização simbólica das réguas lisa e graduada na cerimônia de Elevação, oportunidade em que o Aprendiz ingressa no recinto conduzindo Régua lisa, até que a mesma seja substituída pela Régua graduada nas viagens e perambulações do aspirante ao Segundo Grau.
No tocante ao sistema inglês (Craft) onde a Régua graduada é integrante já no Primeiro Grau, essa tradição é revivida com forte apelo teísta nas preleções (vide as Lições Prestonianas). Inclusive é dela a concepção especulativa da divisão da Régua em 24 polegadas, sugerindo, dentre outros, a figuração de medida de tempo e o seu aproveitamento pelo maçom.
Ainda no Craft, segundo alguns autores a exemplo do Respeitável Irmão Anatoli Oliynik, a diferenciação entre os Aprendizes recentes e os mais experientes é também feita, inclusive numa Loja inglesa que trabalha no Brasil, mantendo a abeta do avental levantada para os Aprendizes recém-iniciados e abaixada para os mais antigos, destacando-se que o avental do Companheiro no Craft, diferente do Rito Escocês, se diferencia do de Aprendiz por trazer nele fixado duas rosetas na cor azul. Já no Craft norte-americano algumas Grandes Lojas distinguem os aventais dos seus Aprendizes dos de Companheiros efetuando neles durante o uso dobras diferenciadas. Enfim, tudo remete às antigas tradições e as duas autênticas classes de trabalhadores da Maçonaria Operativa.

V.              CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como se pode observar, embora existam diferenças, para elas, em se despindo do elemento imaginativo, sempre há explicação satisfatória e racional. Não há como se escrever sobre Maçonaria sem que haja por primeira atenção para essas particularidades.
É equivocada, principalmente em ritualística maçônica, a ideia de se generalizar os procedimentos como tem sido o caso da Régua que, aqui no Brasil em um mesmo rito, aparece em certos rituais no Grau de Aprendiz e em outros no de Companheiro. Obviamente que tudo isso é mera confusão plantada por compiladores de rituais.
Assim, continuo a insistir que a Moderna Maçonaria não se constitui de um rito único, todavia ela se compõe por um sistema de vários ritos e trabalhos que possuem cada qual um suas particularidades doutrinárias, históricas e culturais.
Por simples falta de depuração ritualística, não raramente nos deparamos no Brasil com rituais enxertados e, quando não, com práticas meramente inventadas e fantasiosas.
Certamente é por isso que encontramos ritos que são verdadeiras colchas de retalhos. É o caso, por exemplo, de rituais escoceses que ainda na contramão da história insistem em mencionar a Régua de 24 Polegadas no Grau de Aprendiz, se negando acintosamente a observar que na alegoria clássica do Aprendiz, bem como no seu respectivo Painel do Primeiro Grau a régua nem sequer aparece.
Obviamente que além da régua, indevida no grau de Aprendiz do REAA\, há ainda outras inserções que dele não fazem parte e que eu poderia enumerá-los amiúde, entretanto não é esse o objetivo desse texto, até porque são tantas que deixariam esse trabalho prolixo.
Dando esse arrazoado por concluído, ratifico: no Rito Escocês Antigo e Aceito os instrumentos de trabalho do Aprendiz Maçom são o Maço e o Cinzel, enquanto a Régua de 24 Polegadas é - acompanhada de outros objetos - do Companheiro Maçom. Já no Craft, tomando por referência os Trabalhos de Emulação (aqui conhecido como Rito de York), bem como o Rito alemão Schröder, a Régua é um dos instrumentos de trabalho do Aprendiz.

P.S. Além dos ritos aqui abordados e a utilização da régua, ainda outros mais a mencionam nas suas respectivas ritualísticas. Os ritos comentados no texto serviram como parâmetro para o seu desenvolvimento.


                                                                     PEDRO JUK
                                                               jukirm@hotmail.com
                                                      http://pedro-juk.blogspot.com.br

                                                                                                   FEV/2018





[1] Rough – adjetivo inglês que significa áspero, tosco, escabroso. Como verbo, significa desbastar. Assim o termo Rough Mason figuradamente significava o maçom recém-admitido, ou ainda um profissional tosco. Associado ao verbo desbastar era aquele que iniciava na profissão tendo como primeira atividade a de melhorar primitivamente a superfície da pedra até que outro profissional, já mais instruído, o Stone Mason, pudesse ajustá-la melhor e conforme as exigências da Arte.