domingo, 8 de julho de 2018

SETE MESTRES PARA ABRIR UMA LOJA


Em 07.05.2018 o Respeitável Irmão Alveriano Dias, Loja Tomaz de Medeiros, REAA, Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, Oriente de Picuí, Estado da Paraíba, envia através do Respeitável Irmão Hercule Spoladore a questão seguinte.

SETE MESTRES PARA ABRIR UMA LOJA


Em uma reunião foi questionado a possibilidade do Aprendiz ocupar cargos em Loja, principalmente no Oriente. Diante do exposto gostaria que você, se possível, respondesse o seguinte questionamento:
Para uma Loja funcionar é necessária a presença de sete obreiros, dos quais pelo menos três Mestres maçons. Então pergunto: se os outros quatro obreiros forem Aprendizes, nessa Loja pode funcionar os cargos de Orador e Secretário? Caso seja afirmativa a respostas, pergunto ainda: como pode um Aprendiz ocupar um cargo de Orador ou Secretário que tem assento no Oriente quando eles têm assento no Norte? Aguardo respostas, se possível dentro da filosofia maçônica.

CONSIDERAÇÕES.

O que tem ocorrido ainda em alguns rituais da atualidade é a incompleta orientação de que uma Loja para ser aberta precisa de no mínimo sete maçons. Digo incompleta porque o correto seria o de orientar que esse número de maçons careceria ser de “sete Mestres”.
Isso acontece porque certos ritualistas modernos, desatentos e ainda baseados nas antigas lições do período operativo da Ordem, cometem esse equivoco por não levar em conta as diferenças existentes entre a Maçonaria de Ofício (século X) e a Maçonaria dos Aceitos (início do século XVII), que mais tarde seria identificada como Moderna Maçonaria - já no século XVIII.
Vale antes então comentar que nos primeiros catecismos, quando a Maçonaria ainda era exclusivamente de ofício, portanto operativa, não existiam graus especulativos como os que hoje conhecemos, porém “classes de construtores”, cujas quais se constituíam por Aprendizes Admitidos no Ofício e Companheiros da Arte (Craft). Assim, numa antiga guilda de construtores, quem presidia uma corporação operativa de Franco-maçons era o Companheiro tido entre os seus pares como o mais experiente. Esse Companheiro era então designado dirigente da guilda e empossado como o Mestre da Obra, sendo, portanto, um cargo meramente profissional que nada tinha a ver com o grau especulativo de Mestre Maçom da atual Moderna Maçonaria. Destaco que esse é um fato autêntico e bastante relevante na história da nossa Ordem.
Então, ainda sob a égide da Maçonaria de Ofício, uma organização de construtores (Loja Operativa) era constituída por no mínimo sete integrantes, ou seja, dois Aprendizes Admitidos mais cinco Companheiros da Arte, dos quais, um desses Companheiros era o escolhido como o Mestre profissional. Por certo era comum que uma guilda possuísse um número bem maior de operários, mas sete deles era o mínimo exigido para que ela fosse constituída.
Sob a proteção da igreja e do senhorio da época, essa era a condição para que uma guilda de construtores recebesse autorização para se deslocar livremente pelos rincões da Europa medieval e contratar serviços.
Foi com base nesse número mínimo de integrantes de outrora que a Moderna Maçonaria especulativamente, dentre outros, manteve o número mínimo de sete obreiros para a abertura de uma Loja Simbólica, onde os seus membros, agora maçons aceitos, não mais utilizam a pedra calcária para lhes servir de matéria prima, pois o elemento primário passou a ser o próprio homem.
A Moderna Maçonaria, constituída a partir da inauguração do primeiro sistema obediencial com a fundação da Primeira Grande Loja em Londres em 1717, não tardaria em adotar três graus especulativos, Aprendiz, Companheiro e Mestre, como franco-maçônico básico, destacando-se que o grau de Mestre Maçom somente apareceria no ano de 1725 e mencionado na segunda constituição inglesa datada de 1738.
A Maçonaria, então não mais de ofício, passou a se dedicar à construção especulativa de um Templo à Virtude Universal, utilizando-se, no lugar da pedra calcária, agora o próprio homem como sua matéria prima – “consertai o homem e arrumarás o mundo”.
Assim, doutrinariamente esse aperfeiçoamento passou a se dar por um processo iniciático com três etapas amparadas em uma jornada que, no REAA\ sugere uma alegoria associando os ciclos da vida humana com a evolução anual da Natureza – revolução anual do Sol.
Deve-se a essa liturgia simbólica, de concepção deísta e às vezes teísta, a sala da Loja (Templo) no escocesismo representar um segmento sobre o equador terrestre, cujo comprimento se dá do Oriente para o Ocidente, a sua largura do Norte para o Sul e a sua altura da superfície ao céu. Alegoricamente é nesse espaço que em primeira análise significa a Terra, onde ocorrem os ciclos da Natureza, conhecidos pelas estações do ano. Objetivamente, esse teatro simbólico tem por desiderato construir uma doutrina iniciática que compara os ciclos naturais com os ciclos da vida humana – nascimento, infância e adolescência, a primavera; juventude, o verão; maturidade, o outono e por fim a morte no inverno. Sugere também o aperfeiçoamento do homem como elemento integrante das sucessivas mortes e renascimentos da Natureza.
Sob o aspecto iniciático, essa alegoria se processa ciclicamente em um caminho orientado simbolicamente no Templo pelas Colunas Zodiacais. Aliás, em se tratando do REAA\, essa é a razão das suas existências nas paredes norte e sul do recinto da Loja.
Deste modo, o Aprendiz percorre sua senda pelo topo da Coluna Norte (parede setentrional), o Companheiro seguindo a evolução atravessa de um para o outro hemisfério atingindo o topo da Coluna do Sul (parede meridional) e por fim o ciclo se completa com o Mestre que morre no inverno para novamente renascer na primavera. No caso, o Mestre ao reviver ingressa no Oriente da Loja que é o lugar da Luz.
Em síntese esse teatro representa de modo velado todo o processo ordenado de aprimoramento ético, moral e intelectual do homem proposto na senda iniciática.
Seguindo a ordem natural dessa jornada, por primeiro os Aprendizes representando o nascimento, a infância e a adolescência ocupam o Norte; os Companheiros em seguida representando a juventude ocupam o Sul e, por fim, os Mestres, simbolizando a maturidade ingressam no Oriente.
Ainda, os Mestres, pela plenitude maçônica alcançada, são também senhores de todos os caminhos, o que significa em primeira analise que eles, além do Oriente, podem transitar e ocupar indistintamente qualquer um dos quadrantes da Loja (norte, sul, leste e oeste).
Assim, sob a égide dessa estrutura simbólica é que se dá a liturgia iniciática do REAA\, cabendo para a organização dessa estrutura um número mínimo de obreiros para que se possam abrir e encerrar os trabalhos.
Nesse sentido, levando-se em consideração o que representa a plenitude maçônica é que só podem exercer cargos em Loja aqueles que já tenham alcançado o Terceiro Grau. Afinal, a regra da vida maçônica é a de que a cada um é dado conforme as suas aptidões e a cada um se paga conforme os seus méritos.
Sob essa óptica é que não cabe a um Aprendiz ou a um Companheiro assumir cargos em Loja. Para tal é preciso primeiro que o obreiro tenha completado todo o ciclo iniciático, o que só acontece na sua Exaltação.
O significado esotérico dessa alegoria é a de que no Oriente só podem ingressar aqueles que já tenham vencido as agruras do inverno, ciclo esse em que a Terra ficara viúva do Sol. A Lei da Natureza é invariável na sua ordem natural. Nesse relógio, o “Relojoeiro” previu que a primavera antecede o verão e assim todos os ciclos se darão na sua ordem sucessivamente. A contagem da vida é feita a partir do nascimento (ao meio-dia) e só cessa com a morte (à meia-noite). O Aprendiz (infância) e o Companheiro (juventude) não ingressam no Oriente porque ali só ingressam simbolicamente aqueles que alcançaram a senilidade da vida.
Foi para dar sentido a essa alegoria que a Moderna Maçonaria, respeitando o número mínimo de sete obreiros haurido dos tempos operativos, estabeleceu - pelas razões até aqui expostas - que esse número mínimo passasse a ser constituído por sete Mestres Maçons. O número “sete” é objeto de estudo do Mestre especulativo como o número da criação - s\ aa\ e m\.
Obviamente que para esse número mínimo de obreiros, todos devem ser Mestres e corresponder com os cargos inerentes ao Rito, como abaixo será descrito.
Assim, no caso do REAA\, quando oportunamente estiverem presentes apenas sete Mestres, a Loja deve se distribuir da seguinte forma: três Luzes (Venerável, Primeiro e Segundo Vigilantes), somados às Dignidades do Orador e do Secretário, mais o Cobridor Interno e o Mestre de Cerimônias. Dessa forma, três Mestres governam a Loja, cinco Mestres a compõe e sete Mestres a completam. Destaque-se que para a liturgia da transmissão da Palavra numa Loja com apenas sete Mestres, o Secretário e o Mestre de Cerimônias preenchem momentaneamente os cargos dos Diáconos.
Infelizmente, como é o caso mencionado na sua questão, ainda existem situações anacrônicas sugerindo que os três que governam sejam Mestres, acrescidos de mais dois Companheiros e mais dois Aprendizes. Ora, essa foi uma assertiva dos tempos operativos quando ainda não existia grau de Mestre especulativo, senão o Mestre profissional que era um Companheiro experimentado e que se servia de mais dois Companheiros imediatos conhecidos como “wardens” (zeladores). Mais tarde, já na Maçonaria dos Aceitos, eles ficariam conhecidos como as Luzes Menores da Loja, ou seja, o Venerável Mestre auxiliado pelos dois Vigilantes.
Há que se distinguirem essas diferenças, pois no período operativo, as cinco primeiras classes eram profissionais conhecidos como Companheiros da Arte e servidos ainda por no mínimo mais dois Aprendizes Admitidos (sete operários). Atualmente, já na Moderna Maçonaria, as cinco Dignidades, no caso do REAA\, se constituem pelas Três Luzes acrescidas do Orador e do Secretário. Para completar o número mínimo de sete Mestres necessários para abertura e encerramento dos trabalhos de uma Loja Simbólica, somam-se a eles ainda os cargos do Cobridor Interno (imprescindível para guardar a Loja) e do Mestre de Cerimônias (indispensável no desenvolvimento ritualístico).
As considerações sobre os motivos históricos e iniciáticos inerentes ao número mínimo de sete Mestres estão aí expostas. A questão é a de que determinados ritualistas, se despindo de acrônimos, possam compreendê-las.
Sob o ponto de vista autêntico, eram esses os meus comentários, destacando que procurei abordar sinteticamente sob a óptica iniciática e histórica.

T.F.A.

PEDRO JUK

JULHO/2018

quinta-feira, 5 de julho de 2018

VISITANTE SE APRESENTANDO PARAMENTADO CONFORME O SEU RITO


Em 06/05/2018 o Respeitável Irmão Cícero Ramos Loja Rui Barbosa, Rito Brasileiro, GOB-MT, Oriente de Sinop, Estado do Mato Grosso, apresenta a dúvida seguinte:

USO DO CHAPÉU POR IRMÃOS VISITANTES


Uma pergunta. Quando um visitante de um Rito, por exemplo, Schröder, Adonhiramita ou Escocês Retificado que adotam o uso do chapéu e luva, eles podem usar esses traj
es numa visita a uma loja que adota um Rito que não usa chapéu, exemplo Brasileiro, Moderno, REAA?

CONSIDERAÇÕES.

Eu tenho dito que um visitante deve chegar com antecedência mínima para expor os costumes do seu Rito em relação ao Rito da Loja que está sendo visitada.
Isso se aplica principalmente no que diz respeito à adequação dos sinais, toques e palavras.
Já no que diz respeito à indumentária, um visitante deve se apresentar paramentado conforme o seu rito. Nesse caso ele não precisa se adaptar aos paramentos do rito da Loja visitada, salvo no que diz respeito à obrigatoriedade do uso de terno, pois alguns ritos não admitem o uso de balandrau.
Agora, quanto à utilização de chapéu, luvas, etc., o visitante se apresenta conforme o seu Rito, sem maiores problemas. Nesse caso o que se sugere adequar ao rito da Loja visitada, se for o caso, são os sinais, toques e palavras, a despeito de que a Loja anfitriã também pode, na oportunidade, analisar a real necessidade dessas adequações, sobretudo se essas diferenças não parecerem tão acentuadas.
Assim, com respeito diretamente à sua questão, um visitante, mesmo que de outro rito, deve se apresentar vestindo o seu próprio avental, além de luvas e chapéu se eles forem componentes da sua indumentária.


T.F.A.

PEDRO JUK


JULHO/2018


terça-feira, 3 de julho de 2018

DIFERENÇA ENTRE O AVENTAL DO VENERÁVEL E DO EX-VENERÁVEL


Em 05.05.2018 o Respeitável Irmão Alessandro Sousa, Loja Aurora Pernambucana, 38, GLMPE, CMSB, REAA, Oriente de Canhotinho, Estado de Pernambuco, pede esclarecimento para o seguinte:

AVENTAL DO MESTRE INSTALADO. DO VENERÁVEL E DO EX-VENERÁVEL.


Em tempo vos parabenizo pelo belo trabalho que você presta à Maçonaria universal.
Minha dúvida versa sobre o porquê de o avental de Ex-Venerável, assim como o de Ex-Grão Mestre possuírem os Taus(?) recobertos na cor azul.
Busquei essa informação junto a alguns Past's Masters, que não souberam responder.

CONSIDERAÇÕES.

Essa é o modo pelo qual a Maçonaria Inglesa, onde a Instalação é original, utiliza para diferenciar o avental de um Mestre Instalado em exercício do veneralato daquele um que já deixou o cargo (ex-Venerável), conhecido na Inglaterra por Past Master.
Assim, um Venerável Mestre no Craft traz disposto no seu avental o conjunto prateado de três níveis/prumos sem nenhuma cobertura, enquanto que um Past Master traz os mesmos símbolos, porém envolvidos por bordado na cor azul, tal qual o matiz da orla do avental.
É essa a justificativa para a envoltura bordada em azul dos três símbolos no avental do Past Master.
Cabe aqui mencionar que esses símbolos que vão ao avental não são “taus invertidos” como costumeiramente ainda alguns os mencionam, sobretudo se baseados em instruções de há muito já superadas (anacrônicas). O símbolo verdadeiramente representa o nível-prumo maçônico que é facilmente encontrado no relicário simbólico da Ordem – um segmento horizontal (nível), tendo sobre a sua porção mediana um segmento perpendicular (prumo).
A propósito, numa Instituição que é ancestral das corporações de ofício da Idade Média, onde os construtores se dedicavam a edificar catedrais, abadias, mosteiros, obras públicas, etc., faz muito mais sentido especulativamente o símbolo corresponder a ferramentas do ofício do que a uma letra grega que, ainda por cima aparece invertida.
Concluindo, é de se lamentar que Mestres Maçons portadores do título honorífico de Mestre Instalado (ex-Veneráveis) ainda não conhecerem a história do seu próprio avental.



T.F.A.

PEDRO JUK


JULHO/20218

segunda-feira, 2 de julho de 2018

COMO COMPOR A LOJA COM APENAS SETE MESTRES NO REAA?


Em 27/04/2017 o Respeitável Irmão Paulo Afonso Pinheiro Leal, Loja Irmão Augusto Nogueira Paranaguá, 4.540, REAA, GOB-PI, Oriente de Corrente, Estado do Piauí, solicita orientações para o que segue:

COMPOSIÇÃO DA LOJA COM APENAS SETE MESTRES.


Meu Nobre irmão. Numa Loja com apenas 7 Mestres, como a compõe? Cobridor Inte
rno e Diáconos, por exemplo?

CONSIDERAÇÕES.

Desde o aparecimento do grau especulativo de Mestre Maçom, o que viera aparecer sob a égide da Moderna Maçonaria em 1725, é que a presença mínima de sete Mestres Maçons é exigida para a abertura de uma Loja.
Isso se deu por questão iniciática e também por questão de administração litúrgica de uma Loja com seus principais componentes - Luzes, Dignidades e Oficiais.
O Grande Oriente do Brasil, em respeito a esse viés iniciático, dispõe no Artigo 96 do Regulamento Geral da Federação, Inciso XXII, a previsão de que é obrigatória a presença de no mínimo sete Mestres para a realização de uma sessão. Também no seu Artigo 229, § 1º, dispõe que os cargos em Loja são privativos de Mestres Maçons. É essa a base legal que proíbe Aprendizes e Companheiros assumirem cargos.
Em um caso precário, o que pode se dar apenas com a presença mínima de sete Mestres, uma Loja no REAA\ então assim ficará composta: Venerável Mestre, Primeiro e Segundo Vigilantes, Orador, Secretário, Cobridor Interno e o Mestre de Cerimônias.
Nesse caso, para o cumprimento da liturgia da transmissão da Palavra Sagrada que acontece durante a abertura e encerramento, o Mestre de Cerimônias preenche momentaneamente o cargo do Segundo Diácono e o Secretário o do Primeiro Diácono. Transmitida a Palavra eles retornam aos seus cargos de origem.
Assim, essa regra preenche a tradição de que uma Loja é sempre dirigida por três Luzes (Venerável, Primeiro e Segundo Vigilantes), assim como é obrigatória à presença de um Cobridor (sigilo). Ainda, no escocesismo, a presença indispensável do Orador como Guarda da Lei e do Secretário como o aquele que efetua os registros inerentes à sessão. Assim, com esses sete Mestres a Loja pode funcionar em situações precárias, mas nunca definitivas, pois é sabido que cada rito possui um número exato de cargos que o caracterizam e que devem, na medida do possível, serem todos preenchidos.
Esotericamente o número sete se refere ao número da criação, cujo qual se destaca na Maçonaria dos Aceitos, enquanto que historicamente, na Maçonaria de Ofício ele lembra que uma guilda construtora do século XII se constituía de no mínimo sete profissionais da arte de construir, destacando-se nesse particular, que à época não existia o grau de Mestre especulativo e quem dirigia o canteiro de obras (hoje a Loja) era um Companheiro do Ofício tido como o mais experiente entre eles. Naquele período só existiam duas classes de trabalhadores – Aprendiz Admitido e Companheiro do Ofício.
Foi para conservar essa tradição que a Moderna Maçonaria, especulativa por excelência, manteve o costume de constituir uma Loja com o mínimo de sete maçons que já tenham alcançado o grau de Mestre, dos quais, um deles, é eleito e instalado na cadeira principal da Loja.

T.F.A.

PEDRO JUK


JULHO/2018



SAUDAÇÃO NA MARCHA DO GRAU E A TRANSFORMAÇÃO DE SINAIS


Em 26.04.2018 o Respeitável Irmão José Ramiro do Nascimento, Loja Mário Behringer, 33, REAA, GLESP, Oriente de São Paulo, Capital, apresenta a questão seguinte:

SAUDAÇÃO NA MARCHA.


Estou como Mestre de Cerimônias, gestão 2017/2018 e estarei na de 2018/2019.
Assunto: você postou um trabalho sobre macha de Companheiro Maçom onde diz que no término se faz a saudação as luzes. Eu já pesquisei não encontrei nada que confirme que a saudação é no fim das machas de Companheiro Maçom ou de Mestre Maçom. Tenho alguns livros e nada, os sinais de ordem, sinais de saudação, etc., etc., porém semelhantes é feito com movimentos diferentes. O prezado Irmão pode me indicar onde eu possa ter estas informações?

CONSIDERAÇÕES:

Mano, isso é consuetudinário nos Ritos que possuem a ritualística da Marcha do Grau. Esses passos na realidade são também segredos do grau e as Lojas têm por obrigação ensinar as minúcias dessa liturgia aos seus obreiros. Em Maçonaria, muitas coisas não carecem estar explicitamente escritas.
No caso da Marcha do Grau, se o rito a possuir, todo o obreiro ao entrar formalmente em Loja o faz pela Marcha e, ao concluí-la, ele imediatamente saúda as Luzes da Loja (Venerável Mestre, Primeiro e Segundo Vigilantes). Isso é uma regra tão óbvia que realmente não carece estar explícita no ritual, embora muitas instruções autênticas a mencionem.
Inerente a sua liturgia, o que ocorre é que existem três Marchas, cada uma própria a um grau simbólico, ou seja: a do Aprendiz, a do Companheiro e a do Mestre Maçom.
A do Primeiro Grau com três passos, a do Segundo Grau com cinco passos e a do Mestre com oito passos. Explica-se: o Aprendiz, na forma de costume, dá seus três passos, enquanto que o Companheiro, em seguida, dá por primeiro os três passos do Aprendiz, somando-se a eles mais dois outros correspondentes ao Segundo Grau, o que totaliza os cinco passos. Por fim o Mestre que inicia pelos três passos do Aprendiz, somados aos dois do Companheiro e se completa com os seus próprios passos, todos dados na forma de costume. Ao final dos passos, o Mestre terá dado oito passos – três do Primeiro Grau, mais dois do Segundo, mais três do Terceiro. Por ser uma prática sigilosa, obviamente não farei aqui a descrição minuciosa de como são dados os passos das respectivas Marchas.
Retomando o raciocínio, cabe mencionar que uma das características dessas Marchas é a de que elas são sempre executadas com o Sinal do Grau correspondente composto. Em síntese, é o único caso em que se anda com o Sinal de Ordem.
Dadas essas particularidades, seguem outras ponderações.
Em Loja do Primeiro Grau o Aprendiz deve executar os seus passos compondo o Sinal de Ordem correspondente ao seu grau. Concluídos os passos ele então saúda pelo Sinal Penal o Venerável Mestre, o Primeiro e o Segundo Vigilante (segue essa ordem hierárquica) e a seguir volta ao Sinal de Ordem e permanece aguardando comando. Em Loja do Segundo Grau o Companheiro inicia a sua Marcha compondo por primeiro o Sinal de Aprendiz dando com ele os três passos correspondentes ao Primeiro Grau e em seguida, na devida forma, desfaz o Sinal de Aprendiz pelo respectivo Sinal Penal. Ato seguido compõe imediatamente o Sinal do Segundo Grau e com ele dá os dois outros respectivos passos. Concluída a Marcha de Companheiro ele, obedecendo à hierarquia, saúda pelo Sinal as Luzes da Loja e volta ao Sinal de Ordem no Segundo Grau. Assim permanece aguardando ordens. Finalmente, em Loja do Terceiro Grau o Mestre Maçom inicia a sua Marcha como Aprendiz; terminados esses passos ele desfaz o Sinal de Aprendiz na forma de costume, compõe diretamente o Sinal de Companheiro e dá os dois passos do Segundo Grau. Concluída essa etapa, desfaz o Sinal pelo gesto penal e por fim diretamente compõe o Sinal do Terceiro Grau dando finalmente os três passos de Mestre Maçom. Ao final da Marcha saúda pelo Sinal como Mestre Maçom as Luzes da Loja.
Como regra, a saudação às Luzes se dá apenas ao final da Marcha do Grau. O que não se pode confundir com saudação é a transformação de um para outro Sinal que normalmente acontece no Segundo e no Terceiro Grau.
Isso se explica porque nessas ocasiões para passar de um para outro Sinal, necessário se faz completa-lo pelo movimento conhecido como Sinal Penal. O que não se admite nessas ocasiões é passar diretamente de um para outro Sinal sem antes desfazê-lo pela pena simbólica (Sinal Penal).
É sempre bom lembrar que um Sinal do Grau (Gut\, Cord\ e Ventr\), também conhecido como Sinal de Ordem, se arranja por dois gestos, um estático que se refere à sua composição propriamente dita e outro em movimento que é o modo correto para desfazê-lo, ou seja, o Sinal de Ordem sempre é desfeito pela pena simbólica a ele relativa, forma essa haurida das obrigações (juramentos) que deram origem aos Sinais de cada grau.
Outro aspecto para se considerar é o de que, embora toda saudação maçônica seja sempre feita pelo Sinal Penal, nem sempre esse movimento penal é uma saudação. A questão é a de quando um Sinal é utilizado para se saudar alguém e a de quando ele acontece para cumprir outras regras ritualísticas. Nesse sentido é imperativo que o maçom saiba diferenciar uma de outra situação para não incorrer em aleivosias ritualísticas.
Um bom exemplo disso pode ser constatado na execução das Marchas de Companheiro e de Mestre. Nessa oportunidade, durante a sequência dos passos é prevista mudança de um para outro Sinal. Note-se que essa mudança não é saudação maçônica, mas sim uma alteração de Sinal por processo gestual penal – desfazendo um por completo antes de compor o outro. Nesse caso a saudação somente se dá às Luzes da Loja ao final da Marcha do Grau. O que ocorre antes é apenas e tão somente transformação de Sinal.
Outro viés importante é o de que os passos do grau, em qualquer situação formal de ingresso, se dão sempre a partir da Marcha do Primeiro Grau. Assim, os passos do Segundo Grau somam-se obrigatoriamente aos do Primeiro Grau e os do Terceiro Grau, somam-se aos do Companheiro e aos do Aprendiz. A ordem para tal é sempre se iniciar do menor para o maior.
É oportuno também esclarecer que o termo “diretamente” normalmente utilizado ao se mencionar a troca de sinais durante a Marcha (o que não é saudação) significa o ato de se passar de um para outro sinal na forma de costume, isto é, desfazendo por completo um sinal antes de compor o seguinte. Em absoluto o termo “diretamente” nesse caso denota passar de um para o outro sinal “diretamente” sem antes desfazer por completo o anterior. Assim, o termo aqui também implica em não se saudar as Luzes durante na transição do sinal, porém passar diretamente de um para outro na forma de costume (desfazendo-o pelo Sinal Penal).
Eram essas as explicações plausíveis para a ritualística que envolve os passos do Grau. Na realidade, nos primeiros rituais do escocesismo simbólico a partir de 1804 em solo francês, não existiam marchas distintas para cada grau. O que existia era o conjunto denominado “Passos Regulares do Rito” e que se davam simplesmente por “oito passos normais”. Com a evolução e aprimoramento dos rituais a partir dos meados do século XIX, esses oito passos seriam divididos por graus simbólicos, mas que no final da jornada iniciática atingem o total de oito passos.
Alegoricamente, esses oito passos, juntados ao ponto Cord\ que fica oculto no coração de H\ dentro do esq\, perfazem o número “nove”, número esse considerado como a chave da Grande Iniciação no REAA\.
Concluindo, a liturgia de um rito maçônico esconde nas suas entrelinhas o verdadeiro segredo da Arte - a doutrina iniciática. Os passos relativos às Marchas correspondem de modo sintético a toda a jornada do maçom na senda iniciática. Da retidão dos primeiros passos, passando pela busca de conhecimento no Norte e no Sul até a simulação da marcha anual do Sol em sua eclíptica. Ao final desse trajeto o Mestre encontrará o verdadeiro significado do Oriente da Loja.



T.F.A.

PEDRO JUK


JULHO/2018.