domingo, 12 de maio de 2019

CÂMARA DE REFLEXÃO - V.I.T.R.I.O.L.


Em 12/12/2018 o Irmão Samir Canonica, Loja Fênix das Araucárias, 4.254, REAA, GOB-PR, Oriente de Curitiba, Estado do Paraná, apresenta a seguinte questão:

V.I.T.R.I.O.L.


Estou fazendo um trabalho sobre o V.I.T.R.I.O.L. A dúvida que surgiu é se o mesmo é ou não um elemento obrigatório na Câmara de Reflexão, pois no nosso Ritual de Aprendiz, versão 2009, pagina 28, não há referências sobre este elemento.

CONSIDERAÇÕES.

De fato, o Ritual mencionado não faz qualquer alusão a esse importante acrograma que indubitavelmente faz parte do relicário simbólico da Câmara de Reflexão no REAA.
Infelizmente, o que tem ocorrido é que alguns ritualistas - ou que pelo menos se dizem ritualistas - na verdade não passam de meros copistas que utilizam fontes ultrapassadas. Sobretudo, por não entenderem a miúde sobre aquilo que estão escrevendo (copiando), importantes informações têm deixadas de ser consideradas.
Não é nem preciso se aprofundar no tema, basta verificar em qualquer gravura relativa à Câmara de Reflexão da Maçonaria francesa que a sigla V.I.T.R.I.O.L. está presente, quando não, nos rituais autênticos do REAA.
Obviamente que para tal é preciso antes se compreender que o conteúdo simbólico da Câmara exprime uma lição, portanto os elementos que a compõe são peças imprescindíveis e precisam estar presentes, caso contrário a alegoria pode acabar não fazendo nenhum sentido. Por certo é preciso igualmente que se compreenda qual é o propósito da Câmara no ideário iniciático do REAA.
O acrograma V.I.T.R.I.O.L. - Demonstrado na Câmara de Reflexão do REAA com letras separadas por pontos, seu significado é “Visitae Interiora Terrae. Reticandoque, Invenies Occultum Lapidem” – “Visitai o interior da Terra. Retificando encontrarás a Pedra oculta”. Em síntese é um convite à busca do conhecimento de si próprio. Nesse caso “Visitai o interior” é um convite a visitar as suas entranhas; o seu próprio “eu”. O termo “Retificando” se refere a retificação, ou purificação pelos Elementos, enquanto que a Pedra oculta é uma menção feita à Pedra Filosofal.
Por óbvio é preciso que o estudante compreenda o sentido e a existência dos símbolos e alegorias que constam da Câmara de Reflexão, sobretudo como objeto de estudo do Segundo Grau.
Enfim, tudo se resume na purificação e renascimento. A busca da Pedra Filosofal, a Quintessência, e a transformação do vil metal em ouro espiritual são elementos que fazem parte dessa matéria. Visitar, ou descer ao seu próprio interior é um convite para reflexão – diriam alguns: são somente pedras; o sagrado para alguns passa despercebido por outros.
Sem dúvida o cerne doutrinário da Câmara de Reflexão está na eterna busca de transformar os elementos primários no verdadeiro “éter”. Significa fazer do homem iniciado um “cosmo vivido” e não um “egus vivendi”.
Como se pode notar, a sutiliza dos símbolos e das alegorias se completam por si só, daí ser premente que esse mosaico simbólico esteja completo para a compreensão do Iniciado. A falta de um elemento sequer, pode dissolver por completo o objetivo, ou mesmo se tornar um mero objeto de contemplação.
Por fim, de modo prático, devo mencionar que como Secretário Geral já fiz constar na Câmara de Reflexão a sigla V.I.T.R.I.O.L. nas Orientações Ritualísticas que em breve ficarão à disposição dos Irmãos na plataforma do GOB Ritualística.


T.F.A.

PEDRO JUK

MAIO/2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

CONVITE OU CONVOCAÇÃO E ORDEM PROTOCOLAR - REAA


Em 10/12/2018 o Respeitável Irmão Celso Varoni, Loja Flor da Acácia, 2.025, REAA, GOB-SC, Oriente de Itajaí, Estado de Santa Catarina, apresenta a seguinte questão:

CONVITE OU CONVOCAÇÃO?


Tenho dois questionamentos e acredito que o Irmão poderá trazer luz a essas dúvidas. 1 - O Venerável Mestre quando chama os obreiros regulares do quadro de sua Loja para participar de alguma sessão, trata-se de convite ou convocação?
2 - Os Irmãos, quando a palavra lhes é concedida, devem obedecer a qual a ordem nos cumprimentos? Venerável Mestre, 1º Vigilante, 2º Vigilante, autoridades (deputados, coordenadores de circ., juízes tribunal maçônico), e demais Irmãos, ou Venerável Mestre, autoridades, 1º Vigilante, 2º Vigilante, e demais Irmãos?

CONSIDERAÇÕES.

  1. Convoca ou convida - O Venerável Mestre convoca a Loja onde exerce o ofício do veneralato – Art. 116, V: compete ao Venerável Mestre convocar (o grifo é meu) reuniões da Loja e das Comissões constituídas.
Por óbvio um maçom é antes de tudo um cumpridor das suas obrigações, dentre essas, frequentar as sessões da sua Loja, assim como atender as convocações que lhe forem dirigidas.
Convite não obriga ninguém a comparecer, senão a possibilidade de educadamente atender a gentileza de quem convidou, fato que ocorre geralmente quando o Venerável Mestre convida outra(s) Loja(s) para embelezar(em) a sessão, enquanto que convite, diferente de convocação, não se acerca de nenhuma obrigação legal.
  1. Ordem protocolar – Não se trata de cumprimento ou saudação. Um obreiro ao ser autorizado a falar, protocolarmente por primeiro “menciona” o cargo, representação ou grau de alguns Irmãos atendendo aos usos e costumes maçônicos do rito. Assim, o usuário da palavra faz referência por primeiro às Luzes, depois, sem precisar de nominar um a um, as autoridades presentes e por fim, de modo genérico, demais Irmãos. Não é de boa geometria o exagero de tratamento. O que se deve obrigatoriamente é pôr primeiro se dirigir àqueles que conduzem os trabalhos (os que portam malhetes), por conseguinte, as Luzes da Loja.
A Maçonaria ensina ao maçom que ser objetivo é colaborar para com o progresso dos trabalhos, assim, o bom senso diz que não há necessidade de repetições que só fazem crescer o excesso do preciosismo.
É de bom alvitre que o usuário da palavra, após ter se dirigido às Luzes, eleja uma autoridade presente e em seu nome saúde as demais. Isso é prático, objetivo, educado e, melhor ainda, respeita a paciência dos outros.
Ratifica-se, isso não é saudação, mas sim um modo respeitoso para se começar usar a palavra.
À propósito, diz o Ritual na sua página 42 que saudações em Loja somente são feitas ao Venerável Mestre quando da entrada e saída do Oriente e às Luzes da Loja quando do ingresso formal em Loja aberta.

E.T. – Venerável Mestre, Primeiro e Segundo Vigilantes são as Luzes da Loja.

T.F.A.

PEDRO JUK


MAIO/2019

quarta-feira, 8 de maio de 2019

REAA - FATOS SOBRE O SINAL DE COMPANHEIRO


Em 08/12/2018 o Irmão Companheiro Maçom da Loja Unión Fraterna, 151, REAA, Gran Logia Simbólica del Paraguay, Oriente de Ciudad del Este, Paraguay, remete a seguinte questão:

SINAL DO COMPANHEIRO


Recentemente fizeram meu aumento de grau a Companheiro e tive a oportunidade de ler seu blog sobre o Sinal de companheiro:
Então minha pergunta seria onde posso ler mais ao respeito pra apresentar, com bastantes provas, na minha loja, a execução correta do Sinal.
Faz pouco tempo que eu sou parte da Ordem, mas seu blog já foi de muita ajuda pra mim.
Pediria encarecidamente meu nome não ser publicado devido a que aqui na minha cidade ainda não e aceitado pertencer à Instituição Maçônica, por isso prefiro ficar discreto.

CONSIDERAÇÕES.

Segundo autores autênticos, a exemplo de José Castellani de Alec Mellor, para a composição dos Sin\ Pen\ do Comp\ no REAA\, dever-se-ia utilizar apenas a mão direita, tal como acontece com os dois outros graus. Destaque-se o que menciona a Lenda do Terceiro Grau e a pena aplicada aos tt\ mm\ cc\.
Nos primórdios do simbolismo do Rito na França, início do século XIX todos os SSin\ PPen\ eram feitos somente em se utilizando a mão direita. Infelizmente, mais tarde, já no final do século XIX e início do século XX especulações ingressavam por conta de ideias ocultistas e outras práticas do gênero.
Particularmente a utilização indevida da mão esquerda como complemento do Sinal de Companheiro se deve muito a Joseph Paul Oswald Wirth, autor ocultista bem recomendado por Marius Lepage, que nascera em 05 de agosto de 1860 no Cantão de Berna, em Brienz na Suíça.
Iniciado em 1884 na Maçonaria, Wirth foi ao Grau de Mestre em junho de 1885 sendo logo escolhido pelo Grande Oriente da França como relator de uma questão que se fazia latente nas Lojas da época: “Quais seriam as mudanças a serem feitas nos rituais” - como se pode notar, não é de hoje que a Maçonaria latina traz consigo a obsessão por “mudar o ritual”.
Nessa trajetória e a despeito de todos os acontecimentos (vide vida e obra de Oswald Wirth – Sociedade das Ciências Antigas), bem como seu envolvimento com ocultistas da época tais como Stanislas Guaita, Papus, François Charles Barlet, dentre outros, ele acabou se tornando um ícone e uma fonte de estudos simbólicos da Maçonaria na França, de modo que até hoje ele é ainda um autor procurado por uma imensa quantidade de maçons. Se deve a Wirth a interpretação alquímica e hermética da Câmara de Reflexão – fato muito pouco compreendido por maçons praticantes do REAA na atualidade.
Dentre obras da sua autoria, Wirth publica uma trilogia maçônica constituída pelo Livro do Aprendiz, o Livro do Companheiro e o Livro do Mestre. Destes, o que nos interessa é o do Companheiro, publicado em 1911 e que se tornaria uma espécie de vade-mécum para os Companheiros Maçons, isso numa época em que o Segundo Grau era tido e respeitado como tal ele merece e não como nos dias de hoje, onde o grau mais genuíno da Maçonaria é simplesmente tratado como “grau intermediário” por alguns ditos “entendedores”.
Via de regra, na época essa trilogia deixada por Oswald Wirth era de didática inteligível para os seguidores da Maçonaria. Embora o Livro de Companheiro tenha trazido enorme contribuição para o esoterismo maçônico, a verve ocultista fez com que o autor, em muitos pontos, deixasse latente o seu entendimento peculiar àquilo que ele entendia (crença). Foi nesse sentido que Wirth imaginou a postura do braço esquerdo como uma forma de apelo ao astral incognoscível e um gesto simbolizando uma maneira de estabelecer um elo com o divino – essas são concepções que eu prefiro não discutir, porém essa visão de Wirth acabou trazendo um enxerto ou uma deturpação no tradicional Sinal do Companheiro que até então somente utilizava a mão direita na sua composição.
Sem dúvida é inegável a contribuição de Oswald Wirth para com o simbolismo da Maçonaria francesa, entretanto, é inegável também que muitas vezes o autor extravasou as suas crenças pessoais e isso acabou maçonicamente num gesto sem explicação plausível.
É possível também que a utilização da mão esquerda no Sinal de Companheiro do REAA tenha sofrido o reforço do costume anglo-saxônico onde no Craft, genuinamente o Sinal do Segundo Grau é feito em se utilizando o braço esquerdo junto com a mão direita. No Craft, de forte influência teísta, esse gesto é explicado nas Lições Prestonianas por uma passagem bíblica (o braço erguido para vencer a guerra). Outra explicação dessa utilização é a de que no Craft o Sinal de Companheiro ao utilizar também membro superior esquerdo, o faz como parte de uma alegoria ligada à lenda Hirâmica e o Sin\ de H\. Na verdade, o gesto é uma preparação para outro Sin\.
Com todos esses predicados, os rituais franceses, sobretudo ao gosto latino da mudança, acabaram ainda recebendo influências do sistema inglês, o que resultou num gesto intruso e ao mesmo tempo deformado do Sinal do Companheiro do REAA,
Nesse sentido o Sinal do 2º Grau na Maçonaria francesa, sem enxertos e deturpação, deveria usar apenas a mão direita na sua composição.
Diferente da Maçonaria Francesa, a Inglesa utiliza, além da mão direita, também a esquerda para fazer o Sin\ de Companheiro.
Assim, Oswald Wirth aparado pelas suas convicções inseriu no Grau de Companheiro também a mão esquerda. Concomitante ao seu Livro de Companheiro e as “mudanças propostas”, outros ritualistas desavisados paulatinamente reforçaram a tese de se utilizar da mão esquerda copiando indevidamente a postura de ritos e trabalhos de outra vertente maçônica, destacando-se que o REAA é um rito de origem francesa, portanto não deveria utilizar a mão esquerda na composição do Sinal do Segundo Grau.
Concluindo, sugiro fontes de pesquisa que envolvem rituais franceses do Rito, sobretudo aqueles que fazem parte dos primórdios do simbolismo na França. Destaco conhecer a bibliografia de Oswald Wirth e o seu envolvimento com a Maçonaria. Pesquise também a história da Maçonaria Francesa e a sua relação primária com os Modernos da Primeira Grande Loja em Londres.

T.F.A.

PEDRO JUK


MAIO/2019

terça-feira, 7 de maio de 2019

QUESTÕES SOBRE CONDUTAS RITUALÍSTICAS DO REAA


Um Respeitável Irmão praticante do REAA, através do News GOB Net apresentou a seguinte questão:

CONDUTAS RITUALÍSTICAS REAA


1 - O Orador no encerramento, quando fala como Orador, tem que ficar em pé e a Ordem ou faz o resumo dos trabalhos, agradecimentos, etc., sentado?
2 – Os Irmãos Aprendizes e Companheiros são obrigados a ler os Trabalhos do Grau entre Colunas ou podem ler o Trabalho na Coluna em que tem assento?
3 - Caso leem os Trabalhos na própria Coluna o Venerável pode passar a Palavra as Colunas para fazer comentário ao Trabalho que acabou de ser lido?

CONSIDERAÇÕES PARA O REAA.

1 – Em pé ou sentado - O Orador, salvo se o ritual determinar o contrário, em qualquer situação fala sentado. No caso da sua questão propriamente dita, ele fala mesmo "sentado".
À propósito, em qualquer situação, o ocupante do cargo de Orador é o Orador da Loja, portanto não faz sentido a expressão “quando fala como Orador”. Falando como membro do quadro ou como Orador, ele, enquanto eleito para o cargo, será sempre o Orador e tem o direito, dentro da ética do ofício, de se manifestar como qualquer Obreiro. Essa ideia de que dependendo do assunto o Orador fala em pé ou sentado é conceito ultrapassado.
Vale a pena comentar que consuetudinariamente os ocupantes do Oriente podem falar sentados, a não ser nos momentos em que o Ritual determine o contrário.
2 – Entre Colunas ou nas Colunas - Não há obrigatoriedade para que um obreiro ao apresentar uma Peça de Arquitetura deva ficar entre Colunas, mormente os Irmãos Aprendizes. Penso que é até recomendável que eles apresentem seus trabalhos nas suas próprias colunas, isso porque evita deslocamentos desnecessários, inclusive ocupando o Mestre de Cerimônias no ofício de conduzir Irmãos em Loja.
Cabe salientar, entretanto, que se não há obrigatoriedade para que a leitura seja feita entre Colunas, também não há obrigatoriedade para que ela seja feita necessariamente nas Colunas. A questão é apenas de opção.
3 – Debates e comentários - Dependendo da situação, comentários a respeito do trabalho são mais apropriados para a Palavra a Bem da Ordem em Geral e do Quadro em Particular.
Assim, sendo a Peça de Arquitetura elaborada para aumento de salário, de acordo com o que especifica o RGF nos seus Artigos 35 e 36, o aspirante não deverá estar presente durante a discussão. Nesse caso, por ser matéria passível de votação, a apresentação de Peças de Arquitetura para aumento de salário deve se dar na Ordem do Dia.
No entanto, se a Peça de Arquitetura foi elaborada como matéria de instrução e for passível de debates, isso é perfeitamente exequível (inclusive consta no Ritual), desde que não haja excessos na ocupação do tempo previsto.
Se os debates nas instruções necessitarem de um período de tempo alongado é preferível que a Loja seja aberta numa Sessão Ordinária de Instrução, sessão essa prevista no RGF, Art. 108, § 1º, II.

T.F.A.

PEDRO JUK

MAIO/2019

quinta-feira, 2 de maio de 2019

RELAÇÃO ENTRE DISPOSIÇÃO DE CARGOS ENTRE O SIMBOLISMO E OS ALTOS GRAUS NO REAA


Em 07/12/2018 o Respeitável Irmão Olinto Silveira, Loja Templários da Arte Real, 44, MRGLSC (CSMB), Oriente de Blumenau, Estado de Santa Catarina, apresenta a dúvida seguinte:

DISPOSIÇÃO DOS CARGOS EM LOJA – SIMBOLISMO E ALTOS GRAUS.


Sou grau 33 e estou a desenvolver um trabalho sobre os rituais dos altos graus.
Notei que, sem qualquer esclarecimento do por que, a disposição dos cargos em
Loja difere daquela dos graus simbólicos (estes esclarecidos pela astronomia) na Perfeição, que difere do Capítulo, que difere do Kadosh.
Pergunto se o Irmão tem informação que esclareça a razão disso, porque apesar da ampla literatura a que tive acesso, ninguém a esclareceu.
Na Perfeição, por exemplo, coloca-se o Orador e Secretário no mesmo lado Norte, o que me parece equivocado.
Enfim, tens alguma explicação que nos possa ajudar a elucidar esta questão?
Antecipadamente grato pela atenção,

CONSIDERAÇÕES.

Em se tratando do REAA existe um aspecto importante a se considerar nesse particular, sobretudo em se levando em conta que esse Rito formalizou esse nome a partir da fundação do Primeiro Supremo Conselho (Mãe do Mundo), o que se deu em Charleston na Carolina do Sul (EUA) no ano de 1801.
Originário da França (Rito de Héredon com 25 graus) ele recebeu na América do Norte o acréscimo de mais alguns graus o que lhe deu um total de 33 graus, ficando conhecido como Rito Escocês Antigo e Aceito (na Europa conhecido como Rito Antigo e Aceito).
Na realidade é mister se considerar que quando fora ele criado e intitulado por REAA no ano de 1801 e com 33 graus, verdadeiramente ele não possuía graus simbólicos, porém trazia no seu conteúdo uma performance iniciática dita “graus superiores” que vai do 4º grau até o 33º, enquanto que para os três primeiros graus do franco-maçônico básico (simbolismo) o Rito se servia das Lojas Azuis do Craft norte-americano, cujos trabalhos haviam sido organizados por Thomas Smith Webb e baseados nos costumes dos Antigos de 1751 na Inglaterra (vide história dos Antigos e Modernos ingleses). Assim o escocesismo na América do Norte com seus 33 graus possuía, digamos, os três graus simbólicos influenciados pela Maçonaria anglo-saxônica (Blue Lodges), enquanto que os demais, embora acrescidos por uma Constituição “forjada”, eram influenciados pela Maçonaria francesa (Rito de Héredon). É bom que se diga que até nos dias atuais é comum se ver maçons norte-americanos do REAA praticando os três primeiros graus nas Lojas Azuis.
Em 1802, entretanto, apareceria, agora na França, o Segundo Supremo Conselho do REAA. Com a formalização do escocesismo como Rito em solo francês, urgia a necessidade de se criar rituais simbólicos para o Rito, já que distante da América do Norte e das Blue Lodges, a França não conhecia o sistema dos Antigos ingleses de 1751, pois a Maçonaria francesa, diferente da norte-americana, trabalhava nos moldes dos Modernos ingleses de 1717 (vide a história dos Antigos e Modernos na Inglaterra). Em síntese, a Maçonaria francesa desconhecia a forma de trabalhar da Grande Loja dos Antigos de Lawrence Dermott, aquela praticada pelas Lojas Azuis das Grandes Lojas dos Estados Unidos da América do Norte, também falsamente conhecido como York Americano. De pronto não há como não se desconsiderar as substanciais diferenças ritualísticas entre os “antigos e os modernos” ingleses.
Com isso a Grande Loja Mãe Escocesa situada em França começou a se preparar para implantar um simbolismo original para o REAA, já que a liturgia das Lojas Azuis era inapropriada para aquela situação na França que, por sinal, a desconhecia por completo. Assim, em 1804, sob a égide do Grande Oriente da França apareceria para o REAA o seu primeiro ritual simbólico. Contudo, esse ritual ainda sofreria influência da Maçonaria praticada pelas Blue Lodges, isso porque ele surgiu pelas mãos de maçons franceses que retornavam da América do Norte para a França. Esses maçons, como já comentado, quando em solo norte-americano praticavam os três primeiros graus das Lojas Azuis, cujos trabalhos eram fortemente influenciados pelos “antigos” da Maçonaria anglo-saxônica.
Foi por esse motivo que o REAA (rito comprovadamente de origem francesa) naturalmente acabou tendo no seu primeiro ritual simbólico influências trazidas da prática dos “antigos”, o que acabou ficando como uma marca do Rito, ou seja, com um sistema dos altos graus originários da França e um simbolismo que, mesmo nascido em França, trazia em parte costumes da Maçonaria anglo-saxônica. Essa característica fez do REAA um rito de duas vertentes – a vertente francesa e a anglo-saxônica (em parte no seu simbolismo).
A despeito de o próprio nome do Rito trazer em si ascendência dos “antigos”, seguem, dentre outros, dois exemplos práticos relacionados aos “antigos” que perduram até hoje na liturgia e na decoração do Templo no escocesismo. São eles, o lugar do Segundo Vigilante na Loja, e a posição direita-esquerda das Colunas Vestibulares.
No tocante ao Segundo Vigilante, observe-se que nos ritos de origem francesa, sobretudo os mais conhecidos entre nós, como o Adonhiramita e o Moderno, o Segundo Vigilante é colocado no Ocidente em simetria com o lugar do Primeiro Vigilante, enquanto que no REAA, mesmo sendo ele de origem francesa, o Segundo Vigilante, à moda anglo-saxônica, tem lugar no meridiano do Meio-Dia.
No que diz respeito às Colunas Vestibulares, geralmente a Maçonaria francesa traz a Coluna “J” colocada a esquerda de quem entra no Templo e a “B” à direita, entretanto o REAA, mesmo sendo ele de origem francesa, “B” fica à esquerda e “J” à direita de quem entra - como geralmente acontece na Maçonaria anglo-saxônica.
Em síntese, foi a Maçonaria francesa a responsável por colocar os dois Vigilantes no extremo do Ocidente - de modo simétrico, um a noroeste e outro a sudoeste. Aliás, isso pode ser constatado em boa parte dos graus superiores do REAA. Já a Maçonaria inglesa (anglo-saxônica), que não possui graus superiores à moda do escocesismo, coloca um Vigilante ao centro, a Oeste, e outro na porção mediana da sala, ao Sul.
De modo generalizado, essa posição é praticamente adotada em todo o mundo no simbolismo do REAA, onde o Segundo Vigilante fica ao Meio-Dia e o Primeiro Vigilante no extremo do Ocidente, mas um pouco deslocado a noroeste.
Essas então foram algumas colocações necessárias para se entender o desenvolvimento dos rituais, sobretudo a partir do final do século XVIII e início do século XIX.
A despeito de que as suas colocações questionam o porquê das diferenças existentes entre os lugares no simbolismo e nos graus superiores do REAA, de momento eu não teria nenhuma afirmativa laudatória para lhe dar, senão mencionar que a explicação para essas diferenças podem estar relacionadas às mensagens doutrinárias de cada grau, assim como nas suas respectivas lendas e alegorias.
Assim, sem a pretensão de dar uma resposta laudatória, deixo aqui algumas outras considerações que se relacionam com o corolário doutrinário da Maçonaria, em especial ao escocesismo que, no meu entender, poderão trazer subsídios para no futuro esclarecer essa questão.
Não obstante às colocações históricas e as influências dos dois sistemas de Maçonaria (o inglês e o francês), no simbolismo (palavra que só apareceria na França no início do século XIX), o Templo, ou Sala da Loja (título dado conforme a vertente maçônica) representa uma oficina onde os Maçons trabalham buscando seu aperfeiçoamento interior. Essa labuta simbólica segue nos três primeiros graus as três etapas de evolução do pensamento humano – intuição (Aprendiz), análise (Companheiro) e síntese (o Mestre).
De fato, a alegoria e os adereços relativos ao Templo simbólico foram preparados para instigar no Maçom o interesse pela investigação da Natureza. Também é certo que a Astronomia, como uma das Sete Ciências e Artes Liberais da Antiguidade seja matéria de estudo do iniciado, entretanto ela não é propriamente a responsável – como é citado na sua questão - pela distribuição e disposição dos lugares dos cargos nas Lojas simbólicas.
Muito embora alguns respeitáveis autores até associem alguns cargos com os astros no firmamento, essa associação, consoante ao rito praticado, é apenas mística e não a responsável por eleger e distribuir o lugar dos cargos na Loja. Assim, embora sugestivo para o misticismo maçônico, o lugar das Luzes, Dignidades e Oficiais nos Templos do REAA não é propriamente astronômico, mas é o de seguir, em muitos aspectos, parâmetros associados à Lenda do Terceiro Grau.
É também verdade que os cargos e seus respectivos lugares nas Lojas simbólicas da maioria dos ritos maçônicos representam a organização de uma guilda que abriga dirigentes e operários especulativos que trabalham para um bem comum. Especulativamente a Moderna Maçonaria desbasta as asperezas do homem para torna-lo digno de pertencer a uma sociedade virtuosa. Os operários da guilda reunidos na Loja distribuem-se conforme as suas aptidões, portanto pormenores como esse, que nada tem a ver com a Astronomia, também determinam no espaço da Loja o lugar e a função de cada obreiro.
Outra consideração importante nesse sentido é a de que o espaço utilizado pela Loja de há muito fora idealizado e passou por inúmeros processos de aperfeiçoamento. Historicamente isso se deu desde os tempos operativos (Maçonaria de Ofício) até os tempos especulativos (Maçonaria dos Aceitos), desse último ainda, os Templos da Moderna Maçonaria.
Dentro desse contexto é também inegável que a Maçonaria recebeu forte influência da Igreja, tendo na oportunidade o clero como seu principal protetor. Inquestionavelmente essa influência religiosa foi também um dos fatores determinantes para dar forma organizacional aos Templos Maçônicos.
Ainda por esse mesmo viés, houve forte influência da religião hebraica, sobretudo no Rito Escocês Antigo e Aceito.
Além das influências de costumes religiosos, também é inegável que boa parte da disposição do mobiliário de um Templo Maçônico fora herdada do Parlamento Inglês. É bom que se diga que a Maçonaria tem aproximados 800 anos de história e que o primeiro Templo maçônico da Moderna Maçonaria (Freemason’s Hall) somente viria ter a sua pedra fundamental nos meados do século XVIII em Londres.
Dados esses comentários, vamos agora abordar algum aspecto que, nessa linha, diga respeito aos graus ditos “superiores” do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Nesse sentido, eu entendo que a acomodação do mobiliário de alguns lugares no espaço da Sala da Loja dos graus superiores, se dê também de conformidade com as propostas dos contos lendários que constituem as alegorias de cada grau da escola inefável, seja ela da Perfeição, do Capítulo ou do Kadosh (muito pouco do Consistório).
Como esse assunto, da minha parte, não possa ser tomado como laudatório, vou então tentar trazer algumas colocações que talvez sirvam a posteriori de “fio de Ariadne” para resolver essa questão.
Partindo do simbolismo, onde o Iniciado deve estar apto a compreender a evolução do pensamento humano - matéria basilar dos três primeiros graus - cabe ainda destacar que o simbolismo também lhe confere a capacidade de controle de si mesmo – das suas emoções e das suas paixões – o que lhe dá o autoconhecimento interior (ego).
A partir daí é que no escocesismo, em particular, se somam os altos graus que vão do 4º até o 18º, cujos mesmos propõem a saída do restrito conhecimento do ser humano, para ingressar no caminho do conhecimento cósmico – em síntese, constitui a identificação do Iniciado com o Universo pela aplicação do amor e da solidariedade.
Seguindo, os graus subsequentes (do 19º ao 30º) têm o caráter de harmonizar os ensinamentos adquiridos até então e, com isso, mostrar o caminho para a realização do Homem com tudo o que existe no Universo. É nesse sentido que o 30º grau se apresenta como uma espécie de síntese iniciática de todos os graus, o que faz dele ser doutrinariamente o mais importante dos altos graus, levando-se em conta de que pela própria denominação, os graus do 31º ao 33º são apenas administrativos (não iniciáticos).
Outra característica dos altos graus do escocesismo é a de evidenciar, até o 18º grau, uma sequência histórica da civilização hebraica. Demonstrada a partir da construção do primeiro Templo de Jerusalém (o de Salomão) até ao aparecimento do cristianismo no ano 70 da era atual (destruição total do terceiro Templo).
Não menos importante é a alegoria que envolve a construção do primeiro Templo (o de Salomão). Desde a morte simbólica de H\ A\, o grau de Mestre e muitos graus posteriores, até o 19º, se desenvolvem em torno desse importante personagem lendário e o seu ambiente de vida. Pertinente ao período da história hebraica, é abordado o final da construção do primeiro Templo, o exílio na Babilônia, a libertação e o retorno à Palestina, a construção do segundo Templo (o de Zorobabel), o cristianismo, a destruição de Jerusalém e do terceiro Templo (o de Herodes). Por fim o aparecimento da alegórica Jerusalém Celeste, dado que a terrestre estava em ruínas pela sua destruição.
Na sequência, os altos graus do escocesismo trazem inspiração templária (cristã), muito embora sem perder, em alguns aspectos, a influência hebraica. Dessa escola atende-se o “dever e a proteção da fé”. Nessas Lojas e/ou Câmaras, se constroem os ambientes de acordo com a alegoria idealizada em cada ritual.
Com isso, acredito que os ambientes e as decorações das Lojas, Câmaras e outros nominados, buscam representar o conteúdo filosófico das lições emanadas dos graus – sejam eles das Lojas Simbólicas, sejam eles dos Graus Superiores. Em todo esse contexto, entendo que cada ambiente adequa a sua decoração e a sua disposição topográfica conforme a proposta – a do conhecimento do Homem e a do conhecimento do Cosmos.
Concluindo, reitero que essas as colocações têm apenas o desiderato de despertar uma possibilidade para esclarecer a sua questão. Cada lugar, cada espaço, cada símbolo, é fruto de uma mensagem oriunda da organização doutrinária. Em Maçonaria nada subsiste por si só. Nela tudo se interliga para fazer sentido.


T.F.A.

PEDRO JUK


MAIO/2019