sábado, 5 de maio de 2018

VISITANTE DE OUTRO RITO - II


Em 20/02/2018 o Respeitável Irmão Ivan Barbosa Teixeira, Loja Tiradentes, 65, Rito de York (Americano), sem mencionar a Obediência, Oriente e Estado da Federação, apresenta a questão seguinte:

VISITANTE DE OUTRO RITO


Tenho uma dúvida que coloquei em Loja e acabou em uma discussão com várias opiniões divergentes.
Sou de uma Loja onde se pratica o Rito de York (Rito Americano) e temos os sinais de nosso Rito, como o Due Guard, o de Fidelidade, etc.
Como irei visitar uma Loja que pratica o REAA fiquei na dúvida se deverei usar nossos sinais ou aderir aos sinais da Loja que visito, pois em meu Rito não fazemos a bateria

do Grau nem a aclamação.
Bom, isso gerou um confronto de opiniões, pois enquanto alguns Manos acreditam que por estar em visita deveria praticar o Rito da Loja em que se visita, incluindo seus sinais, outros optaram que se deva proceder conforme o Rito que praticam e assim como o avental diferente e a cor da gravata, (em nosso Rito é azul celeste), apesar de seguirmos os trabalhos daquele Rito, deve-se manter os sinais de sua Loja de origem, pois muitas vezes visitamos ate mesmo Ritos que desconhecemos.
Já outra parte optou pelo meio termo, e usando o bom senso, manter o que for possível de seu Rito, desde que não ofenda a Loja visitada.
Como não encontrei na legislação Maçônica, tampouco na ritualística, nada que viesse a regulamentar o assunto, recorro ao nobre Irmão para que me tire essa dúvida.

CONSIDERAÇÕES.

A regra da boa etiqueta é a de que o visitante se adeque aos costumes da casa do visitado.
Tenho dito que numa situação em que a Loja visitada trabalhe num rito diferente da do visitante, então que quem a visita pelo menos chegue com antecedência suficiente para expor, antes da abertura dos trabalhos, a situação aos seus recepcionistas.
Com tempo hábil disponível, certamente algum Irmão da Loja visitada irá ensinar os procedimentos ritualísticos mínimos necessários ao visitante.
O que não deve, sobretudo numa situação dessas, é que o visitante chegue sem tempo hábil, ou pior ainda, chegue atrasado.
Ratifica-se: é do visitante a obrigação de se adequar à Loja que o recepciona.
Quanto ao avental ou gravata de cor diferente conforme o Irmão menciona na questão acima, nada disso faz algum sentido (não cola), pois a questão não é de alfaias e nem de traje, mas do Rito que a Loja acolhedora pratica. Naturalmente ela abre os trabalhos litúrgicos no seu Rito, e não no do visitante.
Tenho dito que sempre se deve lançar mão do “bom senso”. Na medida do possível o visitante primeiro deveria se informar com antecedência mínima se a Loja que ele pretende visitar pratica um rito que ele conheça. A questão é a de se preparar antes para se evitar atropelos de última hora – a isso se dá o nome de “bom senso”.
Não sendo possível, por motivo que se justifique, então que o visitante pelo menos adote a prudência de chegar com tempo necessário para se adequar a situação e não causar desordem nos serviços alheios.
É de bom alvitre lembrar que uma das virtudes do maçom é a de se utilizar da “educação” que se espera tenha ele recebido na sua Loja.
A propósito: bom senso não é misturar procedimentos de um em outro rito na ideia de se adequar à situação.
O resto... Bem, o resto... É procurar pêlo em ovo.


T.F.A.


PEDRO JUK


MAIO/2018

CIRCULAÇÃO EM LOJA - ELA EXISTE NO TEMPLO SEM QUE A LOJA ESTEJA ABERTA?


Em 20/02/2018 o Respeitável Irmão Paulo Fagundes de Lima, Loja Basileia, 4.109, REAA, GOSP-GOB, Oriente de São Paulo, Capital, formula a seguinte questão:

CIRCULAÇÃO EM LOJA


Existe atualmente um esforço de padronizar o entendimento do REAA em São Paulo, e recentemente esteve nos visitando uma autoridade maçônica, que nos alertou que nossa entrada no Templo estava errada. Ao entrar no Templo para inicio da sessão, entrávamos na seguinte ordem: primeiro os aprendizes entrando pela esquerda para a coluna norte; em segundo os companheiros entrando pela direita para a coluna sul, em terceiro os mestres sem cargos entrando em ambas as colunas, em quarto os mestres com cargos entrando pelas suas respectivas colunas, e ao fim, os vigilantes entrando pelas suas respectivas colunas e o Venerável pelo centro da Loja. A orientação dada no sentido de corrigir nossa entrada, é que a sequência de entrada deveria ser mantida, porém a entrada se dá pela esquerda (coluna do norte) fazendo-se a circulação no sentido horário, mesmo a Loja não estando aberta. Para exemplificar, o 2º experto que anteriormente entrava pela direita (coluna do sul) e imediatamente ficava em frente de sua cadeira, pela nova determinação, entra pelo norte, e circula inteiramente o ocidente antes de acessar sua posição. Par
a sustentar esse posicionamento, foi citada a pagina 42 do ritual de aprendiz do GOB, e como o ritual é lei, precisa ser seguido. Ao questionar que a Loja não estava aberta, ele disse que isso é indiferente, uma vez que o Templo foi “Sagrado”, e portanto não se pode estar nele fora da sessão, nem andar de qualquer modo dentro dele, independente de haver ou não uma sessão em andamento. Minha dúvida: Não seria isso um erro de interpretação? A expressão no ritual na pagina 42 – item 1.8 – Da circulação em Loja e Saudação, não se refere a “Loja” no sentido de “sessão”? Tanto é que no inicio dos trabalhos o venerável mestre pede: “ajudai-me a abrir a Loja”. Independente do que está ou não escrito, não me parece razoável adotar uma circulação ritualística em Loja estando a mesma fechada. Pois se você este o caso, poderíamos imaginar o absurdo que nas férias maçônicas ao fazermos manutenção ou limpeza no Templo, teríamos que ter um mestre maçom orientando os profanos a andarem de forma ritualística, ou pior, deixando os profanos andarem sem problema, mas na existência de algum maçom, este circulando no sentido horário. Imagine este maçom tendo que levar uma lata de tinta para o pintor que está retocando o lado do mestre de harmonia. Com certeza o pintor imaginaria que nosso irmão maçom tem um parafuso a menos. (desculpe a ironia) Qual sua opinião? Obrigado

CONSIDERAÇÕES.

É devido a essas preciosidades que não raras vezes vivemos uma Maçonaria de faz de conta e recheada de aberrações hauridas de opiniões pessoais.
Cada vez mais me convenço de que se só existe no Brasil e não é jabuticaba, ou é besteira ou é privilégio de alguns.
Alguém precisaria informar a essa “sumidade” que sagração (consagração) do templo nada tem a ver com o religioso e com o sagrado, mas sim com a conferência de dignidade a um local para que os trabalhos maçônicos se realizem em Loja aberta.
Também seria de bom alvitre informar à “autoridade” que o que está na página 42 do Ritual de Aprendiz do REAA, edição de 2009 do GOB se refere às práticas inerentes à liturgia de uma Loja em trabalho ou em providências para sua abertura (meus Irmãos, ajudai-me a abrir a Loja).
Também seria conveniente perguntar ao “oráculo” como faz a pessoa encarregada pela limpeza do recinto. Teria ela que ser iniciada? Teria ela que obedecer a circulação ao passar de uma para outra coluna conduzindo baldes, esfregões, vassouras, etc.? Ora, essa é mesmo d’escrachar!
Pois bem, deixando essas divagações de lado, o ingresso no Templo se faz antes das providências para a abertura de uma Loja. Nessa oportunidade não é necessária à circulação horária no Ocidente.
Assim, estando todos preparados e autorizados para ingressar no recinto conforme prevê o ritual, os que ocupam o Ocidente, obedecendo à ordem de disposição do préstito, ingressam sem circulação, isto é, cada qual adentra pelo lado da sua Coluna. Os do Norte pelo lado esquerdo de quem ingressa, os do Sul pelo lado direito e os do Oriente diretamente pelo lado que melhor lhes aprouver. Por último, acompanhando o Mestre de Cerimônias (que vai à frente), o Venerável Mestre que geralmente, por uma questão de praticidade, ao Oriente se dirige diretamente pelo lado esquerdo de quem entra.
Ratificando, nessa oportunidade não há circulação horária. Ela só começa a partir do momento em que o Venerável Mestre ordena para que todos tomem assento e em seguida solicita auxílio para abrir a Loja. Antes disso, nunca.
É oportuno mencionar que existem duas características na existência de uma Loja. Uma é a de que ela existe como pessoa jurídica e como instituição regularizada na Obediência pela carta constitutiva. A outra é que ela existe como Corporação Maçônica e depende da liturgia para a sua abertura. A Corporação Maçônica é representada pelo Estandarte da Loja, cujo qual deveria ser desfraldado no momento em que a Loja (Corporação) fosse declarada aberta e sendo recolhido assim que declarada fechada. É pena que essa tradicional ritualística tenha sido suprimida nos nossos rituais. A exposição e o recolhimento do Estandarte explicariam o porquê e a razão de muitos procedimentos que compõem a ritualística maçônica, dentre os quais, certamente os momentos em que se dá a circulação em Loja no REAA\.
Concluindo, em relação a sua questão, a “autoridade” está dando uma interpretação completamente equivocada sobre o caso, confundindo sagração (dar dignidade) com algo sagrado (religioso) e, por fim, com uma total falta de compreensão do que é uma Loja (corporação) que existe por um determinado espaço de tempo compreendido desde a sua abertura até o seu encerramento.





T.F.A.

PEDRO JUK


MAIO/2018

sexta-feira, 4 de maio de 2018

SINAL DE COMPANHEIRO NO REAA - UMA OU DUAS MÃOS?


Em 19/02/2018 o Respeitável Irmão André Ricardo Ferraz Roque, Loja Barão do Rio Branco, 03, REAA, GOEPE/COMAB, Oriente de Arcoverde, Estado de Pernambuco, solicita esclarecimentos.

SINAL DO COMPANHEIRO MAÇOM NO REAA


Gostaria que o Irmão se possível fizesse um comentário sobre a questão que apresentarei abaixo:
Quando fui elevado ao Grau de Companheiro me foi comunicado que o sinal de ordem do segundo grau seria feito com as duas mãos da forma que sabemos. Mas de certo tempo para cá a minha Potência (GOEPE/COMAB) vem nos orientando a fazer o sinal apen
as com a mão direita. Gostaria de saber qual a forma correta de compor tal sinal.

CONSIDERAÇÕES.

De fato, a coragem do competente Irmão Antonio do Carmo Ferreira fez com que se adotasse o procedimento correto no Sinal de Companheiro do REAA\, pelo menos na COMAB em Pernambuco, isto é, eliminando esse movimento enxertado feito com a mão esquerda, o que não é original no escocesismo.
A utilização do antebraço e mão esquerdos é prática de outra vertente maçônica que infelizmente foi adotada no REAA\ em França por obra e graça de místico Oswald Wirth.
Tenho dito. Cada gesto que envolve um Sinal tem que estar de acordo com a estrutura doutrinária do Rito, o que não faz sentido nesse caso em se tratando do rito abordado. O original Sinal do Companheiro no escocesismo é feito apenas com a mão direita em alusão à pena simbólica.
Desafortunadamente a maioria dos rituais, principalmente no Brasil, ensina de modo equivocado o Sinal quando também utiliza a mão esquerda. O pior nesse caso é que não há para ela explicação convincente em se tratando do Rito Escocês, mas mesmo assim acabou se tornando um gesto consuetudinário, provavelmente pelo excesso do uso. Afinal, diz-se que um erro repetido muitas vezes acaba sendo considerado correto.
A utilização do membro superior esquerdo nesse Sinal é apanágio da vertente inglesa de Maçonaria, isso porque existe para ele continuidade preparatória para o Sinal de H\ que é haurido da Lenda do Terceiro Grau. Já no REAA\ o procedimento é diferente e não existe relação direta do Sinal de Companheiro com o Sinal de H\ (Sinal de Adm\ no REAA\).
Em síntese, o Sinal de Companheiro no Craft inglês (conhecido como Rito de York) é uma preparação para o Sinal de H\, mas não o é no REAA\ que, por ser oriundo da Maçonaria francesa (deísta), admite outra interpretação doutrinária.
Sem se aperceber desse importante detalhe, muitos ritualistas não levaram em consideração essa diferença e acabaram incluindo uma prática (inventada por Wirth) que, além de ser uma anomalia no escocesismo é ainda um enxerto grosseiro que tenta imitar prática de outro rito.
Tradicionalmente o Sinal correto do Segundo Grau no REAA\ é feito mesmo apenas com a mão direita, embora a grande maioria dos rituais em vigência mencione a utilização das duas mãos para fazê-lo.
Assim, devo mencionar que rituais em vigência, mesmo que equivocados, devem ser rigorosamente cumpridos, entretanto isso não nos retira o direito de apontar o engano para que talvez um dia eles sejam rigorosamente corrigidos e façam sentido.
Parabéns ao GOEPE que corajosamente se livrou dessa contradição.

T.F.A.

PEDRO JUK


MAIO/2018

TEMPLOS À VIRTUDE E MASMORRAS AO VÍCIO


Em 13/02/2018 o Respeitável Irmão Mestre Bibliotecário Felinto Júnior Da Costa, Loja Regeneração 3ª, REAA, GOP (COMAB), Oriente de Londrina, Estado do Paraná, solicita o seguinte esclarecimento:

TEMPLOS À VIRTUDE E MASMORRAS AOS VÍCIOS.


Em algumas pesquisas sobre a expressão "templos à virtude e masmorras aos vícios" (como dita em nossa língua), fui gradualmente sendo remetido a outras fontes.
No discurso de André-Michael Ramsay (que afirmam ter sido proferido na "Loge de Saint-Jean" em 26 de dezembro de 1736) há a seguinte menção: "[...] Nous suivons aujourd'h
ui des sentiers peu battus; Nous cherchons à bâtir, et tous nos édifices Sont ou des cachots pour les vices, Ou des temples pour les vertus [...]"
A tradução (eletrônica via Google) parece ser: "[...] Hoje seguimos trilhas que não são bem batidas, Buscamos construir, e todos os nossos edifícios, São ou masmorras para vícios, Ou templos para as virtudes [...]"
Esse trecho é parte de um poema escrito por um maçom e médico chamado Procope, cujo poema encontrei na página 5 desse fac-simile de 1737: "Chansons Notées De la Trés Vénérable Confreria des Maçons Libres par Frère Naudot 1737" (disponível em http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k15117345/f5.image).
Minha dúvida é, portanto, sobre a origem desta expressão "templos à virtude e masmorras aos vícios", assim dita em nossa língua.

CONSIDERAÇÕES.

Essas são expressões muito características da Maçonaria francesa que apareceram principalmente a partir da evolução dos seus rituais desde o século XIX.
No que diz espeito à citação envolvendo André Miguel de Ramsay, embora o seu discurso esteja catalogado academicamente como um dos documentos básicos do escocesismo, esse seu discurso foi um tanto quanto pretencioso já que ele quis dar um ar de aristocracia à Maçonaria e equivocou-se ao mencionar a Maçonaria como herdeira dos Templários.
Em minha opinião, o documento que o Irmão menciona é até sugestivo, mas nada é conclusivo em se tratando de origem das expressões “templos à virtude” e “masmorras ao vício”. Também nada se pode afirmar a respeito que seja algo originário do poema de Procope mencionado pelo Irmão. Nesse sentido seria necessário um estudo mais apropriado.
O fato é que a Maçonaria latina adota a expressão “erguer templos à virtude” por ser também ela herdeira das guildas construtoras da Idade Média. Assim, de modo alegórico, a Moderna Maçonaria mantém o desiderato de “construir, erigir, erguer”, mas nesse caso, o de templos simbólicos que sugestivamente se refletem na construção de um monumento à virtude universal.
Quanto às “masmorras ao vício” a expressão é no sentido de luta da Sublime Instituição em favor dos bons costumes e em oposição ao hábito desregrado que arrasta o homem para o mal (o vício).
Em síntese as expressões conjuntas denotam um dos maiores objetivos da Maçonaria como construtora social especulativa – que o bem se erga tal como um templo edificado com perfeição e que o mal seja sepultado na profundidade das masmorras para que os seus efeitos caiam no perpétuo esquecimento. Tudo lembra trabalho em prol de alguma coisa (erguer e cavar).
É muito provável que as expressões tenham sido adotadas ou criadas por pensadores maçônicos franceses que organizaram e adaptaram a dialética dos rituais latinos.
Por fim, eu não teria de momento como lhe responder se a origem das expressões “templos à virtude” e “masmorras ao vício” se deu por um dos exemplos citados na sua questão. Penso que o mais provável seja pelo liame histórico entre passado operativo e o moderno especulativo. Outras concepções de minha lauda podem ser encontradas em: iblanchier3.blogspot.com/2016/04/levantar-templos-virtude.html




T.F.A.

PEDRO JUK

MAIO/2018

terça-feira, 1 de maio de 2018

RITUAL DE EMULAÇÃO E RITO DE YORK - O CRAFT INGLÊS E O NORTE-AMERICANO


Em 12/02/2018 o Respeitável Irmão Ivan Barbosa Teixeira, Loja Tiradentes, 65, Rito de York, sem mencionar a Obediência e a Cidade, Estado do Rio de Janeiro formula a seguinte questão:

RITUAL DE EMULAÇÃO E RITO YORK


Vejo muitos Irmãos confundirem os Trabalhos de Emulação com o Rito de York (também chamado de Rito Americano das Blue Lodges.). Embora eu tenha lido que, a bem da verdade, devemos ter em mente que o termo “Rito de York” se refere apenas aos Altos Graus (de Mestre da Marca a Cavaleiro Templário e outras ordens anexas), assim como o R.E.A.A. referem-se apenas aos graus compreendidos entre o 4 ao 33. Sendo as l
ojas simbólicas chamadas de Blue Lodges e seus Rituais de “Monitores de Webb”
O Irmão poderia dissertar sobre o assunto?

CONSIDERAÇÕES.

Esse é um assunto que tem sido muito explorado por alguns escritores maçônicos, autênticos e tendenciosos, sobretudo aqui no Brasil.
Na realidade o título Rito de York, amiúde não cabe na Maçonaria Inglesa, sobretudo porque os ingleses não reconhecem “rito”, mas “Trabalhos” (Workings). Nela também não se admitem os “graus superiores”; esses muito conhecidos da Maçonaria latina.
A rigor, na Inglaterra se admitem apenas os graus laterais, distinguidos como side degrees, ou então como Ordens de Aperfeiçoamento, porém nunca reconhecidos como um grau acima do terceiro no Francomaçônico Básico.
A questão “além do terceiro grau” começou na Inglaterra com o Irmão Lawrence Dermott e a fundação da Grande Loja dos Antigos (1751) para fazer oposição aos Modernos de 1717. Alegava esse Irmão que a sua Grande Loja possuía uma pretensa antiguidade, e assim instituiu o Santo Real Arco como uma espécie de extensão do mestrado sob a justificativa de que se precisava dar desfecho à Lenda do Terceiro Grau para se encontrar a Palavra perdida. Na realidade esse foi um artifício inteligente criado por Dermott para atrair, antes da União, maçons da Primeira Grande Loja para a sua Grande Loja - a dos Antigos[1].
No que diz respeito ao Rito de York, afirmava Dermott sempre para justificar a declarada e pretensa antiguidade, ter existido uma “convenção de maçons” no século X (926) na cidade medieval de York, em cuja qual, coordenada por Edwin, filho do Rei Athelstan, houvera a criação de normas, condutas ritualísticas e outros afins para a Fraternidade.
Na realidade, Edwin nem mesmo era filho do Rei, mas seu sobrinho, e essa provável convenção somente aconteceu entre as Guildas Construtoras do norte como uma reunião para avaliar os prejuízos sofridos pelas invasões dos povos bárbaros - entenda-se que naquela época não existiam rituais especulativos e nem mesmo Lojas à moda como hoje conhecemos.
Foi graças a isso que a pequena cidade medieval de York, situada na Inglaterra, se consagrou fantasiadamente - na visão de Dermott - como uma espécie de “Meca” da Maçonaria e o título “York” como rótulo para um rito maçônico.
Despindo-se dessas fantasias, ao contrário de Rito, o termo mais apropriado para a Maçonaria inglesa é simplesmente “Craft” que, no sentido da palavra designa o grêmio, ou o ofício - referindo-se àquele dos antigos construtores da pedra calcária, ancestrais da Maçonaria.
Nesse sentido, outro aspecto não menos importante que envolve a Maçonaria Inglesa após o Ato de União entre os Antigos e os Modernos foi o de que apareceu a Loja Especial de Reconciliação com a intenção de fazer os acertos litúrgicos e ritualísticos ensaiando de modo decorado as cerimônias do Working inglês e que deu, de certo modo, a espinha dorsal para o cerimonial do Craft aprovado pela Grande Loja em 1816 (vide também a Loja Especial de Conciliação - 1809 a 1811, antes da União).
Assim, em 1823 seria então instalada a Loja de Aperfeiçoamento (Improvement) que daria formato definitivo preservando os trabalhos (workings) do Craft. Esse processo de ensaio, preservação e melhoramento ficou conhecido como Ritual de Emulação, ou Os Trabalhos de Emulação, mas não como um Rito propriamente dito, entretanto como uma maneira ordenada, decorada e disciplinada de se trabalhar nas Lojas. Um dos principais expoentes dessa Loja foi o Irmão Peter Gilkes, falecido em 1833.
Destaque-se mais uma vez que essa prática não é um Rito, pois os ingleses não adotam esse termo na sua Maçonaria. Os ingleses têm sim por hábito respeitar as diversas manifestações culturais das regiões do seu país, não obstante exista uma rigorosa observação dos Preceptores para que ninguém se afaste da conduta ritualística básica determinada pela Grande Loja - trocando em miúdos, é proibido inventar.
Nesse sentido na Inglaterra existem, além dos Trabalhos de Emulação e Aperfeiçoamento, outras práticas no Craft, como por exemplo, a do Humber, do Taylor’s, do Sussex, do West-End, do Bristol, etc. Note que na Inglaterra a Grande Loja não adota o nome Rito de York, talvez não pela sua estrutura em si, mas porque ela não utiliza a palavra “rito”.
Quanto a Maçonaria nos Estados Unidos da América do Norte a história é um pouco diferente, entretanto é inegável a influência inglesa nessa Maçonaria.
Na América do Norte a Ordem Maçônica seguiu os passos dos Antigos de Dermott, porquanto o termo “York” acabaria por se consolidar nos EUA.
Seguindo o curso da história, os maçons norte-americanos visando à sua independência do reinado inglês, ficariam afastados da Primeira Grande Loja (a dos Modernos) já que essa Grande Loja mantinha relação bastante aproximada com a Coroa inglesa por influência da Royal Society Londrina.
Assim sendo, o maçom Thomas Smith Webb acabou organizando a estrutura ritualística da Maçonaria norte-americana dando-lhe característica baseada nos “Antigos de York” (irlandeses sem muita afinidade com a Coroa).
Desse modo, o Craft norte-americano (simbolismo) ficou sendo conhecido como Lojas Azuis (semelhante ao simbolismo), enquanto que as suas extensões de aperfeiçoamento – da Marca aos Cavaleiros Templários - diferente dos ingleses, ficariam conhecidos como os altos graus de um conjunto denominado York Rite.
Ainda em relação ao Craft (Blue Lodges) da Maçonaria norte-americana, a sua estrutura simbólica se desenvolve baseada principalmente no Ducan’s Ritual, embora cada Grande Loja dos estados norte-americanos possa ter também a sua característica, mas sem muito se afastar espinha dorsal ritualística do Craft.
É oportuno mencionar que no país norte-americano os membros das Lojas Azuis, ao seu desejo, praticam a extensão dos Altos Graus do Rito de York (Americano), assim como também os do REAA.
Curiosamente a prática maçônica norte-americana acabou influenciando alguns rituais escoceses aqui no Brasil. Essa “yorkização” acabou se dando por conta da busca de reconhecimento nas Grandes Lojas dos EUA por Mário Béhring para as suas Grandes Lojas brasileiras fundadas por ele em 1927. No afã de ser reconhecido, dentre outros, muitas práticas do Craft norte-americano acabaram, provavelmente para angariar simpatia, aportando nos rituais do REAA por aqui – veja, por exemplo, o que acontece em alguns rituais brasileiros onde o Altar dos Juramentos foi colocado centro ao Ocidente, a cor azul foi inserida na os aventais escoceses, a utilização do Salmo 133 na abertura da Loja, os Diáconos portando bastão, etc.(nada disso é autêntico no REAA\).
No que diz respeito ao uso equivocado do nome Rito de York utilizado no Brasil, sobretudo no GOB onde esses rituais são oriundos do Craft inglês, essa anomalia advém de um erro de grafia como se verá logo adiante.
Infelizmente, apesar de já ter sido incansavelmente apontado esse erro, encontramos ainda Irmãos que ferozmente defendem o título de York no lugar do Craft que é praticado na Inglaterra, mesmo que o título York nem mesmo seja por lá mencionado.
Esse erro teve origem por aqui em dezembro de 1912 quando o Grande Oriente do Brasil assinou um tratado com a Grande Loja Unida da Inglaterra. Nessa oportunidade esse tratado fora composto por textos impressos, um em português e o outro em inglês. No inglês, o título era descrito como “Grand Council of Craft Masonry in Brazil” o que significa em livre tradução do idioma inglês como “Grande Conselho do Ofício Maçônico no Brasil”. Já no texto em português o título fora traduzido equivocadamente como “Grande Capítulo do Rito de York”. Como se pode observar o erro é absolutamente gritante.
As sete primeiras Lojas desse Conselho (administrativo), que inexplicavelmente fora traduzido por Capítulo, eram a Eureka Lodge, 440 do Rio de Janeiro; a Duke of Clearence, 443 de Salvador, BA, a Morro Velho Lodge, 648 de Nova Lima, MG, a Lodge of Unity,792 de São Paulo, SP, a St. George’s Lodge, 8l7 de Recife, PE, a Lodge of Wanders, 856, de Santos, SP e a Eduardo VII Lodge, 903 de Belém, PA.
Além dessas, outras Lojas inglesas ainda apareceriam e, no ano de 1935, com anuência do Grande Oriente do Brasil, elas seriam incorporadas por aqui a uma Grande Loja Distrital subordinada à Grande Loja Unida da Inglaterra. É bom que se diga que esse reconhecimento inglês era de interesse do GOB, pois Béhring já houvera antes obtido para as suas Grandes Lojas Estaduais o reconhecimento das Grandes Lojas dos Estados Unidos da América do Norte. Com o acordo e o aparecimento da Grande Loja Distrital, o Grande Conselho, ou Grande Capítulo (mal traduzido) deixaria de existir.
Comprovadamente, um bom exemplo de como o título de Rito de York não condiz com a realidade histórica, nem por aqui e nem na Inglaterra, está na tradução da língua inglesa para a portuguesa feita em 1920 por Joseph T. Wilson Sadler, membro do quadro da Lodge of Unity, de uma edição de um ritual de 1918 denominado The Perfect Cerimonies of Craft Masonry. Nessa tradução Sadler traduziu corretamente o título - As Cerimônias Exatas da Arte Maçônica. Note-se novamente que aqui também não aparece esse “suposto” Rito de York.
Mas, como já comentado, mesmo que comprovada a inexistência desse Rito de York, infelizmente essa denominação ainda continua aparecendo por aqui quando alguém se refere aos trabalhos ingleses. Um exemplo disso está num ritual impresso em 1976 que utilizou a tradução de Sadler, mas fez nele reaparecer inconveniente o título de Rito de York.
Como uma mentira contada muitas vezes acaba sendo confundida com a verdade, a maioria dos rituais brasileiros que praticam o Craft Inglês seguem baseados nessa edição de 1976 a utilizar inconvenientemente o título incorreto de Rito de York. E assim segue a caravana com o inominado Rito de York.
Concluindo, espero que esse breve resumo tenha suprido a sua súplica.



T.F.A.

PEDRO JUK

MAIO/2018


[1] É perfeitamente conhecido pela história autêntica que a “Antiga Maçonaria”, aquela do período Operativo, nem era constituída por graus, porém por duas classes de operários profissionais – a dos Aprendizes do Ofício e a dos Companheiros da Arte, quando, desses últimos era então escolhido o que melhor se sobressaísse profissionalmente para dirigir a Guilda de Construtores. Esse profissional ficou conhecido como o Mestre do Ofício, ou da Obra e não era um grau especulativo. O grau de Mestre, como conhecido atualmente, apareceria somente na Moderna Maçonaria - especulativa por excelência - em 1725 e seria incluído como Terceiro Grau apenas a partir de 1738 quando da Segunda Constituição da Grande Loja. Concomitante a termo “tempos imemoriais” Dermott se utilizou do Mestre do Ofício (Operativo) para caracterizá-lo, mais tarde, como uma espécie de extensão especulativa do 3º Grau. É daí a expressão “(...) incluindo o Santo Arco Real” que foi utilizado na Inglaterra ao se mencionar que a pura Maçonaria era constituída por apenas três graus.