segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

SIGNIFICADO DA MARCHA DO MESTRE NO REAA


Em 05/10/2018 o Respeitável Irmão Cleber Medeiros, Loja Verdade e Justiça, 16, REAA, GLMPI (CMSB), Oriente de Teresina, Estado do Piauí, apresenta a questão seguinte:

MARCHA DO MESTRE - SIGNIFICADO


Estudando sobre as Marchas de Aprendiz Companheiro e Mestre. Consegui os SIGNIFICADOS dos passos do Aprendiz que é: 1º LUTA, 2º PERSEVERANÇA E O 3º FRATERNIDADE. O de Companheiro: 1º IMAGINAÇÃO, 2º AFETIVIDADE. Juntando o p\ dir\ ao calc\ esq\ chegamos a RAZÃO. E os de Mestre, qual significado?
Ajude-Nos!

CONSIDERAÇÕES.

Antes das considerações propriamente ditas, saliente-se que as Marchas, ou Passos do Grau, como são conhecidos na Maçonaria, acontecem em alguns ritos, sendo que essa prática não é generalizada na amplitude dos trabalhos maçônicos. A despeito disso, cada Rito ou Trabalho, possui suas particularidades e propriedades litúrgicas inerentes à sua estrutura iniciática. Em assim sendo, que fique bem claro que os apontamentos seguintes se referem apenas ao simbolismo do REAA.
Em que pese os significados mencionados na sua questão, me perdoe à sinceridade, mas essas definições, no meu entender, não passam de suposições. Eu particularmente não vejo aonde alguns autores conseguem fazer interpretações desse tipo. Para mim nada mais são do que coisas da fertilidade da imaginação.
Tornando mais palatável essas interpretações, o conceito das Marchas no simbolismo do REAA é simplesmente iniciático e se refere à jornada do maçom em direção ao Oriente (lugar do Mestre). Destaque-se que a Maçonaria busca por ordem da razão dar sentido às suas práticas com explicações plausíveis e não em meras suposições.
Nesse sentido, os passos do Aprendiz (Marcha) iniciaticamente se relacionam com uma linha reta por onde é conduzido aquele que, pelo aspecto de ser ainda um iniciante, traz consigo a ausência de experiência e, por conseguinte, a insuficiência de um conhecimento mais acurado sobre a Arte Real.
A melhor explicação para essa insígnia emblemática é a de que o Aprendiz não possa ainda se desviar desse rumo sob a pena de se perder para sempre da senda da Sabedoria. Assim, a liturgia da Marcha do Aprendiz também menciona racionalmente a “retidão”, tanto de caráter, bem como de objetivo. É dessa condição que o Aprendiz representa a infância no processo iniciático da Maçonaria.
Faz-se apropriado nesse momento lembrar de que um dos mais importantes símbolos da “retidão” na Maçonaria é o Esquadro, sendo essa a razão pela qual a esquadria se faz presente na execução dos passos.
É nesse contexto então que o conjunto dos tr\ pp\ significam o primeiro ciclo do aprendizado e dele se destaca a idade simbólica do Aprendiz. Esotericamente a alegoria da Marcha no Primeiro Grau prevê que o Aprendiz, por se apresentar ainda como um elemento despreparado para a Arte, bruto em essência, deve então ser amparado ao peregrinar em linha reta, o que simbolicamente acontece quando ele no Ocidente, e de frente para o Oriente, dá os tr\ pp\ sobre o equador do Templo.
Explica-se que o desvio daquele que ainda não possui experiência necessária pode demandar num ato temerário, cujo qual poderá leva-lo a se perder para sempre. A ação de se perder denota no ato de se desviar do caminho que vai em direção à Luz (objetivo daquele que espera um dia alcançar na plenitude maçônica).
Cumprida a idade simbólica dos tr\ aa\ e dando sequência à senda iniciática o Aprendiz é então alçado à Elevação ao Segundo Grau, Grau esse que tem a pragmática da juventude, da ação e do trabalho. Assim, agora como Companheiro Maçom, portanto mais experiente indo do Norte para o Sul, ou passando para a perpendicular ao Nível, ele já pode perambular por todo o Ocidente da Loja (canteiro de trabalho).
Uma síntese dessa evolução (aprimoramento das ações e dos costumes) é representada emblematicamente pelos dois pp\ a mais que o Companheiro dá além dos três primeiros hauridos da primeira etapa da sua jornada iniciática. Agora totalizando c\ pp\, os mesmos denotam aos c\ aa\ de aprendizado na Arte, condição simbólica de aperfeiçoamento para se atingir o Segundo Grau. Assim, os c\ aa\ correspondem à idade figurada do Companheiro.
Esotericamente, os dd\ pp\ a mais - um oblíquo e outro de retorno ao eixo (equador) - significam que o Companheiro representando a juventude e com mais experiência já pode, a partir do eixo do Templo, se deslocar pelas Colunas e posteriormente a ele retornar na sua jornada em direção à Luz. Assim, o Companheiro demostra que pela sua evolução é senhor dos caminhos pelo Ocidente da Sala da Loja.
Prosseguindo na jornada, alcança-se por fim o final da senda iniciática – a plenitude maçônica, ou o Grau de Mestre Maçom.
Agora como senhor de todos os quadrantes da Loja, desde o Ocidente até o Oriente e do Norte até o Sul, entre o Esquadro e o Compasso o Mestre completa a sua Marcha.
A plenitude do trajeto iniciático somente será alcançada pela consecutiva conclusão de todas as etapas da jornada do simbolismo, isto é, no REAA marchando como Aprendiz, como Companheiro e por fim efetuando os caminhares do Mestre. Na realidade a sinopse dessa plenitude corresponde ao trajeto completo da senda iniciática maçônica. Por oportuno cabe mencionar que a Moderna Maçonaria Universal (simbolismo) é composta apenas e tão somente por três graus – Aprendiz, Companheiro e Mestre. É bom que se diga que a mais antiga, a Maçonaria de Ofício, se constituía apenas de duas classes de trabalhadores.
Retomando os comentários sobre a Marcha do Mestre, os t\ últimos pp\ que completam simbolicamente a sua jornada remontam, no REAA, à alegoria da morte e do renascimento da Natureza.
Sob essa égide esse teatro emblemático tem o desiderato de demostrar sequencialmente os ciclos naturais (estações do ano). Em linhas gerais essa alegoria procura demonstrar o alcance da maturidade (plenitude, experiência) e o descanso à meia-noite (morte).
Nesse contexto cada passo do Mestre simboliza o trajeto (eclíptica) na revolução anual do Sol, destacando que nessa alegoria Hiran, na concepção deísta do Rito é o Sol que morre no inverno deixando dele a Terra sua “viúva”. Assim, é imperativo que o maçom compreenda essa representação ao mesmo tempo em que se afaste das interpretações fantasiosas, temerárias e desprovidas de justificativas.
No tocante à Marcha em si, o Mestre como que a transpassar por sobre um e\ simbólico, imitando o deslocamento do Sol de um para o outro hemisfério, dá, a partir da conclusão da Marcha de Companheiro, na forma de costume e com o p\ dir\ um p\ em direção à Coluna do Sul (em seguida junta ao seu p\ dir\ normalmente o p\ esq\) - o ponto ao Sul alcançado pelo primeiro passo representa solstício de inverno no hemisfério Norte.
Prosseguindo, a partir dai e representando a volta do Sol do Sul para o Norte, o Mestre, como que ainda a transpassar por sobre um e\ simbólico, dá outro p\, porém agora com o p\ esq\, em direção à Coluna do Norte (em seguida junta ao seu p\ esq\ normalmente o p\ dir\) – o ponto ao Norte alcançado pelo segundo passo representa o solstício de verão no hemisfério Norte.
Por fim o Mestre, ainda como que a passar por sobre um e\ simbólico, dá com o seu p\ dir\ o terceiro e último passo em direção ao equador do Templo como que a se preparar para ingressar no Oriente da Loja (junta em seguida o seu p\ esq\ ao p\ dir\ formando pelos cc\ uma esq\).
Esotericamente essa alegoria procura demonstrar que os tr\ pp\ finais elevados do Mestre desenham figuradamente no espaço a trajetória anual do Sol, isto é, a sua ida e a sua volta de um para outro hemisfério, o que confere ao Planeta Terra as suas estações do ano. Ficam assim demonstrados, à direita e à esquerda, os solstícios de inverno e de verão, cujas datas, caras aos nossos antepassados (Maçonaria Operativa) correspondem a João - o Batista e a João - o Evangelista. Dessa característica solsticial as Lojas ficariam mais tarde sendo conhecidas também como as “Lojas de São João”.
Assim sendo, esse teatro simbólico que associa o Homem à Natureza representa toda a jornada iniciática maçônica do simbolismo – infância, juventude, maturidade e morte. Em suma essa alegoria solar representa o aperfeiçoamento do iniciado que, tal qual a Natureza cumpre o seu ciclo, morrendo no inverno para renascer na Luz. A Marcha completa, do Aprendiz ao Mestre, resume todo esse corolário iniciático.
Por óbvio essa é apenas uma explicação sintética de toda essa jornada que propõe o aperfeiçoamento do maçom conforme o arcabouço doutrinário do REAA. A regra é a de que investigando constantemente a Verdade o Iniciado cumpra todas as três etapas iniciáticas.
A título de esclarecimento, os oito passos que se dão a partir do Aprendiz até o Mestre têm no REAA origem nos tempos dos seus primeiros rituais em França a partir do século XIX. Nessa época, a Marcha era única e simplesmente se constituía por “oito passos normais”. Somente mais tarde, a partir dos meados desse mesmo século é que com a evolução dos rituais essa jornada seria dividida em três etapas relativas a cada grau simbólico. Atualmente esses “oito passos” permanecem, porém quando somados os de Aprendiz, os de Companheiro e os de Mestre. Destaque-se que a Marcha completa do Companheiro se dá a partir da do Aprendiz. Já a do Mestre se dá a partir da do Aprendiz passando pela do Companheiro. Salvo a Marcha do Aprendiz, a dos dois outros graus somente se completa seguindo sequencialmente a(s) Marcha(s) anterior (es).
Dado os comentários é esse o significado superficial das Marchas no simbolismo do REAA. Cada conjunto por grau completa uma etapa iniciática, portanto não faz sentido interpretações individuais de cada passo como a que fora mencionada na sua questão. Destarte os significados de cada ciclo iniciático, a alegoria somente se completa no encerramento da jornada, cuja qual exalta a plenitude maçônica adquirida ao se receber o salário na Câmara do Meio.
Concluindo, se isso puder ajudá-los, me resguardando da atitude de não revelar segredos e ser escrachado pelos puristas de plantão, esses são os meus comentários.


T.F.A.

PEDRO JUK


JAN/2019

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TRANSFORMAÇÃO DA LOJA - VI


Em 02/10/2018 o Respeitável Irmão George Toufic Junior, Loja Calixto Barbosa, 2854, REAA, GOB-MT, Oriente de Claudia, Estado do Mato Grosso, apresenta a questão seguinte:

TRANSFORMAÇÃO DE LOJA


Tenho lido vossos artigos, que são peças de grandes informações e relevância maçônica, meus parabéns. Na oportunidade felicito o irmão, em especial ao que tange a matéria "Transformação em Loja", que foi questionamento do Irmão Mar Sakashita, em 15 de abril de 2012.
Estou passando pela mesma situação, e não encontro amparo literário nos rituais, para poder argumentar com os irmãos em especial os mais velhos, sobre transformar a Loja de Aprendiz, diretamente em Loja de Mestre.
Confesso que comungo da mesma ideia do irmão, de que é possível, tal feito, mas gostaria que me auxiliasse, com materiais pertinente a isso para poder arguir nossas conclusões.

CONSIDERAÇÕES.

Em que pese eu tenha enfatizado na resposta dada em 2012 e mencionada na sua questão de que no REAA\ genuinamente é possível se transformar uma Loja do Grau 01 para o Grau 03 sem antes se passar pelo Grau 02 - o que reafirmo que é verdade - em algumas situações, entretanto, isso pode parecer contraditório.
Veja, no caso da transformação de Loja no GOB\, devido ao que mencionam os seus rituais do REAA, me parece que existe a obrigação (se a transformação for partir do Primeiro Grau) de antes se passar pelo Grau de Companheiro até se chegar à transformação definitiva (Grau de Mestre).
Digo isso porque existe, sobretudo na Maçonaria latina, a obrigatoriedade de se seguirem os rituais em vigência e, nesse sentido, os rituais simbólicos do GOB preveem as respectivas transformações da Loja, porém do Primeiro para o Segundo Grau e a posteriori do Segundo para o Terceiro Grau.  Não há neles previstas transformações do Primeiro, diretamente para o Terceiro.
Assim é o que menciona o ritual de Companheiro do REAA na sua página 22 e seguintes onde está prevista a transformação da Loja de Aprendiz para a de Companheiro, enquanto que no ritual de Mestre, desse mesmo Rito, na sua página 42 e seguintes está prevista a transformação da Loja de Companheiro para a de Mestre. Note que não existe no Ritual de Mestre nenhuma alusão à transformação direta da Loja de Aprendiz para a de Mestre.
Faz-se oportuno mencionar que essas transformações previstas ritualisticamente nos rituais acima aludidos, também trazem a transformação inversa, ou de retorno, sendo do Grau de Mestre para o Companheiro e deste para o de Aprendiz. Note que neles também não existe transformação inversa direta do Mestre para o Aprendiz. Inversamente por primeiro transforma-se a Loja do Grau de Mestre para o Companheiro e por fim da de Companheiro para o de Aprendiz – reforço: isso nos rituais do REAA do GOB.
Assim, embora eu tenha dito e reafirmado em outras oportunidades (e continuo reafirmando) que originalmente no REAA\ é natural à transformação direta do Grau 01 para o Grau 03, não há, no caso do GOB, nenhuma orientação para tal, o que me obriga a dizer, sobretudo agora como Secretário Geral, que mesmo contrário à tradição, nesse caso se acompanha o previsto nos rituais.
É oportuno ainda se esclarecer que na Maçonaria de vertente francesa, geralmente os trabalhos podem ser abertos diretamente no Grau de Aprendiz, ou de Companheiro, ou ainda no de Mestre. Entretanto, no Craft (origem inglesa) esse costume não é comum, pois em qualquer situação a Loja será sempre aberta a partir do Primeiro Grau. Assim, para se trabalhar no Grau de Companheiro é preciso que por primeiro a Loja seja aberta regularmente no Grau de Aprendiz para que na sequência haja a abertura no Segundo Grau. Do mesmo modo, uma Loja de Mestre é primeiramente aberta no Primeiro Grau, em seguida no Segundo Grau e por fim no Terceiro Grau.
Para o encerramento nesse sistema, procede-se da mesma forma, mas em ordem decrescente, de modo que o encerramento definitivo da Loja se dê sempre no Grau de Aprendiz. Comumente esse retorno é chamado de reversão. Um detalhe importante nessa prática inglesa é que a cada Grau a Loja é aberta, ou encerrada, com a execução plena da sua ritualística. Originalmente nela não há “abreviações”.
Antes de concluir é imperioso comentar que os procedimentos litúrgicos não raras vezes se diferem entre as duas principais vertentes maçônicas (a francesa e a inglesa). Ademais, seguem-se, mesmo que contraditórios, os rituais em vigência.
Por fim eu sugiro ao Irmão que confira o aqui comentado (sobre a prática de transformação de Loja) nos rituais do GOB em vigência. Já no tocante às tradições do REAA, nada melhor do que se pesquisar nos rituais autênticos encontrados na França a partir da evolução dos mesmos no século XIX.

E.T. 1 – O termo Craft (grêmio, ofício) aplica-se no GOB ao conhecido e inominado título de Rito de York.

E.T. 2– Assim como é equivocada a prática de abertura e encerramento ritualístico com um só golpe de malhete, também são equivocadas as tais “meias-transformações” de Loja. Transformar uma Loja requer o mínimo de observação da liturgia própria de cada rito. Entenda-se que não existe “meia loja” aberta. A preguiça é um vício, portanto como tal deve ser combatido nas lides maçônicas.

T.F.A.

PEDRO JUK


JAN/2019


domingo, 6 de janeiro de 2019

COR ENCARNADA NA DECORAÇÃO DO REAA


Em 03/01/2019 o Respeitável um Irmão pertencente ao Quadro da Loja Irmão Augusto Nogueira Paranaguá, 4.540, REAA, GOB-PI, Oriente de Corrente, Estado do Piauí, apresentou a seguinte questão:

COR NA DECORAÇÃO DO REAA


Poderoso Irmão, estou encomendando os móveis (mesas, altares) para nossa Loja. Eles poder ser da cor do Rito Vermelha?

CONSIDERAÇÕES

A cor autêntica da decoração do REAA, segundo o oficial Conselho de Lausanne realizado na Suíça em 1875, é o “vermelho encarnado”, também conhecido como a cor do cardeal, costume esse herdado nas origens “jacobitas” (católicos) do escocesismo.
Quanto ao matiz oficial do Rito utilizado no Grande Oriente do Brasil, inclusive mencionado no Ritual de Aprendiz em vigência na sua página 19, é o de que as almofadas, cortinas e, se for o caso os assentos e os encostos das cadeiras sejam na cor vermelha encarnada.
Na realidade no REAA, além das mencionadas acima, recomenda-se também que o dossel, toalhas e tapeçarias sejam predominantemente vermelhos.
Quanto aos móveis especificamente, os mesmos têm sido geralmente em madeira mantidos na sua cor natural, não existindo nenhuma orientação específica para que esses sejam também vermelhos.
Caso seja essa a ideia, a de confeccionar móveis de matiz vermelho, penso que isso, por uma questão de gosto, fica a critério da Loja.
Nesse sentido, reafirmo que os mais comuns mesmo são os elementos de cor encarnada como os anteriormente mencionados, destacando que as franjas e galões, em eles existindo que sejam então dourados.
A título de explicação, alegoricamente num templo do escocesismo simbólico devem existir elementos constituídos por madeira (vitalidade), pedra (estabilidade) e ouro, representado pelas partes douradas (espiritualidade).
Essa é uma explicação genérica para o Rito, destacando-se que ela é bastante comum nos graus de Aprendiz e Companheiro, já que na Câmara do Meio, alguns elementos decorativos devem prevalecer na cor condizente à representação que se dá ao ambiente naquela ocasião – as franjas e galões, nessa ocasião, serão na cor prateada.


T.F.A.


PEDRO JUK

JAN/2019

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

SINAL DE H.'. - ORIGEM


Em 01.10.2018 o Respeitável Irmão Thiago Santana Picoli, Loja Delegado Armando Antonio Rodrigues de Oliveira, 188, REAA, GLMERS, Oriente de Barra do Ribeiro, Estado do Rio Grande do Sul, apresenta a questão seguinte:

SIN\ DE H\ - ORIGEM.


Irmão Pedro, muitas são as dúvidas no caminho do Maçom estudioso que busca respostas sérias e convincentes, baseadas em fatos concretos e históricos. Feita esta pequena consideração, te faço a primeira pergunta de várias que virão daqui pra frente:
1 - Na marcha do Grau de M\M\, após vencer a m\, o Maçom (agora renascido) elev\ aa\ mm\ p\ c\, fazendo a seguinte exclamação: A\ S\ M\ D\ (ou O\, S\ M\ D\), posteriormente curv\ o c\ para frente, bat\ c\ a p\ dd\ mm\ acima dd\ jj\ por t\ v\. Após, arma o Sinal de M\M\ e faz a saudação às Luzes.
A minha dúvida é a seguinte: Qual a origem da exclamação: A\ S\ M\ D\ com a posterior bat\ com a p\ dd\ mm\ acima dd\ jj\?
Um tempo atrás, um Irmão muito esclarecido veio em nossa Loja fazer uma palestra e colocou (de forma muito rápida) que a origem desse movimento tinha a ver com os Judeus (ou Hebreus?). Ele disse que o referido povo (que eu não consigo me lembrar ao certo) não acreditava na vida após a morte. Sendo assim, ao vencer a morte e se colocar diante do Criador, saudavam o mesmo e b\ com a p\ d\ m\ acima dd\ jj\ como um sinal de arrependimento, ou seja, para mostrarem que estavam arrependidos por não acreditarem em vida após a morte.
Após a palestra fui conversar com o Irmão para que ele me desse maiores informações a respeito, pois ninguém sabe a origem desse movimento. Todavia, ele desconversou e não se mostrou muito confortável com meus questionamentos. Particularmente, achei um pouco egoísta de parte dele, mas percebi que ele não queria dividir os detalhes da informação.
A minha pergunta é se isso tem fundamento? Poderia me indicar alguma literatura a respeito do assunto onde eu possa corroborar tal situação?

CONSIDERAÇÕES

Sinceramente nunca encontrei essa “estupenda explicação” nos meus anos de estudo (que não são poucos) sobre Maçonaria.
Em que pese não se possa negar influência cultural hebraica muito forte em alguns ritos maçônicos, o S\ de H\, como é feito no REAA\, nada tem a ver com essa explicação estapafúrdia mencionada pelo douto visitante. Isso simplesmente porque o conjunto gestual e a exclamação que acompanha o Sin\ se originam na teatralização da Lenda Hirâmica conforme ela é contada no Terceiro Grau do escocesismo. Entenda-se que a Lenda do Terceiro Grau é exclusivamente maçônica e foi remontada sobre lendas antigas alusivas aos Cultos Solares da Antiguidade.
Assim, o sinal representa simbolicamente a dor e a consternação expressada pelo Rei quando ele, finalmente horrorizado, constata ser aquele o corpo do tão valoroso Mestre. Nesse momento então, segundo a Lenda, a atitude gestual do Rei dá origem ao S\ de H\ representado no REAA\
Na realidade as mm\ eerg\ denota um gesto de se dirigir em lamento a Deus, enquanto que as bb\ com aa\ pp\ dd\ mm\ sobre o av\ denotam um gesto de dor e ao mesmo tempo resignação – toda a cena expressa o horror pela comprovação de tão infame homicídio.
Como se pode notar meu Irmão, isso nada tem a ver com crença de vida após a morte, até porque, esse significado não trata literalmente do extermínio de uma vida, mas o da possibilidade da nefasta destruição dos bons costumes.
Nesse sentido, se sobressai que não é intenção da Maçonaria apregoar concepções hauridas de crenças religiosas. Na verdade, todo esse conjunto lendário aventa uma alegoria que procura demonstrar que o homem, passível de aperfeiçoamento, precisa se purificar, ou morrer para renascer. É o exemplo da renovação da Natureza que morre no Inverno para reviver na Primavera – o homem como parte dela está sujeito às suas leis.
Dado a esses comentários, provavelmente o ilustre palestrante não conhece os preciosos afins iniciáticos da Maçonaria a contento e, com isso, passa a disseminar ideias temerárias – coisa própria de falsos eruditos. Assim explica-se o desconforto e a desconversa do ilustre personagem quando lhe foi solicitado um melhor esclarecimento sobre o fato.
A título de ilustração, cabe comentar que o Sin\ de H\, também conhecido como o G\ Sin\ R\ no REAA\, é muito parecido com o Sin. de Afl. e Ag\ do Craft e que é tido também como um pedido de socor\, principalmente na Escócia, Irlanda e Estados Unidos da América.
Concluindo, penso que é preciso se combater essas invenções e principalmente esses ideários particulares recheados de inverdades. As lendas e alegorias maçônicas têm a finalidade de explicar, de modo velado, os objetivos iniciáticos da Ordem. Não cabe à Maçonaria trazer concepções e crenças que não condigam com o seu arcabouço doutrinário. Antes de se proferir ideias temerárias como a relatada na questão, melhor mesmo seria antes compreender o conjunto lendário hirâmico como um todo e não ficar especulando sobre partes do seu desenvolvimento lendário. A morte de H\, antes dessas ilações temerárias, tem muito mais a ver é com a morte da Natureza, período que a Terra fica viúva do Sol nos três meses de inverno. Que o digam todos os argumentos e as alegorias dos ritos deístas - como é o caso no REAA. Duvido, mas se porventura existe nesse Sinal alguma relação com antigos costumes hebraicos, certamente não é essa a explicação que cabe para a Maçonaria.

E.T. Busque bibliografia para estudo sobre o tema em autores comprometidos com a autenticidade e a razão. A melhor grade de pesquisas nesse caso é aquela que aborda as origens da Lenda Hirâmica na Maçonaria, destacando que o Grau de Mestre só aparece na Moderna Maçonaria a partir do ano de 1725. Entenda, porém, que os fatos que compõe uma lenda não devem ser tomados como afirmativas da História. Sugiro títulos a respeito que constem das Atas da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati, 2076 de Londres. Veja também Astrologia e Maçonaria do autor José Castellani e, nele, roteiros bibliográficos anexos.


T.F.A.

PEDRO JUK


JAN/2019


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

A RÉGUA DE 24 POLEGADAS NO REAA - É DO APRENDIZ OU DO COMPANHEIRO?


Em 01/10/2018 o Respeitável Irmão João Guilherme de Castro, Loja Sá Carvalho, REAA, GOP (COMAB), Oriente de Apucarana, Estado do Paraná, apresenta a seguinte questão:

RÉGUA NO PAINEL DE APRENDIZ


Gostaria de saber do Irmão por que no Painel Simbólico do grau de Aprendiz, não consta a régua de 24 polegadas, sendo esta uma das ferramentas do Aprendiz, e constam tantos outros símbolos?

CONSIDERAÇÕES.

No Rito Escocês Antigo e Aceito, rito de origem francesa, a Régua de 24 Polegadas é um dos instrumentos de trabalho inerente ao Grau de Companheiro. Já no Craft (Ofício) inglês, no Brasil comumente conhecido como Rito de York da Inglaterra, a régua é um dos objetos pertences ao Grau de Aprendiz. Do mesmo modo, no Rito Schröder, rito de origem alemã, mas depurado da Maçonaria inglesa, a Régua Graduada também é um dos instrumentos de trabalho do Primeiro Grau, o que pode ser comprovado no catecismo de Aprendiz do rito.
No Brasil, devida à equivocada mistura de procedimentos de uns em outros ritos, a régua aparece em alguns rituais do REAA\ também no Grau de Aprendiz, o que é um erro crasso, tanto pelo aspecto doutrinário como pelo histórico.
Aqui no Brasil o pormenor que envolve a régua se dá porque alguns rituais do escocesismo estão enxertados com práticas do Craft. Essa indevida inserção se deu quando o Irmão Mário Marinho Béhring, criador das Grandes Lojas Estaduais brasileiras (1927) foi buscar reconhecimento para estas nas Grandes Lojas Norte-americanas. Para o caso, é sabido que as Lojas Azuis (simbolismo) das Grandes Lojas dos Estados Unidos da América do Norte tiveram a sua ritualística fundamentada no Craft inglês que é oriundo da Grande Loja dos Antigos de 1751. Assim, em se tratando do Craft e da Régua como instrumento de trabalho, a mesma nele pertence ao grau de Aprendiz, entretanto não no REAA.
Com o reconhecimento adquirido, as Grandes Lojas brasileiras, provavelmente para angariar simpatia dos seus reconhecedores, acabaram enxertando nos rituais escoceses no Brasil inúmeras práticas oriundas das Lojas Azuis do Craft norte-americano, dentre as quais a régua para o Grau de Aprendiz no REAA\ quando nele, genuinamente a régua pertence ao Grau de Companheiro.
Até certo ponto poder-se-ia dizer que isso não faz diferença nenhuma, mas em se tratando da doutrina e das instruções do verdadeiro escocesismo simbólico que é natural da França, não existe nele nenhuma menção da régua no Primeiro Grau. Isso pode ser comprovado nas respectivas e clássicas alegorias da Maçonaria francesa onde o Aprendiz aparece ajoelhado tendo às mãos apenas o Maço e o Cinzel, enquanto na alegoria do Companheiro ele aparece trazendo, apoiada no seu ombro esquerdo, uma Régua graduada – em síntese, no REAA\ a régua só aparece como instrumento de ofício do Segundo Grau.
É bom que se diga que toda a liturgia e a distribuição simbólica de um rito compõem a sua grade doutrinária. As instruções de cada rito devem estar respectivamente de acordo com os símbolos que se apresentam nos Painéis para o REAA\, nas Tábuas de Delinear para o Craft, ou ainda no Tapete para o Rito Schröder.
Aliás, a não observação desse conceito elementar tem sido a razão pelas quais muitas instruções inseridas nos rituais, às vezes acabem por não fazer nenhum sentido se comparadas com a verdadeira liturgia e ritualística do próprio rito. No simbolismo maçônico de um rito, nada existe por acaso. Sem nenhuma licenciosidade, na Maçonaria os símbolos embasam a doutrina especulativa de aperfeiçoamento humano.
Ainda outro aspecto nesse sentido é o de que muitos rituais de outros ritos de origem latina, que não o REAA\, também sofreram influências por conta dessas concepções equivocadas, pois não raras vezes encontramos célebres diferenças entre rituais de um mesmo rito, principalmente no Brasil. Também contribuindo para essa coleção de anacronismos, existem os rituais de Instalação que, não raras vezes, trazem na liturgia de posse do Venerável, referências a instrumentos de ofício de modo generalizado, quando um bom conhecedor de Maçonaria sabe que dependendo da origem de cada rito, muitos costumes pode se diferenciar. Nesse caso, a Régua de 24 Polegadas é um bom exemplo para esse comentário.
Concluindo, remeto o Irmão a consultar no meu Blog em http://pedro-juk.blogspot.com.br em Peças de Arquitetura um escrito (do qual aproveitei parte do texto acima) que se intitula “A Régua de 24 Polegadas ou a Régua Graduada e a Régua Lisa”.


T.F.A.

PEDRO JUK


JAN/2019