segunda-feira, 7 de junho de 2021

A PALAVRA BOAZ OU A SUA CORRUPTELA BOOZ?

 

Em 17/09/2020 o Respeitável Irmão Alexandre Leal, Loja Regente Feijó II, 1.256, REAA, GOB-RJ, Oriente de Três Rios, Estado do Rio de Janeiro, apresenta a questão seguinte:

 

BOAZ OU BOOZ

 

Meu irmão, escrevo em nome do irmão Dirceu Menezes. Ele realizou um trabalho recentemente sobre a palavra Booz. Após o trabalho conversamos e alguns irmãos opinaram e ele continuou o trabalho de pesquisa e bateu outras dúvidas. No Rito REAA, Bíblia e Escritores Maçônicos, qual é a maneira correta de escrever, pronunciar? Qual é o certo?

 

CONSIDERAÇÕES.

 

Vale antes mencionar que Boaz é um personagem bíblico presente no Antigo Testamento e citado no livro de Ruth e em I Crônicas. Filho de Raabe e Salmom (não é Salomão), tomou Ruth como sua esposa. Pai de Obed e pertencente à tribo de Judá, veio a ser o bisavô do rei Davi (pai do Rei Salomão). O termo também designa o nome de uma das colunas que se localizam no pórtico do primeiro Templo de Jerusalém, o atribuído ao Rei Salomão - I Reis, 7. No contexto dos pilares do pórtico do Templo, Boaz, em hebraico menciona: força, ou nele há força.

No que diz respeito à sua escrita, a grafia correta é BOAZ, e não BOOZ, vocábulo este que é desconhecido no vernáculo hebraico (vogais dobradas).

A bem da verdade, a corruptela BOOZ surgiu na versão bíblica da Vulgata, onde
o erro acabou se perpetuando porque, segundo estudiosos sobre o assunto, a Igreja Católica resolveu respeitar o tradutor.

A palavra Vulgata é o título dado a tradução do grego para o latim da Bíblia, fato que se deu por determinação do Papa Dâmaso I e foi desenvolvida entre o final do século IV e início do século V por São Jerônimo. Diga-se de passagem, que nos primeiros séculos da nossa era, a Igreja Cristã servia-se, principalmente, do idioma grego. Traduzida a Bíblia para o latim, a versão da Vulgata começou paulatinamente a ser utilizada até ser definitivamente oficializada pelo Concílio de Trento (1545-1563).

No que menciona a versão bíblica da Septuaginta, dos Setenta, ou Alexandrina, ela adota a grafia hebraica correta, ou seja, BOAZ. A Septuaginta, que significa setenta, é uma versão muito antiga e se deu a partir da Bíblia hebraica (o Pentateuco, ou os cinco livros de Moisés) traduzida para o grego por volta de 275 a 100 a.C. A denominação “Septuaginta ou dos Setenta” se deve a um grupo de 72 anciãos judeus helenistas reunidos para fazer essa tradução. Quanto ao título Alexandrina, o mesmo ocorre porque essa versão foi feita no Egito com o objetivo de servir aos judeus helenistas (judeus de fala grega) que viviam, principalmente em Alexandria.

No contextual maçônico e o uso da palavra BOAZ, assim como o seu modo corrompido BOOZ, vale mencionar que quando houve a Reforma Protestante promovida por Martinho Lutero em 1517, na Bíblia traduzida do latim para o alemão aparece a palavra BOAZ.

Ainda, na concepção protestante inglesa de tradução bíblica, a corruptela BOOZ é completamente desconhecida. Nela a palavra aparece escrita como BOAZ.

Sob o ponto de vista de originalidade, vale repetir que em hebraico a palavra é BOAZ. A corruptela BOOZ é completamente desconhecida na língua hebraica. É simplesmente inexistente.

Sobre o uso dessas palavras na Maçonaria em geral, tanto a original como a sua corruptela, parece que é até compreensível também o uso de BOOZ, porém na vertente latina da Ordem, principalmente levando-se em conta de que nela há utilização da Vulgata como Livro da Lei. Já na vertente anglo-saxônica da Maçonaria, e por extensão na anglo-americana, onde a versão da Vulgata geralmente não é empregada, só a palavra BOAZ é utilizada.

Em relação à Maçonaria brasileira, que é filha espiritual da França, a corruptela BOOZ é também muito utilizada com frequência, contudo não é unanimidade, pois existem alguns rituais que preconizam o uso da palavra BOAZ.

Particularmente no REAA, que é um rito de origem francesa, mas que possui também influências algo-saxônicas graças a elaboração do seu primeiro ritual para o simbolismo (1804) estruturado sobre os costumes dos “Antigos”, BOAZ é utilizada, contudo em muitos países latinos ainda é encontrada a corruptela BOOZ.

Ainda em relação ao REAA e o caráter sigiloso que envolve a forma costumeira de transmitir essa palavra, consagrou-se o uso das duas palavras, isto é, conforme o ritual aprovado e a respectiva Obediência que o adota. Muitos desses rituais indicam apenas e tão somente a palavra abreviada na sua primeira letra, ficando as demais que a compõem conforme as versões bíblicas que pode ser BOAZ ou sua corruptela BOOZ.

Entendo que por ser a Maçonaria uma investigadora da Verdade, nela não deveria caber nenhuma contradição, ainda que embasada em tradições superadas. Ora, se a palavra correta é BOAZ, então por que a adoção de uma palavra de escrita equivocada? Por que disseminar uma palavra que não existe no seu vernáculo original? A resposta é que desafortunadamente alguns Irmãos ainda preferem alimentar a contradição sob o juízo de rituais antigos que perpetuam essa anomalia haurida de um equívoco de tradução.

De fato, espera-se que na medida em que determinados rituais brasileiros do REAA sejam revisados e novas edições venham aparecer, essa irregularidade deixe de existir de uma vez por todas no cobridor do grau.

Ilustrando, vou repetir mais uma vez um comentário feito pelo Respeitável Irmão Sérgio Kander em junho de 2014 e que eu o incluí numa resposta minha publicada no Blog do Pedro Juk em 2019. Esses comentários reforçam a grafia e a pronuncia correta da palavra:

“(...) acho que não se precisa nem de São Jeronimo, nem de Martin Luther (que não gostava de judeus), nem da Versão dos Setenta (feita para judeus tão helenizados que não sabiam mais ler hebraico). Peguem qualquer judeu que se preze (ou um que não se preza como eu) e vamos ao texto hebraico do Livro de Ruth. Está lá: Letra Beit (é o som do Bê, mais o sinal vocálico do som do Ó (é um pontinho), mais a letra Áiin com o sinal vocálico de A mais a letra Záin que sempre tem som de Zê. Resultado: BOAZ. (a) Sérgio Kander”.

Certamente que as colocações do Irmão Sérgio acima ajudam a pôr um ponto final nesse assunto.

Quanto à forma iniciática-maçônica de transmití-la no REAA, em qualquer circunstância (original ou corruptela) se trata de um modo velado da pronúncia de uma palavra privada, sobretudo levando-se em conta que iniciaticamente essa P S representa o início da jornada do Apr que s s s.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogspot.com.br

 

 

JUN/2021

quarta-feira, 2 de junho de 2021

QUESTÕES DE RITUALÍSTICA O USO DA SAUDAÇÃO PELO SINAL - REAA

 

Em 12.09.2020 o Respeitável Irmão Davi Hackbart Covaleski, Loja Estrela do Sul, 84, REAA, GOB-RS, Oriente de Bagé, Estado do Rio Grande do Sul, faz a seguinte colocação e pede comentário:

 

USO DA SAUDAÇÃO EM LOJA

 

Sei que o Ritual e o material disponibilizado no Sistema de Orientação Ritualística do GOB (pelo qual oportunamente aproveito para parabenizar e enaltecer a importância do trabalho realizado pelo Ir frente à Secretaria Geral de Orientação Ritualística), são bastante claros no ponto que irei abordar mas, na intenção de dirimir qualquer dúvida e com o propósito de conseguir ir adequando e corrigindo os costumes ritualísticos em Loja (e que às vezes são herdados de práticas anteriores, que acabam se consolidando incorretamente), é que envio


este e-mail.

Sobre a saudação: O ritual de Aprendiz (pág. 42), diz que esta é feita somente ao Ven Mestre quando da entrada e saída do Oriente e ao Ven Mestre e VVig quando da entrada (após abertos os trabalhos), e saída (quando definitiva), do Templo; Excetua-se a esta regra, por óbvio (e também por orientação ritualística), as situações em que o Obreiro estiver portando um "objeto de trabalho".

Sobre este ponto há que levar-se em consideração a orientação disponibilizada pelo SOR em que, nas observações sobre a transmissão da Pal Sagrada é reiterado o fato de que o simples fato de "desfazer o sinal" não se considera uma saudação propriamente dita:

“III – Embora no texto do explicativo no ritual apareça o termo “saudação”, nesse caso o Sinal é apenas uma norma ritualística e não uma saudação propriamente dita. Destaque-se que o próprio ritual menciona que saudações em Loja ocorrem somente ao Ven Mestre durante o ingresso e saída do Or, e às LLuz da Loja por ocasião do ingresso formal ou retirada definitiva do Templo;”. Afirmação esta que é ratificada nas Orientações relativas ao Sin Gu onde consta que:

"III – Embora toda Saud Maç obrigatoriamente seja feita pelo Sin Pen, nem sempre o Sin Pen é necessariamente uma Saud Maç";

e nas orientações relativas ao Fechamento do L da L onde consta que:

"II – Assim que o L da L é fechado todos desfazem o Sin de Ord∴ pelo Sin∴ Gut. ATENÇÃO - Esse gesto não é saudação".

Finalizada esta introdução, em que pude trazer o que observei através da consulta ao Ritual e ao Sistema de Orientação Ritualística disponibilizado pelo GOB, lhe descrevo sucintamente a situação que tenho observado nas Lojas que já frequentei e que, apesar de uma maneira menos "exagerada", também ocorre em minha Oficina.

Do observado em visitações:

- Já presenciei, em outras Lojas, a realização de Saud Maç quando, no Ocidente, um obreiro cruza a linha (simbólica/imaginária), que divide o Sul e o Norte;

- Já presenciei, em outras Lojas, a realização de Saud Maç quando, eventualmente (por ocasião de Transformação de Grau, ou em Sessões/Situações que demandam esta retirada), um Obreiro necessita deixar temporariamente o Templo;

- Já presenciei, em outras Lojas, a realização de Saud Maç, inclusive, quando do momento que o Obreiro vai tomar seu lugar e, antes de sentar-se, realiza o referido gesto.

Do observado em minha Loja:

- É costume, quando da assinatura do Livro de Presenças (no caso de entrada com atraso ou em momento oportuno do Cerimonial de Iniciação), tanto o Chanceler quanto aquele que irá assinar o Livro realizarem, reciprocamente, a Saud Maç;

- É costume a realização de Saud Maç, quando da Circulação do Saco de PProp e IInf ou do Tr de Benef e o Oficial em questão entrega a Bolsa/Saco ao Guarda do Templo para a sua participação no referido momento do Ritual - ambos, reciprocamente, realizam a Saud Maç;

- É costume a realização de Saud Maç em outros momentos como quando o Mestre de Cerimônias recolhe o Balaústre junto ao Secr, ou quando o Hosp entrega o Tr de Benef ao Tes por exemplo.

Após o estudo descrito mais acima me parece que todos estes usos são equívocos que acabaram se perpetuando de uma maneira "hereditária": a reprodução pela reprodução. Me parece ainda que algo destes equívocos residem no fato de haver uma confusão de quando é necessário realizar a Saud Maç ou quando há um simples "desfazer" do Sin de Ord. Não me parece ser de todo errado, por exemplo, o Chanceler aguardar em Pé e a Ordem aquele Obreiro que irá proceder a Assinatura do Livro de Presenças e, quando da chegada deste, simplesmente "desfazer o sinal"; ou quando o Orador está aguardando em Pé e a Ordem em seu local e é conduzido pelo Mestre de Cerimônias em determinado momento do Ritual para o Fechamento do L da L (assim como naqueles momentos da Transmissão da Pal Sagr já mencionados acima).

Gostaria então que o Ir, pudesse explanar sobre este assunto de maneira a, como já dito no início deste e-mail, poder dirimir quaisquer dúvidas que, ao menos para mim, ainda possam restar sobre o assunto e por isso, humildemente, lhe peço auxílio.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

Atendendo ao que dispões o SOR (Decreto 1784/2019 do Grão-Mestre Geral) e o Ritual de Aprendiz do REAA em vigência do GOB, página 42, seguem os comentários.

  1. Praticas observadas nas suas visitas:

a)    Ao atravessar de uma para outra Coluna - Não está previsto porque não existe nenhuma saudação, seja ao Venerável ou ao Delta, quando alguém em trânsito, à circular pelo Ocidente e cruzar o equador do templo (eixo), tanto pela frente ou por trás do Painel. Do mesmo modo também não existe, sob nenhuma hipótese, parada formal ou inclinação do corpo acompanhado de meneios com a cabeça nessa ocasião.

b)    Na retirada do Templo - Nesse caso a saudação somente será feita às Luzes da Loja se a saída for definitiva. Se o Templo for coberto a alguém por tempo determinado e posterior retorno, então não existe nenhuma saudação.

c)    Antes de tomar assento - Também não existe saudação nessa ocasião. Se o protagonista estiver em pé usando a palavra, ele fica à Ordem. Encerrando a sua fala, antes de sentar, obviamente ele desfaz o Sin de Ord pelo Sin Pen, contudo isso não é saudação, mas o simples ato de se “desfazer” o Sin, que deve ser sempre pelo gesto de aplicação simbólica da pen. O ato de se desfazer o Sin antes de se tomar assento é porque ninguém faz, ou compõe, o Sin sentado. Lembro que o Sin de Ord do grau se divide em duas partes distintas e que se completam no seu significado. A primeira parte é a “estática” e se trata da simples composição do Sinal; a segunda parte é a “dinâmica” e se trata do ato de desfazer o Sin pela aplicação da pen simbólica (Sin Pen). Em qualquer circunstância, tanto para desfazer o Sin ou prestar saudação pelo Sin, o Sin será sempre desfeito pelo Sin Pen. Procedimentos embora iguais, não podem ser generalizados nos seus significados.

  1. Práticas observadas na sua Loja:

a)    Retardatário e o Chanceler - Quem ingressar após o início dos trabalhos, ao ser conduzido à mesa do Chanceler para apor o seu ne varietur não saúda o Chanceler. Do mesmo modo o titular da chancelaria da Loja também não faz nenhuma saudação, isto é, ele permanece sentado. O que tem ocorrido é que o retardatário, ao abordar o Chanceler geralmente se coloca à Ordem enquanto aguarda as providências do titular para lhe oferecer o livro de presenças. Por óbvio que isso não é saudação, porém é a efetivação de uma regra ritualística consuetudinária que preconiza ficar à Ordem quando se estiver em pé e parado em loja aberta. Desse modo, o Chanceler, sem levantar ou prestar qualquer saudação, apresenta o livro ao retardatário. Antes de assinar, obviamente que o retardatário primeiro desfaz o Sin, o que não é um ato de saudação. Concluída a sua obrigação, sem saudar o Chanceler, logo a seguir o retardatário acompanha o seu guia até o lugar devido. Lá chegando senta-se imediatamente sem saudar ninguém pelo Sin.

b)    Cobridor em auxílio com a bolsa - Também não existe nenhuma saudação. Nessa ocasião o Cobridor Interno à chegada do titular da coleta simplesmente fica em pé. Em seguida e sem nenhuma saudação, de imediato recebe a bolsa do titular para auxiliá-lo. Do mesmo modo o titular entrega a bolsa e, sem saudação, instantaneamente cumpre a sua obrigação. Concluído o ato, o titular de imediato recebe a bolsa e se dirige para entre ccol enquanto o Cobridor toma assento sem fazer nenhuma saudação.

c)    Permanecem sentados - Em nenhum desses casos existe qualquer saudação. A regra é a mesma. Os titulares que ocupam mesas permanecem sentados nessas ocasiões. Se o oficial circulante precisar aguardar providências, enquanto aguarda em pé e parado, fora do seu lugar, fica à Ordem. Reitera-se: não existe saudação entre esses protagonistas nos momentos de abordagem e retirada. Ratifica-se: o ato de se desfazer o Sin, dependendo da circunstância não é saudação maçônica, porém um protocolo ritualístico.

Comentários finais:

Não se recomenda, por exemplo, o Chanceler receber o retardatário à Ordem. Não existe o porquê desse excesso de preciosismo. É preferível que dentro da simplicidade maçônica ele permaneça sentado no exercício desse ofício. O mesmo se aplica às situações análogas.

No caso do Orador se dirigir ao Altar para o fechamento do Livro da Lei a sua questão me parece prejudicada, até porque nesse momento a Loja inteira estará à Ordem por comando do Venerável Mestre. Assim, quando o Mestre de Cerimônias se apresentar para a condução do Orador, este simplesmente desfaz o Sinal e segue o seu guia – isso não é saudação.

Creio que na liturgia da transmissão da palavra entre as Luzes e os Diáconos para a abertura e encerramento dos trabalhos, os procedimentos estão bem claros no SOR do GOB-RITUALÍSTICA. O que não se deve confundir é o ato de desfazer o Sin - que a ocasião pode exigir - com saudação maçônica.

 

 

T.F.A.

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogspot.com.br

 

 

JUN/2021

 

terça-feira, 1 de junho de 2021

LOJA DE SÃO JOÃO - ORIGENS

 

Em 12/09/2020 o Respeitável Irmão Werner Victor Arendt, Loja José Abelardo Lunardelli, 107, sem mencionar o Rito, GOSC (COMAB), Oriente de São José, Estado da Santa Catarina, apresenta a questão abaixo:

 

LOJA DE SÃO JOÃO

 

A Origem da expressão "Loja de São João". Foi porque São João era o Gnóstico e seu patrono e Maçonaria o adotou, ou por que a Igreja trocou o nome de Jano por João e para homenagear a Igreja, a Maçonaria os fez através do Batista e Evangelista?

Tem artigo do Ir que contempla grande parte de minhas colocações.

O que para mim ainda é um mistério, é a citação que os antigos Maçons eram Gnósticos e São João era dito Chefe do Gnosticismo e por correlação patrono dos construtores medievais. Por isto foi adotado pela nossa Ordem. Esta colocação foi feita por Jorge Adum no livro Grau de Aprendiz e Seus Mistérios, página 26.

Não achei mais nada sobre esta colocação.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

As acomodações feitas pela Igreja católica no ano de 313 d. C. quando o Imperador Constantino autorizou os cultos cristãos marcariam a expansão do Cristianismo em Roma fazendo com que ele se tornasse a religião oficial do Império Romano, sacramentado por ato instituído por Teodósio em 390 d. C.

Esses arranjos entre santos cristãos e divindades pagãs, por exemplo, foi a forma de transformar o modus vivendi religioso numa só unidade de crença.

Naturalmente que muitos desses conceitos divinos e religiosos sempre tiveram afinidade com os cultos solares da antiguidade, manifestações religiosas onde o Sol atua como um elemento divino, criador e transformador da Natureza.

Graças a essa concepção religiosa é que o Sol foi tido por muitas civilizações como um “Ente-Criador” ou “Obra de Deus”.

Divindades relacionadas ao cristianismo, assim como muitas outras pagãs, sempre tiveram íntima relação com a alegoria do movimento aparente do Sol na sua eclíptica e a produção dos ciclos da Natureza reportados aos bens produzidos pelas estações.

Cabe destacar que essa sempre foi base estrutural para a maioria das religiões que conhecemos. Expõe o pregador que para tudo existe tempo certo – há tempo para o plantio e há tempo para a colheita; há tempo para o trabalho e há tempo para o descanso...

Todas esses empregos filosófico-religiosos parecem ter íntima relação com a mecânica celeste. Conforme o período e os alinhamentos dos astros visíveis pela viagem que a Terra faz em torno do Sol, surgem as estações do ano, opostas em cada um dos hemisférios terrestres. Graças a esses períodos, produzidos entre solstícios e equinócios, é que a vida se desenvolve na Terra. É como o relógio e o seu Relojoeiro. A obra e o Criador.

Diante desse teatro de astronomia é que muitas doutrinas religiosas e seus personagens foram construídos. É o caso, por exemplo, dos personagens cristãos identificados por João, o Batista e João, o Evangelista.

A bem da verdade esses ícones do cristianismo foram instituídos pela igreja que associou os seus nascimentos aos momentos solsticiais do setentrião do planeta Terra. No setentrião porque foi nestas latitudes que o cristianismo nasceu.

Instituído pela igreja católica romana, João, o Batista, é o personagem religioso que anunciou a vinda da Luz. Sob essa óptica a data comemorativa ao seu nascimento se fixaria a 24 de junho, isto é, no auge do verão, ou o ápice da Luz na meia-esfera Norte (acima da linha do Equador).

Vale mencionar que a 21 de junho, o Sol atinge sua máxima declinação boreal ao projetar os seus raios perpendicularmente ao trópico de Câncer, o que resulta no solstício de verão ao Norte. Essa revolução solar mostra uma flagrante relação entre a estação mais iluminada e a fixação religiosa da data comemorativa e relativa àquele que veio para anunciar a Luz.

O mesmo ocorre com o outro personagem, João, o Evangelista, contudo a 27 de dezembro, muito próximo ao solstício de inverno no hemisfério norte que ocorre no dia 21 de dezembro. A data de 27 de dezembro fixada para o “pregador” da Luz, ou “aquele que difundiu a Luz”, indisfarçavelmente tem relação com o período em que as sombras prevalecem no Norte, o que produz dias mais curtos e noites longas.

Não é à toa que o nascimento de Jesus, tomado pelo Cristianismo como a “Luz do Mundo”, seria assim fixado pela Igreja em 25 de dezembro, data próxima ao ápice solsticial de inverno que ocorre em 21 de dezembro no setentrião, oportunidade em que o Sol atinge o ponto máximo da sua declinação austral projetando os seus raios perpendicularmente ao trópico de Capricórnio.

Sob o ponto de vista da região norte, nesse momento o Sol parece ter se afastado o máximo em direção ao Sul deixando o setentrião precário da Luz. Ao atingir o seu ponto solsticial ele aparentemente inicia o seu retorno do Sul para o Norte. No misticismo das antigas civilizações os solstícios eram também conhecidos por “portas solsticiais”. Era comum em muitas civilizações que nessas oportunidades de inverno (na noite mais longa do ano) os homens saudassem a volta do Sol acendendo fogueiras ou, como os árabes, agitando ramos floridos de acácia. Esse é o fundamento da aclamação Huzzé proferida no REAA num determinado momento ritualístico.

É interessante notar que a relação Luz e Sol se estabelece como o ponto capital para que a Igreja viesse definir o nascimento de Jesus a 25 de dezembro. Seria natural que pela ausência de luz no inverno, Jesus, a Luz do Mundo, emblematicamente viesse ao mundo para trazer a Luz.

O nascimento de Jesus e a volta da Luz está associada à alegoria da volta do Sol. Ocorre no período solsticial de inverno quando aparentemente o Sol inicia o seu paulatino retorno para o Norte.

Com base nessas alegorias solares é que a Igreja acabou fixando as datas solsticiais de 24 de junho e 27 de dezembro, respectivamente verão e inverno no Norte, para as comemorações relativas a João, o Batista e João, o Evangelista.

Toda essa alegoria religiosa solar foi embasada na revolução anual do Sol, de tal modo que o “anunciador da Luz” veio ao mundo em pleno verão, enquanto que o “pregador da Luz” veio ao mundo em pleno inverno, momento em que as sombras prevaleciam. Nesse contexto, a “Luz do Mundo” (Jesus) nasce para trazer a Luz e renovar toda a Natureza. Se bem observado esse particular, nota-se aí uma flagrante relação com mitraísmo persa quando afirma que o fogo renova toda a Natureza – Igne Natura Renovatur Integra. Do mesmo modo acontece em relação ao mitraísmo romano e o nascimento do Sol vitorioso - Natalis Invicti Solis. Em resumo, é mais uma associação com os cultos solares da antiguidade, base mística para muitas religiões que conhecemos na atualidade.

No que diz respeito a relação desse teatro e a Maçonaria, ela tem origem no seu período primitivo, notadamente quando era exclusivamente operativa, ou de ofício.

Com seus aproximados 800 anos de história, a Maçonaria teve como seus ancestrais os canteiros medievais das associações de construtores profissionais que edificavam catedrais, igrejas, abadias, castelos, obras públicas, etc., principalmente para a Igreja a partir do século XI.

Em especial a expansão da Igreja Estado iria se acentuar desde o ano 1.000, sobretudo porque, segundo a crença religiosa cristã, o mundo não havia acabado. Dado a isso a Igreja então expandia ainda mais os seus domínios, o que a fazia necessitar cada vez mais de profissionais construtores de catedrais.

Em linhas gerais, as associações de construtores da Idade Média eram organizadas pelo clero, o que fez com que o ofício adquirisse forte influência religiosa haurida da sua protetora, a Igreja.

A partir do século XII essas guildas de construtores seriam organizadas em Lojas Operativas que não raramente tinham um clérigo auxiliando no gerenciamento, principalmente nas finanças. Destaque-se que era uma época em que a imensa maioria dos “rudes pedreiros” não sabia ler e nem escrever. Geralmente o secretário de uma loja operativa era um clérigo.

Ressalte-se que nos tempos primitivos da Maçonaria não existiam ainda maçons especulativos (aceitos), templos maçônicos e nem graus iniciáticos como conhecemos atualmente na Moderna Maçonaria.

Naqueles tempos o corpo da Loja era composto essencialmente por artesãos que trabalhavam na pedra calcária, cujos quais se dividiam em dois grupos profissionais – o dos Aprendizes Admitidos e o dos Companheiros do Ofício.

Geralmente o dirigente do canteiro, assessorado por dois wardens (vigias, zeladores, diretores), era conhecido como Mestre da Obra e era escolhido entre os Companheiros do ofício mais experientes. O Mestre era uma categoria profissional e não um grau iniciácio.

Vale registrar que nesse período as lojas operativas eram verdadeiros canteiros de obras e o serviço era rude e pesado, não progredindo quando se encontrava diante das agruras do tempo, sobretudo no inverno que ocorre nas latitudes setentrionais (norte da Europa e Grã-Bretanha).

Geralmente no inverno não havia serviço e os pedreiros eram pagos e dispensados para só retomarem ao trabalho na próxima primavera. De modo prático isso pode ser entendido levando-se em conta os empecilhos de uma estação hibernal no norte da Europa e em plena Idade Média.

Com essas particularidades do ofício, os períodos (datas) solsticiais atinentes às estações de inverno e de verão, notoriamente ficariam marcados nas corporações de ofício da Idade Média (ancestrais da Maçonaria).

O forte alcance religioso sobre as corporações, haurido dos seus protetores clericais (Igreja), logo se revelaria nas datas solsticiais mencionadas no começo desse arrazoado. Assim não é de se estranhar que os santos Joões, relativos ao inverno e ao verão pela influência religiosa da Igreja, e também com os períodos próprios e impróprios para o trabalho, logo viessem a fazer parte da cultura mística e histórica da Maçonaria.

Graças a influência da Igreja e a adoção dos padroeiros da Luz é que as lojas das corporações de ofício logo ficariam conhecidas como as Lojas de São João. É bem verdade que além desses patronos, cada corporação individualmente ainda podia, se assim desejasse, eleger mais algum santo, ou santa, como seu protetor. João, o Batista, e João, o Evangelista acabariam se tornando de modo genérico e amplo uma espécie de patronato da Maçonaria, titulando as suas oficinas como “Lojas de São João”.

Sob o aspecto iniciático e os santos padroeiros, a Maçonaria também herdou essa relação solsticial dos períodos operativos. Nos tempos do ofício, quando havia admissão de novos membros, o que oportunamente ocorria nas datas solsticiais, provavelmente para aproveitar as comemorações relacionadas a essas datas (vide história das guildas), os compromissos dos iniciados eram tomados sobre o Evangelho de São João.

Entenda-se que nessa época não existiam ritos, templos e nem um cerimonial primorosamente elaborado e impresso. Geralmente os recintos eram simples e contíguos ao canteiro de obras (depósitos de material e ferramentas) e a cerimônia de admissão era muito simples e se resumida numa oração, numa instrução do ofício, na tomada de obrigação e a entrega do avental de trabalho operativo. Na ocasião em que era tomada de obrigação o recém-admitido pousava sua mão sobre uma folha rústica de papel tendo nela escrita apenas o título de “Evangelho de São João”, ou apenas “São João”.

Isso se dava porque nos velhos tempos antes da invenção da imprensa por Gutemberg, além da Bíblia ser propriedade exclusiva da Igreja, ainda não haviam exemplares facilmente disponíveis. De modo operacional isso se explica porque naquela época uma Bíblia era manuscrita em pergaminhos de alta gramatura, o que lhe dava uma característica altamente volumosa, pesada, cara e difícil de ser transportada. Desse modo, quando das tomadas de obrigação o candidato à admissão prestava o seu compromisso sobre uma folha de pergaminho que simboliza o Livro das Sagradas Escrituras, enquanto que no pergaminho ia o título relativo ao Evangelho de São João, ou apenas São João. Era um modo de fazer referência à data solsticial e ao santo padroeiro correspondente.

Chamo atenção para que o relato pertinente ao período operativo remonta aos séculos XII até o XVI, destacando-se que a imprensa foi criada por Gutemberg somente entre 1439 e 1430. Assim, é preciso se despir da ideia de que nas Guildas de construtores da Idade Média era comum a presença física de ajgum volume da Bíblia Sagrada.

A partir do século XVIII e o aparecimento dos ritos maçônicos, principalmente, o costume da presença da Bíblia se afirmaria quase que como presença obrigatória nas Lojas especulativas. Alguns ritos, inclusive, fazem leitura de trechos do seu conteúdo, destacando aqueles que o fazem no Evangelho de São João.

Nos tempos especulativos, já com volumes impressos, a Bíblia Sagrada, em alguns costumes, era tomada às mãos pelo candidato na hora de prestar o seu compromisso. Essa prática deu origem ao “devido de guarda(due guard), gesto que faz parte do sinal de ordem em alguns trabalhos.

Além do referencial da Bíblia, existem ainda ritos que trazem na decoração dos seus templos símbolos decalcados nos cultos solares da antiguidade, cite-se, por exemplo, o puro REAA que tem o seu espaço de trabalho orientado dessa forma. Vide nele, por exemplo, o equador do templo, as Colunas Solsticiais, as Colunas Zodiacais, a abóbada decorada, etc.

A propósito, no tocante a alegoria solar e as colunas solsticiais B e J, estas marcam no templo do REAA, que representa um segmento da superfície do globo terrestre sobre o equador, a passagem por ele dos trópicos de Câncer (B) e Capricórnio (J). Entre elas se situa o equador que divide o espaço em Colunas do Norte e do Sul, em cujos seus topos (paredes norte e sul) se apresentam as Colunas Zodiacais que têm o fito de projetar na base da abóbada as constelações do Zodíaco. Essas 12 colunas indicam simbolicamente o trajeto que o iniciado deve percorrer para alcançar a Grande Iniciação, ou o final da sua jornada de aperfeiçoamento. Todo esse teatro se relaciona diretamente com as datas solsticiais, por extensão aos personagens patronais de São João.

De qualquer maneira, o termo “Lojas de São João” acabou se consagrando da Maçonaria em geral (independente do rito praticado), sobretudo porque a Moderna Maçonaria tem muito da sua estrutura especulativa derivada dos usos e costumes dos nossos ancestrais construtores de catedrais da Idade Média.

Vale comentar a presença na Maçonaria de um antigo conjunto simbólico formado por um círculo entre duas paralelas verticais. A exegese desse emblema é a de que nele se encerra toda a característica solsticial pertencente ao ideário iniciático da Ordem. O círculo e a representação do Sol, enquanto que as paralelas verticais aludem aos trópicos de Câncer e Capricórnio respectivamente. Os pontos marcados pela tangência das linhas no círculo correspondem aos solstícios de inverno e de verão. A máxima desse ideograma é a de que o Sol não ultrapassa os trópicos. Nele as duas linhas paralelas simbolizam os patronos consagrados em Câncer e em Capricórnio, ou seja, João, o Batista no verão e João, o Evangelista no inverno. É bom que se diga que a interpretação desse ideograma é relacionada ao hemisfério norte da Terra.

Destaco que qualquer relação astronômica com a Maçonaria Simbólica será sempre relativa ao hemisfério Norte do nosso Planeta. A razão é porque a Maçonaria nasceu nas latitudes situadas acima do equador. Em síntese, o seu simbolismo foi construído sob o ponto de vista do hemisfério Norte.

Essas são, dentro da racionalidade da história da Ordem, as colocações plausíveis para o simbolismo dirigido aos personagens bíblicos João, o Batista e João, o Evangelista na Maçonaria, em que pese ainda tentem alguns tratadistas distorcer a verdade com as suas meras especulações.

No que diz respeito aos antigos maçons serem gnósticos e São João ser o chefe do gnosticismo (sic), eu prefiro não comentar essas colocações que beiram, para a mim, as raias do absurdo, principalmente quando mencionadas pelo autor citado na sua questão.

Essa combinação de misticismo e especulação filosófica de caráter sincrético e religioso à margem do cristianismo, conhecida por gnosticismo, ao que me consta, nunca teve nada a ver com os construtores medievais que foram nossos ancestrais e nem com a Moderna Maçonaria que, nascida nos século das luzes, prima pelo esclarecimento dos homens lutando incansavelmente contra crendices e superstições.

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

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JUN/2021