segunda-feira, 25 de setembro de 2017

CERIMÔNIA DE INSTALAÇÃO INDISCRIMINADAMENTE NA MAÇONARIA BRASILEIRA

Em 02/07/2017 o Respeitável Irmão Fabrício Gentil da Silva, Loja Caridade e Segredo, nº 3, Grande Loja Maçônica da Bahia, REAA, Oriente de Cachoeira, Estado da Bahia, apresenta a seguinte questão:

CERIMÔNIA DE INSTALAÇÃO.


Bom dia Amado Irmão. Como falado anteriormente pelo Face book, peço a vossa sabedoria, luzes na seguinte questão:
Quais razões levaram os ritos maçônicos praticados no Brasil a se inspirarem (ou em alguns casos, copiarem) a Cerimônia de Instalação do Rito de York?
Já vi coisas escabrosas, tais como um Grão-Mestre presidir, uma Cerimônia de Instalação de um Venerável de uma Loja no Rito Schröder (Rito em que esta cerimônia não existe!!!!!).
Sem falar na tal "instalação" de obreiros que atingiram tantos anos de Maçonaria como "prêmio" sem nunca terem sido eleitos para dirigir uma Loja!!
Finalmente, essa obsessão por instalação é uma prática brasileira na Maçonaria?
Fico muito grato pelas respostas, sou um admirador do seu trabalho.

CONSIDERAÇÕES.

Eu já comentei muito sobre essa contradição que assola a Maçonaria brasileira. Na verdade a inclusão da cerimônia de instalação em ritos de vertente latina é, além de contraditória, também um atentado contra os costumes e a liturgia, tal como a do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Cerimonial de instalação é original apenas na vertente inglesa de Maçonaria, nunca na francesa.
Aqui no Brasil, por exemplo, o Rito Escocês Antigo e Aceito (rito de origem francesa) sofreu essa inserção indevida já nos meados do século XX dentro de uma Obediência que procurava na época receber reconhecimento da Maçonaria Norte-americana.
Como no Brasil boa parte dos maçons “acha bonito”, mas não sabe para que serve o “bonito”, o hábito enxertado não tardou a contaminar irrestritamente toda a Maçonaria brasileira, o que vem se seguindo indiscriminadamente até a atualidade.
Não é o caso de entrar no mérito ritualístico e litúrgico da Instalação brasileira, até porque ela, além de ser produto de enxertia, ainda adota rituais inadequados oriundos de cópias mal feitas e até mesmo, em alguns casos, com grosseiras invenções que contaminam inclusive o próprio ritual York praticado por aqui.
Instalação no Grande Oriente do Brasil indiscriminadamente para todos os ritos surgiu a partir do ano de 1968 por influência de Irmãos oriundos das Grandes Lojas Estaduais brasileiras que já a praticavam. Na época o GOB adotou um ritual elaborado e adaptado para os seus ritos, cujo qual já trazia no seu contexto inúmeras práticas contraditórias que seriam introduzidas inclusive em ritos que não possuem cerimonial de instalação na sua história, como foi o caso do REAA\.
Como a boca se entorta conforme o hábito do cachimbo (para não dizer outra coisa), não tardaria para que a Instalação se tornasse uma prática por aqui consuetudinária, ao ponto de alguns nem sequer admitirem o início de uma discussão acadêmica sobre o assunto. Então, o quê fazer? Penso que nada.
Infelizmente, além de produto de enxertia, tem sido difícil esclarecer para boa parcela dos Mestres Instalados brasileiros (já que Instalação acabou sendo real em todos os ritos da Maçonaria Tupiniquim) que esse é apenas um título especial honorífico conforme especifica - no caso do GOB - o Art. 42 do RGF, e não um grau maçônico.
Além disso, equivocadamente tem sido comum muitos acharem que esse “título honorífico” lhes dá o direito de interferir nos trabalhos da sua Loja e, em alguns casos, até de outras Lojas, o que é mesmo lamentável.
Como bem se sabe, não é só no Rito Schröder que Instalação não existe, mas em muitos outros ritos que compõem a Maçonaria. Na verdade essa não é uma prática unânime.
É sabido também que inadequadamente a atual conjuntura faz com que todos os ritos acabem se sujeitando aos regulamentos da Obediência, o que faz com que, especificamente nesse caso, exista uma flagrante interferência sobre a cultura, doutrina e essência dos sistemas ritualísticos que compõem a Maçonaria brasileira.
Em síntese, a contradição é justificada por aprovações ao gosto daqueles que simplesmente “acham” sem antes avaliar adequadamente cada situação. Esses, porém nunca saberão e nem estarão preocupados em explicar o porquê das coisas.
Além desse angu de caroço, ainda existem os que acreditam que tempo de maçonaria está relacionado com a Instalação. Lamentavelmente esses também não sabem que Instalação é ato diretamente relacionado àquele que foi eleito para dirigir uma Loja ou, em alguns casos, àquele eleito para dirigir a Obediência. Ora, tempo de Maçonaria em hipótese alguma dá o direito à Instalação. Nada justifica um absurdo desses.
Carecemos compreender que no Brasil somos filhos espirituais da Maçonaria francesa e que na França, Instalação significa simplesmente a posse na cadeira principal da Loja daquele que foi legalmente eleito para dirigi-la. Cumprido o seu tempo ele será apenas o ex-Venerável. Na França desconhece-se o título de Mestre Instalado.
É verdade, entretanto que no Brasil também se pratica a vertente inglesa e, nesse caso, indubitavelmente nela, mas apenas nela, é legítima a Instalação.
Assim, a cerimônia de Instalação é prática oficial no Craft (inglês) onde o Mestre Instalado é o Venerável e o ex-Venerável é o “Past Master”, ou aquele que já passou pela Instalação. Por extensão um Past Master é um Mestre Instalado.
Muitos ainda precisam compreender que o Rito Escocês Antigo e Aceito, apesar do título “Escocês”, é um rito de origem francesa, portanto nele não existe originalmente Instalação, ou pelo menos não deveria existir.
Penso que se todos assim um dia compreendessem; essa “estória” de Mestre Instalado por aqui passaria a ser contada de outra maneira. Mas por enquanto, mesmo que contraditório, sejamos cumpridores dos nossos regulamentos.


T.F.A.


PEDRO JUK


SET/2017

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

CABALÁ E A ÁRVORE DA VIDA NA MAÇONARIA

Em 02/07/2017 o Respeitável Irmão Tristão Antônio Borborema, atual Primeiro Vigilante da Loja Obreiros de Abatiá, REAA, Grande Oriente do Paraná, COMAB, Oriente de Abatiá, Estado do Paraná, solicita considerações:

CABALÁ E ÁRVORE DA VIDA NA MAÇONARIA.


Valendo de sua sapiência, indago ao irmão: qual a relação entre cabala, árvore de vida e maçonaria, notadamente acerca da posição topográfica dos cargos no Templo Maçônico e, sobretudo, influência nas instruções e filosofia?

CONSIDERAÇÕES:

Cabalá significa em hebraico “tradição”. Ela é a mística numeral hebraica, sobre a qual existe imensa literatura a ela consagrada desde a Idade Média.
No que diz respeito à Cabalá e a Moderna Maçonaria, muitos se inspiraram nela interpretando-a e coligando-a, em tese, como símbolos maçônicos compostos por “números sagrados cabalísticos”. Especulativamente deram a eles propriedades intrínsecas de entidades abstratas.
Obviamente essas são teses de ocultistas, a exemplo de Osvald Wirth que consagrou muitos dos seus escritos à gnose numeral e a relacionou indiscriminadamente à Maçonaria. Não é preciso dizer que essa concepção particular, além do que está previsto no judaísmo, jamais foi apresentada pela Maçonaria autêntica. Na verdade a numerologia é modelo de teóricos que tentam integrá-la ao simbolismo maçônico em nome das ideias individualistas.
Embora sejam inegáveis influências do pensamento humano sobre a Moderna Maçonaria, a exemplo do misticismo religioso hebraico, isso não nos autoriza imaginar que esses costumes sejam propriedade da Ordem Maçônica e muito menos imaginá-las como ícones de ancestralidade maçônica.
Na realidade uma visão assim distorcida serviria apenas para subverter a ordem dos elementos que constroem a história autêntica.
Dentre tantas manifestações e culturas que influenciaram a construção da doutrina maçônica, tal como o hermetismo, o pitagorismo, os mistérios órficos, o rosacrucianismo, a alquimia, etc., a influência místico-religiosa da cultura hebraica se constitui talvez no elemento mais importante na formação das alegorias e simbologia de muitos ritos que constituem a Maçonaria, a exemplo do Tabernáculo e posteriormente do Templo de Jerusalém.
Uma explicação sintética sobre a Cabalá:
Essência do misticismo hebraico é uma das interpretações esotéricas da Torá (cinco primeiros livros bíblicos), ou o Pentateuco. Embora tenha sofrido inúmeras influências de outras culturas na Idade Média, a Cabala hebraica, ainda assim conservou a sua primitiva originalidade e profundidade espiritual como característica do judaísmo.
Composta por temas específicos, suas fontes de pensamento se compreendem pelo Apocalipse – juízo final e o fim dos tempos; pela Visão da Merkabá – o trono de Deus, conforme Ezequiel, cap. 1; pela Halaká – alicerce dos princípios religiosos e comentários legislativos sobre as partes jurídicas da Torá e pela a Hagadá, cujo significado é “lenda” e alimentou extensamente a fonte mística cabalística.
Os dois principais textos cabalísticos do judaísmo são: o Sepher Yetsira (Livro da Criação) e o Sepher há Zóar (Livro do Esplendor).
O Livro da Criação revela, sob o ponto de vista místico, uma compreensão filosófica da formação do universo considerando que os elementos formadores do mundo são subordinados aos dez números fundamentais (sephirot = número em hebraico) e às vinte e duas letras do alfabeto hebraico, cujas quais envolvem forças cósmicas inatingíveis em combinações que podem variar pela influência da criação.
O Livro do Esplendor, tido como obra canônica máxima do judaísmo, possui função objetiva de fazer a descrição da vida interior de Deus, além de traçar o caminho do ser humano que o leva à união com a divindade. Conforme o Zóar a alma humana se compõe em alma vegetativa (néfeque), alma intelectual (rouá) e sopro, ou alma espiritual (nechamá), cujas quais correspondem aos três graus da alma em suas relações com o mundo superior e inferior.
Relação da Cabala com a Moderna Maçonaria:
Sob o ponto de vista especulativo, onde muitos graus maçônicos são influenciados pelo misticismo da Cabalá, inquestionavelmente deles o mais cabalístico é o de Companheiro onde interessa a dualidade do Ser e do Não-Ser encontrado no Yetsira (Livro da Criação) e a tríplice composição da alma humana conforme expressa o Zóar (Livro do Esplendor) – vide as obras dirigidas à Maçonaria como Shemá Israel e Herança Hebraica na Maçonaria de autoria de José Castellani.
Na relação do misticismo cabalístico está a metafísica do Tabernáculo que na realidade é o precursor do Templo de Jerusalém erigido pelo Rei Salomão, cujo qual seria adotado pela Maçonaria como uma das suas maiores alegorias, dando-lhe sustentáculo à toda disciplina moral, ética e sociológica condensada na Lenda Hirâmica.
O Tabernáculo, base elementar para o estudo da Cabalá (tradição), era um templo portátil que ia armado no deserto nos tempos em que os hebreus se deslocavam do Egito para a Palestina (Êxodo – segundo livro da Torá).
Em uma praça de 100 por 50 côvados cercados por sessenta postes, nos quais se prendia uma grande cortina com abertura na parte oriental, no seu lado oposto ia montado o Tabernáculo, ou tenda (suká em hebraico), tendo ele na sua entrada uma bacia de bronze com água para as abluções, enquanto que no meio do recinto ficava a mesa dos holocaustos.
O Tabernáculo em si era composto por quatro tendas sobrepostas e tinha duas divisões internas: a primeira, denominado Santo (Kodesh, em hebraico) continha a mesa dos perfumes, a mesa dos pães da proposição e o candelabro de sete braços (Menorá, em hebraico); a segunda, o Santo dos Santos (Kodesh há Kodashin) contendo a Arca da Aliança que guardava as Tábuas da Lei, a Urna do Maná e a Vara florida de Aarão.
Na metafísica do Tabernáculo aplicada ao Cosmos, às três divisões (Santo e Santo dos Santos) representam as três divisões do Universo: céu, terra e mar. Os quatro tecidos usados na confecção das quatro tendas sobrepostas, simbolizam cada uma os quatro Elementos da Antiguidade: ar, água, terra e fogo. O candelabro de sete braços representa os sete planetas da Antiguidade e a luz dos astros oriundas do Sul; a mesa dos pães da proposição simboliza as benesses dos ventos setentrionais que trazem as chuvas vivificando as plantações.
Ainda somam-se a esse ponto de vista metafísico, as vestes do sumo sacerdote (Cohen gadol = sumo sacerdote em hebraico) na qual sua sobrepeliz era de matiz azul e dourado, guarnecido com flores, romãs e campainhas de ouro; havia também doze pedras preciosas; nos ombros iam duas esmeraldas; uma mitra, na qual iam gravadas as quatro letras Iôd, Hé, Vav, Hé, o nome inefável de Deus.
A cor azul da sobrepeliz representa o ar; as romãs, a água; as flores, a terra; as campainhas, a harmonização entre a terra e a água (onde vivifica a Natureza); as doze pedras representam os doze signos zodiacais e as doze tribos de Israel; as duas esmeraldas denotam as duas grandes luminárias – o Sol e a Lua, o dia e a noite e os dois hemisférios da Terra; a mitra representa Deus, o macrocosmo, sem o qual o microcosmo, representado por todos os seres vivos, não poderia existir.
Assim, o Tabernáculo, ancestral do Templo de Jerusalém, traduziu a interpretação cabalística associando o Templo à construção do mundo e, por extensão do homem.
A Cabalá, embora bastante antiga e de uma época em que os essênios e os filisteus a transmitiam oralmente, somente se consolidaria já da Idade média, mais precisamente na época talmúdica nos séculos IV e V, período da concretização do Talmude. A sua doutrina mística busca analisar o homem, objeto da criação, em sua relação suprema com Deus, estudando o Cosmos sob dois aspectos principais: na História da Criação e na História do Carro, ou Trono de Deus.
Foi por esse entendimento que alguns ritos maçônicos formataram o misticismo do Templo Interior do Homem admitindo-o à correlata construção e dedicação do Templo de Jerusalém a Deus, o que em primeira análise, exprime a ideia de o homem servir como morada do divino.
De todo o contexto cabalístico o que mais se associa à doutrina maçônica, sem dúvida é o Livro do Esplendor (Sepher ha Zóar) cujo texto teria surgido na Espanha em 1275.
Na realidade essa obra tem o caráter de descrever a vida interior de Deus, ao mesmo tempo em que traça o caminho do ser humano em direção à união mística com a divindade. Em síntese o Sepher ha Zóar apresenta o incognoscível do Criador (En Soph) nas relações com o universo e com o homem e, para tal, utiliza-se das dez sephirot (números), cujas quais se integram aos dez atributos fundamentais da vida divina segundo a Cabalá.
Essa doutrina divulga sistematicamente a existência de dois mundos relacionados à divindade: um deles relacionado com o En Soph que é totalmente inacessível à mente humana, enquanto que o outro - visto sob a óptica dos dez atributos - se encontra abaixo do primeiro e é assim acessível à mente humana permitindo o conhecimento de Deus.
Na realidade esses dois mundos se agregam num só e dão ao mundo inferior, mesmo que de modo periférico, a percepção da existência de atividade no incognoscível.
Essa celeridade permitida do En Soph que é percebida pela mente humana se manifesta através das sephirot, cujo método potencial permitiu aos cabalistas, segundo essa doutrina, a fazer uso do antropomorfismo para esclarecer muitos dos símbolos da Torá. Em tese as sephirot se transportam para a efígie antropomórfica.
Segundo a Torá, no Livro de Gênesis, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, o que lhe permite possuir o sopro da divindade como um traço do Criador na criatura. Mesmo que o homem terrestre seja possuidor de muita materialidade e careça de um aperfeiçoamento futuro.
Assim, esse homem que no futuro estará aperfeiçoado, será o Messias, o Ungido, ou o correspondente ao Adam Kadmon que é reflexo da alta espiritualidade. É a marca da alma no Zóar (esplendor).
Por esse ponto de vista, o microcosmo, que é o organismo humano, sendo cópia do macrocosmo (de Deus), pode ter uma precisa representação se construída pela organização das dez sephirot. Embora Deus não possa ser representado sob nenhuma forma, Ele é, entretanto simbolizado pelo Adam Kadmon.
Assim, no Zóar essa construção antropomórfica incorpora vários nomes às sephirot contextualizando uma figura humana que representa a alta espiritualidade (Adam Kadmon).
Conforme essa organização contextual as sephirot assim se organizam: Kéter (coroa), Hokmá (sabedoria), Biná (inteligência), Hessed (graça), Tiferet (beleza), Din (justiça), Netsa (vitória), Iesod (fundamento), Had (majestade), Malkut (reino).
Nessa ordem sequencial as nove primeiras sephirot formam três tríades, sendo a primeira àquela que forma o Mundo da Inteligência (Olan ha Muscal); a segunda, o Mundo do Sentimento (Olan ha Murgake); a terceira o Mundo da Natureza (Olan ha Mutba’a).
A décima sephirá (singular de sephirot) que é o Reino encerra as qualidades das demais sephirot e as transmite à criatura humana.
É por intermédio da alta espiritualidade do Adam Kadmon que, segundo a Cabalá, em uma união mística ocorre à absoluta correspondência entre Deus e o homem.
Sob o aspecto cabalístico o mundo surge na Cabalá como uma verdadeira cosmogonia onde a essência do homem reside na alma que aparece nessa tríplice forma, ou alma vegetativa, alma intelectual e alma espiritual (Néfeque, Rouá e Nechamá).
A Cabalá é uma doutrina especialmente de difícil compreensão e relegada a poucos sábios pertencentes ao judaísmo que verdadeiramente a compreendem. Não há como confundi-la com ilações exaradas por charlatães que a evocam como ciência de adivinhação e construção de destinos apropriados àqueles que se alimentam de superstições.
Na Maçonaria ela ingressou na Europa do século XVIII quando da profusão dos ritos onde diversas manifestações do pensamento humano passaram a integrar o corolário especulativo da Ordem.
O REAA\ por exemplo, longe de crendices e adivinhações, segue de perto a Cabalá em muitos dos seus conceitos doutrinários, mas metodologicamente na busca incessante da Verdade e da Sabedoria e sem o desiderato de transformar a Loja em palco para pregações particulares.
 Note-se entre a metafísica cabalística e a Maçonaria a relação com o conceito da tríplice conotação da alma humana e o Infinito, mas não admitindo a acessibilidade à interminável sabedoria divina (o uso do chapéu é um dos símbolos dessa submissão).
Outro exemplo de alegoria cabalística na Maçonaria está na abertura do Compasso sobre o Livro da Lei como símbolo exotérico do Conhecimento e esotérico do espírito. Ensina-se no simbolismo que o Compasso, aberto geralmente em 45º, vai no máximo à abertura de 90º, o que concebe a limitação do conhecimento humano perante a onisciência divina que é representada pelos 360º da circunferência.
É fácil de perceber que por essa exposição uma boa parte do misticismo maçônico tem o pé assentado na mística hebraica, sobretudo nessa relação entre o macrocosmo (universo) e o microcosmo (o homem como ser vivo), cuja alegoria maior é o Templo representativo da obra perfeita dedicada a Deus.
Na concepção antropomórfica do Adam Kadmon os atributos divinos se organizam no espaço por ele representado, surgindo inclusive, às vezes à interpretação pouco convincente por parte de alguns autores alegando que as distribuições dos cargos da Loja coincidem com as sephirot como a árvore da vida, o que parece ser mais especulação do que verdade, já que pela variação de distribuição dos lugares e a decoração das Lojas correspondentes aos diversos ritos maçônicos praticados, nesse sentido não existir homogeneidade.
Embora a Cabalá influencie e dê suporte a muitos aspectos doutrinários maçônicos, como já mencionados, nos parece estarem longe de comparar elementos decorativos, cargos, lugares e outros mobiliários da Loja com as dez sephirot.
O Templo espiritual em si é a morada do divino, do sagrado, mas nunca ao ponto de detalhá-lo como árvore da vida. O Templo, sob o ponto de vista esotérico, é um ícone do conjunto cabalístico para a Maçonaria, porém nunca a laudatória representação dele ser o Adam Kadmon.
Na verdade a autenticidade cabalística não pode ser confundida com modelos numerológicos de teóricos que querem afoitamente integrá-la ao simbolismo maçônico em nome das ideias individualistas.
Concluindo, pelo que foi aqui exposto, a influência do misticismo religioso hebraico, em particular a Cabalá, é importante elemento existencial que dá suporte à doutrina Maçônica, entretanto não deve existir licenciosidade de entendê-los como elementos cabalísticos e entidades que influenciam o desenvolvimento da ritualística maçônica. Em síntese, o arquétipo ritualístico maçônico não é mero elemento cabalístico, embora ele possa até mesmo constituir parte desse organismo.


T.F.A.

PEDRO JUK


SET/2017

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

LIVRO DE PRESENÇAS E USO DE MEDALHAS QUE NÃO DO SIMBOLISMO.

Em 05/07/2017 o Respeitável Irmão Marcelo Gass, Loja Tríplice Aliança, 3.277, REAA, GOB-PR, Oriente de Toledo, Estado do Paraná, solicita as informações seguintes:

LIVRO DE PRESENÇAS E USO DE MEDALHAS


1 - Sei quem fecha o Livro de presença é o Venerável Mestre em algum momento propício na Reunião. Nossa Loja fez um Livro de presenças com os nomes dos Irmãos em ordem alfabética de A até Z. Sendo que nesta lista, constam todos os Irmãos de nossa Loja, entre eles os "paraquedistas", que caiam às vezes dentro da Loja, os que estão de licença e outros. Hoje temos 52 Irmãos no quadro, e o percentual de frequência em torno de 60%. Ou seja, quase metade do Livro com os nomes, mas sem assinaturas de presença. Mesmo em ordem alfabética, o Venerável será o último a assinar onde consta seu nome? Questionei os Irmãos que com o Livro em ordem alfabética, o Venerável pode assinar por primeiro ou por último que ninguém vai saber. Gostaria de sua opinião sobre o assunto, ou se é muito preciosismo da minha parte.
2 - Em nosso Ritual, consta que os Irmãos, presentes nas Sessões Ordinárias ou Magnas, podem portar somente insígnias e condecorações relativas aso graus simbólicos.
Alguns Irmãos usam a medalha do Arco Real, e dizem que podem usá-las, pois a mesma faz parte dos graus simbólicos. Isso procede?


CONSIDERAÇÕES.

1 - O correto é que o Venerável Mestre feche as assinaturas no rol de presenças das sessões da Loja. Ele é o último que coloca manualmente o seu nome e assina. Assim, no Livro de Presenças ele será o último na sequencia dos que apõe nome na lista. Isso se justifica para que se certifique que depois dele (do Venerável) ninguém mais pode firmar o seu “ne varietur”.
Devido a esse procedimento é que os livros de frequência para as sessões maçônicas têm que ser preenchidos individualmente com o nome, grau e assinatura de cada um, na medida em que o obreiro se apresentar ao Chanceler na Sala dos Passos Perdidos antes no início da sessão.
A exceção é o Venerável Mestre que só preenche e assina o Livro no final e após o início dos trabalhos, atentando para que isso só aconteça depois de já terem ingressado os visitantes com formalidade conforme especifica o ritual, se for o caso.
Em face ao exposto, não é recomendável existirem Livros de Presença com o nome dos obreiros já impressos ou gravados e até colocados na ordem alfabética para ocasional assinatura, pois isso poderia ser um agente facilitador para eventuais fraudes atinentes à frequência – a prudência é a mãe das virtudes.
Assim, o Livro de Presenças ao ser preparado pelo Chanceler deve conter apenas a data, o tipo, o número de ordem e o grau da sessão que será realizada. As linhas devem estar em branco e serem preenchidas no ato por cada um dos quais se apresentarem quando; colocam manualmente o número sequencial do rol, o seu nome, o grau e assinatura.
O Venerável quando assinar por último o Livro inutiliza as demais linhas que não receberam preenchimento.
Quanto ao excesso de preciosismo, fique tranquilo. O Irmão está corretíssimo no seu raciocínio.
2 – Nunca! É bem clara a assertiva: nos graus simbólicos somente são permitidas insígnias e condecorações do simbolismo.
O Arco Real não faz parte do simbolismo. Quem afirmar o contrário está completamente equivocado. O franco-maçônico básico universal é composto apenas e tão somente pelos graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
Outros graus acima desses, dependendo do Rito, são os de aperfeiçoamento, laterais, filosóficos, etc., e fazem parte de outros Corpos.
Por mais que apareçam elucubrações nesse sentido, elas nunca serão verdadeiras. Para os que duvidam, só para começar, que consultem então a Constituição do Grande Oriente do Brasil no seu Art. 2º, IV – a divisão da Maçonaria Simbólica em três graus (o grifo é meu).


T.F.A.

PEDRO JUK
Secretário Estadual de Orientação Ritualística do GOB/PR


SET/2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017

LOJA EM FAMÍLIA NO TEMPO DE ESTUDOS

Em 01/02/2017 o Respeitável Irmão Breno Roland Neto, Loja Sublime Harmonia, 2.605, REAA, GOSP-GOB, Oriente de Limeira, Estado de São Paulo, apresenta a seguinte questão:

LOJA EM FAMÍLIA NO TEMPO DE ESTUDOS


Gostaria de solicitar informações sobre um questionamento que surgiu no último ERAC (68º ERAC) que participei no dia 11 de junho de 2017, no Oriente de Itirapina, São Paulo.
Os Irmãos da A\R\L\S\ Aurora Limense apresentaram um trabalho muito interessante, cujo tema era "Tempo de Estudos", e em certo trecho do trabalho, foi dito pelos Irmãos que "dependendo da necessidade de aproveitar o tempo disponível ou apresentação com projeção de slides (muito comum hoje em dia) e até permitir um debate mais frutífero e dinâmico, a critério do Venerável Mestre, a sessão ritualística pode ser suspensa e coloca-se a "Loja em Família".
Ao final da apresentação, foi aberto tempo para debates e perguntas aos Irmãos que apresentaram o trabalho. Nesse momento um Irmão, que não me recordo o nome, disse que estava errado termo "loja em família" e que isso não existe. Após a manifestação desse Irmão, nenhum outro Irmão fez mais comentários. Fiquei na dúvida, pois já ouvi várias vezes a expressão colocar a "loja em família".
Qual seu entendimento?

CONSIDERAÇÕES.

Em se tratando do Rito Escocês Antigo e Aceito, “loja em família” é termo inexistente. De fato essa prática não está prevista no Ritual.
Num caso em que o tempo de estudos mereça debates e tempo alongado, bem como outros dispositivos, recomenda-se a realização de sessão especial que atenda apenas essa finalidade - RGF, Art. 108, § 1º, II, Sessão Ordinária de Instrução.
Se para uma Sessão de Instrução não existe uma orientação ritualística específica, então nela talvez até possa fazer sentido a suspensão dos trabalhos ritualísticos à moda de uma loja em família. Afinal, se não existe regra para ela, obviamente não há o que proibir.
Já numa Sessão Ordinária Regular, § 1º, I do Art. 108, cuja qual possui um ritual em vigência que a regule, me parece não existir previsão para se colocar a Loja “em família” no Tempo de Estudos. Note que no ritual existe uma recomendação que o período não exceda há quinze minutos salvo em casos específicos. É bem verdade que nele também esteja previsto “exposição e debate”, mas não orienta sob nenhuma hipótese que a exposição e o debate sejam feitos com a “loja em família”. O debate num caso desses segue o giro da palavra mediante autorização para se pronunciar.
Uma sugestão: se a instrução demandar de aparatos ou de tempo alongado com debates, então que o Venerável, com antecedência, marque uma reunião extraordinária exclusiva para instrução sem abertura ritualística. Não abrindo a Loja no modo de costume, nada impede que outros procedimentos possam ser adotados.
Eu particularmente não vejo problema em se suspender os trabalhos para debates durante a instrução em uma Sessão Regular, entretanto imediatamente os “puristas de plantão” certamente se arvorariam em nome da peripatética maçonaria latina arrogando o famoso jargão “onde está escrito”. Assim, penso que o melhor mesmo é seguir o que está previsto nos nossos rituais, destacando que neles não está prevista a “loja em família”.

T.F.A.

PEDRO JUK


SET/2017.