quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

TRAJE, APRESENTAÇÃO DE TRABALHO ENTRE-COLUNAS, SINAL DE ORDE E SAUDAÇÃO.

Em 16.06.2022 o Respeitável Irmão Hemerson Pegoraro, Loja XV de Novembro, 1998, REAA, GOB-SC, Oriente de Caçador, Estado de Santa Catarina, apresenta o que segue:

 

TRAJE MAÇÔNICO, APRESENTAÇÃO ENTRE-COLUNAS E O SINAL

 

No meio do meu trabalho, deparei-me com uma dúvida, em relação à vestimenta dos Irmãos para a sessão.

Não consegui localizar no regulamento do GOB, onde fala das vestimentas adequadas, em relação ao uso de sapatos pretos,

Pois em nossa Loja, temos alguns Irmãos que chegam com um sapa tênis preto ao invés de
um sapato social preto.

Existe algo neste sentido do regulamento?

Outra dúvida: quando o Mestre de Cerimônia vai chamar um Irmão para apresentar um trabalho, quer seja aprendiz, companheiro ou mestre.

Normalmente ele (MC) vai com o bastão, e o Irmão que é chamado, deverá levantar-se e fazer o Sinal, desfazer e ir, ou somente levantar-se e segue o MC?

Esta dúvida, tenho, porque já presenciei isso em visita a outras Lojas.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

No que diz respeito ao traje maçônico, o mesmo é orientado conforme o rito praticado pela Loja. Nesse caso, as orientações a respeito encontram-se nos respectivos rituais. No ritual do REAA essas orientações encontram-se no ritual de Aprendiz, página 33 e também no SOR - Sistema de Orientação Ritualística (Decreto 1784/2019 do Grão-Mestre Geral) que se encontra na plataforma do GOB-RITUALÍSTICA, página oficial do GOB na Internet.

Em relação à apresentação de peça de arquitetura, não é exigido que a mesma seja feita (apresentada) entre-colunas. A priori sugere-se que cada um faça a apresentação do seu lugar, evitando-se assim deslocamentos desnecessários pelo recinto.

Caso a preferência da Loja seja por apresentação entre colunas, então o Mestre de Cerimônias, munido do seu bastão, deve ser o condutor até o destino em que se fará a apresentação – no caso, no extremo do Ocidente, entre-colunas.

Nesse sentido, o Irmão que fará apresentação simplesmente acompanha o seu condutor seguindo-o até o destino, isto é, não faz sinal ao levantar. No destino, se coloca imediatamente à Ordem e em seguida se dirige à Loja na forma de costume. Ao concluir, desfaz o sinal e segue novamente o seu condutor. Chegando de retorno, imediatamente retoma seu assento sem antes repetir o sinal. O Mestre de Cerimônias, por sua vez retorna ao seu lugar.

Caso a apresentação seja do seu lugar, o que é o mais recomendável, não haverá condutor. Assim, o apresentador depois de ter sido autorizado fica à Ordem, se dirige à Loja na forma de costume e faz a apresentação. Concluída a leitura, simplesmente desfaz o sinal e senta novamente.

Em qualquer das situações (do seu lugar ou entre-colunas) o Venerável Mestre deve avaliar a necessidade de o apresentador desfazer o sinal para melhor conforto durante a apresentação.

Caso essa avaliação seja positiva, o Venerável Mestre, após ter o protagonista se dirigido formalmente à Loja (mencionando genericamente às Luzes, autoridades e os demais), autoriza o apresentador a desfazer o sinal, oportunidade em que ele então segura a peça escrita com as duas mãos e procede à leitura. Concluído o mister, volta à Ordem e, conforme o lugar em que ele se encontrar, desfaz o sinal e senta, ou desfaz o sinal e acompanha o seu condutor.

Ao concluir vale mencionar que essas atitudes de se fazer e desfazer o sinal, bem como se dirigir à loja na forma de costume, nada têm a ver com saudação maçônica. Vide as únicas ocasiões em que ela é de fato uma saudação feita pelo sinal na página 42 do ritual de Aprendiz do REAA em vigência, e no SOR. Lembro que saudação maçônica é feita em Loja sempre pelo sinal, contudo nem sempre compor e fazer o sinal significa saudação.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK - SGOR/GOB

jukirm@hotmail.com

http://pedro-juk.blogspot.com.br

 

 

DEZ/2022

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

O SOL E O CAMINHO INICIÁTICO DO MAÇOM NO REAA - INFLUÊNCIA DOS CULTOS SOLARES DA ANTIGUIDADE

 

Em 16.06.2022 o Respeitável Irmão Robin João Marczynski, Loja Amor e Caridade, 0582, REAA, GOB-PR, Oriente de Ponta Grossa, Estado do Paraná, apresenta a seguinte questão.

 

CAMINHO INICIÁTICO

 

Estou interessado em conhecer mais sobre as Colunas Zodiacais e o Caminho Iniciático.

Achei muito interessante o ensinamento e o seu significado, em que o primeiro assento do Aprendiz após sua Iniciação e à Noroeste, próximo ao 1º Vig., tendo em vista que ele recém saiu das trevas em direção à Luz.

Ficarei grato se compartilhar comigo mais detalhes sobre essa caminhada do Aprendiz.

Estou incentivando meus obreiros a estudar e se inteirar do contido no SOR/GOB, para que desde já possamos colocar em prática na nossa Ritualística.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

                      Na verdade, a liturgia dos ritos maçônicos é construída de acordo com a sua base iniciática, alguns possuem caráter teísta, outros de caráter deísta, outros ainda de viés teísta e deísta ao mesmo tempo  ainda outros mais que se sustentam em conceitos do agnosticismo.

A despeito de todas essas particularidades, absolutamente, todos os ritos da Moderna Maçonaria convergem para um só objetivo, que é o de aprimorar o homem para torna-lo útil à sociedade.

O REAA, que por circunstancias históricas teve o seu primeiro ritual para o simbolismo organizado em 1804 na França (vide sua história), possui feição teísta/deísta. Teísta por influências da maçonaria anglo-saxônica e deísta por influência da Maçonaria francesa.

Nesse caso, é oportuno mencionar que o REAA é um rito nascido na França sob a égide da vertente stuartista, esta nascida no Norte da França porque à viúva de Carlos I, rei da Inglaterra que fora decapitado na revolução puritana de Cromwell de 1649, aceitou exílio do rei Luís XIV em Saint-Germain-em-Laye.

Carlos I era natural da Escócia e foi um dos reis católicos que pertenceu à família dos Stuarts. É daí que surgem os adjetivos “escocesismo” e “stuartismo” na Maçonaria Francesa.

Dito isto, e para que se possa abordar o simbolismo das Colunas Zodiacais no REAA, é preciso antes voltar às origens do seu primeiro ritual que fora então preparado, e logo desfigurado, no ano de 1804, já que antes disso o REAA não possuía simbolismo pois, criado com 33 graus a 31 de maio de 181 nos EE. UU. da América do Norte, ele de fato não possuía os três primeiros graus originais (Aprendiz, Companheiro e Mestre), sendo que inicialmente os tais eram emprestados das Lojas Azuis Norte-americanas, comumente conhecidos atualmente com Rito de York Americano, ou Rito Americano.

                        Assim, para a criação desse primeiro ritual, surgiu no seio do II Supremo Conselho na França uma Loja Geral Escocesa (Loja Mãe) com o objetivo de gerenciar a elaboração desse ritual.

Os principais documentos básicos para a construção desse ritual foram: 1) a revelação (exposure) de 1751 relacionada à vertente dos Antigos (irlandeses) denominada As Três Pancadas Distintas na Porta da Antiga Maçonaria (vertente anglo-saxônica de
Maçonaria); 2) o Regulador do Maçom de 1801, então elaborado pelo Grande Oriente da França para o Rito Francês ou Moderno; 3) por fim, a própria Loja Geral Escocesa (Loja Mãe) de 1804 que contribuiu legando a disposição das Colunas B e J na forma antiga; a aclamação H
, H∴, H∴; a consolidação da cor vermelha (encarnada) como cor litúrgica principal do Rito e, finalmente, com a decoração da abóbada, nesta em especial a que trazia representada na sua base, junto à frisa, os 12 signos do Zodíaco, seis na banda Norte e seis na banda Sul.

Desse modo, foram esses os principais elementos que estruturaram a ritualística inicial do simbolismo no REAA na França a partir de 1804.

Como no simbolismo o REAA se estruturou desde então como um rito solar, uma das suas características ritualísticas principais é a de conduzir os seus iniciados por um caminho balizado pela marcha anual do Sol até que eles alcancem a Grande Iniciação. O referencial para todo esse misticismo foi, sem dúvida, retirado dos cultos solares da Antiguidade evidenciando a morte e o renascimento da Natureza. É inclusive o suporte para a Lenda do 3º Grau.

Nesse contexto, além das Colunas Zodiacais - que serão oportunamente abordadas – é válido também fazer uma abordagem, ainda que superficial, sobre as Colunas Solsticiais B e J, estas geralmente localizadas no átrio do templo. Como tal elas também são conhecidas como Colunas Vestibulares, de vestíbulo (ladeando a porta de entrada do templo).

Essas duas Colunas inegavelmente também possuem conexão com a alegoria solar porque são referências solsticiais e sinalizam no templo maçônico a passagem dos trópicos de Câncer (Norte) e Capricórnio (Sul). Marcam, portanto, os solstícios de verão e inverno que ocorrem na banda norte da Terra.

Os solstícios, período em que ocorre a maior declinação aparente do Sol, tanto para o Norte como para o Sul, tem sido também datas referenciais para comemorações solares. No misticismo religioso, por exemplo, João, o Batista (o que anunciou a Luz) e João, o Evangelista (o que pregou a Luz) também aparecem como personagens patronais da Moderna Maçonaria ligados aos solstícios de verão e inverno respectivamente.

Antes de tudo é bom lembrar que no REAA o templo corresponde simbolicamente a um segmento plano retangular situado sobre o equador terrestre orientado de Leste para o Oeste e de Norte para o Sul.

O Zodíaco e as Estações do Ano - No contexto iniciático, longe de horóscopo e adivinhações, as constelações que formam o Zodíaco marcam (sinalizam) o caminho por onde o Sol aparentemente passa, produzindo a cada alinhamento com cada uma das constelações, as estações do ano contadas a partir da primavera até se fechar o ciclo no inverno.

Obviamente que isso ocorre devido a inclinação de aproximadamente 23º do eixo da Terra em relação ao seu plano de órbita. Essa inclinação faz com que cada hemisfério terrestre receba mais, ou menos luz numa determinada época do ano.

Graças à essa particularidade astronômica é que as estações do ano ocorrem de forma oposta conforme o hemisfério. No caso do REAA, levando-se em conta que ele nasceu no hemisfério Norte, toda a sua relação mística e solar tem como referência a região setentrional da Terra. Tratando-se do simbolismo e seus conceitos iniciáticos essa referência será sempre do Norte.

A analogia iniciática e o caminho do Sol - comparada com a alegoria do nascimento, vida e morte da Natureza, no REAA, ao par de uma conotação deísta, a vida do Iniciado é simbolicamente associada aos ciclos da Natureza, ou seja, com cada uma das estações do ano a partir da primavera ao Norte. Em linhas gerais, cada uma das etapas naturais corresponde consecutivamente a um dos ciclos da vida, ou seja, infância, adolescência, juventude e maturidade.

As Colunas Zodiacais nesse contexto – nos seus primórdios, o REAA, ainda com uma estrutura ritualística rudimentar, apenas trazia na decoração dos seus templos as representações pictográficas dos 12 signos do Zodíaco, então dispostos (fixados, pintados ou desenhados) na base da abóbada celeste.

Desde então, no REAA, a função desses 12 símbolos é a de simular a jornada iniciática do maçom comparando-a com o percurso aparente do Sol quando passa consecutivamente todo ano diante de cada uma das constelações do Zodíaco. A título de ilustração, seria mais ou menos como um viajante observando pela janela as paisagens na medida em que avança no seu percurso. Obviamente esse é apenas um movimento aparente do ponto de vista da Terra, já que na mecânica celeste, não é o Sol que se movimenta, porém é a Terra que se desloca pelo tempo de um ano ao seu redor. Esse movimento é conhecido como translação.

Na questão da representação do Zodíaco ainda na base da abobada, com o passar dos tempos e o aperfeiçoamento dos rituais, esse caminho simbólico passou a ser paulatinamente transportado da abóbada para topos das Colunas do Norte e do Sul.

           No tocante ao substantivo “topo” é bom que se diga que o “topo” das Colunas do Norte e do Sul corresponde às paredes Norte e Sul aquém da balaustrada que limita o Oriente da Loja. Topo, nesse caso, é a referência mais distante do eixo do templo, tanto para o setentrião, como para o meridião.

Também é bom lembrar que as Colunas do Norte e do Sul não se reportam nesse caso a uma coluna na forma de um pilar redondo com base, fuste e capitel, todavia é o nome figurado representativo dado ao espaço dentro do templo correspondente aos seus hemisférios setentrional e meridional.

Assim, nessa conjuntura, a base de cada uma das fictícias Colunas do Norte e do Sul fica no eixo do templo, enquanto que os seus respectivos topos (partes mais distantes) correspondem às paredes Norte e Sul. Em analogia seria como os polos Norte e Sul da Terra que são as regiões mais distantes do Equador.

Conhecido agora onde se localiza cada um dos topos das Colunas do Norte e do Sul, é possível uma demonstração melhor sobre o caminho que o iniciado percorre até alcançar a sua plenitude maçônica (Grau de Mestre).

Como foi visto, as Colunas Zodiacais, originárias dos signos zodiacais que primitivamente apareciam na base da abóbada (muitos templos ainda assim os representam), a partir dos meados do século XX começaram a figurar aparentando uma secção longitudinal de meias-colunas encravadas, como que brotando das paredes Norte e Sul.

Sem nenhuma ordem de arquitetura obrigatória para elas, cada uma dessas colunas traz aparente nos seus  capitéis o símbolo zodiacal a ela correspondente.

Essa nova forma decorativa dos signos zodiacais acabou se consagrando nos rituais, embora ainda existam muitas Lojas pelo mundo que mantém originalmente fixados na base abóbada os signos do Zodíaco, o que no meu entender é perfeitamente admissível. Aliás, mais trasicional.

Desse modo, o topo (parede) da Coluna do Norte passou a receber sequencialmente e equidistantes as primeiras seis Colunas Zodiacais correspondentes a Áries, Touro, Gêmeos (primavera) e Câncer, Leão e Virgem (verão). No lado oposto, isto é, no topo (parede) da Coluna do Sul, do mesmo modo, as outras seis Colunas Zodiacais correspondentes a Libra, Sagitário e Escorpião (outono) e Capricórnio, Aquário e Peixes (inverno).

As seis primeiras colunas, divididas em grupos de três, correspondem à primavera e o verão que ocorre no hemisfério Norte. No misticismo iniciático essas estações se comparam ao Aprendiz - da sua infância até a sua adolescência.

Sob essa óptica, no REAA os Aprendizes ocupam todo o topo da Coluna do Norte, destacando que Áries (a primeira coluna a noroeste) sinaliza o início da jornada no 1º Grau. É graças a isso que o Aprendiz recém-iniciado, ao ocupar pela primeira vez o seu lugar na Loja, deve ser conduzido o mais próximo possível da Coluna Zodiacal correspondente a Áries (21 de março, equinócio de primavera no Norte), próximo ao 1º Vigilante.

Vale registrar que infelizmente ainda em muitos dos nossos rituais encontramos o anacronismo de colocar o Aprendiz recém-iniciado do REAA próximo a balaustrada, ou seja, contraditoriamente em um lugar que simboliza um Aprendiz prestes a encerrar a sua jornada e ingressar como Companheiro no lado oposto, em Libra, ao Sul.

É possível que alguns compiladores, mais acostumados a copiar equívocos do que de fato entender do processo iniciático do Rito, não aprenderam ainda o significado das Colunas Zodiacais no templo, muito menos ainda se aperceberam que há uma ordem a ser seguida na alegoria da jornada, onde o neófito (principiante, ou aquele que começou recentemente) representa no ideário da Iniciação o mais novo iniciado.

É oportuno citar que a etimologia da palavra neófito vem da junção dos termos gregos neo, que significa novo, e phytos, que é planta.

Em Maçonaria, nesse encadeamento esotérico de ideias, o substantivo neófito menciona uma nova planta, cuja semente semeada pelo Mestre fecundou no interior da Terra. Em busca de Luz essa nova planta desabrochou na primavera – em síntese essa alegoria simboliza o candidato saindo da Câmara de Reflexão (interior da Terra) para receber a Luz. Aí está o porquê de o Iniciado romper a sua jornada em Áries, na primavera.

E assim prossegue a marcha do Iniciado que, cumprida a sua passagem como Aprendiz pelas seis primeiras colunas no topo do Norte, se encontra agora pronto para prosseguir sua jornada pelas as outras seis Colunas Zodiacais dispostas equidistantes em dois grupos de três no topo do Sul, ou seja, seguir por Libra, Escorpião e Sagitário correspondentes ao outono, e Capricórnio, Aquário e Peixes correspondentes ao Inverno.

A partir de Libra, cuja coluna desta feita se encontra na parede Sul junto a balaustrada, os ciclos naturais sequencialmente simbolizam o Companheiro e o Mestre Maçom. O Companheiro representando a juventude e o amadurecimento, características do outono, e finalmente o Mestre representando a experiência e a senilidade.

                    Em síntese o inverno com dias curtos e noites longas corresponde o fim do ciclo, ou esotericamente a morte do iniciado, que agora passará, sobre o eixo do templo, por uma cerimônia emblemática que o levará renascer na Luz (Oriente).

Tal qual o Sol que no inverno deixa a Terra viúva, agora o Iniciado, como a Fênix revivida, renasce na primavera para como Mestre representar a Luz, ou ser uma fonte de Luz.

Por fim, esse é um resumo da proposta iniciática do REAA. Em torno desse teatro de transformação filosófica, ética e moral, é que se encontram os meandros da sua liturgia e da sua ritualística. Não obstante os conceitos construídos sobre essa alegoria solar, é patente que esse desenvolvimento ocorreu amparado em elementos dos cultos solares da Antiguidade. Assim, cabe ao iniciado perscrutar, compreender e viver a sua Grande Iniciação. O caminho, mesmo que sinuoso e cheio de obstáculos se encontra visível e à disposição daqueles que verdadeiramente se propuserem com perseverança compreender a Arte.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK – SGOR/GOB

jukirm@hotmail.com

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DEZ/2022

 

sábado, 17 de dezembro de 2022

USO DO AVENTAL PELO LADO AVESSO

Em 16.06.2022 o Respeitável Irmão Paulo A. Valduga, Loja Luz Invisível, REAA, GORGS (COMAB), Oriente de São Borja, Estado do Rio Grande do Sul, faz a seguinte pergunta

 

AVENTAL PELO AVESSO

 

É lícito virar o avental (para o avesso) durante a sessão de Iniciação no momento em que é demonstrado ao candidato a pena que lhe será imposta se for perjuro ou traidor da Ordem?

Procurei em meu super desorganizado alfarrábio e não encontrei a resposta, mas tenho certeza que o Irmão já abordou esse assunto.

Com um grande e fraterno abraço.

 

CONSIDERAÇÕES.

 

                   Há muito tempo eu venho alertando que usar avental pelo avesso no 3º Grau sob alegação de se estar de luto não passa de uma falácia.

O avental maçônico, símbolo do trabalho, é a verdadeira veste do maçom. Assim, em nome da razão, no simbolismo, em qualquer situação o maçom veste o seu avental normalmente, isto é, coloca-o de tal maneira que os emblemas contidos na sua face fiquem naturalmente visíveis. Afinal ninguém, na ordem natural das coisas, vestiria a sua roupa pelo lado avesso.

Ora, o “luto” alegado pelos imaginosos inventores como justificativa para vestir o avental pelo lado contrário não está nele, porém está no ambiente de consternação e dor apresentado na decoração da Câmara do Meio.

Penso que já passou da hora de se dar um basta nesses anacronismos que ainda imperam em determinados rituais. Para o bem de uma liturgia maçônica saudável, essas crendices de fato merecem ser jogadas na lata do lixo.

Já alertava o Irmão Francisco de Assis Carvalho Irmão, o Xico Trolha de saudosa memória - e eu concordo com ele – que essa “estória” de vestir aventais pelo avesso é uma farsa imposta por tratadistas adeptos do achismo.

Nessas circunstâncias vale lembrar que no Capítulo, Grau 18 do REAA, utiliza-se um avental que possui dois lados utilizáveis, frente e verso, ou seja, é usado pelos dois lados conforme a liturgia capitular necessitar no cumprimento de determinada passagem ritualística. Contudo isso não ocorre no simbolismo, mas no Grau 18.

Ainda neste contexto, basta lembrar que na sua originalidade a cor litúrgica predominante do REAA tem sido, por razões históricas, de gradação encarnada concomitante às vestes sacerdotais do Cardeal no catolicismo.

Enfim, todo esse imbróglio provavelmente foi adquirido ainda nos tempos das extintas Lojas Capitulares, lembrando que nesse passado remoto o Athersata (Governador), dirigente do Capítulo, era também o Venerável Mestre da Loja Simbólica. Naquela época o Oriente separado e elevado era o santuário Rosa Cruz e ali somente ingressavam Irmãos portadores do grau capitular (vide história das Lojas Capitulares – séculos XIX e XX).

No tocante à cor encarnada no REAA, que está longe de ser símbolo de luto, vale lembrar que no simbolismo esse matiz foi herdado por primeiro da Loja Geral Escocesa, Loja mãe então criada em 1804 na França para organizar o primeiro ritual do simbolismo. Sequencialmente, no decorrer da história essa cor veio se agregar ainda mais no rito graças a influência capitular, que inegavelmente possui decoração vermelha.

Dito isso tudo, querer entortar a boca pelo hábito do cachimbo comparando a cor do forro do avental com luto me parece uma atitude nada recomendável. Como exemplo dessas sandices que ocorriam, basta lembrar do tempo em que temerariamente existiam aventais de Mestre que, de modo equivocado, traziam pintados de branco em forro negro uma divisa composta por um cr com duas ttíb ccruz, o que fazia com que o Avental Maçônico, um dos mais significativos emblemas da Maçonaria, se parecesse com uma bandeira de piratas.

No que diz respeito à extinção dessas ervas daninhas dos rituais, posso citar como exemplo o GOB que, através do seu Sistema de Orientação Ritualística – SOR, vem orientando que não mais seja utilizada a prática de virar o avental pelo avesso num determinado período da cerimônia de Exaltação. Em síntese, no GOB não se utiliza mais essa prática anacrônica.

Agora, cá entre nós, essa tal cena do perjuro no REAA mencionada na sua questão tem sido, em alguns rituais, outro desses lamentáveis enxertos costurados na colcha de retalhos que em alguns casos acabou virando o simbolismo do REAA. Não obstante a isso, agrega-se o avental vestido pelo lado avesso! Agora durma-se com um barulho desses!

Concluindo, peço escusas por ter me desviado um pouco do teor da sua questão para oportunamente poder explicar melhor o que ocorre com essa esdrúxula prática que tem sido exercida, às vezes durante a cerimônia de Exaltação onde a partir de um determinado momento todos viram o avental pelo avesso para demonstrar luto (???), assim como nessa tal prova de perjuro, indevidamente inserida na cerimônia de Iniciação do REAA e ainda nela, não se sabe o porquê, todos vestem o avental pelo contrário. Aproveitei também a oportunidade para abordar a cor encarnada que originalmente predomina no REAA. No final os fatos abordados acabam se interligando.

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

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DEZ/2022

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

ESCRUTÍNIO SECRETO - PODE HAVER ABSTENÇÃO?

Em 14.06.2022 o Respeitável Irmão Petrônio Cardoso Junior, Loja Tiradentes, 1204, REAA, GOB-MG, Oriente de Campo Belo, Estado de Minas Gerais, apresenta a questão seguinte:

 

ABSTENÇÃO NO ESCRUTÍNIO SECRETO

 

Gostaria de saber, se é permitido a um obreiro (do quadro), se abster de votar num escrutínio secreto na própria Loja, postando-se de pé e a Ordem.

 

CONSIDERAÇÕES

 

Destacando que no Escrutínio Secreto votam apenas os Irmãos regulares do quadro, todos esses Irmãos em se fazendo presentes nesta ocasião devem votar na forma de costume - pela admissão ou não do candidato.

                      É recomendável que no dia marcado para a realização do Escrutínio Secreto estejam presentes apenas Irmãos do Quadro.

Quanto a abstenção de votar, a própria dinâmica desse tipo de sufrágio já demonstra que não existe essa possibilidade, pois todos recebem as duas esferas que identificarão o voto, se pelo sim ou se pelo não. Não há uma terceira esfera para identificar uma abstenção. 

Inquestionavelmente todos os Irmãos aptos a votar votam nessa ocasião, inclusive o Venerável Mestre. Durante a apuração é conferido se o número de esferas coincide com o número de Irmãos que assinaram o livro de presenças da Loja naquela oportunidade.

Assim, o Escrutínio Secreto demonstra pela sua dinâmica que não se admite abstenção na votação.

Aquele Irmão que por algum motivo não queira votar, basta não comparecer aos trabalhos da Loja naquele dia.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

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DEZ/2022

 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

SIGNIFICADO DA ACLAMAÇÃO H. H. H. NO REAA

Em 13.06.2022 o Respeitável Irmão Acácio Siqueira, Loja Rio Pardo, 242, REAA, Grande Oriente Paulista (COMAB), Oriente de Santa Rosa de Viterbo, Estado de São Paulo, faz a seguinte pergunta:


ACLAMAÇÃO H. H. H.

 

Dentre as tantas diferenças, enxertos e idiossincrasias que acometem o REAA o Brasil, para algumas encontra-se justificativa, para outras não... E ainda bem que temos valorosos Irmãos que se preocupam em apontar e corrigir, ou, pelo menos, entender estes “erros”.

Desde de pouco tempo após minha Iniciação, me causou curiosidade o procedimento ritualístico adotado no REAA, na potência a que sou filiado, de estender o braço direito durante a aclamação do Rito. Como este procedimento não é visto nos rituais de outras vertentes maçônicas brasileiras, procurei entende-lo. 

Confesso que nada encontrei que acalmasse minha curiosidade, apenas textos medíocres, recheados de achismos e crendices. Assim recorro ao Irmão, mais uma vez, para me ajudar (dei uma vasculhada nos textos em seu blog e não encontrei nada neste sentido; se minha busca foi falha, me indique o texto a ser lido).

 

CONSIDERAÇÕES.

 

Acredito que se as potestades maçônicas, autoras dessas barbaridades falaciosas, tal como a mencionada na sua questão, procurassem estudar e se despir de crendices e achismos, certamente a agressão à ritualística original do REAA seria bem menor, digamos, até aceitável.

Essa de se estender o braço direito à frente durante a aclamação no REAA, além de ser improcedente é, como diria Eça de Queirós, mesmo d’escrachar!

                    Na verdade, essa é uma aclamação feita ao Sol haurida dos Cultos Solares da Antiguidade e foi inserido no REAA por conta da Loja Geral Escocesa (Loja Mãe), esta então criada para na oportunidade gerenciar e planejar o primeiro ritual para o simbolismo do rito que, por circunstâncias históricas, ainda não possuía rituais próprios para os seus trê primeiros graus, ou o franco-maçônico básico universal. Desse modo, no início da caminhada do escocesismo eram utilizados, ainda nos EE. UU. da América do Norte, rituais das Lojas Azuis Norte-americanas, conhecidos também hoje em dia como York americano.

Ocorre que quando o rito retornou à Europa, mais precisamente para a França no ano de 1804, foi necessária então a criação de rituais para o simbolismo do REAA, já que o objetivo era o de expandir o rito pela Europa.

O 1º Ritual (1804) - As três fontes principais para elaboração desse primeiro ritual foram a exposure (revelação) relativa aos “Antigos” irlandeses de 1751 denominada The Three Distinct Knocks (As Três Pancadas Distintas), o Régulateur du Maçon (Regulador do Maçom) do Grande Oriente da França datado de 1801, e as contribuições oriundas da Loja Geral Escocesa de Paris datadas de 1804.

No tocante às contribuições da Loja Geral Escocesa podemos citar as Colunas Vestibulares B e J dispostas de acordo com os Antigos (B à esquerda e J à direita de quem entra); a abóbada decorada, nela se destacando na sua base os símbolos das 12 constelações do Zodíaco (daria origem mais tarde às Colunas Zodiacais); a cor encarnada (vermelha) em alusão ao stuartismo (catolicismo) e, por fim, a aclamação ternária H, H, H, sendo essa última contribuição o mote desse pequeno arrazoado.

Dados os comentários iniciais, vamos então ao objeto principal desses comentários – o significado da aclamação H na liturgia do REAA.

Conforme mencionam bons tratadistas, a exemplo de Theobaldo Varolli Filho, José Castellani, Francisco de Assis Carvalho (Xico Trolha), Alec Mellor, dentre outros, o vocábulo H é uma corruptela da palavra Uêzza que era utilizada pelos árabes, mais particularmente pelos drusos, quando, no solstício de inverno do Hemisfério Norte, saudavam a volta do Sol.

Assim, na noite de 21 de dezembro, quando o solstício hibernal produz a noite mais longa do ano no setentrião, eram naquela oportunidade acesas fogueiras, enquanto que munidos de ramos floridos de acácia os drusos saudavam o retorno do astro rei novamente para a meia-esfera Norte do Planeta.

Uma particularidade esse misticismo é a de que a acácia, por possuir pequenas flores amarelas feito pequenos sóis, era então utilizada nessa saudação – os drusos saudavam o Sol ao amanhecer do solstício chacoalhando os ramos floridos.

Graças a isso, autores desatentos acabariam inventando que a palavra H significa acácia, contudo, essa é uma afirmativa temerária, até porque H, como corruptela de Uêzza, é uma aclamação árabe feita ao Sol e não a simples tradução da palavra acácia.

Nesse mesmo raciocínio, podemos citar como outro exemplo dessa corruptela a aclamação “hip hurra!”, bastante utilizada pelos ingleses e muito provavelmente derivada da expressão árabe uêzza. Vale lembrar que os ingleses por muito tempo se estabeleceram nas regiões da Arábia.

Só para ilustrar, mais tarde, com o advento do Islamismo, Maomé proibiu essa saudação solar.

Dito isso, em Maçonaria a aclamação H, H, H ocorre por três vezes porque o número 3 corresponde a unidade ternária (o primeiro plano), conceito que tem alto significado simbólico para o Iniciado.

Exegese da aclamação H no REAA - Por ser um rito solar essa aclamação solsticial também menciona uma saudação diária ao Sol (sabedoria, conhecimento).

No contexto ritualístico do Aprendiz e do Companheiro essa aclamação trinária ocorre por primeiro ao meio-dia, isto é, quando o Sol está pino, ou na plenitude diária da sua Luz. Esse misticismo indica que o momento é propício para o início dos trabalhos porque exalta-se a igualdade onde ninguém faz sombra a ninguém. A segunda vez a aclamação se dá no encerramento dos trabalhos, simbolicamente à meia-noite. Por mais paradoxal que possa aparentar, nesse momento a aclamação trinária evoca a volta da Luz, pois quanto mais escura é a madrugada, mais perto está o raiar de um novo dia. Enquanto que ao meio-dia consagra-se a Igualdade, à meia-noite consagra-se a Esperança.

É esse pois o sentido da aclamação H na liturgia do REAA, destacando que o meio-dia simboliza também a juventude e o vigor, enquanto que a meia-noite representa a senilidade e a experiência.

Nessa conjuntura, essa alegoria alerta para que o maçom trabalhe da sua juventude até a sua maturidade. Graças a isso é que a aclamação H ocorre na abertura, ao meio-dia e no encerramento, à meia-noite nos graus de Aprendiz e Companheiro, não ocorrendo no grau de Mestre porque o Mestre Maçom quando passou pelo cerimonial de Exaltação, simbolicamente ingressou no lugar da Luz, portanto ele é agora um luzeiro, um farol, um ser que emite luz. Nesse caso, a conotação iniciática do 3º Grau se reporta ao último dos ciclos da Natureza e tem uma afinidade solsticial, e não mais diária do Sol. Esse entendimento está na passagem do plano inferior do Ocidente para o plano superior do Oriente (além da balaustrada). Por essa razão é que não existe a aclamação H no 3º Grau, restringindo-se a mesma aos dois primeiros graus. É tudo uma questão iniciática.

Eis aí um resumo da exegese da aclamação trinaria H no REAA.

Desafortunadamente, ainda encontramos carcaças de dinossauro (algo difícil de engolir e consumir) em meio aos nossos ensinamentos. Bem mais salutar é antes investigar a verdade, ao tempo de se ficar arquitetando invencionices e sofismas que agridem a razão dos fatos.

 

 

T.F.A.

 

PEDRO JUK

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DEZ/2022