segunda-feira, 20 de agosto de 2018

PORTADOR DE NECESSIDADE ESPECIAL - MUDO NA MAÇONARIA


Em 06/06/2018 o Respeitável Irmão Osvaldo da Costa Ferreira, Venerável Mestre da Loja Irmãos Unidos, 2.360, REAA, GOB-RJ, Oriente de Niterói, Estado do Rio de Janeiro, solicita a seguinte informação:

MUDO NA MAÇONARIA


Fui interpelado por um Venerável Mestre que me perguntou como se telha um maçom MUDO?
Eu não soube responder e gostaria de saber se pode entrar mudo, surdo e cego na noss
a ordem, já que as regras e normas que seguimos vieram da Bíblia através dos Landmarques.

CONSIDERAÇÕES:

Existem duas situações para esse caso e que merecem ser abordagem.
A primeira é aquela que se refere a um maçom - portanto iniciado - que por um revés da vida acabou se tornando um portador de necessidades especiais.
A segunda se trata de iniciar alguém que já seja um portador dessas necessidades.
Assim, no primeiro caso, seria inadmissível que a Loja viesse eliminar um Irmão do seu quadro numa contingência dessas. Embora nenhuma solução legal para tal esteja prevista, moralmente eu entendo que nas circunstâncias atuais, com a evolução da tecnologia, existe uma grande probabilidade de se resolver essa situação. Mais simples ainda, seria se esse Irmão se comunicasse por escrito e com adequações previstas para a ocasião. É óbvio que o ser humano, com boa vontade e determinação, alcançará a solução.
Mesmo sem usar de qualquer tecnologia, essa dificuldade pode ser superada pela virtude da paciência e da perseverança. Talvez pelo alfabeto dos sinais (libra), ou mesmo pela escrita em uma simples folha de papel. É tudo uma questão de boa vontade.
Já na segunda situação, a mesma ainda é passível muita discussão pelas nossas autoridades maçônicas competentes. A questão de iniciar alguém que seja portador de necessidades especiais carece de legalidade constitucional da Obediência.
No caso do GOB, uma situação dessas merece reflexão e interpretação da Lei. Nesse sentido, nos parece que o RGF ainda não contempla Iniciação para esses casos. É o que dele menciona o Art.º 1º, Inciso VII, reforçado pelo Art.º 2º do mesmo Regulamento. Segue a descrição desses caputs:
Art. 1º - A admissão (o grifo é meu) depende da comprovação dos seguintes requisitos:
VII – não apresentar limitação (o grifo é meu) ou moléstia que o impeça de cumprir os deveres maçônicos;
Art. 2º. - A falta de qualquer dos requisitos do artigo anterior, ou sua insuficiência, impede a admissão (o grifo é meu).
Nesse sentido, legalmente ainda não é possível se admitir alguém que pelas suas limitações não possa vir a cumprir os deveres maçônicos. Esse não seria um acidente de percurso como foi mencionada na primeira situação acima, mas o de uma conjuntura que antes constatada, já prevê com antecedência a limitação.
Considerações à parte urge a necessidade de se encontrar uma solução para esses casos. Sem dúvida é preciso que as nossas autoridades tragam luzes para espargir essas sombras. Os tempos hoje são outros. Vivemos numa Maçonaria de aceitos e não mais naquela operativa onde literalmente as corporações de ofício dependiam de operários fisicamente hígidos para realizar as suas tarefas.
Quanto ao que o Irmão menciona sobre Landmarks e regras vindas da Bíblia, me parece que não é bem esse o caso, já que a Maçonaria se utiliza de algumas passagens bíblicas como alegorias iniciáticas especulativas que em parte dão às vezes suporte para as suas lições de moral e ética. No entanto isso não nos autoriza dizer que existia Maçonaria nos tempos bíblicos e muito menos imaginar que ser fisicamente hígido seja um verdadeiro Landmark na Moderna Maçonaria. Regras e normas que seguimos (old charges) são oriundas das antigas corporações de ofício e, essas por sua vez, compõem o conjunto de tradição conhecidos por “usos e costumes”, dos quais muitos deles são atualmente anacrônicos devido à evolução da humanidade.
Eram esses os meus apontamentos, pelo que ao finalizar destaco não serem eles laudatórios no tocante à higidez física, pois não me considero um abalizado interprete de Leis. Melhor mesmo seria considera-los como a minha opinião.


T.F.A.

PEDRO JUK

AGO/2018.

domingo, 19 de agosto de 2018

20 DE AGOSTO - DIA DO MAÇOM BRASILEIRO - FALSA INTERPRETAÇÃO DE UM CALENDÁRIO


20 DE AGOSTO – DIA DO MAÇOM BRASILEIRO - A FALSA INTERPRETAÇÃO DE UM CALENDÁRIO – UM DIA EM QUE NADA ACONTECEU



Uma mentira repetida por muitas 
vezes acaba sendo confundida com Verdade.

Por Pedro Juk.
jukirm@hotmail.com



O Dia do Maçom no Brasil.

Comemorado pela Maçonaria brasileira em 20 de agosto, essa data foi construída sobre um equívoco histórico oriundo de uma falsa interpretação de calendário. De verdadeiro só se pode afirmar que nesse dia absolutamente nada de especial aconteceu no Grande Oriente do Brasil. A história de que nessa data o Brasil teria sido declarado independente dentro de uma Loja Maçônica é uma afirmativa eminentemente falsa e ufanista.
O objeto dessa aleivosia histórica surgiu em 1.956 quando o Irmão Osvaldo Teixeira da Loja Acácia Itajaiense propôs à sua Loja que no dia 20 de agosto fosse comemorado o Dia do Maçom, pois – segundo ele - havia na época a convicção de que naquele dia no ano de 1.822, os maçons haviam proclamado a Independência do Brasil dentro do Grande Oriente do Brasil. Na realidade isso nunca aconteceu e já foi amplamente desmentido por estudiosos autênticos.
De fato mesmo, foi que no Rio de Janeiro, no dia 20 de agosto nem mesmo houve sessão no Grande Oriente do Brasil, e muito menos fora proclamada a Independência antes da conhecida e verdadeira data, a de 07 de setembro de 1822 quando o Irmão Guatimozim (D. Pedro I) declarava o Brasil independente de Portugal.
Desafortunadamente, a Loja de Itajaí acabou aceitando a proposta do Irmão Osvaldo e levou o engodo para uma reunião da Grande Loja de Santa Catarina que também aprovou a sugestão. Assim, a Grande Loja catarinense manteve a falácia e, como avalista da proposta (se dizendo inclusive ser sua a autoria), levou a proposição até a V Mesa Redonda que seria realizada em Belém do Pará de 17 a 22 de junho de 1957.
Assim, sob a falsa justificativa de que no dia 20 de agosto o maçom Joaquim Gonçalves Ledo teria proclamado a Independência numa sessão realizada no Grande Oriente do Brasil, tornava-se obrigatória, a partir daí, em todas as Grandes Lojas Estaduais brasileiras a comemoração do Dia do Maçom brasileiro. Essa obrigatoriedade pode ser constatada nas súmulas das Mesas Redondas, Assembleias e Conferências da CMSB de 1987, dela à página 23, item 3, das Conclusões.
A partir daí, paulatinamente essa falácia acabaria por se enraizar como uma erva daninha pela Maçonaria brasileira, influenciando inclusive o Grande Oriente do Brasil e posteriormente as Lojas da COMAB. Foi assim que a balela do dia 20 de Agosto foi arranjada para ser o Dia do Maçom brasileiro.
Toda essa justificativa equivocada que envolve a data do dia 20 de agosto e o Dia do Maçom brasileiro aconteceu graças a um erro histórico de interpretação do calendário utilizado na época e feita pelo Visconde do Rio Branco (José Maria Paranhos) em notas de Varnhagem que seria divulgado seguidamente por compiladores.
Essas controvérsias interpretativas do calendário mencionadas nas notas de Varnhagem atingiriam a data da própria fundação do Grande Oriente do Brasil, a data da Iniciação do Príncipe Regente e, principalmente, uma possível declaração de Independência havida no dia 20 de agosto de 1.822 – a origem do engodo.
Para se entender todo esse embrolho é preciso antes se considerar o fato da ata de fundação do Grande Oriente do Brasil consignar o 28º dia do 3º mês maçônico, o qual, para o Visconde e para os que o copiaram, seria dia 28 de maio, já que segundo eles, o ano maçônico iniciava-se no dia 1º de março. Entretanto houve o engano de não se ter considerado que o calendário da época usado pelo GOB, quando da sua fundação, era muito próximo do calendário religioso hebraico, ou mesmo um calendário equinocial, que inicia o ano da Verdadeira Luz não no dia 1º de março, mas no dia 21 de março (equinócio), o que dá uma diferença de no mínimo vinte e um dias de um para o outro calendário - deixo recomendação para melhor entendimento do tema que se estude a composição do calendário religioso hebraico, cujos meses são lunares, de 29 ou 30 dias, dependendo da visibilidade da Lua Nova. Recomenda-se também consultar os calendários utilizados pelo GOB em 1822.
A despeito disso é que geralmente os calendários maçônicos seguem muito de perto essa contagem de tempo equinocial, iniciando o ano em março e acrescentando a constante de 4.000 ao ano da era cristã para obter o Ano da Verdadeira Luz (Ano Lucis).
É bem verdade que alguns Ritos, como é o caso do Rito Francês ou Moderno, começam o ano no dia 1º de março, enquanto que outros, mais próximos ao ano hebraico, ou equinocial, iniciam-no em 21 de março.
Sob o prisma do calendário equinocial, já que em 1.822 o Grande Oriente e as Lojas existentes utilizavam esse calendário, o ano se iniciava em 21 de março, o que faz com que o 28º dia do 3ª mês maçônico do ano de 5.822 da Verdadeira Luz corresponda, no calendário gregoriano, ao dia 17 de junho de 1.822 (data da fundação do GOB), pois o 3º mês começa dia 21 de maio e não no dia 1º de maio. Do mesmo modo também ocorre com o dia da Iniciação do Príncipe D. Pedro I que aconteceu, segundo o calendário maçônico, no 13º dia do 5º mês, o que corresponde ao dia 2 de agosto (calendário gregoriano) já que o 5º mês inicia-se no dia 21 de julho.
Assim, o mesmo raciocínio se aplica para a ata datada do 20º dia do 6º mês maçônico. O 20º dia corresponde, no calendário gregoriano, ao dia 9 de setembro, enquanto que o 6º mês maçônico tem início no dia 21 de agosto.
Em síntese, no calendário do equinocial (utilizado pelo GOB em 1822) o ano se inicia no dia 21 de março e tem o seu término a 20 de fevereiro do ano seguinte. Exemplo: o primeiro mês se inicia no dia 21 de março e se encerra no dia 20 de abril; o segundo se inicia no dia 21 de abril e termina no dia 20 de maio; o terceiro vai do dia 21 de maio até o dia 20 de junho, e assim por diante. Para o ano da Verdadeira Luz soma-se a constante de 4.000.
Partindo desse equívoco, Visconde do Rio Branco gerou o erro histórico por considerar que os meses maçônicos começavam não no dia 21, mas no dia 1º de cada mês do calendário gregoriano. O resultado prático desse equívoco é uma diferença de vinte ou vinte e um dias entre os calendários.
Não se discute o fato que Joaquim Gonçalves Ledo, como 1º Grande Vigilante tenha da sua cátedra na Loja exigido a libertação da Pátria, entretanto isso aconteceu no dia foi 9 de setembro de 1.822 e nunca em 20 de agosto daquele ano (pretensa declaração de Independência para justificar o Dia do Maçom).
Destaque-se que quando Ledo discursou energicamente da sua cátedra em 09 de setembro (20º dia do 6º mês) no Rio de Janeiro, exigindo total separação do Brasil das Côrtes Portuguesas, D. Pedro I, em São Paulo, no dia 7 de setembro de 1822, já havia proclamado, às margens do Riacho Ipiranga a Independência do Brasil.
É fato também que num Brasil colonial, a notícia da Independência não havia ainda chegado ao Rio de Janeiro até dia 9 de setembro, o que fez Ledo se pronunciar em favor da separação. Na época não havia telégrafo e as mensagens eram precariamente enviadas a lombo de cavalo.
Assim, dado a esses elementos contraditórios que geraram a falsa interpretação então criada por José Maria Paranhos (o Visconde do Rio Branco), que muitos escritores e compiladores, tendenciosos ou não, acabariam espalhando essa mentira histórica ainda no Século XIX.
Foi baseada nessa inverdade que uma proposta, bem mais tarde seria levada pela Grande Loja de Santa Catarina até a V Mesa Redonda no Pará em 1957. Infelizmente essa falsa interpretação acabou resultando na comemoração do Dia do Maçom no Brasil onde no dia 20 de agosto absolutamente nada aconteceu no Grande Oriente do Brasil, inclusive nem mesmo por lá houve sessão nessa data. Ledo de fato energicamente discursou, mas não no dia 20 de agosto, porém no 20º dia do 6º mês maçônico, o que corresponde ao dia 9 de setembro, enquanto que a Independência do Brasil se dera mesmo no dia 7 de setembro de 1822.
Atualmente, apesar de todas as provas angariadas por autênticos escritores, pesquisadores e historiadores, muitas autoridades maçônicas ainda as consideram como folhas ao vento, apregoando dissimuladamente a cada ano que passa essa “balela do dia 20 de Agosto” ao ser comemorado como Dia do Maçom brasileiro numa data em que nada aconteceu de importante na Maçonaria.
Devo mencionar que não sou absolutamente nem um pouco contra o maçom brasileiro ter o seu dia comemorativo, acho muito justo inclusive. O que eu combato veementemente, como investigador da Verdade são as inverdades que alguns utilizam para justificar um fato.
Sugiro que os interessados pesquisem arrazoados a respeito da lauda de Irmãos como Francisco de Assis Carvalho, Hercule Spoladore, Kurt Prober, Raimundo Francisco Xavier, José Castellani, João Alves da Silva, dentre outros. Existe um condensado em forma de um caderno de bolso datado de junho de 1.994, denominado “20 de Agosto – Dia do Maçom” - Editora Maçônica A Trolha, que traz em seu conteúdo um trato confiável sobre o assunto e creditado a esses escritores. Também é importante pesquisar nas “Atas de Ouro do Grande Oriente do Brasil”, todas contemporâneas à fundação do Grande Oriente Brasílico, mais tarde, “do Brasil”. Nessas atas é possível se verifica o calendário usado pela Maçonaria brasileira na época.


PEDRO JUK
AGOSTO/2018

sábado, 18 de agosto de 2018

SINDICÂNCIA MAÇÔNICA


Em 06.06.2018 o Respeitável Irmão Celso Pereira dos Santos, Loja Hermann Blumenau, 1896, GOB-SC, REAA, Oriente de Blumenau, Estado de Santa Catarina, apresenta a questão seguinte.

SINDICÂNCIA


Há muito tempo vínhamos reclamando de Sindicâncias mal feitas e até de Profanos que NÃO eram barrados pelos Sindicantes e depois tínhamos um quadro de Irmãos não qualificados de acordo com nossas normas.
De tanto reclamarmos, nosso Venerável pediu-nos um trabalho sobre A SINDICÂNCIA, SUA IMPORTÂNCIA E COMO DEVEM AGIR OS SINDICANTES, E O QUE CONSIDERAR PARA FINS DE.
Na verdade, ele só nos pediu sobre Sindicância, mas achei meio vago fazer esse questionamento. Por isso, pergunto: o Irmão teria algum material para indicar, ou para nos fornecer, ou teria um comentário seu sobre o assunto?

CONSIDERAÇÕES

Sindicância – substantivo feminino - designa a ação de sindicar, de tomar informações, de inquirir; é o inquérito feito para colher informações acerca de alguém.
Em Maçonaria as sindicâncias são fundamentais para que os membros do quadro de uma Loja possam conhecer, através de informações colhidas pelos sindicantes, um pouco da vida, da conduta moral e do comportamento ético social do candidato a Iniciação.
Atendendo aos dispositivos legais, geralmente, depois de previamente apresentado um candidato à Loja, o Venerável Mestre, mantendo sigilo do nome do proponente, nomeia três sindicantes que devem ser Mestres Maçons do quadro, cujos nomes também são mantidos em sigilo. Dentro do prazo legal os sindicantes deverão apresentar o resultado do seu trabalho, em formulário próprio da Obediência, dirigido ao Venerável. No caso do REAA\, através da Bolsa de Propostas e Informações.
Em linhas gerais, as sindicâncias devem se ater aos seguintes pontos:
a)    Dados biográficos do proposto;
b)    Verificar se o candidato se adequa às condições vigentes nos regulamentos da Obediência;
c)     Formação cultural;
d)    Dados profissionais e a sua situação financeira;
e)    Vida familiar e, se casado ter a concordância da esposa;
f)      Comportamento quanto aos seus compromissos financeiros;
g)    Conceito entre os seus vizinhos e colegas de trabalho;
h)    Ideias sociais, políticas e de crença religiosa.
i)       Outros se necessários conforme a condição do proposto.
No tocante ao Grande Oriente do Brasil e as sindicâncias, há que se observar o contido nos Artigos 8º até o 12º do Regulamento Geral da Federação.
Dados os comentários relacionados à legalidade, existe ainda, a meu ver, o principal que é o de como se fazer uma sindicância, não deixando que ela siga apenas o destino de um simples preenchimento de questionário.
Nesse sentido um sindicante deve exercer o seu ofício com cautela e zelo, pois cada sindicância traz consigo as conclusões do próprio sindicante. Uma sindicância é um ato de responsabilidade, sobretudo levando-se em conta de que se trata da admissão de um novo membro para a Ordem Maçônica e ela, por sua vez, requer dos seus membros cuidados e atitudes condizentes com os seus afins.
Entendo que tão grande é a responsabilidade de um sindicante que as Lojas deveriam, sempre que possível, ministrar instruções a respeito aos seus Mestres, enfatizando o encargo da sua missão. Em hipótese alguma um sindicante deve ser conivente ou tolerante com o modus operandi ou vivendi do sindicado se eles se oferecerem contrários aos princípios da Maçonaria.
Uma boa sindicância requer ações adequadas, assim um sindicante nunca deve se apresentar apenas como um simples entrevistador que traz consigo um formulário para, mormente ser preenchido.
Uma sindicância exige muito mais, portanto o sindicante deve antes se inteirar das questões, estuda-las inclusive, e na conversa com o candidato retirar dele as respostas necessárias para o preenchimento do formulário. Assim, depois de anotados os misteres, longe do proposto, ele complementa a sindicância a contento e dá as suas conclusões para por fim fazer a recomendação.
Obviamente que dados pessoais, familiares, sociais e profissionais podem ser preenchidos diante do sindicado, enquanto que aquelas que merecem percepções mais aprofundadas e dependem de conclusões serão devidamente resguardadas e escritas oportunamente, longe do sindicado.
Em não havendo espaço suficiente para as recomendações no formulário, o sindicante pode lançar mão de uma folha de papel e anexa-la com os complementos que achar necessário. O importante é relatar à Loja as suas sinceras impressões.
As previsões com gastos financeiros oriundos das obrigações pecuniárias devem ser claras e amplamente explicadas, para só após disso obter do candidato a sua concordância.
Sondar a expectativa de melhora financeira do candidato é também muito importante. Nele não deve existir a esperança de que o ingresso na Ordem é também uma forma de se melhorar a condição financeira de alguém. A solidariedade maçônica estará em qualquer lugar, porém só onde houver uma “justa necessidade”. Nesse particular, todos nós sabemos que é bem maior a obrigação de ajudar do que a de receber ajuda.
Outro aspecto da sindicância é o de que o sindicante, sempre que possível, deve sondar o candidato no seu ambiente social, podendo inclusive inquirir algumas pessoas do seu círculo de amizade para obter informações necessárias.
Do mesmo modo é recomendável que o sindicante, antes e em separado, se apresente à esposa do candidato (se for o caso) explicando-lhe o motivo da sua presença e tomar dela a sua concordância em relação ao ingresso do seu cônjuge na Maçonaria, discorrendo inclusive das despesas financeiras que do seu ingresso poderão advir.
Um sindicante deve sempre se apresentar pessoalmente e sem nenhum acompanhante. A sua missão é solitária. Isso se justifica porque cada sindicância é pessoal e nenhum sindicante pode, antes da aprovação por escrutínio do candidato, se identificar como tal perante aos demais que cumpriram com ele a mesma missão. Portanto é vetada a prática de sindicantes em grupo fazer ao mesmo tempo uma sindicância. Do mesmo modo é proibido o costume de se sindicar por telefone. Essa é uma atitude de preguiça e péssima geometria que pode inclusive anular um processo de iniciação. Ratifica-se, o sindicante se apresenta in loco.
É inadmissível que elementos nocivos ingressem na Ordem por conta de sindicantes coniventes e padrinhos sem escrúpulos. O Guarda da Lei ou o representante do Ministério Público Maçônico deve ficar atento para essas situações, extirpando-as e oferecendo imediata denúncia no intuito de punir os responsáveis. Sindicância é parte de um Regulamento que, por sua vez é uma Lei, portanto como tal deve ser irrestritamente observada.
Dando por concluído e prevenindo antes para não remediar depois, devo mencionar que esse assunto simplesmente não se esgota aqui, mas por hora eram essas as minhas considerações.
T.F.A.


PEDRO JUK


AGO/2018

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

RITUALÍSTICA PARA SESSÃO DE FINANÇAS


Em 01/06/2018 o Respeitável Irmão Ruy J. D. Maia, Loja Sesquicentenário, 1915, REAA, GOB-RJ, Oriente de Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro, apresenta a questão que segue:

RITUALÍSTICA PARA SESSÃO DE FINANÇAS


Estou fazendo uma pesquisa sobre ritualística de uma Sessão de Finanças no GOB. Até agora só achei sobre o RGF e um comentário seu sobre Lei Vs Decreto, muito bom por sinal, porém quanto a ritualística não achei nada . Estou inclinado a concluir que a Ritualística de abertura e fechamento, seria normal, como uma sessão ordinária. Dai, tenho uma dúvida. A parte de finanças seria feita na ORDEM DO DIA e abstraindo ata, Saco de Propostas, Palavre e Tempo de Estudo. Gostaria muito de ter sua opinião. Desde já agradeço a atenção e aproveito para prestar minhas considerações pelo seu trabalho.

CONSIDERAÇÕES:

Em se tratando do Grande Oriente do Brasil, no Art.º 108 do seu Regulamento Geral, uma Sessão de Finanças é uma Sessão Ordinária - Parágrafo 1º, Inciso IV do Artigo mencionado.
Em sendo uma Sessão Ordinária ela é privativa de maçons, portanto obedece a ritualística prevista no ritual do rito praticado pela Loja.
Ainda sobre a Sessão de Finanças, ela é realizada no grau de Aprendiz, conforme previsto no Art.º 109 do RGF, destacando-se que nesse mesmo Artigo e seus parágrafos seguintes, mais outras providências são mencionadas.
Nesse sentido o meu entendimento é o de que a Sessão se desenvolve conforme uma Sessão Ordinária prevista no ritual, enquanto o Venerável declara-a aberta em Sessão de Finanças. Assim professada, a sessão segue na Ordem do Dia apenas para a finalidade prevista, ou seja, não se admite nela o trato de outros assuntos que não estejam relacionados ao seu propósito.
Como essas sessões são marcadas com antecedência mínima de quinze dias e dela só participam Irmãos do quadro da Loja, obviamente que todos devem antes se inteirar das normas legais que regem esses trabalhos. Nesse sentido todos saberão com antecedência de que nela nenhum outro assunto será tratado, senão aquele financeiro e que já tenha antes passado pela Comissão de Finanças da Loja. Para tal, recomenda-se a inteira observação dos Artigos 108 e 109 do Regulamento Geral da Federação.
Entenda-se que, usando o ritual em vigência, adequam-se as necessidades para os afins da Sessão de Finanças, dispensando-se, por exemplo, o quarto de horas de estudos, recomendando-se também que seja produzida uma ata (balaústre) pertinente a essa sessão. O Expediente somente será dado conhecimento se o mesmo for pertinente ao objeto da sessão. Eventuais assuntos e informações que porventura possam desavisadamente aparecer na bolsa de propostas e que não digam respeito ao propósito dos trabalhos, devem ficar sob malhete. O Tronco de Beneficência faz normalmente o seu trajeto e a Palavra a Bem da Ordem somente será utilizada por aquele que tiver assunto relacionado com a finalidade da sessão.
Salvo se existirem outras recomendações oficiais, eram essas as minhas considerações.


T.F.A.

PEDRO JUK

AGO/2018

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

PALAVRA DE PASSE DO COMPANHEIRO MAÇOM


Em 01/06/2018 o Irmão Alexissandro Marques Moreira, Companheiro Maçom da Loja Caratinga Livre, GOB-MG, REAA, Oriente de Caratinga, Estado de Minas Gerais, apresenta a seguinte questão:

PALAVRA DE PASSE DO SEGUNDO GRAU


Sobre a palavra de passe do Grau de Companheiro, quem a introduziu em nosso ritu
al e em que ano?

CONSIDERAÇÕES.

Despido de todas as roupagens doutrinárias, o Grau de Companheiro é sem dúvida o grau mais genuíno da Maçonaria, já que à época da Maçonaria de Ofício (Operativa), apenas existiam duas classes de trabalhadores, a dos Aprendizes Admitidos e a dos Companheiros da Arte.
Com o advento da Maçonaria dos Aceitos (Especulativa) a partir do início do século XVII, os primeiros catecismos começariam a se organizar em detrimento dos dois graus especulativos que começavam a tomar forma na estrutura ritualística da Maçonaria. Cite-se que o primeiro maçom especulativo que a história autêntica tem registrada é o Irmão John Boswel, iniciado no ano de 1600 na Loja Capela de Maria em Edimburgo na Escócia.
Em relação à ritualística especulativa do segundo Grau, a mesma começou a ser implantada na Inglaterra no final do século XVII e consolidada no primeiro quartel do século seguinte, sobretudo pelo aparecimento da Moderna Maçonaria como resultante da Primeira Grande Loja em Londres em junho de 1717.
Cabe comentar que no período de transição, entre o período operativo e especulativo, a liturgia maçônica paulatinamente seria desenvolvida em dois graus, enquanto que um terceiro grau, o de Mestre Maçom, somente apareceria em 1725 e oficialmente seria integrado ao franco maçônico básico apenas da segunda constituição inglesa, aquela datada de 1738.
Anteriormente à organização dos dois primeiros graus especulativos (aceitos) o Companheiro era tratado como aquele que pertencia ao Grêmio (Craft) e que já tinha passado pelo aprendizado da Arte. No tocante as palavras, elas existiam em número de três, sendo B\ e J\ como as sagradas dos Aprendizes e Companheiros e uma de P\ P\ que era comum às duas classes e conhecida por Tub\.
Com a organização na Inglaterra do grau especulativo de Companheiro por alguns maçons aceitos entre os anos 1670 a 1680, urgia então a necessidade de se criar outros procedimentos que se adequassem a nova realidade ritualística. Com isso é bastante provável que foi a partir daí que apareceu a palavra Sch\ como P\ P\ exclusiva para o agora Grau de Companheiro Maçom, enquanto que a antiga palavra, Tub\, somente retornaria depois de 1725, mas então já como P\ P\ do Grau de Mestre Maçom que tivera a sua certidão de nascimento em maio daquele ano. Nessa evolução ritualística o Grau de Aprendiz Maçom, por questão iniciática, não mais se utilizaria de uma P\ P\.
Na Maçonaria, a palavra Sch\ foi retirada das Sagradas Escrituras, mais precisamente do Velho Testamento, Livro dos Juízes – Cap. 12, 1-7.
Além do sentido literal de uma palavra que serve como uma senha na Maçonaria, Sch\ é na realidade uma profunda alegoria iniciática para o Segundo Grau.
Segue o relato contextualizado na história bíblica que os introdutores maçônicos especulativos deram à alegoria da P\ P\:
O fato se deu na época em que um exército dos Efrainitas atravessou o Rio Jordão para combater Jefté, famoso general Gleadita.
O pretexto dessa desavença foi por não terem os Efrainitas sido convidados para participar honrosamente da guerra Amonita. Entretanto, a verdadeira causa dessa desavença teria sido a captura dos ricos despojos que, em consequência dessa guerra, Jefté e seu exército tinham se apoderado.
Os Efrainitas, muito embora tidos como um povo turbulento e sedicioso, só romperam as hostilidades em virtude de pesados insultos que lhe dirigiam os Gleaditas. Contudo, Jefté tentou por todos os meios apaziguá-los; vendo, porém que isso era impossível avançou com seu exército e, dando-lhes combate, derrotou-os, colocando-os em fuga.
Para tornar decisiva a vitória, precavendo-se contra futuras agressões, Jefté enviou destacamentos para guardar as passagens do Jordão, por onde deveria forçosamente os insurretos fugir para o seu país. Deu ordens severas para que fosse executado qualquer fugitivo que por ali passasse e se confessasse Efrainita. Aqueles que negassem ou usassem de subterfúgios seriam obrigados a pronunciar a palavra Sch\.
Os Efrainitas, por defeito vocal, próprio do seu dialeto, não pronunciavam Sch\, mas Si\. Desse modo, a ligeira diferença de pronúncia descobriria a sua nacionalidade e custar-lhe-ia a vida. Dizem as Escrituras que morreram, no campo de batalha e nas margens do Jordão, 42000 Efrainitas.
Como Sch\ foi então a palavra que servira para distinguir amigos de inimigos, Salomão resolveu adotá-la como P\ P\ dos Companheiros.
Por isso, depois dos nossos antigos Irmãos darem a P\ P\ ao Vigilante, ele dizia-lhes “Passe Sch\”.
Sob o ponto de vista doutrinário essa palavra, se pronunciada incorretamente denuncia que o obreiro ainda não está suficientemente preparado para passar pela porta ao Sul. Nessa condição o Vigilante obsta a sua passagem. Em síntese a pronúncia correta implica na certificação de que o maçom preparado a contento no Segundo Grau está apto para se deslocar em direção à última etapa da sua senda iniciática, a Câmara do Meio.
Sob o aspecto prático Sch\ é um meio utilizado no telhamento como certificação de qualidade para participar dos trabalhos em Loja de Companheiro Maçom.
Sob o ponto de vista iniciático o termo alude a uma espiga de trigo (numerosos grãos de trigo) e está relacionado aos cultos agrários da antiguidade – Ceres ou Deméter – os bens produzidos pelas estações e a revolução anual do Sol.
Esses comentários por óbvio não esgotam o assunto já que doutrinariamente existem aspectos pertinentes a cada rito maçônico praticado que utiliza essa P\ P\. O que fora aqui comentando é só uma pequena síntese que aborda mais a origem maçônica da P\ P\ do Companheiro do que a sua aplicação propriamente dita. Seu profundo significado o seu simbolismo merecem uma judiciosa atenção na arte especulativa. Certamente esse não é o mote dessas considerações.
Assim, concluindo esses comentários e atendendo ao questionamento, a P\ P\ Sch\ é oriunda da fase de organização especulativa do grau de Companheiro Maçom, isto é, no final do século XVII, se consolidando durante a profusão dos ritos que se deram a partir da Moderna Maçonaria, especulativa por excelência e que tem como marco a fundação da Primeira Grande Loja no primeiro quartel do século XVIII.

P.S. (1) – Sugiro ao Irmão a leitura do livro O Companheiro Maçom do Irmão Francisco de Assis Carvalho – Editora Maçônica A Trolha, Londrina, 1992. Nessa obra, além do seu excelente conteúdo, há ainda um extenso roteiro bibliográfico que dará ao pesquisador uma ótima referência para estudo sobre o Segundo Grau maçônico.

P.S. (2) – Alguns autores inadvertidamente atribuem ao antiquário Elias Ashmole a composição dos rituais de Aprendiz, Companheiro e Mestre entre os anos de 1646 e 1649. Essa hipótese, aventada pelo superado Ragon, já foi desmentida há muitos anos. Embora existam referências de que ele foi iniciado em uma Loja em Warrington, em 1646, sabe-se que ele só retornou à Maçonaria quatro anos depois, portanto nunca seria dele a autoria dos rituais.


T.F.A.

PEDRO JUK

AGO/2018