terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

REAA - SUBSTITUTO TRADICIONAL DO 1º VIGILANTE.


Em 26/11/2019 o Respeitável Irmão Luiz Henrique de Carvalho, 1º Vigilante da Loja Templários da Montanha, 073, REAA, Palácio Maçônico, GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, apresenta a dúvida seguinte:

SUBSTITUTO DO 1º VIGILANTE


Estou fazendo um trabalho para apresentar em loja, e me deparei com uma dúvida simples, mas que confunde até os mais estudiosos. 
"Essa Coluneta que representa a “beleza”, como a Coluneta do 1º Vigilante que representa a “força”, estão nas respectivas mesas, para identificar a Coluna do Norte e a Coluna do Sul. Encerrados os trabalhos, o Segundo Vigilante volta a colocar em pé a sua Coluneta. A Joia do 2º Vigilante é o Prumo, símbolo da pesquisa e da Verdade, dando à obra a... (masonic.com.br)"
Tomei a liberdade de lhe escrever.
Você saberia como proceder na ausência em uma reunião do Primeiro Vigilante? Minha pergunta se pauta em alguns textos que li, tendo alguns citando que o Segundo Vigilante não ocupa o cargo vago, já que o mesmo é Segundo de Ofício, sendo esse cargo destinado a um outro Irmão.
Também abriu uma dúvida, tendo alguns comentários que não se usa o avental do Primeiro Vigilante, caso ele falta a reunião. O ocupante do cargo, deverá utilizar a joia, porém portar o avental de mestre.
Poderia me auxiliar nestes dois questionamentos?

CONSIDERAÇÕES.

Antes das considerações propriamente ditas, eu gostaria de afirmar que esse trabalho publicado no endereço eletrônico mencionado na questão não é de minha lauda, sobretudo porque ele trata e tenta justificar a colocação das equivocadas "colunetas" sobre as mesas dos Vigilantes no REAA. Posso afirmar que eu jamais escreveria isso, sobretudo porque tenho lutado há anos pela aproximação com a pureza do rito.
Colunetas originalmente pertencem aos Trabalhos do Craft (York), portanto, em se tratando de escocesismo, elas não passam de um enxerto. Na realidade essa prática não existe no REAA e, por assim ser, não posso concordar com as definições e justificativas sobre um elemento simbólico que nem mesmo pertence à doutrina do Rito. Reitero, colunetas, em pé ou deitadas é uma prática litúrgica da Maçonaria anglo-saxônica e não da latina (francesa) donde advém o REAA. Colunetas servem principalmente para indicar na Maçonaria inglesa quando a Loja está em descanso ou em trabalho.
Vigilantes - falar em substitutos emergenciais é quando ocorre a falta na sessão de uma das Luzes da Loja por algum motivo. Assim, caso o Venerável Mestre se encontre ausente, quem o substitui é o Primeiro Vigilante (primeiro vice-presidente) vestido com os seus paramentos, usando apenas nessa ocasião a joia do titular. Por conseguinte, o Segundo Vigilante, vestido com os seus paramentos assume precariamente o lugar do Primeiro Vigilante usando a joia do titular. Por extensão, quem substitui o Segundo Vigilante é o Segundo Experto que, vestido com seus paramentos, usa a joia do titular que ele substitui.
A bem da verdade, essa é uma prática simples, porém muito antiga e consuetudinária na Maçonaria. Entretanto, o que ocorre, infelizmente só para confundir, é a tal criação diferenciada de paramentos para os Vigilantes que algumas Obediências equivocadamente adotam. De qualquer maneira se reitera: exceto a joia, o substituto assume usando os seus pareamentos.
Tirando as invenções e deixando-as de lado, genuinamente os Vigilantes no REAA vestem avental de Mestre Maçom usando apenas a joia correspondente.
Quanto a essa "estória" de que um Vigilante não pode assumir o lugar do outro e sob justificativas estapafúrdias não condizem com a realidade litúrgica do Rito em questão – o Segundo substitui o Primeiro e este o Venerável. Ausente o Segundo Vigilante, seu substituto legal é o Segundo Experto.
Dando por concluídos esses comentários, devo salientar que os meus apontamentos se referem à originalidade do REAA e não trazem nenhum incentivo para se desrespeitar rituais. Ritual em vigência, mesmo que contraditório, deve ser cumprido, contudo nada me impede mencionar as incongruências que muitos deles trazem no seu conteúdo. O maior problema é que esses enxertos acabam dando margem à justificativas fantasiosas que só pioram o entendimento dos fatos. Palavras e frases de efeito na maioria das vezes só servem para esconder uma desmedida licenciosidade na interpretação de símbolos que engrossam volumes de uma bibliografia tendenciosa.


T.F.A.

PEDRO JUK


FEV/2020

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

PEDIDO DE QUITE PLACET EM CARÁTER IRREVOGÁVEL


Em 22/11/2019 o Respeitável Irmão Tacachi Iquejiri, Loja 11 de Outubro, REAA, GOB-MS, Oriente de Campo Grande, Estado do Mato Grosso do Sul apresenta a seguinte questão.

QUITE PLACET


Tendo surgido dúvida quanto à interpretação do art. abaixo descrito, peço a gentileza de elucidar-me.
RGF "Art. 69 - Quite placet........
§ 1º - ....
§2º - o pedido de quite placet, feito por escrito ou verbalmente, poderá ser apreciado e votado na mesma sessão em que for apresentado.
§3º- o pedido de quite placet feito em caráter irrevogável será atendido pela administração da Loja na mesma sessão em que for apresentado.
§ 4º......"
Irmãos da Loja entendem que como pedido foi em caráter irrevogável, não há necessidade de votação do pedido. Outros já entendem que o §3º é extensão do § 2º, que há necessidade de votação, pelo fato do pedido de quite placet ter sido lido e discutido na Ordem do Dia. Diz o item 56 do S. O. R.(aprendiz), que o texto editado no Ritual "Previamente organizada pelo Venerável Mestre - assuntos pendentes de discussão e votação; proposições, requerimentos, etc.".
Considerando que o pedido de quite placet foi lido na Ordem do dia, não deve obedecer ao critério a votação?

CONSIDERAÇÕES.

Embora essa não seja matéria de Orientação Ritualística propriamente dita, vou deixar aqui a minha opinião a respeito, não devendo, portanto, ela ser considerada como resposta laudatória, já que esse é assunto ligado aos legisladores e aos representantes em Loja do Ministério Público Maçônico (Orador no REAA).
Assim, entendo que o § 3º do Artigo 69 do RGF já é bastante claro no que diz respeito ao "caráter irrevogável", tratando como direito do maçom, não cabe dele nenhuma discussão no sentido de se a Loja deve ou não aprovar por votação o Quite Placet solicitado. Estando o Irmão gozando da sua regularidade (em dia com as suas obrigações pecuniárias, por exemplo) é patente o seu direito.
Eu só faria uma ressalva no que diz respeito ao atender o pedido na mesma sessão, pois a expedição desse documento depende de informações, como da Tesouraria, por exemplo, o que às vezes não é possível naquele exato momento.
Quanto ao Sistema de Orientação Ritualística não vejo no que ele possa interferir obrigando discussões no caso de um requerimento pertinente ao pedido irrevogável de um Quite-Placet. Entendo que esses excessos de preciosismo não nos conduzem a nenhum desfecho satisfatório das ações.
Destaco que esse pedido poderá vir na bolsa de Propostas e Informações da sessão. Nesse caso o Secretário não terá como agendar o assunto previamente, porém, dado o conhecimento da coluna gravada (decifrada a mesma), esse assunto, salvo alguma ressalva legal, obrigatoriamente será oficializado pelo Venerável conforme especifica o § 3º do Artigo 69 – é costumeiro que isso se faça na Ordem do Dia em se seguindo o andamento dos trabalhos na sessão em curso, mas sem discussão e votação (o Orador deve dar esse parecer à Loja naquele instante).
Por outro aspecto, entendo também que um pedido de Quite-Placet em caráter irrevogável – estando o obreiro gozando de regularidade – não se discute. Seu conteúdo é lido apenas com o desiderato de comunicar à Loja e não o de pedir a sua aprovação.
Esse é meu precário entendimento e dou ele por aqui encerrado. Outros comentários que mereçam a atenção devem ser encaminhados àqueles que têm por ofício interpretar leis.


T.F.A.

PEDRO JUK


FEV2020

FALAR SENTADO NO ORIENTE E CIRCULAÇÃO DO DIÁCONO POR TRÁS DO TRONO


Em 21/11/2019 o Respeitável Irmão Washington José de Almeida Aranha, Loja Obreiros de Canaan, 2.750, REAA, GOB-RJ, Oriente de Rio das Ostras, Estado do Rio de Janeiro, apresenta as dúvidas seguintes:

FALAR SENTADO NO ORIENTE E CIRCULAÇÃO DO DIÁCONO.


Solicito a gentileza de esclarecer as seguintes dúvidas:

1- Quem pode falar sentado no momento da Palavra a Bem da Ordem e do Quadro em particular? O Orador pode falar sentado todo o tempo, mesmo quando estiver emitindo opinião ou consideração pessoal? O Secretário pode falar sentado o tempo todo, mesmo quando emitindo opinião ou consideração pessoal? Irmãos sentados no Oriente (autoridades, MI, portadores de comenda, etc.) podem falar sentados pelo fato de estarem no Oriente?

2- Sempre ouvi dizer que no REAA não existe o espaço entre o retábulo e as cadeiras do altar do Venerável Mestre, que esse espaço é característica do Rito Adonhiramita. Sendo assim, o 1°Diácono teria que receber a palavra se valendo, no momento do recebimento da mesma, do recuo da autoridade que ocupa a cadeira a direita do Venerável Mestre (a cadeira do Grão-Mestre), para poder alcançar o Venerável Mestre e este lhe dar a palavra ao ouvido. A hipótese da circulação do Diácono por detrás da cadeira do GM é inviável? Hipótese totalmente descartada? A pergunta prende-se ao fato de que a planta (do início do século 19) que originou a planta do nosso templo possuía esse espaço, e segundo li em alguns textos relativos a este tema, este espaço foi abolido mais por questão de economia de custo com obra do que por motivo litúrgico ou ritualístico. Sendo assim, qual o procedimento correto? Ou podem ser adotados ambos os procedimentos se a Loja comportar o espaço que permita a circulação por detrás das cadeiras do altar? Observei que na planta do Ritual Grau1, este espaço está bem destacado, com as cadeiras do altar do Venerável Mestre bem distantes do retábulo, ao contrário do espaço atrás das cadeiras dos vigilantes, as quais aparecem praticamente coladas nas paredes.
Agradeço antecipadamente as respostas e orientações que puder enviar.

CONSIDERAÇÕES.

  1. Salvo quando o ritual determinar ao contrário, todos os ocupantes do Oriente têm o direito de falar sentado, todavia, em se preferindo falar em pé, fica-se à Ordem. Geralmente, por uma questão de deferência, maioria prefere falar em pé. No caso específico do Orador e do Secretário, ambos comumente falam sentados, o que está devidamente correto. Por óbvio isso se dá apenas no Oriente, pois no Ocidente, a exceção dos Vigilantes, os demais falam à Ordem.
Falar à Ordem significa estar com o corpo ereto, pés e esq e com o Sinal de Ordem composto. Essa regra se aplica inclusive às Luzes da Loja que, nessa condição, deixam seus respectivos malhetes e compõem o Sinal na forma de costume.
  1. No REAA não existe passagem (circulação) por trás do trono, isto é, entre o sólio e o Retábulo do Oriente. Junto ao trono existem, a sua direita e a sua esquerda, "duas" (apenas duas) cadeiras de honra. Assim, o espaço entre o Altar e o Retábulo é apenas o suficiente para a acomodação confortável dos ocupantes, não ficando entre eles nenhum espaço que sirva para passagens e deslocamentos.
Para a transmissão da Palavra Sagrada, se o espaço for exíguo, o ocupante da cadeira de honra se afasta um pouco para que se cumpra o ato litúrgico previsto entre o Venerável Mestre e o 1º Diácono.
É descartada qualquer hipótese de o 1º Diácono passar por trás da cadeira para a transmissão. Mesmo que exista espaço isso não ocorre sob qualquer pretexto no REAA.
A propósito, em muitos templos construídos de há muito, existem esses espaços para circulação. Na realidade isso se dava por influências de outros ritos numa época em que não havia muito esclarecimento sobre o caso, fazendo então com que a decoração e os espaços do recinto da Sala da Loja se tornassem confusos e contraditórios.
Geralmente os Templos tinham a sua parede oriental construída em meio-círculo o que, com o passar dos tempos deixou de se usado, até por uma questão de economia na construção.
A bem da verdade, a circulação em infinito, comum ao Rito Adoniramita, não Adonhiramita (derivado de Adoniram, não de Adonhiram), se dá com uma passagem por trás do Retábulo e não pela sua frente. De qualquer modo, isso não é assunto para o REAA.
Procedimentos e orientações oficiais sobre a liturgia da transmissão da palavra sagrada se encontram no Sistema de Orientação Ritualística do GOB RITUALÍSTICA em http://ritualistica.gob.org.br/
Quanto à Planta do Templo que aparece no Ritual do Grau 1, ela é apenas esquemática. A gravura não contempla cotas e nem se apresenta com uma escala determinada, assim, as distâncias não são proporcionais, porém meramente ilustrativas.


T.F.A.

PEDRO JUK


FEV/2020.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

PRIORIDADE DE ABORDAGEM DURANTE A CIRCULAÇÃO DA BOLSA


Em 20/11/2019 o Respeitável Irmão Antônio Carlos Manso, Loja Inconfidência e Liberdade, 2.370, REAA, GOB-MG, Oriente de São Gonçalo do Sapucaí, Estado de Minas Gerais, apresenta a questão seguinte:

PRIORIDADE NA CIRCULAÇÃO DA BOLSA


Na circulação da bolsa os irmãos ocupantes cargos (mesmos graus) tem prioridade?

CONSIDERAÇÕES.

Não entendi bem o termo "mesmos graus" escrito entre parêntesis na sua questão, até porque cargos em Loja são privativos de Mestres Maçons – Art. 229 do RGF, § 1º - Os cargos são privativos de Mestre Maçom (o grifo é meu).
Assim, se o caso é esse, seria irrelevante qualquer distinção pertinente aos "mesmos graus", já que Aprendizes e Companheiros não assumem absolutamente nenhum cargo em Loja.
Também não existe nenhuma distinção como grau para Mestre Instalado porque esse não é um grau, senão uma "categoria especial honorífica" conforme prescreve o RGF em seu Art. 42.
Nesse sentido, no REAA a circulação das bolsas segue prioritariamente a ordem seguinte: Venerável Mestre, 1º e 2º Vigilantes; Orador, Secretário e Cobridor Interno. Em seguida os ocupantes das duas cadeiras de honra e os demais do Oriente; os Mestres da Coluna do Sul, os da Coluna do Norte, Companheiros, Aprendizes e, por último, auxiliado pelo Cobridor Interno o próprio oficial circulante.
Note que após os seis primeiros cargos não existe prioridade entre os Oficiais durante a coleta, senão a de seguir a ordem dos que ocupam o Oriente, o Sul e o Norte. Evidentemente que o Mestre de Cerimônias ou o Hospitaleiro (conforme o caso), por serem os responsáveis pela coleta, encerram a mesma depositando por último.
Cabe destacar que os seis primeiros cargos mencionados são obrigatórios na ordem descrita, não importando quem esteja ocupando as cadeiras de honra na oportunidade. Portanto, os ocupantes dessas cadeiras somente serão abordados imediatamente após o Cobridor Interno, nunca, sob nenhuma justificativa, junto com o Venerável Mestre.
Essa orientações estão oficialmente descritas no Sistema de Orientação Ritualística em http://ritualistica.gob.org.br, destacando a sua aplicação imediata sobre o ritual em vigência conforme o Decreto 1784/2019 do Grão-Mestre Geral.


T.F.A.

PEDRO JUK


FEV/2020

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

DECORAÇÃO E SIMBOLOGIA EGÍPCIA NOS TEMPLOS MAÇÔNICOS


Em 20/11/2019 o Respeitável Irmão Roberto Ney Lusvarghi, Loja Luz e Progresso, 189, REAA, GLMMG, Oriente de Araxá, Estado de Minas Gerais, apresenta o que segue:

SIMBOLOGIA EGÍPCIA NOS TEMPLOS MAÇÔNICOS


Tenho buscado, sem sucesso, a representatividade da simbologia egípcia nos Templos Maçônicos.
Gostaria de saber se o Ir.´. já tem estudado esse assunto, se tem algum trabalho publicado ou se pode me indicar literatura a respeito.
Muito obrigado pela sua atenção e receba os meus parabéns pela sua imensa dedicação aos estudos de nossa Ordem.

CONSIDERAÇÕES.

Os comentários que se seguem abordam o tema num sentido amplo e não específico a apenas um símbolo.
Não resta dúvida que o costume de utilizar desmedidamente agregados simbólicos penitentes à cultura egípcia se tem feito presente na decoração de muitos templos maçônicos pelo mundo. Todavia isso se dá mais por efeito decorativo do que iniciático, pois a história autêntica já comprovou inúmeras vezes a inexistência da Ordem Maçônica nos tempos do Antigo Egito.
É bem verdade que houve inclusive personagens embusteiros que criaram ritos maçônicos exaltando uma suposta maçonaria egípcia (Memphis-Misraim), mas que mais tarde foram desmascarados por fraude – dentre outros a respeito, vide apontamentos sobre in Dictionnaire des Franc-Maçons et de la Franc-Maçonerrie, Alec Mellor, Belfond, Paris, 1971-1979.
Sob o aspecto da Maçonaria documental (autêntica), a Sublime Ordem comprovadamente possui aproximados 800 anos de história, sendo os seus ancestrais as guildas de construtores da Idade Média. Assim, a Instituição Maçônica não nasceu e nunca existiu nos tempos do Egito Antigo, portanto é preciso antes compreender que para construção do seu arcabouço doutrinário especulativo muitas lendas passariam a fazer parte nesse contexto. Contudo, reafirma-se que são lendas introduzidas com o desiderato de, como alegorias, aplicar lições de moral, ética e sociabilidade e não como elementos comprobatórios relacionados à existência verdadeira de fatos e acontecimentos ao ponto de aparecerem decorando paredes de templos maçônicos.
Assim compreendido, cita-se por exemplo a Lenda do 3º Grau como parte desse arcabouço lendário que fora retirado dos cultos solares da Antiguidade, cujo qual, por esse viés, possui palpável consonância com a lenda de Osíris, Ísis e Hórus, entretanto esse não é um fato histórico, mas lendário, assim não autoriza qualquer afirmativa no sentido de que lendas da antiguidade usadas pela Maçonaria sirvam para comprovar sua existência naqueles idos tempos – muito menos arrumar justificativas para se construir templos maçônicos copiando arquitetura egípcia.
Lendas são lendas e não afiançam autenticidade aos fatos que constituem o mosaico da História. Infelizmente essa não é uma lição que tenha sido aprendida por muitos imaginosos autores que, em detrimento de citações lendárias associadas ao ufanismo maçônico, semeiam suposições que não têm qualquer compromisso com a verdade. James Anderson, por exemplo, carregou algumas páginas da Constituição de 1723 com essas elucubrações, geralmente retiradas do Old Charges que traziam forte apelo religioso, especialmente pela forte influência da Igreja sobre as corporações de ofício da Idade Média. Sob o aspecto prático, é compreensível que Anderson tenha inserido essas exposições lendárias já que a "nova ordem", amparada pela Royal Society e que compunha a Moderna Maçonaria, surgida em 1717 em Londres, carecia de agregar novos adeptos e com isso chamar atenção com fatos tidos como "misteriosos segredos guardados pela Maçonaria". Isso sem dúvida ajudou a Premier Grand Lodge reforçar suas Colunas, principalmente com membros atraídos pela curiosidade despertada, sobretudo quando publicados nos diários londrinos da época. Lawrence Dermott, por exemplo, para atrair adeptos para a sua Grande Loja, a dos Antigos (1751), criou o Real Arco afirmando que nele havia o encerramento e a explicação da Lenda do 3º Grau. Artifício inteligente que até hoje faz com que adeptos da Ordem acreditem na existência de um 4º grau maçônico advindo dos tempos imemoriais, fato que também não se sustenta, pois comprovadamente a Maçonaria de antanho trabalhava com apenas duas classes de trabalhadores, vindo a surgir o 3º Grau especulativo somente na Moderna Maçonaria surgida no final do primeiro quartel do século XVIII.
Outro aspecto nesse mesmo sentido (o da não existência de Maçonaria na antiguidade) é o que envolve a própria "arte de construir".
Nesse sentido, não há como negar que a profissão de construtor é um ofício milenar, entretanto não como uma organização feito à Maçonaria.
A arte de construir, surgida principalmente pela necessidade de se proteger, fez com que o homem, ao deixar a vida sedentária das cavernas para viver em sociedade estratificada, começasse a edificar choupanas, vivendas e casebres para se abrigar das intempéries e se proteger dos perigos e agruras comuns ao ambiente que o envolvia.
Com isso davam-se os primeiros passos na arte e no ofício das construções, sendo, portanto, perfeitamente viável se afirmar que essa profissão é oriunda dos tempos imemoriais, entretanto isso não significa dizer que existiam guildas de construtores maçons naquela época, pois documentalmente se sabe que a Franco-Maçonaria somente viria florescer, sob a proteção da Igreja-Estado, no século XIII.
Como sociedade organizada de artesãos construtores, a Franco-Maçonaria, seguindo o curso da história e atendendo à necessidade surgida pela expansão dos domínios da Igreja, nascera em substituição, primeiro às Associações Monásticas e depois às Confrarias Leigas
Longe e anterior a tudo isso está a civilização do Antigo Egito ocorrida no Antigo Oriente próximo ao norte da África há 3.100 a. C. Seu aparecimento no ideário maçônico, além daqueles motivados por lendas solares, provavelmente se reforçou por teorias de incautos e ufanistas que, usando da lei do menor esforço, não tardariam a imaginar as pirâmides sendo construídas por maçons, o que cientificamente é muito pouco provável, simplesmente porque não existe nenhuma prova ou indício que aponte para a existência da Maçonaria naquele período.
Saindo do Antigo Egito, mas seguindo esse mesmo viés, vem a construção do primeiro templo hebraico, o de Jerusalém, muito conhecido em Maçonaria como Templo de Salomão (o rei que reinou em Israel de 1010 a 970 a.C.).
Por ser a maior alegoria maçônica e ligado à lenda hirâmica, a construção desse Templo também não tardaria a despertar no fértil imaginário que foram os maçons os seus construtores, tudo obviamente em detrimento à Lenda do Terceiro Grau onde os personagens do Rei Salomão, Hiram - Rei de Tiro e Hiram Abif (Hiram meu Pai), de modo fictício, são descritos mitologicamente como maçons no sentido de estruturar a lenda introduzida em 1725 pelo aparecimento do grau de Mestre Maçom na Moderna Maçonaria.
Na realidade, a Lenda do Terceiro Grau é a adaptação de uma lenda Noaquita que envolve os personagens bíblicos de Noé e seus três filhos, Sem, Can e Jafé. Sem dúvida essa lenda, tal como a de Osíris, Ísis e Hórus, se estrutura nos cultos solares da Antiguidade, cujos quais serviram de base para a maioria das religiões que conhecemos.
Retomando a Lenda Hirâmica, ela, como qualquer outra lenda, não tem qualquer compromisso com a realidade histórica, portanto ela não afirma, mas apenas menciona figuradamente a Maçonaria na época da construção do primeiro templo hebraico - o de Jerusalém.
Infelizmente isso ainda não tem sido bem compreendido e faz com que muitos maçons não separem lenda - que é uma narrativa escrita ou oral no qual fatos históricos são deformados pela imaginação - de realidade histórica. Com isso, acabam muitos, até de modo infantil, disseminando inverdades tal como a de "achar", por exemplo, que os templos maçônicos são edificados como cópias fiéis do lendário templo bíblico.
Embora alguns ritos maçônicos, por questões doutrinárias decorem seus templos estilizando mobiliários e partes do espaço de trabalho, relativizando-os às descrições imaginadas do lendário templo hebraico, por certo isso só pode ser tratado como característica de uma alegoria maçônica construída sob elementos figurados. Entenda-se que a sala da Loja, como uma oficina simbólica de trabalho, longe está de ser um modelo (arquétipo) do Templo de Jerusalém.
Não é cabível, portanto, que ainda existam maçons que não saibam discernir narrativas lendárias de fatos reais e continuem imaginando que foram os maçons os construtores do Templo de Jerusalém, ou mesmo os que construíram as Pirâmides do Egito.
Sem conclusões apressadas é mister mencionar que o primeiro templo maçônico somente viria surgir nos meados do século XVIII na Inglaterra após o advento do aparecimento da Moderna Maçonaria. Assim, sua disposição mobiliária copia a do Parlamento Britânico, principalmente no que diz respeito à acomodação do plenário e da great chair. No mais, por influência da Igreja sobre os ancestrais da Moderna Maçonaria, os templos maçônicos seguem o mesmo modelo de orientação das Igrejas, destacando que, por sua vez, essas últimas foram inspiradas no Tabernáculo hebraico, antepassado do Templo de Jerusalém.
Dado ao exposto, a Maçonaria deve ter seus templos decorados conforme o previsto no rito que a Loja pratica, não obstante existirem às vezes, em total desrespeito para com a originalidade e liturgia, muitos elementos decorativos que apenas possuem o desiderato de satisfazer o gosto e a imaginação de alguns.
Certo é que como exemplificado anteriormente, elementos decorativos tais como painéis pertinentes ao Antigo Egito, ou outros do gênero, não fazem nenhum sentido para o REAA, dentre outros, embora, como dito, eles equivocadamente muitas vezes apareçam no interior de alguns templos maçônicos.
Eu diria que essa decoração é mais apropriada para a AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz) do que para a Maçonaria. Como elementos associativos eles até podem aparecer no contexto das lendas, mas muito longe de se materializarem como símbolos aplicados pela doutrina maçônica.
É daí meu Irmão talvez o seu insucesso na procura de explicações sobre a simbologia egípcia na decoração dos templos maçônicos.
Em termos de decoração egípcia nos templos simbólicos do REAA, por exemplo, podem existir elementos pontuais, como é o caso, por exemplo, da decoração original das Colunas B e J. Essas, de estilo babilônico, comumente aparecerem decoradas com folhas de lótus (universalidade) e de papiros (eterna busca pelo transcendental). Explicam-se as suas presenças porque as Colunas Gêmeas são pilares solsticiais, portanto se relacionam diretamente com os cultos solares da Antiguidade. Assim, as folhas de lótus e papiros (símbolos egípcios), de modo pontual, remontam ao significado de uma alegoria reservada aos iniciados, porém nunca para mencionar a existência da Maçonaria nos tempos do Antigo Egito.
Cada símbolo traz consigo a sua originalidade, a despeito de que em Maçonaria ele geralmente aparece para chamar atenção do iniciado para uma verdade inserida numa mensagem oculta (esotérica).
Desse modo, outros elementos simbólicos pertencente às diversas civilizações também fazem parte de corolário emblemático maçônico, contudo eles não possuem o desiderato de explicar a presença da Ordem em períodos da História.
Concluindo, a simbologia maçônica é ampla e abrange inúmeros aspectos culturais e sociológicos que foram retirados do misticismo de muitas civilizações. A Ordem Maçônica, eclética por natureza, para montar seu arcabouço doutrinário se utilizou desse artifício. Cabe assim ao maçom entender que a simples presença de símbolos de antigas civilizações no corolário simbólico adotado pela Maçonaria não representa que a Ordem possui caráter de existência milenar. Reitero, documentalmente a Maçonaria possui aproximados 800 anos de história, o resto... Bem, o resto é lenda.



T.F.A.


PEDRO JUK


FEV/2020